5 de abril de 2017

Resenha: Missão Integral da Igreja na América Latina.

Foto: Blog Paracleto.
Job. Nascimento

BEZERRA, Cícero. Missão Integral da Igreja. Curitiba, 2007.

O crer em Deus não deve ser visto apenas como um conhecimento intelectual da fé. E essa advertência foi feita por Jesus quando ele disse que muitos “fazem” e “falam”, mas não “são”. O que importa para o Evangelho é o ser e se este “ser” gera frutos. A proposta primária do Evangelho é: o evangelho todo para todo ser humano em todo o tempo. A missão integral não se ocupa apenas da pregação do evangelho, ela vai além e tenta identificar os problemas do seu povo, no nosso caso do povo latino. Assuntos relacionados à: educação, trabalho, família, igreja, saúde, testemunho, solidariedade, encarnação, segurança e meio ambiente são temas comuns á missão integral.
A igreja local deve exercer o seu papel no resgate do indivíduo. E a fórmula é simples: cada igreja local se transforma num pólo de ação social na sua área de influência e a coletividade das igrejas locais atuando desemboca na mudança social de nosso país e continente. Jesus é nosso referencial na missão integral, Ele não se acomodou com a situação espiritual, social e econômica de seu povo e saiu a campo sem qualquer amarra denominacional com os fariseus ou saduceus. Mostrando-nos que para sermos eficientes na missão integral é necessário romper com essas amarras.
O pobre na cidade é uma realidade mundial. No Brasil o êxodo das famílias do campo para a cidade transformou as zonas periféricas em favelas. Muitos se aproveitam da miséria do nosso povo para se promover ou para ganhar dinheiro com ongs que supostamente arrecadariam dinheiro para ajudar os necessitados, mas dá um destino diferente a essa verba, estes são os profissionais da miséria. Devemos encarar a situação da pobreza com seriedade, não adotando métodos assistencialistas, mas investindo na criação de mecanismos para a promoção da educação. Visto que quanto maior a instrução do indivíduo menor a possibilidade dele ser pobre.
Na missão integral Cícero Bezerra argumenta que devemos fazer o dever de casa e esse dever se configura em dois aspectos: o primeiro é com relação ao modelo familiar, pois a família do ministro vai servir de referencial para conhecê-lo, o segundo aspecto é identificar qual é o modelo mais eficaz para a formação teológica dos seus liderados, pois, o tipo de formação educacional vai ditar quais métodos devem ser adotados na região em questão.
O livro do Cícero Bezerra traz a loco não somente a questão da missão integral como conceito abstrato de uma teoria qualquer. Mas, mostra métodos e identifica necessidades primárias para o desenvolvimento de uma missão integral eficaz no nosso contexto. Não adianta trazer modelos importados para atender nosso público tupiniquim. É necessário conhecer as necessidades de nosso povo para depois sair à luta para tornar pública nossa fé dando evidência da mesma nas boas obras de ações sociais para a melhoria de vida dos necessitados de nosso país.

4 de abril de 2017

Considerações bíblicas e teológicas sobre o batismo com fogo.

Job. Nascimento

1 INTRODUÇÃO

         O presente texto visa analisar o tema do “batismo com fogo” e os seus desdobramentos no contexto atual. Apesar de verificar que essa narrativa encontra-se disposta no Evangelho de Mateus (3.11) e no Evangelho de Marcos (1.7-8), baseia-se esta pesquisa no texto de Lucas 3.16. Avaliando-se o contexto, os termos utilizados a linguagem e a possível aplicação da perícope.
            Propõe analisar qual o significado do termo “batismo com fogo”. Inicialmente, observa-se que essa expressão ou expressão liminar é utilizada em toda a Bíblia: a) Deus fez aliança com Abraão no meio do fogo; b) Deus se revelou a Moisés através do fogo; c) conduziu o povo no deserto por uma coluna de fogo; d) Elias foi levado ao céu numa carruagem de fogo.
            Apesar de várias passagens no Antigo Testamento indicarem o relacionamento de Deus com o homem através da utilização da substância do “fogo”, será que existe uma relação com o disposto no Evangelho de Lucas (3.16)? Há alguma coerência da interpretação pentecostal da expressão do “batismo com fogo” como uma “segunda benção” do Espírito Santo?
            Essas são algumas questões que o presente texto pretende responder e analisar. Baseando-se em comentários bíblicos e posicionamentos de exegetas sobre o texto.

2 O BATISMO COM FOGO NA BÍBLIA

            O termo “batismo por fogo” empregado pelo evangelista Lucas (3.16) é bastante controverso no meio acadêmico. De acordo com Stern (2008, p. 45): “alguns comentaristas enxergam isso com um fogo purificador que vai eliminar a maldade do povo judeu, segundo as linhas estabelecidas pelo profeta Malaquias (2.19-20) e em Salmos (1.6)”.
            Por outro lado, Stern (2008) aponta que alguns comentaristas enxergam a passagem como um entusiasmo pela santidade, estando em fogo por Deus. Esses são apenas algumas aplicações que os comentaristas fazem deste texto. Há ainda outros posicionamentos e outras problemáticas, especialmente quanto à linguagem do evangelista Lucas.

2.1 A QUESTÃO DA LINGUAGEM

            O evangelista Lucas, na sua narrativa sobre o ministério de Jesus, teve alguns objetivos nos seus escritos. De acordo com Champlin (2002, p. 3): “1) melhorar o estilo e o conteúdo do evangelho de Marcos, substituindo-o por algum outro material; 2) omitir incidentes secundários ou materiais; 3) omitir incidentes que não pareciam adaptar-se bem com o propósito do evangelho”.
            Apesar destes propósitos, observa-se que na narrativa do encontro de Jesus com João Batista em momento próximo ao batismo de Jesus, Lucas faz uma narrativa similar a dos evangelistas Mateus e Marcos. De acordo com o entendimento de Rienecker (2005, p. 55):

O relato de Lucas coincide quase textualmente com Mt 3.7-10. Mas, ao contrário de Mateus, Lucas nada diz sobre o grande afluxo de pessoas, particularmente da parte dos fariseus e saduceus, ao batismo de João. Lucas também não diz nada sobre o batismo em si, nem tampouco sobre o alimento e a vestimenta do Batista. Mateus dirige as palavras de arrependimento acima citadas também aos fariseus e saduceus. De acordo com Lucas, essas palavras de arrependimento, no entanto, são dirigidas ao povo.

            Dessa forma, percebe-se a intenção de Lucas ao omitir determinados pontos, como o afluxo de pessoas e o batismo em si para focar na pessoa de Jesus e seu encontro com João, o Batista. Além da linguagem, um ponto relevante é o contexto em que se encontra a narrativa.

2.2 A QUESTÃO DO CONTEXTO

            No contexto do batismo de Jesus, os evangelistas trazem uma abordagem diferente, especialmente no que diz respeito às pessoas que assistiam ao encontro do Cristo com João, o Batista. De acordo com Rienecker (2005, p. 55):

Marcos aponta mais para aqueles que vinham de Jerusalém. – Ainda que em Lucas as camadas dirigentes, a saber, os fariseus e saduceus, não sejam citados, o espírito predominante da época em todo o povo não deixa de ser criticado com palavras duras. É elucidativo e relevante que o texto original use para cobra não a palavra grega “ophis”, mais comum, mas o termo “echidna”. A palavra “echidna” visa salientar especialmente o veneno da cobra. Temos ojeriza a esse tipo de cobra venenosa, que traz a perdição, e por isso combatemo-la radicalmente e a matamos.

            Rienecker (2005) argumenta que o evangelista Lucas omite o tratamento de João Batista aos fariseus e saduceus. Segundo Barclay (2010, p. 30):

Para Lucas a aparição de João Batista é um dos pontos em que a história muda. É assim tanto que se situa o momento com seis dados diferentes. Tibério era o sucessor de Augusto e, portanto o segundo dos imperadores romanos. Cerca dos anos 11 ou 12 d. C. Augusto o tornou seu colega no poder imperial, mas não se tornou imperador único até o ano 14 d. C. O décimo quinto ano de seu reinado deve ter sido entre 28 e 29 d. C. Lucas começa situando a aparição de João no cenário mundial, o cenário do Império Romano. Uma vez esclarecida a situação mundial e política da Palestina, Lucas relata a situação religiosa e se situa a aparição de João no momento em que Anás e Caifás eram sacerdotes. Nunca houve dois sumo sacerdotes ao mesmo tempo. Por que, então, Lucas nos oferece dois nomes? O sumo sacerdote era ao mesmo tempo a cabeça civil e religiosa da comunidade. Na antiguidade o posto tinha sido hereditário e tinha durado toda a vida.

            Na análise de Barclay (2010) percebe-se a preocupação de Lucas em situar João Batista na história para que o leitor percebesse a sua relevância naquela época. Segundo Barclay (2010), João era considerado como o correi do Rei. Ele anunciava que o Rei estava para chegar e que os seus ouvintes deveriam corrigir suas vidas e não somente seus caminhos. Ao se encontrar com Jesus, João Batista revela a identidade do Rei esperado. Ele afirma que Jesus os batizaria com “Espírito Santo e com Fogo” (Lucas 3.16).

2.3 A EXPRESSÃO: “BATISMO COM FOGO”
           
A expressão “batismo por fogo”, situada no contexto acima apresenta vários posicionamentos entre os teólogos e pesquisadores. De acordo com Moody (2010, p. 19): “assim como o batismo com água significa arrependimento, a vinda do Espírito Santo é a prova da presença de Deus. O fogo é um símbolo de purificação e poder”. Por outro lado, Henry (2010, p. 70), argumenta:

João não podia fazer mais que batizar com água, como sinal de que deviam purificar-se e limpar-se, mas Cristo pode e quer batizar com o Espírito Santo; Ele pode dar o Espírito para que limpe e purifique o coração, não somente como a água lava a imundícia por fora, senão como o fogo limpa a escoria interna e funde o metal para que seja jogado num novo molde.

            Dessa maneira, observa-se que há uma distinção entre o batismo com água e o dito “batismo com fogo”. De acordo com Rienecker (2005, p. 58):

João afirma que o Vindouro batizará com o Espírito Santo. Dessa maneira João aponta com muita clareza para um efeito penetrante do Espírito. Isso se torna ainda mais nítido quando ele chama esse batismo com o Espírito também de batismo com fogo. A água toca somente a superfície, mas o fogo penetra na substância das coisas. Os israelitas estavam familiarizados com esse efeito do fogo no v. 16, visto inicialmente de modo positivo, no que se refere a sua imagem de santificação, porque o fogo do altar transportava da imanência terrena ao além da presença divina.

            A expressão “fogo”, segundo Rienecker (2005) seria utilizada para designar a atividade do Espírito Santo, tanto no aspecto positivo de santificação como no aspecto negativo de consumir o que atrapalha a formação do ser humano devotado a Deus. Neste sentido, Rienecker (2005, p. 59), prossegue:

O fogo, em contrapartida, é a imagem do juízo final que destruirá aqueles que se furtaram ao fogo sagrado na santificação. Por isso ele também é expressamente diferenciado do fogo no v. 16 por meio do adendo “inextinguível” i. é, eterno (cf. Mt 18.8: incessante). A metáfora da separação do trigo e da palha na colheita igualmente descreve a atividade julgadora do Cristo. De acordo com a profecia em Ml 3 e 4, parece que em espírito João viu o dia do primeiro e do segundo futuro do Senhor conjuntamente. O que é dito no v. 17 refere-se a uma segunda vinda do Senhor, a saber, o dia do último juízo. A palavra do último profeta na antiga aliança - “todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos” (Ml 4.1) - contém aqui uma primeira confirmação no NT.

            O “fogo” utilizado na expressão “batismo por fogo” também pode ter uma relação com o versículo posterior que fala que Cristo tem na mão a pá. Dessa forma, pode ser interpretado como uma espécie de substância que separa o trigo do joio. Segundo Rienecker (2005, p. 59):

Por um lado, a ilustração do juízo que João Batista delineia para o povo de Israel acerca do Cristo vindouro, i. é, o Messias, cuja autêntica profecia ele mesmo havia visto em uma visão conjunta da primeira e segunda vinda do Senhor, e sua primeira concretização, quando Jesus veio e sua atividade pública se iniciou, foram bem diferentes e, por outro lado, apesar disso exatamente iguais!

            Percebe-se que a expressão do “batismo com fogo” guarda uma relação de proximidade com a revelação do Cristo. De acordo com Barclay (2012, p. 32):

João estava seguro de que ele era só o precursor do Rei. Este estava por vir, e com ele o julgamento. A pá mencionada era uma grande pá chata de madeira; com ela os grãos eram lançados ao ar; os grãos pesados caíam ao chão e a palha voava. E assim como se separava a palha do grão, o Rei separaria os bons dos maus. De maneira que João pintava um quadro do juízo, mas se tratava de um juízo que um homem podia enfrentar com confiança se tinha saldado suas dívidas com seu vizinho, e se tinha realizado fielmente sua tarefa diária.

Quando se lê a Bíblia, percebe-se que se tem que atentar para uma série de aspectos. É preciso lançar os olhos para o contexto histórico, lingüístico e cultural. Na análise em tela, verifica-se que a expressão do “batismo por fogo” não tem relação com a interpretação pentecostal contemporânea que enxerga como uma segunda benção relacionada com o evento de Atos 2. Em Lucas 3.16, observa-se que o “batismo por fogo” tem uma relação com purificação interior a partir da ação do Espírito.

3 O “BATISMO COM FOGO” E A SIMBOLOGIA DA IDENTIDADE PENTECOSTAL

            Acima se viu que o “batismo com fogo” tem um significado bem delimitado pelo escritor bíblico, seguindo na linha de que designava a atividade do Espírito Santo em dois aspectos: 1) designando a atividade do Espírito Santo no aspecto positivo da santificação; 2) no aspecto negativo para consumir o que atrapalha a formação do indivíduo devotado a Deus.
            No entanto, de forma muito peculiar, os pentecostais dão um significado própria ao texto de Lucas 3.16 relacionando-o com o evento ocorrido em Atos 2. Neste sentido, Boyer (1970, p. 577), argumenta:

O Espírito Santo pode ser representado como um fogo. Dessa forma, pode-se dizer que o fogo produz luz, iluminando o entendimento e fazendo tudo se tornar real e glorioso para o cristão. Purifica, consumindo toda a escória e libertando o ouro de nossa natureza. Aquece o coração até abrasar com calor do céu. Alastra-se. As autoridades religiosas descobriram fogo logo que o cristianismo se desenvolve rapidamente, apesar de parecer insignificante.

            Na mesma linha, Fernandes (2006) afirma que a descida do Espírito Santo em Atos 2 e a distribuição de línguas “como que de fogo”, seria em dada forma o cumprimento da promessa do batismo com fogo. Sendo assim, esse batismo com fogo seria diferente do batismo em águas. Essa seria uma marca distintiva do batismo de Jesus, o aparecimento de línguas visíveis por todos.
            Fernandes (2006, p. 21), argumenta: “o fogo e o vento são símbolos que representam a presença divina. Diversos poetas têm simbolizado a favor do divino pintando um halo de fogo em redor das cabeças dos favorecidos pelos seres celestiais”.
            Essa interpretação encontra-se presente no movimento pentecostal desde o seu primórdio, com o trabalho de Seymour nos Estados Unidos da América. Segundo Freston (1994, p. 20):

Seymour fazia uma distinção entre a pessoa santificada, ou seja, entre os simples Holiness e as pessoas que recebiam o Batismo com o Espírito Santo: Há uma grande diferença entre a pessoa santificada e a que é batizada com o Espírito Santo e com fogo. O santificado é limpo de seus pecados e cheio do amor divino, mas o batizado no Espírito Santo tem poder de Deus em sua alma, poder com Deus e com os homens e poder sobre todos os demônios de satanás e todos os seus emissários.

            Seymour era um pregador conhecido, no entanto, não era muito estudioso das escrituras. Mas entendia o batismo com fogo, citado pelo evangelista Lucas como um sinal do batismo com Espírito Santo e sua evidência em línguas estranhas (glossolalia). Neste sentido, Gilberto (2006, p. 26), relata:

Seymour não era um pregador eloqüente, mas sabia de cor, como a maioria dos pentecostais, os versículos e capítulos bíblicos que sustentam a Doutrina do Batismo com o Espírito Santo e sua evidência física inicial de falar em outras línguas. Depois de pregar, assentava-se no púlpito, botava a mão no rosto e não parava de interceder pela operação de Deus, enquanto ele orava os crentes falavam em línguas estranhas.

            Esse quadro apresentando acima por Gilberto (2006) foi o início do pentecostalismo. Posteriormente, os fundadores do movimento pentecostal no Brasil, Gunnar Vingren e Daniel Berg formaram um grupo ao estilo holiness[1].

A fundação do grupo estilo Holliness, era o início da Assembléia de Deus, fundada dia 18 de junho do ano de 1910, com o nome de “Missão de Fé Apostólica”, mais uma prova de que ambos não haviam se filiado à Assembléia de Deus norte americano que não existia com esse nome. O nome “Assembléia de Deus” passou a ser usado a partir de 1917.

            No entanto, a identidade pentecostal com o passar dos anos modificou-se e, com isso, substituíram-se algumas interpretações bíblicas, doutrinas e costumes.

3.1 A IDENTIDADE PENTECOSTAL

            De certa forma a mudança da identidade pentecostal no contexto brasileiro acompanhou as mudanças oriundas do campo religioso no Brasil. Neste sentido, Delgado (2008, p. 30), afirma:
As mudanças observadas no pentecostalismo estão no bojo das mudanças no campo religioso brasileiro. O catolicismo ainda representa a crença hegemônica, embora conviva atualmente com as novas representações do cristianismo, surgidas dos processos de migração, no caso do protestantismo advindo da reforma, e de um crescimento mais observável, com o pentecostalismo a partir de 1910.

            As mudanças da identidade pentecostal acabaram afrouxando alguns conceitos da doutrina e identidade pentecostal. No aspecto da análise conceitual do termo “identidade pentecostal”, Delgado (2008, p. 32), afirma:

A identidade pessoal e social do pentecostal assembleiano é entendida como fazendo parte do seu próprio Eu, ou seja, o crente, ou a representação do seu sujeito crente, é um tipo ideal de identidade que se realiza na idéia de conexão entre as várias identidades, as quais o indivíduo representa em sociedade.

            O pentecostal está inserido dentro de um sistema de campos, onde é repartido em setores e departamentos. Todos eles têm uma noção de que o batismo no Espírito Santo deve ter um significado da evidência em línguas e o “batismo com fogo” como uma descida do Espírito sobre o crente de modo espetacular e sobrenatural. Com o crescimento e a entrada do movimento pentecostal em camadas sociais mais abastadas, acabou-se modificando algumas normativas sobre os usos e costumes. De acordo com Delgado (2008, p. 34):

O pentecostal está inserido em campos, antes vedado a ele. Seus ritmos musicais, sua forma de vestir, e sua separação do mundo, estão dando lugar a um pentecostal mais participativo da cultura brasileira envolvente. Eles agora jogam bola, são atletas de Cristo, tocam estridentes guitarras e baterias, da mesma maneira e com os mesmos acordes alucinantes dos roqueiros, as mulheres pintam seus lábios, usam argolas nas orelhas, a saia deu lugar à calça comprida etc.

            As mudanças na identidade pentecostal mais visível são às relacionadas aos chamados usos e costumes. Modificou-se a forma de culto, práticas rituais e das crenças. Dessa forma, pode-se dizer que os pentecostais estão mudando. O batismo com fogo antes defendido de forma uníssona como uma manifestação da atuação do Espírito Santo no crente hoje, em algumas igrejas mais abastadas é interpretado de acordo com a visão reformada conforme exposto na primeira parte deste texto.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

            De forma breve e sucinta, avaliou-se que o “fogo” é um símbolo do Espírito Santo e fala da força dele em relação às diversas maneiras de sua operação para aniquilar os defeitos da natureza decaída e conduzir os batizados à perfeição em Cristo. Perfeição esta que não se atinge neste mundo terreno, mas na vinda vindoura.
            O batismo com fogo indica a ação do Espírito em no processo de purificação dos filhos de Deus. Dessa maneira, o Espírito Santo é comparado ao fogo que ilumina, aquece, espalha e limpa.
            O batismo por fogo ainda pode significar o contato do indivíduo com Deus. Aquele que é batizado deleita-se em Deus e não tem prazer no pecado. O batismo com fogo acaba por eliminar as práticas pecaminosas do indivíduo, desejos lascivos e outras formas de afronta a Deus.
            O movimento pentecostal interpreta, geralmente, o texto de Lucas 3.16 do “batismo com fogo” de forma relacionada com Atos 2 e o recebimento de “línguas repartidas como que de fogo”. Essa interpretação bastante peculiar acabou sendo deixada de lado com o passar dos anos e, especialmente, em igrejas situadas em comunidades mais abastadas.


REFERÊNCIAS

BOYER, Orlando. Espada Cortante. São Paulo: IBAD, 1970.

CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 1. São Paulo: Hagnos, 2002.

________________________. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 2. São Paulo: Hagnos, 2002.

BARCLAY, William. Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

DELGADO, Jaime Silva. Nem terno nem gravata: as mudanças na identidade pentecostal assembleiana. Belém: UFP, 2008.

FERNANDES, Rubeneide Oliveira Lima. Movimento pentecostal, Assembléia de Deus e o estabelecimento da educação formal. 2ª edição. Piracicaba/SP: Metodista, 2006.

FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Nem Anjos nem Demônios. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

GILBERTO, Antonio. Lições Bíblicas: As doutrinas bíblicas pentecostais: Centenário do movimento pentecostal mundial. Rio de Janeiro, CPAD, 2006.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

MOODY, D.L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Hagnos, 2010.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. 5ª edição. São Paulo: Editora Esperança, 2005.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Atos, 2008.





[1] Movimento de santidade. Esses grupos afirmavam que a natureza pecaminosa humana deveria ser substituída pela natureza espiritual e santa proporcionada pelo Espírito. 

3 de abril de 2017

Resenha: Os anseios da vida cotidiana e os Salmos.

MESTERS, C. Deus onde estás. PP. 109-121. Belo Horizonte: Vega.

            Neste breve texto C. Mesters fala de forma sucinta, mas abrangente sobre o livro dos salmos e sua relação imediata com o culto e a vida dos israelitas e mediatamente com nosso cotidiano e o encontro com Deus na nossa vida atarefada e cercada de tecnologia que muitas vezes podem deixar nebulosa a presença de Deus na nossa vida.
            Segundo o autor os Salmos mostram Deus como Alguém que se manifesta a qualquer instante, se relaciona com o homem e intervém nas suas dificuldades ajudando-o. Os Salmos não são uma expressão perfeita de oração, pelo contrário, revela os movimentos seculares dos israelitas: suas crises, dúvidas, alegrias, tristezas e angústias.
            C. Mesters relata a forma lenta e progressiva com que os Salmos foram compostos, sua diversidade e ligação íntima com o seu autor, no período de cerca de 1000 anos. Agostinho tinha uma preocupação especial com os Salmos “interpretar de tal maneira que o seu povo pudesse encontrar nos Salmos um reflexo da sua vida. Davi foi o principal autor com cerca de 70 cânticos.
             O autor encerra o texto evidenciando uma possível dificuldade de nosso tempo na recitação e apreço pelos salmos alegada por muitos de que ele trata da vida de um povo distante de nós e que não vivemos a mesma realidade deles. Mesters rebate afirmando que os Salmos e nossa vida são como dois vasos que se comunicam entre si e têm a mesma raiz: “o homem à procura do Absoluto que se reflete na problemática tão diversificada da sua vida de cada dia”.
            Excelente o texto de C. Mesters de início o texto pode afugentar os leitores com a simplicidade das palavras, mas superada a primeira parte do texto ele nos leva a uma análise mais profunda e ao mesmo tempo devocional dos Salmos mostrando que eles não foram compostos para “servirem de documento de arquivo, mas foram inspirados para serem orados e despertarem para a oração”.

            

2 de abril de 2017

O poder e um modelo de pastoral eficaz para nosso meio e tempo.

BEZERRA, Cícero. Conversas sobre Jesus. Curitiba, 2010.
  
            O poder é algo que indubitavelmente está na maior parte das relações humanas. Os homens exercem o poder, são subservientes ao poder e, muitas vezes, carecem de algumas estruturas de poder para sua identificação e sobrevivência. O poder pode destruir e criar, ele demole relacionamentos, a confiança, o diálogo e a integridade. O poder tem esse caráter dúbio e explosivo, servindo para o bem e para o mal.
           O pastor Cícero Bezerra afirma que em meio a tantas manifestações de poder coercivo de sua época Jesus demonstrava outra forma de poder, o poder do amor. Esse por sua vez era frágil, vulnerável, conquistava pela fraqueza e pela capacidade de doar e perdoar. Assim, Jesus apontava o caminho para a esperança e libertação de seu povo: sofrido, explorado, doente e confuso religiosamente.
            Jesus tinha uma postura que se identificava com o pobre, com os doentes, com os excluídos e menos favorecidos. Essa atitude de Jesus para com os menos favorecidos era o seu alvo principal. Pois, Jesus veio para curar os doentes, confortar os tristes, libertar os escravos. Ele demoliu os paradigmas de sua época e arvorou o paradigma do amor e da liberdade.
            Nós, que moramos na América Latina, devemos desenvolver modelos de pastorais que estejam intimamente ligados e identificados com o modelo legado por Jesus. Sem abusos de poder, tanto na imposição de dogmas quanto na normatização de condutas pretensamente “adequadas”. Uma postura pastoral adequada exige renúncia, dedicação, sofrimento e capacitação contínua do líder em seu favor e em favor de seus liderados.
             Cícero Bezerra faz um levantamento ético, teológico e sociológico sobre a noção de poder e sua implicação na sociedade e na cosmovisão da mesma. Ele mostra como Jesus lidava com o poder e como demoliu as estruturas de poder de sua época e colocou outro paradigma, o paradigma do amor. Desta forma, uma pastoral que prima pelo título de “cristã” deve reproduzir o modelo de Jesus, especialmente para atingir os doentes, fracos e menos favorecidos.

1 de abril de 2017

O sermão escatológico de Jesus.

Job. Nascimento

1 INTRODUÇÃO

No presente artigo sobre o capítulo 13 de Marcos encontrou-se alguns apontamentos importantes, especialmente no que diz respeito à relação deste capítulo com a escatologia cristã e a apocalíptica judaica. Augustus Nicodemos (2000) intitula essa perícope como “o sermão escatológico de Jesus”. O mesmo autor argumenta que há uma relação entre o Novo Testamento e os apocalipses judaicos, essa relação está além do gênero literário.
            Stern (2009) sugere que o Sermão escatológico de Jesus em Marcos 13 é um “pequeno apocalipse”. Bultmann (2007), por outro lado, afirma que o mundo do Novo Testamento refletia um misto de idéias gregas com a mitologia apocalíptica judaica. Observa-se ainda que a busca pelo Jesus Histórico não pôde ignorar o aspecto escatológico de sua pregação.
            Segundo Barclay (2010), o capítulo 13 de Marcos é um dos capítulos mais difíceis do Novo Testamento para a compreensão do leitor moderno. Isto é assim porque é um dos capítulos mais judaicos da Bíblia. Do princípio ao fim se desenvolve dentro da história e as idéias judaicas. Em todo ele Jesus emprega termos e figuras muito familiares para os judeus de seus dias, mas que são muito estranhas, em realidade desconhecidas, para muitos leitores modernos.
Mesmo assim, Barclay (2013) afirma que não é possível desprezar este capítulo e passá-lo por alto, porque nele tem-se a fonte de muitas idéias a respeito da Segunda Vinda de Jesus. A dificuldade desta doutrina é que, atualmente, ou ela é desdenhada completamente e nem sequer se pensa nesta doutrina ou se perde completamente o equilíbrio e chega a ser para alguns virtualmente a única doutrina da fé cristã, mistificando-a.
O sermão escatológico de Jesus Cristo mostra a sua importância e validade tanto para o primeiro público ouvinte como para a igreja atual, pelos seguintes pontos: 1) descrição do princípio das dores (Marcos 13.5-13); 2) o tempo de aflição para toda a Judéia (Marcos 13.14-23); 3) a vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27); 4) o pronunciamento acerca da proximidade da vinda de Cristo e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37); 5) exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37); 6) o dia do juízo.

2 O SERMÃO ESCATOLÓGICO DE JESUS

            Esse sermão encontra-se localizado textualmente sucedendo a afirmação de admiração do templo de um discípulo: “ao sair Jesus do templo, disse um de seus discípulos: Mestre! Que pedras, que construções!”[1]. Assim, em resposta à esta pergunta, Jesus faz uma declaração profética da destruição iminente do templo de Jerusalém: “(...) vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada”[2].
            Posteriormente, inicia-se o sermão escatológico de Jesus Cristo que constitui-se como uma resposta para as preocupações dos discípulos de quanto isso poderia ocorrer. Alguns pesquisadores faz uma lista de objetivos explícitos ou implícitos de Jesus ao pronunciar este sermão escatológico.

2.1 OBJETIVOS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

Encontra-se várias listas de objetivos que são feitas por diversos pesquisadores. No entanto, cita-se a mais recorrente entre eles que é a lista também descrita por Nicodemus (2000), que argumenta que o sermão escatológico de Jesus tinha alguns objetivos bastante claros:

1) corrigir a visão dos seus discípulos sobre a destruição do templo, a sua vinda e o fim dos tempos (aparentemente os discípulos haviam confundido como se fossem a mesma coisa);
2) advertí-los a não serem engodados pelos falsos profetas e falsos “cristos” que viriam, e pelos sinais e maravilhas que esses falsos profetas seriam capazes de produzir;
3) estabelecer uma ampla e geral da história, começando com sua morte e ressureição até o juízo final;
4) advertí-los a que estivessem preparados para o dia e a hora desconhecidos de sua vinda.

            Ao tentar corrigir a visão dos discípulos sobre a suntuosidade do templo, Jesus lançava luz para a sua iminente destruição. Por outro lado, Jesus falava de uma realidade mais profunda e importante do que a construção física do templo. Segundo Henry (2002, p. 809):

Observemos quão pouco o Senhor Jesus Cristo valoriza a pompa exterior, onde não existe a verdadeira pureza de coração. Contempla com compaixão a ruína das almas preciosas, e chora por elas, porém, não o encontramos contemplando com tristeza a ruína de uma casa famosa. Então, lembremo-nos do quão necessário é que tenhamos uma morada mais duradoura no céu, e que estejamos preparados para ela por meio da obra do Espírito Santo, e que esta morada seja buscada por meio da fervorosa utilização de todos os meios de graça.

            Quando Cristo redireciona o olhar dos discípulos para uma realidade mais importante que a grandeza do templo, Ele mostra o quão triste será a ruína das pessoas e, por isso, demonstra sua compaixão. Neste contexto, encaixa os pontos dispostos por Nicodemos (2000), em que Cristo fala sobre sua morte, ressurreição e sua segunda vinda, alertando-os para não serem engodados pelos falsos “cristos” que poderiam fazer alguns sinais miraculosos também.

2.2 DIVISÃO DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            De acordo com o entendimento de Nicodemus (2000, p. 13) as partes principais do Sermão Escatológico, são as seguintes:

a)    O princípio das dores (Marcos 13.5-13), onde Jesus informa aos discípulos os sinais dos tempos a acontecerem no período interino, não como uma indicação da proximidade do fim, mas como uma garantia de que o mesmo virá;
b)    O tempo da grande aflição para a Judéia (Marcos 13.14-23), onde Jesus aparentemente retorna à pergunta dos discípulos sobre a destruição do templo com o fim de advertí-los a fugir da destruição eminente de Jerusalém;
c)    A vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27), onde Jesus trata da sua segunda vinda, com uma descrição dos sinais que acontecerão imediatamente antes dela;
d)    O pronunciamento acerca da proximidade da sua vinda e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37), com o propósito de impressionar os discípulos quanto à iminência da parousia;
e)    Exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37);
f)     O dia do juízo.

No primeiro ponto sobre o princípio das dores (13.5-13), Jesus fala aos discípulos sobre os sinais do tempo que antecederão a chegada do Grande Dia[3]. Um dos sinais seria o aparecimento de líderes que afirmarão serem o “cristo”. De acordo com Sproul (2005, p. 1171): “No ano de 130 d.C., Bar Kochba – líder de uma rebelião judaica contra os romanos – reivindicava ser o Messias e era aceito como tal por seus seguidores, e alista (de supostos messias) tem crescido desde então”.
            No segundo ponto do sermão escatológico, Jesus fala sobre o tempo de grande aflição que sobreviria sobre a Judéia (13.14-23). De acordo com Henry (2002, p. 809):

Os judeus apressaram o ritmo de sua ruína ao rebelarem-se contra os romanos, e ao perseguirem os cristãos. Aqui temos uma profecia sobre a destruição que lhes sobrebeio cerca de quarenta anos mais tarde; uma destruição e um estrago como jamais sofreram em toda a sua história. As promessas de poder para perseverarm e as advertências sobre o afastamento, concordam entre si. Porém, quanto mais considerarmos estas coisas, veremos motivos mais abundantes para fugir sem demora a nos refugiarmos em Cristo, e a renunciarmos a todo objeto terrestre pela salvação da nossas almas.

            Apesar da abordagem devocional, Henry (2002) lança luz sobre a predição de Jesus sobre a ruína iminente de Jerusalém. O terceiro ponto do sermão escatológico de Jesus trata do Segundo Advento de Cristo (24-27). Neste sentido, Moody (2010, p. 76), argumenta:

Cristo colocou este grande acontecimento especificamente naqueles dias, após a referida tribulação, obviamente se referindo ao tempo descrito em 13.14-23. Isto exige uma de duas explicações. Ou Cristo viria logo depois de 70 A.D, ou as aflições dos versículos 14-23 têm uma dupla referência, tanto à destruição de Jerusalém por Tito como à Grande Tribulação no fim dos tempos. Considerando que a primeira explicação é impossível, a última interpretação torna-se a chave para se compreender o capítulo como um tudo. A linguagem usada para descrever os abalos nos céus foi em grande parte extraída do Antigo Testamento: Isaías 13.1; 34.4; Joel 2.10, 30,31.

            Dessa maneira, Moody (2010) fala sobre as possíveis interpretações que se poderia dar a esse texto, indicando uma interpretação mais acertada seria a que indica para a volta de Cristo data posterior à destruição de Jerusalém por Tito. Na mesma toada, Moody (2010, p. 77), pondera:

Ainda que seja melhor fugir aqui a um literalismo extremo, não temos motivos para não entendermos estas expressões como se referindo às alterações celestiais reais que precederão imediatamente a vinda de Cristo. De modo nenhum torna-se estranho que um acontecimento tão momentoso seja introduzido dessa maneira. Esta é a volta pessoal e corporal de Cristo à terra com grande poder e glória, que foi descrita em passagens tais como essas Atos 1:11; II Tessalonicenses  1.7-10; 2:8; Apocalipse. 1.7; 19.11-16. "Com o céu obscurecido servindo de cenário, o Filho do Homem se revela no Shequiná da glória de Deus."

            O quarto ponto do sermão escatológico de Jesus trata do pronunciamento sobre proximidade de sua vinda e o caráter repentino e inesperado (28-37). Alguns pesquisadores e biblicistas afirmam que nesse trecho tem-se a aplicação do sermão escatológico de Jesus. De acordo com Henry (2002, p. 809):

Temos a aplicação do sermão profético. Quanto à destruição de Jerusalém, é preciso esperar, pois virá dentro de pouquíssimo tempo. Quanto ao final do mundo, não pergunteis quanto virá, porque o dia e a hora não são do conhecimento de nenhum homem. Cristo, como Deus, não poderia ignorar nada, porque a sabedoria divina, que habitava em nosso Senhor, era comunicada à sua alma humana conforme o beneplácito divino. O nosso dever em relação aos dois casos é estar alertas e orarmos. O nosso Senhor Jesus, quando ascendeu ao alto, deixou algo para que todos os servos façam. Devemos estar sempre vigilantes esperando o seu regresso. Isto se aplica à vinda de Cristo a nós em nossa morte, como também ao juízo geral. Não sabemos se o nosso Senhor virá nos dias de nossa juventude, na idade madura ou em nossa velhice, porém, assim que nascemos começamos a morrer e, portanto, devemos esperar pela morte. O nosso grande esforço deve ser no sentido de que, quando vier o Senhor, não nos encontre confiados, agradando a nossa concupiscência em conforto e preguiça, despreocupados em relação à nossa obra e dever. O Senhor diz a todos que velem, para que sejam encontrados em paz, sem manchas e irrepreensíveis.

Conforme exposto acima por Henry (2002) o último trecho do sermão escatológico de Jesus Cristo é um chamdo à vigilância constante porque nenhum homem sabe o dia e a hora em que virá o filho do homem. Finaliza-se o sermão com o dia do juízo. Após essa abordagem mais didática e biblicista, passa-se a verificar os aspectos históricos deste sermão escatológico de Jesus Cristo.

3 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            Pode-se dividir os aspectos históricos do sermão escatológico de Jesus Cristo em alguns blocos específicos: a) a ruína de uma grande cidade; b) a agonia de uma grande cidade; c) o caminho difícil de fuga; d) a segunda vinda de Cristo. Dessa maneira, pode-se verificar a maior parte do sermão escatológico de Jesus refere-se à destruição de Jerusalém e fuga de seus habitantes, posteriormente, a segunda volta de Cristo.

3.1 A RUÍNA DE UMA CIDADE (MARCOS 13:1-2)

De acordo com Barclay (2010), O templo construído por Herodes era uma das maravilhas do mundo. Começou a ser construído nos anos 20-19 a.C., na época do Jesus não estava ainda completamente terminado. Estava edificado sobre a cúpula do Monte Moriá. Em vez de nivelar a cúspide da montanha se formou uma sorte de grande plataforma levantando muros de blocos maciços que encerravam toda a área. Sobre esses muros se estendia uma plataforma, reforçada por pilares sobre os quais se distribuía o peso da superestrutura.
Nesse sentido, Josefo (2012) diz que algumas dessas pedras tinham treze metros de comprimento por quatro de alto e seis de largura. Seriam algumas dessas pedras imensas as que motivaram o assombro dos discípulos galileus. A entrada mais magnífica ao templo era a do ângulo Sudoeste. Aqui, entre a cidade e a colina do templo se estendia o Vale do Tiropeion, cruzado por uma ponte maravilhosa.
Segundo o entendimento de Josefo (2012) cada arco tinha quatorze metros e em sua construção se empregaram algumas pedras de oito metros de comprimento. O vale corria a não menos de setenta e cinco metros por baixo. A largura da brecha que passava por cima da ponte era de uns cento e vinte metros e a própria ponte tinha um comprimento de dezessete metros. A ponte conduzia diretamente ao Pórtico Real. Este consistia em uma dupla fila de colunas fortes, todas de doze metros de altura, e todas cortadas de um sólido bloco de mármore.

3.2 A AGONIA DE UMA CIDADE (MARCOS 13.14-20)

Segundo Rienecker (2005), neste trecho Jesus antecipa algo do tremendo terror do cerco e a queda final de Jerusalém que iria acontecer. Esta advertência foi que quando vissem os primeiros sinais de que isso ocorreria, os habitantes deveriam fugir a tempo, sem se preocuparem em recolher as roupas ou salvar os seus bens. No entanto, verificou-se posteriormente que o povo fez exatamente o contrário. O povo se aglomerou em Jerusalém e a morte chegou das formas mais terríveis possíveis. Segundo Barclay (2010, p. 34):

O que Jesus quer dizer quando fala da abominação desoladora? Nos dias de Jesus os homens esperavam não só o Messias, mas também esperavam a emergência de uma potência que seria a encarnação do mal, uma potência que reuniria a seu redor tudo o que estava contra Deus. Paulo chamou a essa potência o homem do pecado (2 Tessalonicenses 2:3).
           
Verifica-se que no ano 70 D.C. Jerusalém caiu diante do sítio do exército do General Tito, que posteriormente se tornou imperador de Roma. Segundo Barclay (2010, p. 35):
Os horrores desse sítio constituem uma das páginas mais negras da história. O povo da campina se amontoou em Jerusalém. Tito não teve alternativa que render a cidade por fome. A questão se complicou pelo fato de que até em momentos tão terríveis havia seitas e facções dentro da própria cidade, Jerusalém estava em perigos de fora e de dentro.

            Observa-se, de acordo com Josefo (2010) que formam levados cerca de noventa e sete mil cativos e cerca de um milhão e cem mil morreram por inanição ou feridos pela espada.

3.3 O CAMINHO DIFÍCIL (MARCOS 13.9-13)

Segundo Barclay (2010), Jesus não deixou qualquer dúvida para seus seguidores que eles tinham escolhido um caminho mais difícil. Não se podia afirmar que não tinha conhecido de antemão as condições do serviço de Cristo. O ser entregue aos concílios e ser açoitados nas sinagogas se refere à perseguição judaica.
Verifica-se que em Jerusalém havia o grande Sinédrio, que era conhecido como a corte suprema dos judeus, mas cada povo e aldeia tinham seu Sinédrio local. Diante desses Sinédrios locais seriam julgados os hereges que confessassem para serem açoitados publicamente nas sinagogas.
Sendo assim, os governantes e reis se referem a processos ante os tribunais romanos, tais como o que Paulo enfrentou perante Félix, Festo e Agripa. A conclusão é que os cristãos eram maravilhosamente fortalecidos em seus julgamentos e saiam vitoriosos ou como mártires.

3.4 SUA SEGUNDA VINDA (MARCOS 13.7-8, 24-27)

Neste ponto, como já exposto acima, Jesus tratou de forma inconfundível sobre seu retorno. Freston (2010) afirma que o interessante é que as coisas que Jesus profetizava estavam, de fato, ocorrendo. Cristo profetizou guerras e os partos estavam, realmente, pressionando as fronteiras do império romano. Segundo Barclay (2010, p. 37):

Jesus Profetizou terremotos e uns quarenta anos depois o mundo romano ficava estupefato ante o terremoto que devastou a Laodicéia, e fascinado pela erupção do Vesúvio que sepultou em lava a Pompéia, que durante séculos permaneceu ignorada. Profetizou fomes, e a houve em realidade em Roma nos dias do Cláudio.

Outro ponto relevante deste trecho do sermão escatológico de Jesus é o que diz respeito à ressurreição dos mortos justos. Neste sentido, Moody (2010, p. 79), relata:

Neste ponto acontecerá a ressurreição dos justos mortos e a transformação dos santos vivos (cons. I Co. 15.51-53; I Ts. 4.13-18). Então ele reunirá os seus escolhidos, os redimidos de todas as dispensações, presente e passadas. Quanto à palavra escolhidos. A palavra episynaxei, ajuntará, é a forma verbal do substantivo episynagôgê, "ajuntamento", em II Ts. 2:1 (reunião). Ajuntar-se-ão com o Senhor descendo, vindos de todas as partes da terra (dos quatro ventos), até mesmo dos recantos mais remotos (da extremidade da terra até à extremidade do céu).

Nesta passagem o que se deve verificar é o fato de que Jesus afirmou que voltaria. Pode-se dizer que o foco do sermão escatológico de Jesus era muito mais que uma preparação dos discípulos para os últimos dias e um programa detalhado sobre a história, como ocorre em alguns apocalipses judaicos.
Verifica-se que os sinais dos tempos que foram elencados por Jesus são mais uma confirmação de que Deus trará um fim do que marcadores de períodos determinados da história humana. Jesus acaba trazendo uma tensão entre o “já” e o “ainda não” no imaginário apocalíptico. Por tanto, apesar de ter algumas semelhanças com a apocaliptica judaica, o sermão escatológico de Jesus tem foco distinto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
           
O sermão escatológico de Jesus conforme registrado em Marcos 13, apesar de ser considerado como uma obra da apocaliptica judaica, porém, por baixo das semelhanças externas de imagens, linguagens e tópicos, há profundas diferenças quanto aos temas básicos como a visão do mundo presente, a concepção messiânica e o lugar de Israel e dos gentios na história. No sermão escatológico, uma abordagem cristológica da história aparece em destaque.
Jesus se mostra como o centro da história e aponta para uma grandeza maior do que a construção de um templo. A grandeza estava nas pessoas que armazerariam a mensagem do Evangelho. O Evangelho em si é maior do que qualquer construção humana, pois, passará o templo, os céus e a terra, mas ele não passará.
O sermão escatológico de Jesus alerta os seus discípulos no sentido de estarem sempre trabalhando. Desse modo, a mensagem de Jesus surtiu efeito nos primeiros cristãos que, pois, eles foram fortalecidos a não esmorecer diante das advercidades, perseguições e embates dos mais diversos. O sermão escatológico de Jesus é um convite para um redirecionamento de olhar, para focar naquilo que é eterno e deixar de lado o que é terreno.

 REFERÊNCIAS

BARCLAY, William. Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo: Novo Século, 2000.

FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Nem Anjos nem Demônios. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

MOODY, D.L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Hagnos, 2010.

NICODEMUS, Augustus. O sermão escatológico de Jesus: análise da influência da apocalíptica judaica nos escritos do Novo Testamento. Fides Reformata, vol. 3. 2000.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. 5ª edição. São Paulo: Editora Esperança, 2005.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Atos, 2008. 






[1] Marcos 13.1. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[2] Marcos 13.2. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[3] Na expressão: “Grande dia”, leia-se: “dia da volta do Filho do Homem”.