19 de abril de 2017

Resenha: Qual a postura ideal do professor?


            O presente texto é uma análise da palestra do professor Mário Sérgio Cortella concedido na PUC de São Paulo. Inicialmente, o professor argumenta que uma das principais características do professor bem sucedido é estar insatisfeito com a sua metodologia. Ao estar insatisfeito com sua metodologia o professor acaba buscando outros meios para transmitir de um modo melhor seus conteúdos.
            Neste sentido, Cortella cita o exemplo de Paulo Freire que mesmo exilado por quinze anos, não parou de estudar. Por isso, detém cerca de quarenta e um doutorados honoris causa. Cortella afirma: “gente grande de verdade sabe que é pequena e por isso cresce. Gente muito pequena acha que já é grande e o único modo dela crescer é baixando outra pessoa”.
            Deve-se ter uma disposição em se conhecer, porque para ser grande, deve-se conhecer-se pequeno. O docente também precisa estar em constante busca pelo novo, no entanto, deve preservar o que é tradicional. Pontuando-se que tradicional é bem diferente de arcaico. Tradição é aquilo que vem do passado e precisar ser preservado e levado à diante; já o arcaico é aquilo que é ultrapassado e deve ficar no passado e deve-se descartar.
            Um bom exemplo do que é tradicional no ensino e deve-se ser preservado e levado à diante é: a) a atenção ao conteúdo; b) a formação humanista; c) o relacionamento saudável na convivência; d) a recusa ao egoísmo; e) noção de acolhimento; f) desejo de formar pessoas. No entanto, o autoritarismo de algumas medidas e a utilização de alguns conteúdos e metodologias deve ser deixado de lado, porque é arcaico.
            Dessa maneira, o professor não pode descansar e se dá por satisfeito com suas metodologias e práticas pedagógicas. Isso porque a satisfação é perigosa e pode fazer com que o docente não busque novas práticas, novos conteúdos contemporâneos. O professor não pode ser tornar um “velho”, ou seja, se fechar para o novo e acomodar-se com o que até então possui. O docente não deve se contentar com as coisas nos moldes que já fez. Mesmo que, inicialmente, não dê certo sua metodologia deve persistir em adequar o conteúdo ao nível dos alunos porque não há fracasso no erro, há fracasso na desistência.

18 de abril de 2017

Resenha: Plurilinguismo e ensino.

Job. Nascimento

FUCHS, Cristina Yukie Miyaki; LINK, Deizi Cristina. Plurilinguismo e ensino: reflexões sobre a prática em sala Categoria: Comunicação Eixo temático: Formação de educadores. Curitiba: PUCPR, 2004. 

            Neste texto as autoras tratam do tema do plurilinguismo e seus desdobramentos no ensino. Afirmam que o trabalho com a linguagem escrita deve estar ligado a reflexões discursivas que favoreçam ao aluno a localização da língua (padrão ou não padrão) em suas diversas formas no universo das linguagens sociais.
            Nota-se que o entendimento do que seja gênero, de quais são os gêneros que circulam no espaço sócio-histórico e cultural é um dos pontos mais importantes para compreender e fazer compreender a noção de língua. Assim é porque quando se aprende uma palavra, ela não ocorre isolada, sozinha, com único sentido, única forma.
A palavra que se aprende está carregada de entonação, intenção, envolta em um conjunto de gestos e traços que se insere e situa-se num sistema de significações sociais, que se tornam plurilíngües. Mesmo existindo diversas ações coercitivas durante o curso da história do Brasil, tanto do lado de Portugal como do lado do Brasil, no Brasil observa-se uma característica pluricultural.
            Em acordo com o que as autoras apontam, argumenta-se que com a existência de uma diversidade de línguas enquanto um fenômeno presente no contexto nacional e internacional, os debates sobre os conceitos que norteiam as pesquisas linguísticas e o trabalho na sala de aula devem sempre ser realizadas com o intuito de entender e abarcar melhor as questões linguísticas que vão surgindo na medida em que o mundo vai mudando.
            Conclui-se que o maior desafio é tornar o ensino da língua um momento em que pode-se explorar as infinitas opções de linguagem, adequando essas opções às situações em que torna-se o aluno próximo da linguagem. A tarefa não é nem um pouco fácil, mas é compensadora. Mesmo tendo em vista os PCNs apontados pelas autoras ou os futuros que irão substituí-los, a tarefa do professor é enfrentar o desafio da plurilingüística e proporcionar ao aluno uma experiência de aprendizado e pertencimento. 

16 de abril de 2017

Resenha: O psicodiagnóstico e as abordagens sistêmico-familiares.

TOSIN, Anna Sílvia. O psicodiagnóstico e as abordagens sistêmico-familiares. Florianópolis: Instituto Sistêmico Familiare, 2005. 

            O trabalho acadêmico de Tosin tem como pretensão apresentar uma discussão sobre a utilização da Psicodiagnóstica no decorrer dos anos, desde o emprego do método tradicional psicanalítico até as contribuições do Pensamento Sistêmico. A proposta da autora é ampliar a visão sobre esses modelos teóricos, situando a pesquisa dentro desse paradigma científico. Tosin completa a discussão sobre o tema demonstrando um caso em que foi utilizada a abordagem sistêmico-familiar.
            Observa-se que o psicodiagnóstico é oriundo da Psicologia Clínica e de alguns trabalhos iniciais psicométricos. Tosin afirma que o psicodiagnóstico como uma prática psicológica situava o psicólogo como um simples aplicador de testes que atendia ao pedido de um psiquiatra ou pediatra. Esses testes objetivavam investigar uma função traço ou característica.
            No que diz respeito ao pensamento sistêmico, Tosin argumenta que faz parte de uma percepção nova da realidade e uma nova compreensão científica. A autora cita, historicamente, algumas teorias sistêmicas: a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwing Von Bertalanfy e a Cibernética de Norbert Wiener. Observa-se que a Cibernética nasceu com a engenharia da comunicação e as ciências da automação, gerando assim os princípios da regulação dos sistemas.
            O texto de Tosin é uma importante contribuição para uma noção mais ampla sobre o psicodiagnóstico. Nota-se que o psicodiagnóstico é visto como um processo de investigação dos aspectos psicológicos de um indivíduo, limitando-se no tempo e que na prática, busca encontrar respostas para um determinado problema. O psicodiagnóstico, de acordo com Tosin é um processo tradicionalmente centrado no indivíduo, em sua personalidade e desenvolvimento. Que é influenciado principalmente pela teoria psicanalítica que pretende dar respostas acerca do mundo interno do sujeito em investigação.
            No entanto, a argumentação de Tosin leva a um pensamento de causa e efeito. Mas o desenvolvimento da psicologia leva em conta o ser humano como relacional e inserido em algumas redes que são interligadas, isso limita o olhar sobre o indivíduo de forma isolada e influencia a uma alteração de paradigma. Entretanto, ao lidar com o indivíduo e com a mudança de paradigmas, o psicodiagnóstico entra num campo complexo e carregado de incertezas.

14 de abril de 2017

Resenha: O empresário, a empresa e o Código Civil.

Foto: Revista de Direito. 
Job. Nascimento

WALD, Arnoldo. O empresário, a empresa e o Código Civil.
  
            Arnoldo Wald no texto em apreço analisa as nuances que envolvem a relação do empresário e a empresa com o Código Civil de 2002. Inicialmente o autor faz alguns relatos históricos sobre a participação do Estado na economia, pontuando os ganhos e perdas que ocorreram durante o século XX, e o surgimento do sentimento associativo das empresas que já não viam mais o isolamento como um ganho, pelo contrário.
Atualmente o jurista não pode mais ver o empresário como um comerciante do século passado, mas como um empreendedor que agrega pessoas e valores, primando pelo crescimento financeiro e também de equipes de acordo com o interesse da sociedade, baseando-se em princípios éticos. Esta é a concepção inserida no Código Civil.
Uma importante inovação no Código Civil brasileiro, de acordo com Wald, foi a unificação do direito privado, que trazia para o mesmo bojo obrigações e contratos civis e comerciais. Essa unificação teve como influência o Código Civil italiano. É importante pontuar que quando se pretendeu sistematizar um código civil, o código comercial já se encontrava em profundo atraso, pois datava de 1850.
Nesta importante transição histórica entre o código comercial de 1850 e o atual tratamento dado à matéria no Código Civil está o conceito de empresário e de empresa. De acordo com o artigo 966 do CC/2002: “considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”.
O autor faz uma abordagem histórica do tema do empresário, a empresa e o direito civil, elencando os erros e possíveis acertos do direito brasileiro. É preciso notar que houve uma mudança não só conceitual, mas também uma modernização das regras legais que disciplinam a empresa e o empresário. Além disso, Wald assevera que é preciso, no entanto, existir uma coerência entre um mercado cada vez mais globalizado e o respeito dos direitos sociais. 

13 de abril de 2017

Resenha: Introdução à Exegese do Novo Testamento.

Job. Nascimento

SCHNELLE, Udo. Introdução à Exegese do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 2004. 

            O texto de Udo Schnelle sobre noções iniciais para uma exegese do Novo Testamento consiste numa espécie de mapa para o entendimento do solo em que se enraízam os métodos de interpretação do Novo Testamento. Primeiramente o autor pontua que o método histórico-crítico como uma ferramenta da exegese não é um método isento de premissas e tampouco imutável. O método histórico-crítico surgiu na Idade Moderna e submeteu o Novo Testamento a um questionamento rigorosamente histórico, assim distinguiu-se palavra de Deus de Sagrada Escritura.
            Schnelle argumenta que a crítica textual é imprescindível na exegese do Novo Testamento por algumas razões: históricas e teológicas. Não existem mais textos originais dos escritos do Novo Testamento, dessa forma é necessário chegar ao texto original a partir de tradições posteriores dos textos em manuscritos, lecionários e citações de autores nos primeiros séculos do cristianismo.
            O autor aborda a teoria textual e as etapas metodológicas da exegese do Novo Testamento. Fala sobre a análise textual e os passos metodológicos; crítica literária e crítica das fontes problematizando-as e distinguindo-as; Schnelle ainda relata como ocorre a comparação sociorreligiosa do Novo Testamento. Quando se refere à exegese epistolar, o autor argumenta que as peculiaridades da literatura epistolar não permitem a realização de uma crítica literária com a mesma intensidade dos Evangelhos.
            Por fim, Schnelle conclui que a exegese do Novo Testamento está num campo de tensão entre texto e verdade. Assim, diante do fato de que os textos neotestamentários devem ser lidos como testemunhos de experiências históricas da fé. A exegese possui uma dimensão tanto histórica como teológica.
            A obra de Schnelle é excelente de leitura densa e técnica o autor aborda conceitos importantes no que tange à exegese do Novo Testamento, pincelando sobre suas origens, metodologias e métodos. Acredita-se que é um importante instrumento do seminarista ou estudante de teologia na difícil tarefa de extrair do texto sua ideia central, o argumento original do autor, apesar do processo histórico e influências da tradição.

12 de abril de 2017

Resenha: A comunidade mateana, o evangelho de Mateus e sua validade para nós hoje.

OVERMAN, J. Andrew. Igreja e comunidade em crise – O Evangelho segundo Mateus. São Paulo: Paulinas, 1999.

            Este livro de J. Andrew Overman é um volume que faz parte da série da editora Paulinas, intitulada “O novo testamento em Contexto”. O autor tenta mostrar nesse livro que o evangelho de Mateus foi escrito com o propósito de ajudar a comunidade mateana a resolver seus problemas internos e também aqueles relativos ao mundo romano de que fazia parte.
            J. Andrew Overman afirma que Mateus queria narrar a vida, morte, ressurreição e ensinamentos de Jesus. Mateus acredita que seu entendimento da história de Jesus possa esclarecer as questões e os problemas que caracterizam a vida de muitos membros de seu grupo. Mateus narra “uma” história sobre Jesus que é influenciada e moldada pela situação da comunidade que vive.
            Nos três evangelhos sinópticos, depois da profissão de fé de Pedro (Mateus 16.13-28), Jesus anuncia a sua paixão. A morte de Jesus nas mãos dos romanos deixou uma marca indelével nos que formaram e registraram as tradições evangélicas. Como a morte dele tornou-se tão central na narração subsequente do evangelho, o sofrimento e a possível morte foram tratados como condições de discipulado. Sendo assim, ser seguidor de Jesus exige sacrifício, sofrimento e, talvez, morte.
            Segundo o autor, tudo o que Mateus ampliou, a partir de Marcos e de outras fontes, foi com o intuito de usar a história de Jesus para orientar e garantir a sobrevivência de sua comunidade, no contexto daquela época. Mesmo assim, sua mensagem é um legado para toda a igreja e continua “a guiar e inspirar comunidades e pessoas que se encontram em situações análogas” como as da comunidade “mateana”, como conclui o autor no final do livro.
            Excelente livro. Recomendo. O autor faz uma abordagem que transcende àquelas comuns aos comentários devocionais. Ele tenta fazer um levantamento do contexto histórico mediato da morte e ressurreição de Jesus Cristo e seu significado para a comunidade “mateana”, do contexto imediato dos problemas da comunidade “mateana”, a influência desse texto sobre a comunidade, e a influência (talvez) determinante dos problemas da comunidade na pena de Mateus, e tudo isso de forma alguma anularia a inspiração e influência do Espírito Santo sobre o autor e o texto. J. Andrew Overman faz essa abordagem histórica com rigor científico, mas linguagem assimilável e compreensível.