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4 de abril de 2017

Considerações bíblicas e teológicas sobre o batismo com fogo.

Job. Nascimento

1 INTRODUÇÃO

         O presente texto visa analisar o tema do “batismo com fogo” e os seus desdobramentos no contexto atual. Apesar de verificar que essa narrativa encontra-se disposta no Evangelho de Mateus (3.11) e no Evangelho de Marcos (1.7-8), baseia-se esta pesquisa no texto de Lucas 3.16. Avaliando-se o contexto, os termos utilizados a linguagem e a possível aplicação da perícope.
            Propõe analisar qual o significado do termo “batismo com fogo”. Inicialmente, observa-se que essa expressão ou expressão liminar é utilizada em toda a Bíblia: a) Deus fez aliança com Abraão no meio do fogo; b) Deus se revelou a Moisés através do fogo; c) conduziu o povo no deserto por uma coluna de fogo; d) Elias foi levado ao céu numa carruagem de fogo.
            Apesar de várias passagens no Antigo Testamento indicarem o relacionamento de Deus com o homem através da utilização da substância do “fogo”, será que existe uma relação com o disposto no Evangelho de Lucas (3.16)? Há alguma coerência da interpretação pentecostal da expressão do “batismo com fogo” como uma “segunda benção” do Espírito Santo?
            Essas são algumas questões que o presente texto pretende responder e analisar. Baseando-se em comentários bíblicos e posicionamentos de exegetas sobre o texto.

2 O BATISMO COM FOGO NA BÍBLIA

            O termo “batismo por fogo” empregado pelo evangelista Lucas (3.16) é bastante controverso no meio acadêmico. De acordo com Stern (2008, p. 45): “alguns comentaristas enxergam isso com um fogo purificador que vai eliminar a maldade do povo judeu, segundo as linhas estabelecidas pelo profeta Malaquias (2.19-20) e em Salmos (1.6)”.
            Por outro lado, Stern (2008) aponta que alguns comentaristas enxergam a passagem como um entusiasmo pela santidade, estando em fogo por Deus. Esses são apenas algumas aplicações que os comentaristas fazem deste texto. Há ainda outros posicionamentos e outras problemáticas, especialmente quanto à linguagem do evangelista Lucas.

2.1 A QUESTÃO DA LINGUAGEM

            O evangelista Lucas, na sua narrativa sobre o ministério de Jesus, teve alguns objetivos nos seus escritos. De acordo com Champlin (2002, p. 3): “1) melhorar o estilo e o conteúdo do evangelho de Marcos, substituindo-o por algum outro material; 2) omitir incidentes secundários ou materiais; 3) omitir incidentes que não pareciam adaptar-se bem com o propósito do evangelho”.
            Apesar destes propósitos, observa-se que na narrativa do encontro de Jesus com João Batista em momento próximo ao batismo de Jesus, Lucas faz uma narrativa similar a dos evangelistas Mateus e Marcos. De acordo com o entendimento de Rienecker (2005, p. 55):

O relato de Lucas coincide quase textualmente com Mt 3.7-10. Mas, ao contrário de Mateus, Lucas nada diz sobre o grande afluxo de pessoas, particularmente da parte dos fariseus e saduceus, ao batismo de João. Lucas também não diz nada sobre o batismo em si, nem tampouco sobre o alimento e a vestimenta do Batista. Mateus dirige as palavras de arrependimento acima citadas também aos fariseus e saduceus. De acordo com Lucas, essas palavras de arrependimento, no entanto, são dirigidas ao povo.

            Dessa forma, percebe-se a intenção de Lucas ao omitir determinados pontos, como o afluxo de pessoas e o batismo em si para focar na pessoa de Jesus e seu encontro com João, o Batista. Além da linguagem, um ponto relevante é o contexto em que se encontra a narrativa.

2.2 A QUESTÃO DO CONTEXTO

            No contexto do batismo de Jesus, os evangelistas trazem uma abordagem diferente, especialmente no que diz respeito às pessoas que assistiam ao encontro do Cristo com João, o Batista. De acordo com Rienecker (2005, p. 55):

Marcos aponta mais para aqueles que vinham de Jerusalém. – Ainda que em Lucas as camadas dirigentes, a saber, os fariseus e saduceus, não sejam citados, o espírito predominante da época em todo o povo não deixa de ser criticado com palavras duras. É elucidativo e relevante que o texto original use para cobra não a palavra grega “ophis”, mais comum, mas o termo “echidna”. A palavra “echidna” visa salientar especialmente o veneno da cobra. Temos ojeriza a esse tipo de cobra venenosa, que traz a perdição, e por isso combatemo-la radicalmente e a matamos.

            Rienecker (2005) argumenta que o evangelista Lucas omite o tratamento de João Batista aos fariseus e saduceus. Segundo Barclay (2010, p. 30):

Para Lucas a aparição de João Batista é um dos pontos em que a história muda. É assim tanto que se situa o momento com seis dados diferentes. Tibério era o sucessor de Augusto e, portanto o segundo dos imperadores romanos. Cerca dos anos 11 ou 12 d. C. Augusto o tornou seu colega no poder imperial, mas não se tornou imperador único até o ano 14 d. C. O décimo quinto ano de seu reinado deve ter sido entre 28 e 29 d. C. Lucas começa situando a aparição de João no cenário mundial, o cenário do Império Romano. Uma vez esclarecida a situação mundial e política da Palestina, Lucas relata a situação religiosa e se situa a aparição de João no momento em que Anás e Caifás eram sacerdotes. Nunca houve dois sumo sacerdotes ao mesmo tempo. Por que, então, Lucas nos oferece dois nomes? O sumo sacerdote era ao mesmo tempo a cabeça civil e religiosa da comunidade. Na antiguidade o posto tinha sido hereditário e tinha durado toda a vida.

            Na análise de Barclay (2010) percebe-se a preocupação de Lucas em situar João Batista na história para que o leitor percebesse a sua relevância naquela época. Segundo Barclay (2010), João era considerado como o correi do Rei. Ele anunciava que o Rei estava para chegar e que os seus ouvintes deveriam corrigir suas vidas e não somente seus caminhos. Ao se encontrar com Jesus, João Batista revela a identidade do Rei esperado. Ele afirma que Jesus os batizaria com “Espírito Santo e com Fogo” (Lucas 3.16).

2.3 A EXPRESSÃO: “BATISMO COM FOGO”
           
A expressão “batismo por fogo”, situada no contexto acima apresenta vários posicionamentos entre os teólogos e pesquisadores. De acordo com Moody (2010, p. 19): “assim como o batismo com água significa arrependimento, a vinda do Espírito Santo é a prova da presença de Deus. O fogo é um símbolo de purificação e poder”. Por outro lado, Henry (2010, p. 70), argumenta:

João não podia fazer mais que batizar com água, como sinal de que deviam purificar-se e limpar-se, mas Cristo pode e quer batizar com o Espírito Santo; Ele pode dar o Espírito para que limpe e purifique o coração, não somente como a água lava a imundícia por fora, senão como o fogo limpa a escoria interna e funde o metal para que seja jogado num novo molde.

            Dessa maneira, observa-se que há uma distinção entre o batismo com água e o dito “batismo com fogo”. De acordo com Rienecker (2005, p. 58):

João afirma que o Vindouro batizará com o Espírito Santo. Dessa maneira João aponta com muita clareza para um efeito penetrante do Espírito. Isso se torna ainda mais nítido quando ele chama esse batismo com o Espírito também de batismo com fogo. A água toca somente a superfície, mas o fogo penetra na substância das coisas. Os israelitas estavam familiarizados com esse efeito do fogo no v. 16, visto inicialmente de modo positivo, no que se refere a sua imagem de santificação, porque o fogo do altar transportava da imanência terrena ao além da presença divina.

            A expressão “fogo”, segundo Rienecker (2005) seria utilizada para designar a atividade do Espírito Santo, tanto no aspecto positivo de santificação como no aspecto negativo de consumir o que atrapalha a formação do ser humano devotado a Deus. Neste sentido, Rienecker (2005, p. 59), prossegue:

O fogo, em contrapartida, é a imagem do juízo final que destruirá aqueles que se furtaram ao fogo sagrado na santificação. Por isso ele também é expressamente diferenciado do fogo no v. 16 por meio do adendo “inextinguível” i. é, eterno (cf. Mt 18.8: incessante). A metáfora da separação do trigo e da palha na colheita igualmente descreve a atividade julgadora do Cristo. De acordo com a profecia em Ml 3 e 4, parece que em espírito João viu o dia do primeiro e do segundo futuro do Senhor conjuntamente. O que é dito no v. 17 refere-se a uma segunda vinda do Senhor, a saber, o dia do último juízo. A palavra do último profeta na antiga aliança - “todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos” (Ml 4.1) - contém aqui uma primeira confirmação no NT.

            O “fogo” utilizado na expressão “batismo por fogo” também pode ter uma relação com o versículo posterior que fala que Cristo tem na mão a pá. Dessa forma, pode ser interpretado como uma espécie de substância que separa o trigo do joio. Segundo Rienecker (2005, p. 59):

Por um lado, a ilustração do juízo que João Batista delineia para o povo de Israel acerca do Cristo vindouro, i. é, o Messias, cuja autêntica profecia ele mesmo havia visto em uma visão conjunta da primeira e segunda vinda do Senhor, e sua primeira concretização, quando Jesus veio e sua atividade pública se iniciou, foram bem diferentes e, por outro lado, apesar disso exatamente iguais!

            Percebe-se que a expressão do “batismo com fogo” guarda uma relação de proximidade com a revelação do Cristo. De acordo com Barclay (2012, p. 32):

João estava seguro de que ele era só o precursor do Rei. Este estava por vir, e com ele o julgamento. A pá mencionada era uma grande pá chata de madeira; com ela os grãos eram lançados ao ar; os grãos pesados caíam ao chão e a palha voava. E assim como se separava a palha do grão, o Rei separaria os bons dos maus. De maneira que João pintava um quadro do juízo, mas se tratava de um juízo que um homem podia enfrentar com confiança se tinha saldado suas dívidas com seu vizinho, e se tinha realizado fielmente sua tarefa diária.

Quando se lê a Bíblia, percebe-se que se tem que atentar para uma série de aspectos. É preciso lançar os olhos para o contexto histórico, lingüístico e cultural. Na análise em tela, verifica-se que a expressão do “batismo por fogo” não tem relação com a interpretação pentecostal contemporânea que enxerga como uma segunda benção relacionada com o evento de Atos 2. Em Lucas 3.16, observa-se que o “batismo por fogo” tem uma relação com purificação interior a partir da ação do Espírito.

3 O “BATISMO COM FOGO” E A SIMBOLOGIA DA IDENTIDADE PENTECOSTAL

            Acima se viu que o “batismo com fogo” tem um significado bem delimitado pelo escritor bíblico, seguindo na linha de que designava a atividade do Espírito Santo em dois aspectos: 1) designando a atividade do Espírito Santo no aspecto positivo da santificação; 2) no aspecto negativo para consumir o que atrapalha a formação do indivíduo devotado a Deus.
            No entanto, de forma muito peculiar, os pentecostais dão um significado própria ao texto de Lucas 3.16 relacionando-o com o evento ocorrido em Atos 2. Neste sentido, Boyer (1970, p. 577), argumenta:

O Espírito Santo pode ser representado como um fogo. Dessa forma, pode-se dizer que o fogo produz luz, iluminando o entendimento e fazendo tudo se tornar real e glorioso para o cristão. Purifica, consumindo toda a escória e libertando o ouro de nossa natureza. Aquece o coração até abrasar com calor do céu. Alastra-se. As autoridades religiosas descobriram fogo logo que o cristianismo se desenvolve rapidamente, apesar de parecer insignificante.

            Na mesma linha, Fernandes (2006) afirma que a descida do Espírito Santo em Atos 2 e a distribuição de línguas “como que de fogo”, seria em dada forma o cumprimento da promessa do batismo com fogo. Sendo assim, esse batismo com fogo seria diferente do batismo em águas. Essa seria uma marca distintiva do batismo de Jesus, o aparecimento de línguas visíveis por todos.
            Fernandes (2006, p. 21), argumenta: “o fogo e o vento são símbolos que representam a presença divina. Diversos poetas têm simbolizado a favor do divino pintando um halo de fogo em redor das cabeças dos favorecidos pelos seres celestiais”.
            Essa interpretação encontra-se presente no movimento pentecostal desde o seu primórdio, com o trabalho de Seymour nos Estados Unidos da América. Segundo Freston (1994, p. 20):

Seymour fazia uma distinção entre a pessoa santificada, ou seja, entre os simples Holiness e as pessoas que recebiam o Batismo com o Espírito Santo: Há uma grande diferença entre a pessoa santificada e a que é batizada com o Espírito Santo e com fogo. O santificado é limpo de seus pecados e cheio do amor divino, mas o batizado no Espírito Santo tem poder de Deus em sua alma, poder com Deus e com os homens e poder sobre todos os demônios de satanás e todos os seus emissários.

            Seymour era um pregador conhecido, no entanto, não era muito estudioso das escrituras. Mas entendia o batismo com fogo, citado pelo evangelista Lucas como um sinal do batismo com Espírito Santo e sua evidência em línguas estranhas (glossolalia). Neste sentido, Gilberto (2006, p. 26), relata:

Seymour não era um pregador eloqüente, mas sabia de cor, como a maioria dos pentecostais, os versículos e capítulos bíblicos que sustentam a Doutrina do Batismo com o Espírito Santo e sua evidência física inicial de falar em outras línguas. Depois de pregar, assentava-se no púlpito, botava a mão no rosto e não parava de interceder pela operação de Deus, enquanto ele orava os crentes falavam em línguas estranhas.

            Esse quadro apresentando acima por Gilberto (2006) foi o início do pentecostalismo. Posteriormente, os fundadores do movimento pentecostal no Brasil, Gunnar Vingren e Daniel Berg formaram um grupo ao estilo holiness[1].

A fundação do grupo estilo Holliness, era o início da Assembléia de Deus, fundada dia 18 de junho do ano de 1910, com o nome de “Missão de Fé Apostólica”, mais uma prova de que ambos não haviam se filiado à Assembléia de Deus norte americano que não existia com esse nome. O nome “Assembléia de Deus” passou a ser usado a partir de 1917.

            No entanto, a identidade pentecostal com o passar dos anos modificou-se e, com isso, substituíram-se algumas interpretações bíblicas, doutrinas e costumes.

3.1 A IDENTIDADE PENTECOSTAL

            De certa forma a mudança da identidade pentecostal no contexto brasileiro acompanhou as mudanças oriundas do campo religioso no Brasil. Neste sentido, Delgado (2008, p. 30), afirma:
As mudanças observadas no pentecostalismo estão no bojo das mudanças no campo religioso brasileiro. O catolicismo ainda representa a crença hegemônica, embora conviva atualmente com as novas representações do cristianismo, surgidas dos processos de migração, no caso do protestantismo advindo da reforma, e de um crescimento mais observável, com o pentecostalismo a partir de 1910.

            As mudanças da identidade pentecostal acabaram afrouxando alguns conceitos da doutrina e identidade pentecostal. No aspecto da análise conceitual do termo “identidade pentecostal”, Delgado (2008, p. 32), afirma:

A identidade pessoal e social do pentecostal assembleiano é entendida como fazendo parte do seu próprio Eu, ou seja, o crente, ou a representação do seu sujeito crente, é um tipo ideal de identidade que se realiza na idéia de conexão entre as várias identidades, as quais o indivíduo representa em sociedade.

            O pentecostal está inserido dentro de um sistema de campos, onde é repartido em setores e departamentos. Todos eles têm uma noção de que o batismo no Espírito Santo deve ter um significado da evidência em línguas e o “batismo com fogo” como uma descida do Espírito sobre o crente de modo espetacular e sobrenatural. Com o crescimento e a entrada do movimento pentecostal em camadas sociais mais abastadas, acabou-se modificando algumas normativas sobre os usos e costumes. De acordo com Delgado (2008, p. 34):

O pentecostal está inserido em campos, antes vedado a ele. Seus ritmos musicais, sua forma de vestir, e sua separação do mundo, estão dando lugar a um pentecostal mais participativo da cultura brasileira envolvente. Eles agora jogam bola, são atletas de Cristo, tocam estridentes guitarras e baterias, da mesma maneira e com os mesmos acordes alucinantes dos roqueiros, as mulheres pintam seus lábios, usam argolas nas orelhas, a saia deu lugar à calça comprida etc.

            As mudanças na identidade pentecostal mais visível são às relacionadas aos chamados usos e costumes. Modificou-se a forma de culto, práticas rituais e das crenças. Dessa forma, pode-se dizer que os pentecostais estão mudando. O batismo com fogo antes defendido de forma uníssona como uma manifestação da atuação do Espírito Santo no crente hoje, em algumas igrejas mais abastadas é interpretado de acordo com a visão reformada conforme exposto na primeira parte deste texto.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

            De forma breve e sucinta, avaliou-se que o “fogo” é um símbolo do Espírito Santo e fala da força dele em relação às diversas maneiras de sua operação para aniquilar os defeitos da natureza decaída e conduzir os batizados à perfeição em Cristo. Perfeição esta que não se atinge neste mundo terreno, mas na vinda vindoura.
            O batismo com fogo indica a ação do Espírito em no processo de purificação dos filhos de Deus. Dessa maneira, o Espírito Santo é comparado ao fogo que ilumina, aquece, espalha e limpa.
            O batismo por fogo ainda pode significar o contato do indivíduo com Deus. Aquele que é batizado deleita-se em Deus e não tem prazer no pecado. O batismo com fogo acaba por eliminar as práticas pecaminosas do indivíduo, desejos lascivos e outras formas de afronta a Deus.
            O movimento pentecostal interpreta, geralmente, o texto de Lucas 3.16 do “batismo com fogo” de forma relacionada com Atos 2 e o recebimento de “línguas repartidas como que de fogo”. Essa interpretação bastante peculiar acabou sendo deixada de lado com o passar dos anos e, especialmente, em igrejas situadas em comunidades mais abastadas.


REFERÊNCIAS

BOYER, Orlando. Espada Cortante. São Paulo: IBAD, 1970.

CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 1. São Paulo: Hagnos, 2002.

________________________. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Volume 2. São Paulo: Hagnos, 2002.

BARCLAY, William. Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

DELGADO, Jaime Silva. Nem terno nem gravata: as mudanças na identidade pentecostal assembleiana. Belém: UFP, 2008.

FERNANDES, Rubeneide Oliveira Lima. Movimento pentecostal, Assembléia de Deus e o estabelecimento da educação formal. 2ª edição. Piracicaba/SP: Metodista, 2006.

FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Nem Anjos nem Demônios. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

GILBERTO, Antonio. Lições Bíblicas: As doutrinas bíblicas pentecostais: Centenário do movimento pentecostal mundial. Rio de Janeiro, CPAD, 2006.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

MOODY, D.L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Hagnos, 2010.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. 5ª edição. São Paulo: Editora Esperança, 2005.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Atos, 2008.





[1] Movimento de santidade. Esses grupos afirmavam que a natureza pecaminosa humana deveria ser substituída pela natureza espiritual e santa proporcionada pelo Espírito. 

3 de março de 2017

A alegria de Jesus: suas simbologias e consequências.

Foto: A trilha da Graça. 
Job. Nascimento
            
A alegria de Jesus se demonstra numa forma totalmente altruísta. A alegria de dEle não era individual, secreta e baseada na satisfação de desejos ulteriores. A alegria de Jesus se revertia na alegria e bem estar de outros. Podemos ver isso na maioria dos milagres que Ele operou onde a alegria dEle era igual ou maior ao do que recebia a cura de seu mal. A alegria de Jesus era efeito do arrependimento de um pecador. Os doutores da lei eram seletivos em suas festas e banquetes. Jesus, ao contrário em diversas parábolas proclama a inclusão e a aceitação dos excluídos e segregados pela moral e religião judaica. Nas parábolas de Lucas 15 (drácma perdida, ovelha perdida e filho pródigo) Jesus demonstra sua alegria em ir à procura do que estava perdido e o filho pródigo ele espera de braços abertos externando sua alegria incondicional, amor, aceitação e perdão. 

E o interessante é que os publicanos que eram considerados pelos judeus como aqueles que não mereciam nem ao menos a condição de poder pedir perdão, ou seja, eles haviam atravessado uma faixa da qual não tinha mais acesso ao perdão, mesmo a esse Jesus demonstra alegria em recebê-los, representando isso na figura do filho pródigo. A alegria de Jesus é estendida para todos aqueles que creem nele. De modo que experimentamos a alegria de Jesus, em Jesus e com Jesus. Sendo assim a alegria de Jesus é dada pelo Pai, é motivo de nosso bem-estar e é compartilhada por Jesus. Como Cristãos temos o dever de reproduzir o comportamento de Cristo. Sendo assim, “regozijar sempre” é uma das indicações salutares para nossa vida cristã.

2 de março de 2017

O instinto de preservação e a alegria do Messias.

Job. Nascimento

             A maioria dos "heróis" épicos ou contemporâneos carregam em si uma arrogância enorme e uma confiança sobrecomum em si mesmos. Além de carregarem na visão comum do povo muitos mitos, lendas e feitos dos quais vários apenas são adjetivados a eles, mas esses feitos não existem fora do discurso e da fala. Em contrapartida, Jesus era diametralmente o oposto de todos esses heróis: Ele não tinha arrogância, não alardeava seus feitos e sua vida era uma mensagem (mesmo quando não dizia uma palavra sequer). O que motiva o homem a morrer por seu povo? O instinto de preservação? O anseio de se tornar um mártir? E essa entrega é feita de forma alegre ou com pesar e tristeza? Sobre o impulso de preservação da comunidade C.S.Lewis argumenta:

                          Todos nós temos um impulso instintivo de preservar a nossa própria espécie. E é por isso que os homens devem trabalhar pela posteridade. Não temos nenhum impulso instintivo de cumprir promessas ou de respeitar a vida individual: é por isso que escrúpulos de justiça e humanidade podem ser devidamente varridos para longe quando entram em conflito com o nosso verdadeiro fim, a preservação da espécie. (LEWIS: 2005, p.31).

            Mas, o desejo de salvar de Jesus transcende todo e qualquer instinto de preservação da comunidade, Jesus amou o mundo. E em detrimento de sua entrega incondicional ao sacrifício em prol de muitos ele não se mostrou triste, pelo contrário, sua alegria era notória a todos os homens. A operação de milagres de Jesus não vinha com a intenção de criar um espetáculo de autopromoção, pelo contrário, denotava o amor que ele tinha pelas pessoas; sua exortação, por vezes dura, não demonstrava insensibilidade e rigidez, pelo contrário denotava o desejo de que o seu povo experimentasse a sua alegria; e o desejo de salvar seu povo foi motivado pelo anseio de fazer com que todos nós pudéssemos provar da alegria eterna. Sendo assim, o ofício de “Messias” (enviado e libertador) de Jesus não foi praticado sobre os preceitos terrenos de “entrar para a história”, antes, foi motivado pelo desejo de repartir um pouco de sua alegria eterna com os homens. E a possibilidade de uma resposta grata da parte do homem (mesmo que fosse uma minoria), fez com que ele vivesse alegre “pelos seus” que chegariam ao pleno conhecimento da verdade.

1 de março de 2017

Alegria: definições e conceitos.

Job. Nascimento


“Alegria” é uma palavra que tem significados diversos e muitas vezes antagônicos. Aliado a isso temos o fato do conceito de alegria está ligado ao curso de conduta, como alcança-la e quais as evidências de alguém que a possui.  O dicionário de língua portuguesa define alegria como sendo “1. Júbilo, contentamento, gáudio, 2. Tudo que alegra e contenta, festa, divertimento” (LAROUSSE: 2004, p. 24). Essa definição do dicionário trás dois aspectos para o conceito de alegria: como um estado de espírito que provoca prazer no indivíduo e este conceito também se estende para as coisas exteriores que provocam prazer. Aceitando pacificamente essa definição do dicionário ela nos remete a uma problemática: qual é o meio correto ou a maneira de se adquirir a alegria? Aconselha Sêneca (2001, p.8) “busquemos um bem que não seja aparente, mas sólido e constante, e seja tanto mais belo quanto mais intimo, vamos, por assim dizer, garimpa-los; não está longe; facilmente será encontrado, mas é preciso saber para onde se estende a mão”. Sendo assim, a “alegria” quanto a “paz” não são ideais a serem perseguidos, mas sim para serem aceitos, pois, ele está ao alcance de nossas mãos desde que estendamos pata quem pode nos dá: Jesus. 

O capítulo 2 de Eclesiastes relata todos os caminhos pelos quais Salomão percorreu em busca da “alegria” e “felicidade”, todos esses caminhos eram trilhados a partir do desejo humano de satisfação, prazer e poder: uma combinação perigosa que tende a levar o homem ao total descontentamento. E foi justamente isso que Salomão descobriu: que não importava ter um Reino de desejos e anseios atendidos do lado de fora, senão tivesse uma pré-disposição interior, pois, tudo era vaidade (“oco, vazio, sem sentido”). O livro de Salmos nos traz inúmeras referências para as causas da alegria e na maioria delas faz menção a alegria dada por Deus ao homem que se propõe a adorá-lo. Jesus nos deixou um exemplo mais que excelente no que diz respeito à alegria, ele nos mostrou e transpareceu alegria em todos os momentos do seu ministério. Mas, a alegria de Jesus não era semelhante a alegria do palácio de Salomão que era individualista, baseada nos prazeres terrenos e na ostentação dela à outros, pelo contrário a alegria de Jesus era inclusiva, atraia, se compadecia e demonstrava o desejo de reparti-la com muitos.

REFERÊNCIAS
ESCOLAR, Larousse. Dicionário de Língua portuguesa. Larousse: São Paulo: 2004.
SÊNECA. Da vida Feliz. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

20 de dezembro de 2016

O reino e a justiça.

Ariovaldo Ramos
A Missão Integral se estriba na recuperação de dois conceitos. Em primeiro lugar, o conceito de justiça no tempos dos profetas hebraicos. Ele aparece nos escritos dos profetas, que vão dizer, como Amós (5.24), que a justiça deve correr como um rio que nunca seca. Todos os profetas hebreus levantaram a questão da justiça, e são eles que introduzem-na como um critério transcendente: a justiça, então, não é mais uma relação de poder entre fracos e fortes, entre vencedores e vencidos; ela é vista como uma demanda divina. O Senhor exige justiça; exige que os pobres sejam tratados com decência; exige, de fato, que não haja pobreza, e sim, libertação econômica, social e política. Tal concepção fica clara em instituições como a do jubileu e a do ano da remissão, mencionados nos livros de Levítico e Deuteronômio.
A justiça, portanto, nasce no coração de Deus e é introduzida na história humana pelos profetas hebreus. São eles que trazem a noção de justiça para a história, e trazem-na como um dado transcendente, e não como uma conclusão imanente – ou seja, não foram os seres humanos pensando sobre si, sobre a história, sobre a sociedade que chegaram à noção de igualdade, de justiça, de inclusão social dos pobres. Foram os profetas hebreus que trouxeram este elemento para a história humana, esta visão de que há uma demanda da parte de Deus por igualdade e dignidade para todos os seres humanos; pelo fim da pobreza, pelo respeito ao diferente, pelo abrigo ao estrangeiro, pela noção de direito humano. Isso vem diretamente de Deus. A ideia está espalhada por todo o Antigo Testamento, desde a lei de Moisés que é reforçada pelo profetismo hebraico que, na verdade, é um trabalho de recuperação do espírito da lei de Moisés, que clama por justiça. Este é o primeiro referencial da Missão Integral. É possível ver isso nos escritos de René Padilla, Samuel Escobar, Orlando Costas, Pedro Araña e muitos outros.
O outro referencial da Missão Integral é a recuperação da noção do Reino de Deus e sua justiça, a ideia de que esse Reino é um outro sistema que se opõe ao sistema vigente – tanto ao capitalismo quanto ao comunismo. Trata-se de um outro sistema, que vem não para estar ao lado dos regimes em pauta, mas para substituí-los, para erradicá-los. Isso aparece no profeta Daniel que, quando responde ao sonho de Nabucodonosor, fala sobre a pedra que é lançada por mãos não humanas contra a estátua. A estátua, no sonho de Nabucodonosor, sintetiza todas as tentativas humanas de resolver o problema humano sem considerar a hipótese de Deus ou sem considerar a revelação divina, tudo o que os homens tentaram em todos os níveis: o feudalismo, o capitalismo, o comunismo. E a pedra é o Reino de Deus, que vem e derruba a estátua, triturando-a, desfazendo todos seus componentes até transformá-la em pó. Um pó que é varrido pelo vento, de modo que da estátua não fica nem lembrança. A pedra cresce, alarga-se e toma toda a terra, ou seja, uma nova realidade assume o controle da história – e essa nova realidade é o Reino de Deus.
DISCURSO E PRÁTICA: O que se pleiteia, com a Missão Integral, é um discurso pastoral a partir da fé. Este discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, é fruto da proposta missiológica surgida nos Congressos Latino-Americanos de Evangelização (os Clades), na década de 1960, que propugnava que não se pode “evangelizar sem considerar o contexto do evangelizando”. Sob tal ótica, a boa nova que se anuncia emana da realidade da chegada do Reino de Deus, que vem como proposta para a história. A tese daquilo que ficou conhecido como Missão Integral não se propôs a alterar as bases da fé bíblico-histórica, e sim, a ampliar os seus efeitos.
Um discurso pastoral da fé a partir da Missão Integral deve partir da premissa de que Deus se revela na história. De fato, não há, nas Escrituras, nenhuma revelação que não esteja ligada ao tempo histórico, mesmo quando se refere ao futuro. Na escatologia, Deus está apontando para a continuação da história, e não negando-a, tampouco tirando dela a Igreja. Quando, no fim dos tempos, a Nova Jerusalém desce, o texto afirma que Deus vem aos homens: então, ele será o Deus deles e eles, o seu povo. As Escrituras dizem que não haverá mais noite, porque Deus será a luz; nem haverá mais mar, porque cessarão todas as divisões entre os homens. Se não vivêssemos a história, ou se não experimentássemos a alternância entre dia e noite, aquela palavra não faria qualquer sentido para nós. Dizer “não haverá mais noite” nos remete para onde? Ora, remete-nos à história. Portanto, não há como Deus nos falar fora dela. Um Deus que não aparece na história; que não está envolvido com ela; que não tem nada a dizer sobre ela ou que não fala a partir da história, não nos serve. E por quê? Porque somos seres dependentes, o que significa que não conseguimos viver fora da história. Estamos presos a ela, como a alma o está ao corpo. A um ser humano não é possível se ver para além da história, que tem conteúdo e, necessariamente, forma.
Somos seres dependentes, parte do que movimenta a história. Esse é o primeiro pressuposto sobre o qual um discurso pastoral da fé, a partir da Missão Integral de Deus, deve se assentar. Portanto, tudo que nos afeta o faz a partir de nossa dependência. Se algo não nos afeta em nossa dependência, então não nos afeta em coisa alguma. É a partir dessa constatação que podemos falar de um discurso pastoral da fé para o dia a dia. Neste cenário pós-moderno, a Missão Integral surge como resposta bíblica e profética aos anseios humanos. Está inserida na práxisda teologia, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da Igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada. Se o evangelista chega no lugar da evangelização e encontra, no caminho, uma criança brincando no esgoto ao ar livre e bate à sua porta para falar aos seus pais, terá duas opções. Ele anunciará o poder transformador de Jesus de maneira conceitual – sem, contudo, oferecer socorro para que a família saia da miséria – ou lhe trará as boas novas da salvação que podem tirar aquelas almas do inferno, assim como tirar o inferno delas, e fará alguma diferença para a realidade daquela criança, naquela circunstância. Isso deriva da ênfase sobre a prática da Igreja voltada para o cotidiano, parte da proposição do professor René Padilla, um dos pioneiros na reflexão do tema junto com os outros teólogos nas décadas de 1950 e de 60, e que foram apresentadas nos Clades, realizados  em Bogotá, na Colômbia (1969), Huampani, no Peru, em 1979, e, por duas ocasiões – 1992 e 2000 – na capital equatoriana, Quito.
A Missão Integral diz que a pessoa será abençoada pela presença da Igreja na sua realidade, pois a Igreja não tolerará aquele estado de injustiça. Essa proposição se sustenta no declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mateus 24.14; Lucas 4.43); portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial, antecipada pelo profeta Daniel no capítulo 2 de seu livro e manifesta pela Igreja. Porém, só será implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí, há pecado pessoal e pecado estrutural. E, para pecadores que incorrem em uma só ou nas duas formas de transgressão, a Igreja propõe arrependimento. E só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal. Porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus, conforme Mateus 5.16.
IGREJA NO COTIDIANO: O chamado Pacto de Lausanne, tido, equivocadamente, como o nascedouro da noção de Missão Integral, é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça. Protagonizado pelo teólogo anglicano John Stott, já falecido, o encontro promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana e as contribuições africanas e asiáticas. O resultado deste inusitado e bendito amálgama foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, onde a concepção de “Evangelho todo” é compreendido como o poder de Deus para a salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade e dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça – onde "o homem todo"é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, estético e ético, que a tudo afeta e por tudo é afetado e que, alcançado pelas boas notícias do Reino, começa a mostrar os sinais da presença desse Reino, que se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.
Já a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das etnias humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do Evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mateus 25.31-46). A Missão Integral é ortodoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da Missio Dei, uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Trino Deus.
A Missão Integral faz exegese histórico-gramatical; sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplicá-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao tempo contemporâneo. Por isso, sua abordagem sobre os fatos serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, e nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.
O referencial basilar da Missão Integral é a doutrina da presença (Lucas 17.21) e da iminência do Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o governo do Ungido pela implantação da sua justificação e justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação e sinalizadora da presença e do princípio do Reino de Deus, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça. A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do Evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas, conforme Mateus 11.5.

25 de fevereiro de 2016

Oração em favor da Assembleia Legislativa.


Oração de James Henley Thornwell

"Todo-Poderoso e Eterno Deus, o Pai, o Filho e o Santo Espírito, o Criador dos céus e da terra, nós O adoramos como o único vivo e verdadeiro Deus. Tu somente és o Senhor. Tu governas sobre tudo, fazendo o que Te comprazes entre os exércitos do céu e os habitantes da terra; e ninguém pode impedir a Tua mão, ou questionar-Te sobre o que fazes. Teu reino é um reino eterno e o Teu domínio se estende através das gerações. Tu mereces reinar; pois, somente Tu és sábio, bom e santo. Também Tu és misericordioso e gracioso. Especialmente damos-Te graças pelo Teu indizível amor na redenção de pecadores por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Em Teu nome nos apresentamos agora diante de Ti, e, para o Teu louvor, nós humildemente imploramos o Teu favor e benção. Confessamos a nossa indignidade ao receber o mínimo das Tuas misericórdias; pois temos pecado, e pecamos gravemente contra Ti. Oh Deus! Não entre em juízo conosco, mas garanta-nos o verdadeiro arrependimento. Concede-nos graça ao buscar-Te de todo o nosso coração, e preserve-nos na obediência dos Teus mandamentos.

Nós adoramos a Ti como o Rei das nações. Reconhecemos a suprema autoridade de Tua lei; e suplicamos para que sejas o nosso Deus, e o Deus de nossos filhos, através de todas as gerações. Especialmente, oh Deus, fazemos súplicas para que conduzas pela Tua sabedoria em todas as deliberações desta Assembleia Legislativa. Vão é o auxílio do homem. Devemos confiar-nos, bem como os interesses de nosso país em Tuas mãos; e, suplicar-Te que transmita à esta Assembleia a inspiração do Santo Espírito, dando a cada membro uma boa compreensão, motivos puros, e uma clara percepção do que é correto e do que deve ser feito. Livra-nos do erro, do orgulho e das paixões profanas. Reveste-nos com uma verdadeira humildade. Ensina-nos a Tua vontade, e dá-nos forças para realiza-la.

Oh Deus! Sê consistente com a Tua vontade e repreende todos os elementos problemáticos; fale a paz aos tumultos do povo; restaure a verdade, a justiça e o amor fraternal. Reúna os Estados desta Confederação ajuntando-os pelos laços da justiça e da paz. Mas, qualquer que seja a questão, garanta a paz e a prosperidade desta nação e de todos os Estados que têm comum interesse conosco. Una-os, reunindo em harmonia e amor, e dá-lhes um nome e um lugar de honra entre as nações da terra. Oh! Garanta-nos que possamos tê-Lo como o nosso Deus, e proteja-nos do poder de toda adversidade. Em Tuas mãos nós recomendamos a nossa causa; e tudo o que buscamos é a Tua paternal direção e benção."

Extraído de B.M. Palmer, The life and letters of James Henley Thornwell (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1986), pp. 511-512.
Tradução livre
Rev. Ewerton B. Tokashiki

Fonte: Doutrina Calvinista.

21 de fevereiro de 2016

O pastor ideal.

Lourenço Stelio Rega
Ao longo de quase quarenta anos – desde que fui ordenado ao pastorado –, tem sido possível observar profundas mudanças em relação àqueles que exercem o ministério da Palavra. Elas não acontecem apenas no perfil dos pastores, como também nas práticas pastorais e até mesmo no modo com que o próprio povo de Deus os tem considerado. Lembro-me, com saudades, dos primeiros tempos, ainda jovem, ao ver colegas pastores envolvidos com alegria e muita esperança no ministério. Não é este o cenário que, em geral, hoje tenho assistido. O que se observa, e é extremamente preocupante, é a redução da alegria, da autorrealização e da esperança daqueles que ocupam o púlpito. E tal sentimento afeta suas famílias.
Sem dúvida, há muitos pastores que ainda nutrem elevado ideal ministerial. Mas, lamentavelmente, tem havido graves distorções sobre o que seja, de fato, pastorear o que chamamos de rebanho de Deus – mesmo porque, por outro lado, têm surgido pretensos pastores que mais se aproveitam do poder e do dinheiro das pessoas do que, de fato, exercem o pastorado com integridade. E, neste ponto, temos observado diversos caminhos perigosos. Em primeiro lugar, o que vemos é o Cristianismo sendo reduzido a atividades, programas e eventos eclesiásticos e pregação. O domingo acaba se tornando um transe de fim de semana, onde a celebração dá lugar à agitação. O domingo – dia de descanso e reflexão – acaba se tornando em dia de cansaço.
É claro que o pastoreio não é uma atividade simples. Pastores são chamados a dar conta de tantas atividades e responsabilidades que acabam não tendo tempo de pastorear, cuidar do rebanho, visitar um membro da igreja que foi hospitalizado ou mesmo telefonar parabenizando uma ovelha no dia de seu aniversário. A diretoria da igreja ou da denominação cobra produtividade; reuniões sem fim são realizadas; novos projetos são apresentados a cada instante, muitos dos quais envolvendo atividades bem diversas do verdadeiro pastoreio. E o ministro do Evangelho, de quem se cobra sempre uma palavra inspirada e uma conduta acima de qualquer crítica, acaba não tendo tempo para orar, ler a Bíblia, fazer seu devocional ou cuidar adequadamente da família. Filhos e cônjuges precisam ser pastoreados, e o pastor acaba não dando tempo para isso – e a família acaba se frustrando com seu pastor. Paradoxalmente, há um pastor dentro de casa, mas sua própria família é órfã de pastoreio.
Para ganhar o coração e a credibilidade de uma ovelha, leva-se muito tempo. Porém, para perder a confiança e criar frustração e desapontamento, basta um segundo – seja a falta de uma visita no momento mais difícil ou a ausência de uma palavra de decisão em um momento de conflito.
Durante mais de dez anos, fiz um levantamento de dados entre colegas de púlpito de uma grande denominação em nível nacional. Os resultados, em alguns itens, chegam a ser assustadores. Treze por cento dos pastores, por exemplo, dizem que as atividades eclesiásticas empobreceram sua vida familiar; 65% admitem-se incapazes para o exercício do ministério; e 30 por cento dos pastores que ouvi dizem que, se pudessem voltar atrás, mudariam muita coisa em sua vida e ministério.
Há mais. Cerca de 30% dos pastores não têm desenvolvido uma perspectiva de vida para daqui a cinco anos; e 75% dizem que não têm disciplina no uso do tempo. Sete em cada dez deles não estão contentes com o tempo que investem na vida devocional e 75% não têm culto doméstico regularmente em seu lar (dez anos antes, o índice era 64%). Não é difícil concluir que algo vai mal. Um retrato com este cenário nos oferece algumas indicações. Em primeiro lugar, o senso de empobrecimento numa atividade de trabalho pode indicar a perda de sentido em objetivos da vida, de modo que o empenho e criatividade fiquem prejudicados. Isso cria um círculo vicioso com graves consequências futuras. Por outro lado, o investimento na vida devocional e a autodisciplina na natureza de trabalho pastoral são fundamentais. Para falar de Deus, é necessário falar com Deus em primeiro lugar. Então, como desenvolver o ministério da pregação, do ensino, do aconselhamento – naturais na atividade pastoral – sem, contudo ter dedicada vida devocional? A indicação de 70% neste item é preocupante, pois reflete diretamente nas atividades nobres do pastoreio. Sem púlpito, atuação no aconselhamento e ensino enriquecidos, como alimentar o povo? O que estariam fazendo estes colegas no ministério, se não dedicam tempo para falar com Deus? Estariam tão ocupados com os afazeres pragmáticos da igreja? Isso, sem falar na autodisciplina que indica carência na gestão do tempo. Tudo isso junto acarreta muita frustração e tédio. Ao fim de cada dia, o indivíduo se sente frustrado e inútil, com elevado senso de culpa.
DESAJUSTES
Paulo, em suas epístolas, adverte a Tito e Timóteo de que quem não cuida de sua casa, não deve cuidar do rebanho de Deus. Ora, se a maioria dos pastores pesquisados parece desajustada em sua vida familiar, o que se pode esperar deles? A tristeza na vida de filhos e esposas de pastores já tem sido notada por diversos líderes mais experientes. Minha mulher, que é psicóloga, tem trabalhado com esposas de pastores e notado a decepção que muitas delas nutrem em relação ao ministério, à igreja e até com o próprio marido pastor. Isso, ainda sem contar com os desastres emocionais que a cada dia aumentam na vida de muitos pastores, com envolvimentos fora do casamento ou, simplesmente, matrimônios frustrados.
O problema é que, ao longo do tempo, foi se formando a imagem de que o “homem de Deus” é alguém sobrenatural, com capacitação gigantesca, portador de dons e talentos espetaculares, inquestionável autoridade e elevado nível de resistência às pressões, asperezas, obstáculos e intempéries da vida e ministério. Contudo, o tempo também foi provando que este imaginário não era compatível com a natureza de qualquer ser humano – afinal, pastor não é como Jesus, que tinha a natureza humana e divina. Somos, os pastores, como qualquer ser humano na face da terra: imperfeitos, limitados, pecadores. Gente, simplesmente, e não máquina. Aliás, até as máquinas falham e necessitam de ajustes. É claro que um líder religioso não pode tratar com autoritarismo, indelicadeza, omissão ou irresponsabilidade o seu rebanho. Mas, também, a igreja não pode tratar o pastor como se fosse alguém sem sentimentos, sem família, que não tivesse dor e fosse impermeável ao sofrimento. Afinal, pastor também é gente.
Pastores necessitam ser pastoreados. As igrejas, denominações e associações ou ordens de pastores necessitam rever suas prioridades e agendas de estudos e atendimento, considerando os atuais cenários, para ajudar os pastores a enfrentar os sofrimentos e os desastres ministeriais. Os seminários e faculdades teológicas necessitam criar oportunidades de capacitação, atualização e recapacitação continuada para pastores em temas não apenas teológicos e bíblicos, mas, também no trato dos dilemas pastorais, pessoais, matrimoniais e familiares. Tenho trabalhado em educação teológica e ministerial há quase 40 anos porque acredito que é possível sempre formar novas gerações com novas esperanças. Quase que semanalmente, digo aos meus alunos que tenho esperança neles e que poderão investir no ministério, acreditar no pastoreio de vidas e valorizar isso.
Vemos, assim, que o modelo de ministério pastoral que temos adotado por décadas demonstra estar perdendo o fôlego. É notória a presença cada vez maior, em nossas igrejas, de alunos universitários, profissionais liberais, executivos, empresários e funcionários públicos capacitados, que colocam em desafio o modelo que, tradicionalmente, tem sido construído, inclusive, nos bancos dos seminários. Tais espaços, antes chamados escolas de profetas, necessitam preparar não mais obreiros, repetidores de práticas ministeriais que bem cabiam para o passado recente, mas que hoje já não conseguem dar conta do recado.
“ÉPOCA DA PERFORMANCE”
Vivemos na época da performance, da busca por soluções para os dilemas germinados pela cultura pós-moderna, que coloca o indivíduo e a sua subjetividade como ponto de partida e legitimação da verdade e da razão da vida. As pessoas já não estão mais interessadas na eternidade, nas ruas de ouro da Nova Jerusalém. Vivemos num mundo em que tudo parece valorizar a diversidade e a busca pelas fronteiras da prática moral e ética, onde tudo é válido, desde que traga a felicidade. Então, vivemos numa cultura do supérfluo e do vale tudo – e será que nossos púlpitos têm conseguido trazer respostas seguras e bíblicas para este turbilhão de contestações? Será que o clássico plano da salvação, fortemente calcado no Evangelho escatológico, que valoriza a morte e a busca pelo além, estaria conseguindo demonstrar a profundidade da mensagem bíblica, apontando para uma significativa razão de viver?
Tudo isso sinaliza a urgente transformação do modelo de formação teológica e ministerial, que precisa mudar de foco – da formação de obreiros para a formação de líderes. Obreiros são copiadores; são operadores práticos de um sistema; são ensinados a cumprir o verbo “fazer” no ministério. Obreiros são treinados para administrar e priorizar o dia-a-dia das atividades da igreja, e não necessariamente para ter uma visão de futuro e interpretar este mundo  levando em conta tanto o ensino bíblico-teológico como primeiro ponto de partida, mas, também, considerando análises do ambientes culturais e ideológicos em que vivemos. Urge ao ministro do Evangelho conhecer as tendências que estão cimentando o chão para novos cenários, mobilizando sua visão para a busca de caminhos seguros para que o povo de Deus possa não apenas sobreviver como participar, construtiva e criativamente, da realidade histórica em que vive.
Necessitamos não apenas de escolas de profetas, mas também de escolas de líderes, de mestres, de conselheiros e conselheiras, de gente que pastoreie o povo de Deus com sabedoria, criatividade, integridade e atualidade. Homens e mulheres de Deus que saibam se valer de uma apologética dialogal, pois a lógica do confronto já não conquista ninguém. Nossos púlpitos necessitam, com urgência, atenuar a ênfase cartesiana e racional das mensagens e tratar o povo de Deus como gente de carne e osso, e não como anjos ou seres que estão apenas esperando a morte chegar. Os pastores precisam entender que as ovelhas que o assistem pregar todo domingo são seres vivos e reais, que vivem uma realidade concreta, que necessitam de respostas vivas e concretas para os seus dilemas quotidianos. Precisamos voltar a falar ao coração das pessoas – e não apenas falar ao seu cérebro.
É preocupante quando ouvimos pastores, inclusive que comandam grandes igrejas, falando com orgulho contra a reflexão, contra a busca de conhecimento. Eles querem que tudo se reduza ao viés prático, utilitário, da fé e da mensagem de Cristo. Ao invés de priorizar a salvação das almas e a transformação das vidas, parecem mais interessados em fidelizar clientes de bens simbólicos da religião. Curiosamente, até no meio empresarial se buscam modelos mais eficazes de liderança. O vice-presidente da megacorporação Google, Laszlo Bock, menciona cinco critérios para o ingresso na carreira da empresa: curiosidade, capacidade de aprender, humildade, motivação e liderança. Como seria bom se nossos pastores buscassem tais elementos para seus ministérios e vida pessoal… São critérios bem compatíveis com a visão bíblica de líderes que possam levar o povo de Deus com segurança neste mundo cada vez mais afastado do divino.
Os pastores contemporâneos precisam rever conceitos, prioridades e ocupações. Metas e alvos são bons de se perseguir, mas só – e somente só – se nos conduzirem a um novo planejamento de vida e ministério que leve em conta a singeleza do Evangelho, o valor do outro e, sobretudo, a relação com Deus. Somente assim os ministros não serão apenas pregadores, mas pastores na acepção plena do termo, que conduzem os outros e a si mesmos aos pastos verdejantes do Senhor, onde há paz e plenitude. O diálogo, a oração e a dependência irrestrita de Deus são o caminho ideal para a manutenção saudável da vida na igreja.
Fonte: Cristianismo Hoje.

7 de outubro de 2015

Será que existe Deus? - Texto de Emil Brunner.


Se alguém pergunta nestes termos, só é possível responder como aquele sábio grego, ao qual curiosos perguntaram, assim, por Deus: Silenciou. Esta é a única resposta cabível a perguntas da curiosidade: "Existe um Deus? Estou curioso por saber se existe ou não". Convinha, talvez, retrucar: Não, Deus não "existe". Existe a cordilheira do Himalaia, existe o planeta Urano, existe o elemento rádio, existem, enfim, todas aquelas coisas de que falam as enciclopédias. Mas, Deus não "existe", ou, em outras palavras: Deus não existe para os curiosos. Deus não é um objeto da ciência, não é algo que possamos incorporar ao nosso patrimônio de sabedoria, como o filatelista adquire e inclui em sua coleção uma estampilha rara, para dizer: Ali está, a mais linda, a mais preciosa de todas. Deus não é algo nesse mundo, quiçá o maior dos seres ou o maior dos habitantes da Terra. Deus não está no mundo, pelo contrário, o mundo está em Deus. 

Se respondêssemos à tua pergunta: "Sim, Deus existe", irias para casa enriquecido, apenas, por mais uma ilusão. Haverias de pensar: Deus também é algo daquilo que "existe". Precisamente isso ele não é, se é verdadeiramente Deus. Ele nunca é algo ao lado ou entre outras coisas. Não há algo congênere com o que existe. Montanhas, planetas e elementos são objetos da ciência; mas Deus não. Porque Deus é a causa de que há algo para conhecer e saber. Sem Deus nada existiria. Sem Deus nada poderíamos saber. Só é possível saber algo porque Deus é. Só é possível perguntar por Deus, porque ele já é o autor secreto da pergunta. Senão vê. Se perguntares, sinceramente, por Deus, não como curioso, não qual filatelista espiritual, mas sim, aflito, de coração angustiado, acuado pelo medo de que poderia não haver um Deus, e, consequentemente, tudo ser em vão e a vida toda um grande absurdo, se perguntares assim por Deus, já sabes em princípio que ele vive. Não poderias perguntar, assim, pelo Altíssimo sem saber algo dele. Queres que haja Deus, porque do contrário tudo é absurdo. 

Teu coração, efetivamente, já sabe de Deus, porque, do contrário, o mal não seria mau e o bem não seria bom; seria tudo o mesmo. Não há dúvida, sabes que Deus é, por saberes que o bem e o mal não devem ser iguais. Talvez duvides da existência de Deus em face das muitas injustiças que há no mundo. Ainda não notastes que, duvidando, crês em Deus? Que a justiça esteja com a razão e não com a injustiça, não é outro postulado que esse: Há um Deus. Teu coração protesta contra a injustiça, porque conhece a Deus. Quando perguntas por Deus, ele já está à tua retaguarda e faz com que possas perguntar assim.

Não é o coração apenas; a natureza também nos fornece indícios de Deus. Nunca vi que o acaso criasse ordem, que do acaso surgisse algo de lógico, harmonioso e até artístico. Não é crendice crer que Deus criou o mundo; mas demonstra falta de absoluta falta de critério e juízo quem acredita que o olho humano, a constituição de um inseto ou um campo florido nada mais sejam do que obras do acaso. Quem vê um muro, logicamente deduz: Mãos humanas empilharam essas pedras, não o acaso. Milhões de vezes mais complicada e artística é a constituição da retina do olho. Ignorar ou desconsiderar esse fato é tudo, menos prova de inteligência. A pergunta "Existe Deus?" é, mais precisamente, uma enfermidade psicológica. Quase diria que é pergunta de um louco, de uma pessoa que não pode mais ver as coisas na sua simplicidade, sobriedade e clareza. Mas algo dessa loucura está passando por todo o mundo, e nós todos sentimos suas conseqüências. Pode-se dizer, no entanto, que estamos sofrendo de uma loucura nova. Até à nossa era os homens -- pelo que conhecemos de nossa história -- não perguntaram: "Existe um Deus?" e sim: "Como é Deus?" Pelo que parece, os sucessos da ciência e da técnica nos subiram à cabeça, perturbaram nossos sentidos. Achamos que tudo deve ser explicado pela razão e o que não somos capazes de realizar com nossa razão, seria acaso. 


Consideramo-nos os únicos a fazer ordem e algo de artístico no mundo, não percebendo sequer que, para realizar algo de artístico, precisamos de um cérebro maravilhoso e mãos artísticas que certamente, não criamos nós mesmos. Perguntar "Existe Deus?" é fugir da seriedade. Onde há seriedade, sabe-se: O bem não é igual ao mal, nem o mal igual ao bem. Justiça e injustiça são coisas diversas. Deve-se fazer o que é justo, deve-se evitar o que é injusto. Há uma ordem sagrada, à qual estamos sujeitos, querendo ou não. A seriedade é o respeito à voz da consciência. Se não há Deus, então a consciência é um mero hábito arcaico e primitivo, que para nós nada vale. Se não há Deus, então cesse com o esforço em prol de uma vida justa. Tudo dará no mesmo: canalha ou santo. Mas isso são, apenas, delírios. Não temos com que segurar quem fala assim: que vá o seu caminho.

Mesmo assim, -- se há Deus, por que é preciso perguntar por ele? Nosso coração não se desfaz da questão. Sabe de Deus, mas nada com certeza. Nossa consciência nos fala de Deus, mas sem clareza. Nossa razão atesta Deus, e, mesmo assim, não sabe quem ele é. O mundo aponta para Deus como que com milhões de dedos -- mas não nos pode mostrá-lo. Que é Deus, que pretende conosco, que deseja de nós, qual o seu plano para com o mundo? Só poderíamos conhecer bem a Deus, se ele a nós se revelasse. A razão, a consciência e a natureza com suas maravilhas nos afirmam que há um Deus, mas não nos explicam quem ele é. Ele mesmo no-lo diz em sua revelação.

BRUNNER, Emil. Nossa Fé.  Pág. 9 ss. São Leopoldo/RS: Sinodal, 2007.