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1 de abril de 2017

O sermão escatológico de Jesus.

Job. Nascimento

1 INTRODUÇÃO

No presente artigo sobre o capítulo 13 de Marcos encontrou-se alguns apontamentos importantes, especialmente no que diz respeito à relação deste capítulo com a escatologia cristã e a apocalíptica judaica. Augustus Nicodemos (2000) intitula essa perícope como “o sermão escatológico de Jesus”. O mesmo autor argumenta que há uma relação entre o Novo Testamento e os apocalipses judaicos, essa relação está além do gênero literário.
            Stern (2009) sugere que o Sermão escatológico de Jesus em Marcos 13 é um “pequeno apocalipse”. Bultmann (2007), por outro lado, afirma que o mundo do Novo Testamento refletia um misto de idéias gregas com a mitologia apocalíptica judaica. Observa-se ainda que a busca pelo Jesus Histórico não pôde ignorar o aspecto escatológico de sua pregação.
            Segundo Barclay (2010), o capítulo 13 de Marcos é um dos capítulos mais difíceis do Novo Testamento para a compreensão do leitor moderno. Isto é assim porque é um dos capítulos mais judaicos da Bíblia. Do princípio ao fim se desenvolve dentro da história e as idéias judaicas. Em todo ele Jesus emprega termos e figuras muito familiares para os judeus de seus dias, mas que são muito estranhas, em realidade desconhecidas, para muitos leitores modernos.
Mesmo assim, Barclay (2013) afirma que não é possível desprezar este capítulo e passá-lo por alto, porque nele tem-se a fonte de muitas idéias a respeito da Segunda Vinda de Jesus. A dificuldade desta doutrina é que, atualmente, ou ela é desdenhada completamente e nem sequer se pensa nesta doutrina ou se perde completamente o equilíbrio e chega a ser para alguns virtualmente a única doutrina da fé cristã, mistificando-a.
O sermão escatológico de Jesus Cristo mostra a sua importância e validade tanto para o primeiro público ouvinte como para a igreja atual, pelos seguintes pontos: 1) descrição do princípio das dores (Marcos 13.5-13); 2) o tempo de aflição para toda a Judéia (Marcos 13.14-23); 3) a vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27); 4) o pronunciamento acerca da proximidade da vinda de Cristo e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37); 5) exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37); 6) o dia do juízo.

2 O SERMÃO ESCATOLÓGICO DE JESUS

            Esse sermão encontra-se localizado textualmente sucedendo a afirmação de admiração do templo de um discípulo: “ao sair Jesus do templo, disse um de seus discípulos: Mestre! Que pedras, que construções!”[1]. Assim, em resposta à esta pergunta, Jesus faz uma declaração profética da destruição iminente do templo de Jerusalém: “(...) vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada”[2].
            Posteriormente, inicia-se o sermão escatológico de Jesus Cristo que constitui-se como uma resposta para as preocupações dos discípulos de quanto isso poderia ocorrer. Alguns pesquisadores faz uma lista de objetivos explícitos ou implícitos de Jesus ao pronunciar este sermão escatológico.

2.1 OBJETIVOS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

Encontra-se várias listas de objetivos que são feitas por diversos pesquisadores. No entanto, cita-se a mais recorrente entre eles que é a lista também descrita por Nicodemus (2000), que argumenta que o sermão escatológico de Jesus tinha alguns objetivos bastante claros:

1) corrigir a visão dos seus discípulos sobre a destruição do templo, a sua vinda e o fim dos tempos (aparentemente os discípulos haviam confundido como se fossem a mesma coisa);
2) advertí-los a não serem engodados pelos falsos profetas e falsos “cristos” que viriam, e pelos sinais e maravilhas que esses falsos profetas seriam capazes de produzir;
3) estabelecer uma ampla e geral da história, começando com sua morte e ressureição até o juízo final;
4) advertí-los a que estivessem preparados para o dia e a hora desconhecidos de sua vinda.

            Ao tentar corrigir a visão dos discípulos sobre a suntuosidade do templo, Jesus lançava luz para a sua iminente destruição. Por outro lado, Jesus falava de uma realidade mais profunda e importante do que a construção física do templo. Segundo Henry (2002, p. 809):

Observemos quão pouco o Senhor Jesus Cristo valoriza a pompa exterior, onde não existe a verdadeira pureza de coração. Contempla com compaixão a ruína das almas preciosas, e chora por elas, porém, não o encontramos contemplando com tristeza a ruína de uma casa famosa. Então, lembremo-nos do quão necessário é que tenhamos uma morada mais duradoura no céu, e que estejamos preparados para ela por meio da obra do Espírito Santo, e que esta morada seja buscada por meio da fervorosa utilização de todos os meios de graça.

            Quando Cristo redireciona o olhar dos discípulos para uma realidade mais importante que a grandeza do templo, Ele mostra o quão triste será a ruína das pessoas e, por isso, demonstra sua compaixão. Neste contexto, encaixa os pontos dispostos por Nicodemos (2000), em que Cristo fala sobre sua morte, ressurreição e sua segunda vinda, alertando-os para não serem engodados pelos falsos “cristos” que poderiam fazer alguns sinais miraculosos também.

2.2 DIVISÃO DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            De acordo com o entendimento de Nicodemus (2000, p. 13) as partes principais do Sermão Escatológico, são as seguintes:

a)    O princípio das dores (Marcos 13.5-13), onde Jesus informa aos discípulos os sinais dos tempos a acontecerem no período interino, não como uma indicação da proximidade do fim, mas como uma garantia de que o mesmo virá;
b)    O tempo da grande aflição para a Judéia (Marcos 13.14-23), onde Jesus aparentemente retorna à pergunta dos discípulos sobre a destruição do templo com o fim de advertí-los a fugir da destruição eminente de Jerusalém;
c)    A vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27), onde Jesus trata da sua segunda vinda, com uma descrição dos sinais que acontecerão imediatamente antes dela;
d)    O pronunciamento acerca da proximidade da sua vinda e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37), com o propósito de impressionar os discípulos quanto à iminência da parousia;
e)    Exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37);
f)     O dia do juízo.

No primeiro ponto sobre o princípio das dores (13.5-13), Jesus fala aos discípulos sobre os sinais do tempo que antecederão a chegada do Grande Dia[3]. Um dos sinais seria o aparecimento de líderes que afirmarão serem o “cristo”. De acordo com Sproul (2005, p. 1171): “No ano de 130 d.C., Bar Kochba – líder de uma rebelião judaica contra os romanos – reivindicava ser o Messias e era aceito como tal por seus seguidores, e alista (de supostos messias) tem crescido desde então”.
            No segundo ponto do sermão escatológico, Jesus fala sobre o tempo de grande aflição que sobreviria sobre a Judéia (13.14-23). De acordo com Henry (2002, p. 809):

Os judeus apressaram o ritmo de sua ruína ao rebelarem-se contra os romanos, e ao perseguirem os cristãos. Aqui temos uma profecia sobre a destruição que lhes sobrebeio cerca de quarenta anos mais tarde; uma destruição e um estrago como jamais sofreram em toda a sua história. As promessas de poder para perseverarm e as advertências sobre o afastamento, concordam entre si. Porém, quanto mais considerarmos estas coisas, veremos motivos mais abundantes para fugir sem demora a nos refugiarmos em Cristo, e a renunciarmos a todo objeto terrestre pela salvação da nossas almas.

            Apesar da abordagem devocional, Henry (2002) lança luz sobre a predição de Jesus sobre a ruína iminente de Jerusalém. O terceiro ponto do sermão escatológico de Jesus trata do Segundo Advento de Cristo (24-27). Neste sentido, Moody (2010, p. 76), argumenta:

Cristo colocou este grande acontecimento especificamente naqueles dias, após a referida tribulação, obviamente se referindo ao tempo descrito em 13.14-23. Isto exige uma de duas explicações. Ou Cristo viria logo depois de 70 A.D, ou as aflições dos versículos 14-23 têm uma dupla referência, tanto à destruição de Jerusalém por Tito como à Grande Tribulação no fim dos tempos. Considerando que a primeira explicação é impossível, a última interpretação torna-se a chave para se compreender o capítulo como um tudo. A linguagem usada para descrever os abalos nos céus foi em grande parte extraída do Antigo Testamento: Isaías 13.1; 34.4; Joel 2.10, 30,31.

            Dessa maneira, Moody (2010) fala sobre as possíveis interpretações que se poderia dar a esse texto, indicando uma interpretação mais acertada seria a que indica para a volta de Cristo data posterior à destruição de Jerusalém por Tito. Na mesma toada, Moody (2010, p. 77), pondera:

Ainda que seja melhor fugir aqui a um literalismo extremo, não temos motivos para não entendermos estas expressões como se referindo às alterações celestiais reais que precederão imediatamente a vinda de Cristo. De modo nenhum torna-se estranho que um acontecimento tão momentoso seja introduzido dessa maneira. Esta é a volta pessoal e corporal de Cristo à terra com grande poder e glória, que foi descrita em passagens tais como essas Atos 1:11; II Tessalonicenses  1.7-10; 2:8; Apocalipse. 1.7; 19.11-16. "Com o céu obscurecido servindo de cenário, o Filho do Homem se revela no Shequiná da glória de Deus."

            O quarto ponto do sermão escatológico de Jesus trata do pronunciamento sobre proximidade de sua vinda e o caráter repentino e inesperado (28-37). Alguns pesquisadores e biblicistas afirmam que nesse trecho tem-se a aplicação do sermão escatológico de Jesus. De acordo com Henry (2002, p. 809):

Temos a aplicação do sermão profético. Quanto à destruição de Jerusalém, é preciso esperar, pois virá dentro de pouquíssimo tempo. Quanto ao final do mundo, não pergunteis quanto virá, porque o dia e a hora não são do conhecimento de nenhum homem. Cristo, como Deus, não poderia ignorar nada, porque a sabedoria divina, que habitava em nosso Senhor, era comunicada à sua alma humana conforme o beneplácito divino. O nosso dever em relação aos dois casos é estar alertas e orarmos. O nosso Senhor Jesus, quando ascendeu ao alto, deixou algo para que todos os servos façam. Devemos estar sempre vigilantes esperando o seu regresso. Isto se aplica à vinda de Cristo a nós em nossa morte, como também ao juízo geral. Não sabemos se o nosso Senhor virá nos dias de nossa juventude, na idade madura ou em nossa velhice, porém, assim que nascemos começamos a morrer e, portanto, devemos esperar pela morte. O nosso grande esforço deve ser no sentido de que, quando vier o Senhor, não nos encontre confiados, agradando a nossa concupiscência em conforto e preguiça, despreocupados em relação à nossa obra e dever. O Senhor diz a todos que velem, para que sejam encontrados em paz, sem manchas e irrepreensíveis.

Conforme exposto acima por Henry (2002) o último trecho do sermão escatológico de Jesus Cristo é um chamdo à vigilância constante porque nenhum homem sabe o dia e a hora em que virá o filho do homem. Finaliza-se o sermão com o dia do juízo. Após essa abordagem mais didática e biblicista, passa-se a verificar os aspectos históricos deste sermão escatológico de Jesus Cristo.

3 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            Pode-se dividir os aspectos históricos do sermão escatológico de Jesus Cristo em alguns blocos específicos: a) a ruína de uma grande cidade; b) a agonia de uma grande cidade; c) o caminho difícil de fuga; d) a segunda vinda de Cristo. Dessa maneira, pode-se verificar a maior parte do sermão escatológico de Jesus refere-se à destruição de Jerusalém e fuga de seus habitantes, posteriormente, a segunda volta de Cristo.

3.1 A RUÍNA DE UMA CIDADE (MARCOS 13:1-2)

De acordo com Barclay (2010), O templo construído por Herodes era uma das maravilhas do mundo. Começou a ser construído nos anos 20-19 a.C., na época do Jesus não estava ainda completamente terminado. Estava edificado sobre a cúpula do Monte Moriá. Em vez de nivelar a cúspide da montanha se formou uma sorte de grande plataforma levantando muros de blocos maciços que encerravam toda a área. Sobre esses muros se estendia uma plataforma, reforçada por pilares sobre os quais se distribuía o peso da superestrutura.
Nesse sentido, Josefo (2012) diz que algumas dessas pedras tinham treze metros de comprimento por quatro de alto e seis de largura. Seriam algumas dessas pedras imensas as que motivaram o assombro dos discípulos galileus. A entrada mais magnífica ao templo era a do ângulo Sudoeste. Aqui, entre a cidade e a colina do templo se estendia o Vale do Tiropeion, cruzado por uma ponte maravilhosa.
Segundo o entendimento de Josefo (2012) cada arco tinha quatorze metros e em sua construção se empregaram algumas pedras de oito metros de comprimento. O vale corria a não menos de setenta e cinco metros por baixo. A largura da brecha que passava por cima da ponte era de uns cento e vinte metros e a própria ponte tinha um comprimento de dezessete metros. A ponte conduzia diretamente ao Pórtico Real. Este consistia em uma dupla fila de colunas fortes, todas de doze metros de altura, e todas cortadas de um sólido bloco de mármore.

3.2 A AGONIA DE UMA CIDADE (MARCOS 13.14-20)

Segundo Rienecker (2005), neste trecho Jesus antecipa algo do tremendo terror do cerco e a queda final de Jerusalém que iria acontecer. Esta advertência foi que quando vissem os primeiros sinais de que isso ocorreria, os habitantes deveriam fugir a tempo, sem se preocuparem em recolher as roupas ou salvar os seus bens. No entanto, verificou-se posteriormente que o povo fez exatamente o contrário. O povo se aglomerou em Jerusalém e a morte chegou das formas mais terríveis possíveis. Segundo Barclay (2010, p. 34):

O que Jesus quer dizer quando fala da abominação desoladora? Nos dias de Jesus os homens esperavam não só o Messias, mas também esperavam a emergência de uma potência que seria a encarnação do mal, uma potência que reuniria a seu redor tudo o que estava contra Deus. Paulo chamou a essa potência o homem do pecado (2 Tessalonicenses 2:3).
           
Verifica-se que no ano 70 D.C. Jerusalém caiu diante do sítio do exército do General Tito, que posteriormente se tornou imperador de Roma. Segundo Barclay (2010, p. 35):
Os horrores desse sítio constituem uma das páginas mais negras da história. O povo da campina se amontoou em Jerusalém. Tito não teve alternativa que render a cidade por fome. A questão se complicou pelo fato de que até em momentos tão terríveis havia seitas e facções dentro da própria cidade, Jerusalém estava em perigos de fora e de dentro.

            Observa-se, de acordo com Josefo (2010) que formam levados cerca de noventa e sete mil cativos e cerca de um milhão e cem mil morreram por inanição ou feridos pela espada.

3.3 O CAMINHO DIFÍCIL (MARCOS 13.9-13)

Segundo Barclay (2010), Jesus não deixou qualquer dúvida para seus seguidores que eles tinham escolhido um caminho mais difícil. Não se podia afirmar que não tinha conhecido de antemão as condições do serviço de Cristo. O ser entregue aos concílios e ser açoitados nas sinagogas se refere à perseguição judaica.
Verifica-se que em Jerusalém havia o grande Sinédrio, que era conhecido como a corte suprema dos judeus, mas cada povo e aldeia tinham seu Sinédrio local. Diante desses Sinédrios locais seriam julgados os hereges que confessassem para serem açoitados publicamente nas sinagogas.
Sendo assim, os governantes e reis se referem a processos ante os tribunais romanos, tais como o que Paulo enfrentou perante Félix, Festo e Agripa. A conclusão é que os cristãos eram maravilhosamente fortalecidos em seus julgamentos e saiam vitoriosos ou como mártires.

3.4 SUA SEGUNDA VINDA (MARCOS 13.7-8, 24-27)

Neste ponto, como já exposto acima, Jesus tratou de forma inconfundível sobre seu retorno. Freston (2010) afirma que o interessante é que as coisas que Jesus profetizava estavam, de fato, ocorrendo. Cristo profetizou guerras e os partos estavam, realmente, pressionando as fronteiras do império romano. Segundo Barclay (2010, p. 37):

Jesus Profetizou terremotos e uns quarenta anos depois o mundo romano ficava estupefato ante o terremoto que devastou a Laodicéia, e fascinado pela erupção do Vesúvio que sepultou em lava a Pompéia, que durante séculos permaneceu ignorada. Profetizou fomes, e a houve em realidade em Roma nos dias do Cláudio.

Outro ponto relevante deste trecho do sermão escatológico de Jesus é o que diz respeito à ressurreição dos mortos justos. Neste sentido, Moody (2010, p. 79), relata:

Neste ponto acontecerá a ressurreição dos justos mortos e a transformação dos santos vivos (cons. I Co. 15.51-53; I Ts. 4.13-18). Então ele reunirá os seus escolhidos, os redimidos de todas as dispensações, presente e passadas. Quanto à palavra escolhidos. A palavra episynaxei, ajuntará, é a forma verbal do substantivo episynagôgê, "ajuntamento", em II Ts. 2:1 (reunião). Ajuntar-se-ão com o Senhor descendo, vindos de todas as partes da terra (dos quatro ventos), até mesmo dos recantos mais remotos (da extremidade da terra até à extremidade do céu).

Nesta passagem o que se deve verificar é o fato de que Jesus afirmou que voltaria. Pode-se dizer que o foco do sermão escatológico de Jesus era muito mais que uma preparação dos discípulos para os últimos dias e um programa detalhado sobre a história, como ocorre em alguns apocalipses judaicos.
Verifica-se que os sinais dos tempos que foram elencados por Jesus são mais uma confirmação de que Deus trará um fim do que marcadores de períodos determinados da história humana. Jesus acaba trazendo uma tensão entre o “já” e o “ainda não” no imaginário apocalíptico. Por tanto, apesar de ter algumas semelhanças com a apocaliptica judaica, o sermão escatológico de Jesus tem foco distinto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
           
O sermão escatológico de Jesus conforme registrado em Marcos 13, apesar de ser considerado como uma obra da apocaliptica judaica, porém, por baixo das semelhanças externas de imagens, linguagens e tópicos, há profundas diferenças quanto aos temas básicos como a visão do mundo presente, a concepção messiânica e o lugar de Israel e dos gentios na história. No sermão escatológico, uma abordagem cristológica da história aparece em destaque.
Jesus se mostra como o centro da história e aponta para uma grandeza maior do que a construção de um templo. A grandeza estava nas pessoas que armazerariam a mensagem do Evangelho. O Evangelho em si é maior do que qualquer construção humana, pois, passará o templo, os céus e a terra, mas ele não passará.
O sermão escatológico de Jesus alerta os seus discípulos no sentido de estarem sempre trabalhando. Desse modo, a mensagem de Jesus surtiu efeito nos primeiros cristãos que, pois, eles foram fortalecidos a não esmorecer diante das advercidades, perseguições e embates dos mais diversos. O sermão escatológico de Jesus é um convite para um redirecionamento de olhar, para focar naquilo que é eterno e deixar de lado o que é terreno.

 REFERÊNCIAS

BARCLAY, William. Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo: Novo Século, 2000.

FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Nem Anjos nem Demônios. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

MOODY, D.L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Hagnos, 2010.

NICODEMUS, Augustus. O sermão escatológico de Jesus: análise da influência da apocalíptica judaica nos escritos do Novo Testamento. Fides Reformata, vol. 3. 2000.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. 5ª edição. São Paulo: Editora Esperança, 2005.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Atos, 2008. 






[1] Marcos 13.1. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[2] Marcos 13.2. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[3] Na expressão: “Grande dia”, leia-se: “dia da volta do Filho do Homem”.

19 de março de 2017

Vida provada por amor.

Texto: I João 3.14.
Fonte: SPURGEON, Charles. 
Introdução: Sabemos que estamos mortos: não tínhamos sentimento, quando a lei e o evangelho se dirigiam a nós; não tínhamos fome e sede de justiça; não tínhamos força de movimento, rumo a Deus, em arrependimento; não tínhamos a respiração da oração ou o pulso do desejo.

I. Sabemos que passamos por uma mudança singular: o inverso da mudança natural da vida para a morte; não é mais fácil, de descrever do que a transformação que a própria morte produz; essa mudança varia em cada caso, quanto a seus fenômenos exteriores, mas é essencialmente a mesma em todos. Como regra geral, seu curso é como segue: começa com sensações dolorosas; leva a uma triste descoberta de nossa fraqueza natural; manifesta-se pela fé pessoal em Jesus; opera no homem, mediante arrependimento e purificação; continua mediante a perseverança na santificação; completa-se em júbilo, infinito e eterno. O período dessa transformação é uma era para ser lembrada no tempo e pela eternidade, com grato louvor.

II. Sabemos que vivemos: sabemos que a fé nos deu novos sentidos, compreendendo um novo mundo, desfrutando um reino de coisas espirituais; sabemos que temos novas esperanças, temores, desejos, deleites e assim por diante; sabemos que temos novas necessidades, tais como respiração, alimento, instrução, correção celestial e assim por diante.

III. Sabemos que vivemos, porque amamos. “Porque amamos os irmãos”: nós amamos a eles, por amor a Cristo; nós amamos, por amor à verdade; nós amamos, por causa deles mesmos; nós amamos a eles, porque o mundo os odeia; amamos a companhia deles, seu exemplo e suas exortações. Nós amamos, apesar dos entraves da enfermidade, inferioridade.

Para refletir: O amor do próximo não presta atenção a sua própria vantagem e não considera tampouco se as obras são de grande ou de pequena importância, mas se são úteis e necessárias ao próximo e à comunidade [Lutero].

Considerações Finais: Nos primeiros tempos do Cristianismo, quando ele triunfou sobre o antigo paganismo do mundo romano, ele fundou uma nova sociedade, ligada por esse santo e mútuo amor. As catacumbas de Roma dão notável testemunho dessa graciosa fraternidade. Ali estavam os corpos de membros da mais alta aristocracia romana, alguns até da família dos Césares, lado a lado com os restos de escravos e trabalhadores obscuros.

8 de março de 2017

Sermão de Agostinho sobre o Filho Pródigo.

“Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: <>. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: <>. Mas o pai disse aos servos: <>. E começaram a festa…
I
Não é necessário determo-nos em assunto de que já tratamos; mas se não é o caso de nos demorarmos, sim o é de rememorarmos ( [3] ). Vossa prudência ainda lembra que no domingo passado comentei a parábola, lida no Evangelho de hoje, a do filho pródigo, comentário que no entanto não pude concluir. Deus Nosso Senhor quis, porém, que, passada aquela tribulação ( [4] ), possamos hoje continuar a falar.
Sinto-me obrigado a pagar a dívida do sermão, porque as dívidas de amor sempre devem ser pagas. Assista-me Deus para que meus poucos recursos possam satisfazer a vossa expectativa.
II
O homem que tem dois filhos é Deus que tem dois povos: o filho mais velho é o povo judeu; o menor, os gentios.
O patrimônio que este recebeu do Pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo o que Deus nos deu para que O conhecêssemos e Lhe déssemos culto. Tendo recebido este patrimônio, o filho menor “partiu para um país muito distante”. Distância significa: o esquecimento de seu Criador. “Dissipou sua herança vivendo dissolutamente”: gastando e não ajuntando; malbaratando tudo o que tinha e não adquirindo o que não tinha, isto é, consumindo toda sua capacidade em luxúria, em ídolos, em todo tipo de desejos perversos, aos que a Verdade denominou meretrizes.
III
Não é de admirar que essa orgia acabasse em fome. “Sobreveio àquela região uma grande fome”; fome não de pão visível mas da verdade invisível. E, por causa da fome, “foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região”: entenda-se o diabo, o senhor dos demônios, sob cujo poder caem todos os curiosos ( [5] ), pois a curiositas é o pestilento abandono da verdade. À margem de Deus, por entregar-se a seus próprios recursos, foi submetido à servidão e lhe tocou o ofício de apascentar porcos, o que significa a servidão mais extrema e imunda que costuma alegrar os demônios: não foi por acaso que o Senhor, quando expulsou a legião dos demônios, permitiu que entrassem na piara de porcos. Alimentava-se então das vagens de porcos sem poder saciar-se. Vagens são as vistosas doutrinas do mundo: servem para ostentar mas não para sustentar ( [6] ); alimento digno para porcos, mas não para homens: próprias para dar aos demônios deleitação, mas não aos fiéis justificação.
IV
Até que, por fim, tomou consciência do lugar em que tinha caído; do quanto tinha perdido; Quem tinha ofendido e a quem se tinha submetido. Reparai no que diz o Evangelho: “Entrando em si…”; primeiramente, voltou-se para si e só assim pôde voltar para o pai. Dizia talvez: “O meu coração me abandonou (isto é: saí de mim mesmo)” (Sl 40,13) ( [7] ); daí que fosse necessário, antes, voltar para si mesmo e assim perceber que se encontrava longe do pai. É o que diz a Escritura quando increpa a alguns, dizendo: “Voltai, pecadores, ao coração! (isto é: voltai, pecadores, a vós mesmos!)” (Is 46,8). Voltando para si mesmo, encontrou-se miserável: “Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor” (Sl 116,3-4). “Quantos empregados, diz ele, há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome!” (…)
V
Levantou-se e voltou. Ele, caído por terra depois de contínuos tropeços. O pai o vê ao longe e sai-lhe ao encontro. É dele que fala o Salmo: “Entendeste meus pensamentos de longe” (Sl 139,2). Que pensamentos? Aqueles que o filho tinha em seu interior: “Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados”. Ele ainda nada tinha dito, só pensava em dizer. O pai, porém, ouvia como se o filho já o estivesse dizendo. Por vezes, em meio a uma tribulação ou tentação, alguém pensa em orar, e, no próprio ato de pensar o que irá dizer a Deus na oração, considera que é filho e que, como tal, tem direito a reivindicar a misericórdia do Pai. E diz de si para si: “Direi a meu Deus isto e aquilo; não temo que, em lhe dizendo isto, e chorando, não seja eu atendido pelo meu Deus”. Geralmente, Deus já o está atendendo quando ele diz estas coisas; e mesmo antes, quando as cogita, pois mesmo o pensamento não está oculto ao olhar de Deus. Quando o homem delibera orar, já lá está Aquele que lá estará quando ele começar a oração.
E assim se diz em outro Salmo: “Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor” (Sl 32,5). Vede como se trata ainda de algo interior a ele, de um mero projeto e, contudo, acrescenta imediatamente: “E tu já perdoaste a impiedade de meu coração” (Sl 32,5). Quão próxima está a misericórdia de Deus daquele que se confessa! Não, Deus não está longe de quem tem um coração contrito, como está escrito: “Deus está próximo dos que trituram seu coração” (Sl 34,19). E neste triturar seu coração no país da penúria, retornava ao coração para moê-lo. Soberbo, abandonara seu coração; irado com santa indignação ( [8] ), a ele retorna. Indignou-se contra si mesmo, contra o mal que há em si, para se emendar; retornou para merecer o bem do pai. Indignou-se conforme a sentença: “Irai-vos para não pecar” (Sl 4,5). Pois quem está arrependido fica irado e, por estar indignado consigo mesmo, se pune. Daí surgem aquelas práticas próprias do penitente que verdadeiramente se arrepende, verdadeiramente se dói, sente ira contra si mesmo. Certamente, é indício dessa ira o bater no peito: o que a mão faz externamente, a consciência o faz internamente: golpeia-se nos pensamentos, ou melhor, produz a morte em si mesmo ( [9] ). E, matando-se, oferece a Deus o “sacrifício de um espírito atribulado. Deus não despreza um coração contrito e humilhado” (Sl 51,19). E, assim, raspando, quebrando, humilhando seu coração, leva-o à morte.
VI
Embora tivesse ainda somente a disposição de falar ao pai, cogitando em seu interior: “Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei…”, o pai, que de longe já conhece essas cogitações, foi ao seu encontro. Que significa “ir ao encontro” senão antecipar-se pela misericórdia? Pois, “estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro”. Por que foi movido pela misericórdia? Porque o filho tinha confessado sua miséria. “E correndo-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço”, isto é, pôs o braço sobre o pescoço dele. Ora, o braço do Pai é o Filho: deu-lhe, portanto, Cristo para carregar: uma carga que não pesa, mas alivia. “Meu jugo é suave, diz Cristo, e meu fardo é leve” (Mt 11,30). Ele se apoiava sobre o que estava de pé e, por apoiar-se, impedia-o de tornar a cair. Tão leve é o fardo de Cristo que não só não pesa, mas, pelo contrário, até ergue.
Não que o fardo de Cristo seja uma carga dessas que se chamam leves (não há carga, por mais leve que seja, que não tenha algum peso). Pode-se carregar um fardo pesado, um fardo leve ou, ainda, não carregar fardo algum. Anda oprimido quem carrega fardo pesado; menos oprimido quem leva uma carga leve (embora também ande oprimido); com os ombros totalmente desembaraçados, quem não carrega fardo algum. Não é dessa ordem o fardo de Cristo, mas um fardo tal que convém ( [10] ) carregá-lo para sentir-se aliviado; se nos desvencilharmos dele, mais carregados nos sentiremos. E que esta nossa afirmação, irmãos, não vos pareça absurda! Talvez encontremos alguma comparação que vos torne plausível, até em termos de nossa experiência sensível, o que estou dizendo. Um caso, também ele, espantoso e totalmente incrível.
É o seguinte: considerai as aves. Toda ave carrega o peso de suas asas: não reparastes como, quando descem ao chão, recolhem as asas para poder descansar e como que as levam nos costados? Julgais que estão oprimidas pelo peso das asas? Tirai-lhe este peso e cairão: quanto menos pesarem as asas, menos pode a ave voar. Alguém que, a título de misericórdia, as privasse deste peso, não estaria sendo misericordioso. A verdadeira misericórdia está em poupar-lhes esta privação e, se já perderam as asas, em dar-lhes alimento para que readquiram asas pesadas e possam arrancar-se da terra e voar. É bem este o peso que desejava o salmista: “Quem me dará asas como as da pomba para que eu voe e encontre meu repouso?” (Sl 55,7) Assim, o peso do braço do pai sobre o pescoço do filho não o carregou, mas o aliviou; foi-lhe honroso e não oneroso ( [11] ). Como é, pois, o homem capaz de carregar consigo a Deus se não é porque o está carregando, o Deus que ele carrega? ( [12] ).
VII
E o pai ordena que o vistam com a primeira veste, aquela que Adão perdera ao pecar. Tendo recebido o filho em paz, tendo-o beijado, ordena que lhe dêem uma veste: a esperança de imortalidade, conferida no batismo. Ordena que lhe dêem um anel, penhor do Espírito Santo; calçado para os pés, como preparação para o anúncio do Evangelho da paz, para que sejam formosos os pés dos que anunciam a boa nova ( [13] ). Estas coisas Deus faz através de seus servos, isto é, os ministros da Igreja. Acaso eles podem, por si próprios, dar veste, anel e calçados? Não, apenas cumprem seu ministério, desempenham seu ofício; quem dá é Aquele de cujo depósito e de cujo tesouro são extraídos estes dons. Mandou também matar o bezerro cevado, isto é, que fosse admitido à mesa em que o alimento é Cristo morto. Mata-se o bezerro para todo aquele que, de longe, vem para a Igreja, na qual se prega a morte de Cristo e no Seu corpo o que vem é admitido. Mata-se o bezerro cevado porque o que se tinha perdido foi encontrado.
8. Resumo e trechos do final do Sermão 112A
“O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: <>. Encolerizou-se ele e não queria entrar; mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: <> Explicou-lhe o pai: <>.”
Meer resume assim o final do sermão:
“Agostinho compara os judeus ao filho mais velho, que, à volta do irmão, se aborrece com o banquete e o bezerro cevado. Os judeus se aborrecem com a precedência dada aos pagãos, povos não cultivados, e que podem agora sentar-se para celebrar o místico banquete. E traça o retrato do judeu temente a Deus que medita sobre o enigma da Igreja e tem que reconhecer como o gênero humano caminha sob o estandarte de Cristo. Tal como aquele filho que vem do campo e pára diante da casa. Pensativo, discorre sobre esta Igreja e se pergunta o que ela realmente é. Vê a lei em sua casa e vê a lei entre nós. Os profetas estão com ele e estão também conosco; ele não tem já sacrifício, nós temos um sacrifício diário. Vê que esteve realmente no campo do Pai, mas não pode tomar parte no banquete do bezerro cevado. E depois ouve a symphonia, a harmonia de nossa unidade. De nada lhe adianta que saiam os criados e respondam às suas perguntas – por isso não discuto eu com eles: porque nós somos os criados -, mas a symphonia o comove, comovem-no as vozes, o coro, as solenidades, a festa eucarística, e se detém junto à Igreja e escuta; reconhece seus próprios salmos e fica pensativo… Vem o Pai e lhe diz: “Filho, tu estás sempre comigo” ( [14] ).
É a propósito desse judeu, piedoso e humilde, que Agostinho diz: “Consideremos um judeu que tenha guardado em sua mente a lei de Deus e a tenha vivido irrepreensivelmente, como disse ter vivido Saulo, para nós Paulo. Paulo foi tanto maior quanto menor se considerou; foi o máximo porque se fez o mínimo. Pois o próprio nome paulus significa pouco, pequeno, menor, mínimo; daí que, em nossa linguagem corrente, digamos: paulo post tibi loquor (daqui a pouco falarei com você); paulo ante (um pouco antes). Que é, pois, Paulo? É ele mesmo quem diz (ICor 15,9): <>.” (112A, 8 )
E conclui com interessante discussão sobre “o ter”, a propósito da sentença do pai ao filho mais velho: “Tudo que é meu é teu”.
“Como pode Deus dizer: <>? Na verdade, tudo o que é de Deus, é nosso; mas nem tudo nos está submetido. Uma coisa é dizer <>; outra, <>. Sempre que dizes <>, dizes com verdade, mas porventura é no mesmo sentido que o aplicas ao irmão e ao servo? É diferente o <> em <> e em <>; como não é o mesmo em <>, <> e <>.
“Excetuando a Mim, ouço que todas as coisas são tuas. Sim, dizes: <>, mas será que este <> é o mesmo que em <>? Ou pelo contrário <> é <>?
“Temos, pois, um superior, nosso Senhor, no qual fruímos e temos as coisas inferiores, das que somos senhores. Tudo, portanto, é nosso, se nós somos dEle” (112A,13).
NOTAS:
[1] . As interpretações alegóricas, como a de Cristo enquanto braço do Pai, não pareciam nada estranhas ao leitor da época.
[2] . Seguimos neste trabalho a numeração (aliás, usual) das edições de San Agustín da BAC (Sermones, 6 vols. 4a. ed., Madrid, 1981-1985).
[3] . Há no original um jogo de palavras: immorari/commemorari.
[4] . Não sabemos a que tribulação está aludindo e também não se conserva o sermão do domingo anterior.
[5] . Como mostra Pieper (op. cit.), o sentido clássico de curiositas consiste em algo muito mais sério do que a nossa curiosidade, essa inocente desorientação na periferia do ser humano; a curiositas é um descontrole fundamental, um afã louco de sensações da “pessoa que perdeu a capacidade de habitar em si mesma, que se pôs em fuga do próprio eu e que, com asco da devastação que observa em seu coração, se desespera numa procura com um medo egoísta, e se dissipa por mil caminhos frustrados”.
[6] . Trata-se daquele jogo de palavras: sonantes, non saginantes antes mencionado.
[7] . O salmo 40 diz: “Esperei com toda a confiança no Senhor e ele veio a mim. Ele ouviu meu clamor e tirou-me da fossa mortal e do charco de lodo (…). Porque males sem conta me cercaram; não podia ver, imerso em minhas iniqüidades, mais numerosas que os cabelos de minha cabeça; e o meu coração me abandonou”. Para os salmos e sua numeração seguimos a Nova Vulgata.
[8] . O original diz simplesmente iratus.
[9] . Evidentemente, Agostinho considera este dar morte a si mesmo no sentido em que Paulo fala inúmeras vezes da vida cristã como supressão de um “eu inautêntico”, que deve morrer para dar lugar à vida de Cristo no cristão: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gál 2,20). Daí provém a oposição paulina entre homem exterior e homem interior (cfr. II Cor 4,16), entre homem velho e homem novo (Rom 6,6: “Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com Ele”). É o que, afinal, diz o próprio Cristo: se o grão de trigo não morre não dá fruto; quem perder sua vida conserva-la-á (cfr. Jo 12,24 e ss.). O bispo de Hipona aplica essa doutrina do Evangelho, familiar a seus ouvintes, recordando a necessidade das práticas penitenciais como os jejuns, a esmola etc. O que, aliás, é proposto pelo Apóstolo Paulo: “Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gál 5,24); “mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: devassidão, etc.” (Col. 3,5 e ss.).
[10] . Agostinho joga aqui com o duplo sentido do verbo expedire: “livrar”, “desembaraçar-se” e “ser conveniente”.
[11] . Procuramos manter o trocadilho do original: honoravit, non oneravit, literalmente “honrou-o mas não lhe pesou”.
[12] . No original: ad portandum Deum, nisi quia portat portatus Deus?
[13] . Cfr. Is 52,7; Rom 10,15; Ef 6,15.
[14] . MEER, F. van der, San Agustín… p.122.
Tradução: Jean Lauand

7 de março de 2017

Lições da ceia.

Texto: João 13.1-20; 31-35.

Introdução: Na última ceia, Jesus nos deixa algumas lições maravilhosas de serviço, perdão, fé, esperança e unidade.

1. Uma lição de serviço (v.4-11): Jesus se cinge de uma toalha e serve aos Seus discípulos. Na ceia do Senhor, Ele mostra que viver o Evangelho é servir, e não ser servido.
2. Uma lição de perdão (v.1): Jesus já antevia a cruz através das figuras do pão e do vinho. Ele oferece o perdão de Deus e a reconciliação eterna para com todos aqueles que participam da “Grande Ceia” do Seu sacrifício.
3. Uma lição de fé (v.31-32): Jesus desafia a prática de fé na Palavra. Tomar o cálice do sacrifício estava relacionado à esperança da glorificação que seria consumada na ressurreição. Isso pode ser resumido numa citação de Spurgeon, que diz que “o fogo do nosso fervor deve arder no centro vital da fé, nas verdades que pregamos e na fé no poder que elas têm de abençoar a humanidade, quando o Espírito as aplica ao coração”.  A celebração da ceia é a liturgia da pregação do Evangelho. É uma convocação à fé.
4. Uma lição de Humildade (v.12-14): Jesus nos mostra que estamos sempre aprendendo e que devemos aprender com Ele.
5. Uma lição de coragem (v.17-20): A ceia nos prepara para enfrentar as traições da vida. Era comum um anfitrião oferecer a um dos convidados um pedaço de pão como gesto de amizade especial. Com isto, Jesus estava lançando mão do amor para poder enfrentar a traição de Judas. Note que ele molhou o pão no vinho ao qual Ele se referia como “este é o meu sangue”.
6. Uma lição de unidade (v.35): A ceia nos desafia à unidade baseada no amor. Só o testemunho prático do amor de Deus pode gerar a unidade no Evangelho. Unidade não é conseguida através de denominações ou grandes mobilizações. A unidade é afirmada por meio do reflexo do testemunho do evangelho em nossas vidas: “nisto conhecereis que sois meus discípulos”. 

Curiosidades do Texto: Ceia – havia apenas 2 refeições por dia na vida oriental. A primeira ocorria por volta do meio-dia; a segunda chamada de ceia era a refeição principal, no final da tarde. A festa do cordeiro pascal era também a essa hora (Exôdo 16.12).

Conclusão: Sinal ou vestígio de destruição ou dano. Lembrança ou impressão duradoura de um golpe físico, moral ou psicológico. Muitas cicatrizes podem desaparecer com a cirurgia plástica, nunca, porém, desaparecendo o trauma. Paulo foi um homem muito marcado, falando das cicatrizes sofridas pelas perseguições que lhe foram mais significativas do que a marca da circuncisão, a qual o afirmava como judeu. Ele diz, com isso, que as cicatrizes que a vida nos impõe desaparecem diante da marca do evangelho de Jesus em nossas vidas. 

24 de setembro de 2016

Ele tem uma fé verdadeira.

Texto: Tiago 2.14-26.
Introdução: Assim como em nosso corpo, uma igreja saudável é formada por células saudáveis. E numa célula saudável, as pessoas crescem no relacionamento com Deus, desenvolvem relacionamento uns com os outros, apoiam uns aos outros, recebem cuidado pastoral adequado, são treinados em liderança, testemunham e alcançam outros para Jesus. A célula saudável se une para cumprir a principal ordem de Jesus aos seus discípulos: Hoje em dia parece que está na moda ser de Jesus! Muitos estão buscando uma experiência espiritual. Outros veem vantagens de entrar para uma célula porque podem fazer amigos, participar de um bom ambiente, etc. Mas será que já são discípulos? Já possuem a fé verdadeira e por isso já nasceram de novo? A partir de agora, vamos tratar do tema “Marcas de um cristão autêntico”. Serão cinco estudos, a saber: 1. Ele tem uma fé verdadeira; 2. Ele é um praticante da Bíblia; 3. Ele vive sua fé no dia-a-dia; 4. Ele é amigo de Deus; 5. Ele testemunha a respeito de Jesus.

I. Como pode ser caracterizada uma fé morta?
a) É uma fé que não desemboca em vida santa. Essa fé está divorciada da prática da piedade. Há um hiato, um abismo, entre o que a pessoa professa e o que a pessoa vive. Ela crê na verdade, mas não é transformada pela verdade. A verdade chegou à sua mente, mas não desceu ao seu coração (cf. Mateus 7.21).
b) É uma fé meramente intelectual. Essa fé é apenas verbal e está em oposição à fé verdadeira. Ela existe apenas na base da pretensão. A pessoa diz que tem fé, mas na verdade não a tem (cf. Tiago 2.14).
c) Uma fé que não produz frutos dignos de arrependimento. Essa fé é ineficiente, inoperante e não produz nenhum resultado. Ela tem sentimento, mas não tem ação (cf. Tiago 2.15,16).
d) Uma fé sem nenhum valor. Ela é inútil. A fé sem obras é inoperante (cf. Tiago 2.20).
e) Uma fé incompleta. A fé sem obras está incompleta, visto que são as obras que consumam a fé. As obras são a evidência da fé (cf. Tiago 2.22).
Diante disso, pergunta-se: 1) Sua fé tem se desembocado em uma vida santa? 2) Sua fé tem sido meramente intelectual? 3) Sua fé tem produzido frutos dignos de arrependimento?

II. A fé salvadora: A fé verdadeira inclui o intelecto, as emoções e a vontade. O conteúdo da fé é a verdade de Deus. Eu recebo essa verdade, eu confio nela e por ela sou transformado. Como pode ser descrita a fé salvadora e verdadeira?
a) A fé salvadora está baseada na Palavra. A fé é em Deus e em sua Palavra. A fé está baseada em um conjunto de verdades. A fé está apoiada em Deus e em sua Palavra. Não é fé em subjetividades, mas fé na Palavra.
b) A fé salvadora envolve todo o ser humano. A fé morta toca apenas o intelecto. Mas a fé salvadora atinge o intelecto, as emoções e também a vontade. A mente entende a verdade, o coração deseja a verdade e a vontade age com base na verdade.
c) A fé salvadora conduz à ação. A fé verdadeira leva o discípulo às boas obras. Ela produz frutos. A salvação não é só pela fé, mas por uma fé que não está só. Uma fé viva se expressa por obras, ou seja, uma vida que traz glória a Jesus. A partir dos pontos acima, sua fé pode ser descrita como verdadeira?

Considerações Finais: Nossa fé pode ser morta se não desembocar em vida santa, for meramente intelectual e não produzir frutos dignos de arrependimento. Nossa fé pode ser como a dos demônios, expressar-se apenas através da crença na existência de Deus, na divindade de Jesus, na existência do inferno e de que Cristo julgará a todos no final dos tempos. Devemos ter uma fé verdadeira, que está baseada na Palavra de Deus, envolve todo o ser humano e conduz à ação. Avalie agora mesmo quais são as características da sua fé: Sua fé é apenas intelectual? Sua fé tem produzido frutos e mudanças? Quais? Você pode identificar um “antes e depois” de Cristo em sua história?