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24 de março de 2017

Vieira, ou a cruz da desigualdade.

BOSI, Alfredo. Vieira, ou a cruz da desigualdade. Novos Estudos. Nº 25, Outubro de 1989. 
  
            De acordo com o autor Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira foram contemporâneos. Gregório retratava as mazelas existentes na Bahia, no entanto, Vieira é um pouco mais amplo em seus sermões e faz uma leitura mais abrangente sobre o seu tempo. Vieira era jesuíta, conselheiro de reis, confessor de rainhas, preceptor de príncipes, diplomata em cortes européias, defensor de cristãos-novos, eram um homem internacional.
            Vieira apresenta o Sistema Colonial brasileiro em sua época e as contradições de seu tempo. Inicialmente, o padre persegue as falsas aparências. Assim, o paradoxo do remédio perigoso vem ilustrado com histórias e exemplos extraídos da Escritura. Bosi argumenta que o padre Vieira apresenta que a santidade dos fins desejados por Deus nada tem a ver com a imperfeição dos meios contingentes que nascem da fraqueza humana.
            O padre Vieira critica o a cristandade de seu tempo, afirmando: “servir à Fé com as armas da infidelidade, oh que política tão cristã! Alcançar a Fé as vitórias, e pagar à infidelidade os soldos, oh que cristandade tão política!". Vieira, contrapondo a justiça de cima à injustiça de baixo, não só afirma que a lei da igualdade é superior ao acaso da desigualdade, como exorta os homens a mudarem o estado em que vivem, abandonando "o que são para chegarem a ser o que devem".
            Vieira defende os índios dos colonos do Maranhão em um dos seus sermões, quando prega diante da viúva rainha Dona Luísa. Em outro momento, Vieira prega sobre os negros lançando questões: como vive o negro o "doce inferno" dos engenhos de açúcar? De que maneira o tratam os senhores brancos? Quais os passos do seu dia-a-dia, desde que nasce até que morre? O padre afirmava que a vida do escravo se assemelhava como a paixão de Cristo.
            Apesar de o texto de Alfredo Bosi lançar luz sobre o papel importante da pregação de Antônio Vieira em sua época, desmascarando as aparências daquela sociedade, percebe-se um horizonte um pouco mais amplo. No Antigo Testamento, profetas como Isaías, Sofonias, Amós e Miquéias criticavam a injustiça no meio dos israelitas e desmascaravam as liturgias hipócritas. Estes afirmavam que o verdadeiro culto é a justiça social. Paralelamente, Vieira alguns milênios depois afirmava algo semelhante, de que a moral da “cruz para todos” era uma arma que havia espoliado o trabalho humano em benefício de uma determinada classe. De certa forma, a condição colonial acabou impedindo a universalização do ser humano.

23 de março de 2017

A espiritualidade e o nosso cotidiano como cristão na América Latina.

BEZERRA, Cícero. Conversas sobre espiritualidade. Belo Horizonte: Betânia, 2001.

Cícero Bezerra é pastor e professor do seminário Betânia em Curitiba. Seus livros sempre giram em torno da teologia pastoral e sua aplicabilidade no nosso dia a dia aqui na América Latina. No presente livro ele pretende fazer uma leitura da espiritualidade cristã no nosso cotidiano.
O homem está cada vez mais ligado com a tecnologia e, na mesma medida está cada vez mais distante do seu próximo e consequentemente da espiritualidade e de Deus. Muitas vezes as próprias atividades eclesiásticas concorrem com Deus. O autor argumenta que a sensibilidade pelas necessidades do próximo é deixada de lado e trocada por uma “espiritualidade superficial e tecnológica”.
            Muitos têm pretendido escrever sobre a espiritualidade, entre eles estão os espíritas, adeptos da nova era e demais filosofias orientais. No entanto, Cícero Bezerra pretende fazer uma abordagem cristã. Assim como o homem anseia e busca algo que o preencha, Deus se manifesta e atrai o homem e mostra que o seu relacionamento com Deus não é baseado em proibições, ao contrário em aceitação. A espiritualidade é impossível de se compreender na sua plenitude, pois, é como uma impressão digital, cada um tem a sua através de suas experiências únicas.
            O autor ressalta um ponto importante no livro, de que o pecado afasta o homem de Deus e em detrimento disso impossibilita ao homem de ter uma verdadeira espiritualidade. Mas, a espiritualidade não é apenas ao sobrenatural e místico, ao contrário ela se mostra no dia a dia mostrando que o homem espiritual é simples, e evidencia através de seu relacionamento com a família que o seu contato com Deus tem uma relação de verdade.

            Com linguagem simples e descomplicada Cícero Bezerra faz uma abordagem da espiritualidade nas suas mais diversas manifestações na vida do homem. Deste modo, o homem espiritual também é alguém que se preocupa com os pobres e lhe dedica atenção e solidariedade, ao contrário do que muitos antigos pensavam que era necessário se isolar para encontrar a espiritualidade, a espiritualidade está no nosso dia a dia aqui na cidade grande mesmo, como o próprio Jesus pediu em oração “Pai, não peço que os tire do mundo, mas que os transforme”. Recomendo a leitura do livro.

13 de agosto de 2015

Uma história ilustrada do Cristianismo - A era dos gigantes.

Nome: Uma história ilustrada do Cristianismo - A era dos gigantes
Autor: Justo L. Gonzalez
Editora: Vida Nova
Páginas: 184

Opinião: este livro é o segundo volume da coleção Uma História Ilustrada do Cristianismo. Relata importantes acontecimentos desde a junção do Estado com a Igreja com o advento da conversão de Constantino até a queda de Roma. Movimentos como o monaquismo, arianos e donatistas são relatados de forma primorosa. Ainda, na mesma toada, o autor demonstra a conversão de Constantino sob um prisma imparcial, demonstrando que ele não teve uma influência tão grande (como alguns imaginam) no Cristianismo do quarto século. Da mesma forma, grandes personagens do Cristianismo deste período são biografados, desde Atanásio, Antônio (o eremita), Basílio, Ambrósio de Milão, Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho. Excelente livro. Recomendo a leitura.

19 de junho de 2015

Resenha: Justiça.

Job. Nascimento

SANDEL, Michael J. Justiça.4ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

            O que é justiça? O que é moral? O que é ética? São perguntas que acompanham o homem desde tempos remotos e em detrimento à essas perguntas surgem outras: o que é moralmente certo? O que seria fazer o certo? É partindo dessas perguntas que o autor de “Justiça – o que é fazer a coisa certa” Michael J. Sandel se propõe a fazer uma análise abrangente desses conceitos e sua aplicabilidade na atualidade.
            Os princípios de “justiça” não devem basear-se em nenhuma concepção particular de virtude ou da melhor forma de vida. No entanto, o autor relaciona o conceito de justiça com a noção de bem-estar, liberdade e virtude. Citando alguns acontecimentos trágicos ele nos faz refletir de forma abrangente, de modo que, para algumas situações algo seria moralmente correto e outras situações a mesma atitude seria “imoral”.
            No Afeganistão alguns soldados americanos se deparam com alguns pastores de cabras e um adolescente. Alguns pensam em matar os pastores visto que poderiam delatar eles e colocar em risco a missão. Entretanto, seria moralmente errado matar pessoas desarmadas, decidem. E passados alguns instantes os pastores de ovelhas delatam os soldados e eles são mortos pelos talibãs. Três vidas foram trocadas por dezenove. Até onde algo moralmente certo é aplicável em algumas situações?
            O autor argumenta que o raciocínio moral não é somente uma forma de persuadir os outros, mas é uma maneira de resolver nossas convicções morais e descobrir no que acreditamos e o porquê. Por isso o debate sobre a moral, ética e justiça é válido, às vezes uma discussão pode mudar nossa opinião.

            O livro é excelente. É de fácil assimilação e recomendado para todos os estudantes de direito (e de outras ciências também) para uma visão mais abrangente sobre a aplicabilidade de alguns conceitos éticos no caso concreto, combater os pré-conceitos infundados e ajudar no debate sobre os conceitos de “justiça”. O autor nos convida à refletirmos sobre a razão da nossas convicções e no que elas se baseiam.

21 de maio de 2015

Resenha do Voto do Ministro Luiz Fux sobre a “Lei da Ficha Limpa”.

Job. Nascimento

            A lei complementar n. 135/2010 conhecida como lei da “Ficha Limpa” foi originada de um projeto de lei com iniciativa popular. Essa iniciativa popular teve cerca de 1,3 milhões de assinaturas, observando os ditames da Constituição Federal quanto a forma e quantidade de assinantes. No entanto, foi proposta a ADC 30 no STF e o voto do Ministro Luiz Fux foi um dos mais elogiados pelos juristas.
            O Ministro Fux levantou três pontos que ele julgou importante ressaltar no seu voto, quais sejam: a) se as inelegibilidades introduzidas por esta lei poderiam alcançar atos ou fatos ocorridos antes de sua edição; b) se era constitucional a hipótese de inelegibilidade prevista na lei nas questões sobre a demanda; e sobre a c) fiscalização abstrata de constitucionalidade de hipóteses de inelegibilidade criadas por esta lei.
            Exposto esses pontos o Ministro votou pela procedência da lei. Mas, fazendo algumas ressalvas. De que a renúncia seria admitida como causa de inelegibilidade somente para casos em que o processo de cassação ou perda de mandato eletivo tivesse sido instaurado, dessa forma, seria inconstitucional a expressão contida na lei “o oferecimento de representação ou petição capaz de autorizar”, pois, ela não se coaduna com a ordem constitucional vigente no país.
            O Presidente da República, os Governadores, Prefeitos, membros do Congresso Nacional, Assembléias Legislativas, Câmaras Legislativas e Câmaras Legislativas Municipais, que pela Lei Complementar 135/2010 seriam inelegíveis quando renunciassem o mandato desde a abertura do processo durante o período do processo e pelos oito anos subseqüentes, foi entendido como inconstitucional pelo Ministro Luiz Fux.

            O voto do Ministro Luiz Fux foi apreciado por muitos juristas e ajudou a decidir pela constitucionalidade da lei da “ficha limpa” e pela sua validade para as eleições de 2012 e no caso de parlamentares que renunciassem ao cargo para poderem se candidatar novamente, neste voto, seriam igualmente inelegíveis.

11 de abril de 2015

Tiros em Columbine.

Job. Nascimento

O presente texto tem como pretensão analisar dois documentários: “Tiros em Columbine” e “Pro dia Nascer Melhor”, avaliando os pontos em comum e propondo uma análise sobre a situação da educação na atualidade. Onde em cada caso o psicólogo comportamental poderia ingressar no meio estudantil intervindo e auxiliando em algumas situações. No documentário “Tiros em Columbine” apresenta-se uma possível relação entre a indústria de armas, a agressividade dos jovens e o fácil acesso a armas nos Estados Unidos. Após, o documentário mostra algumas intervenções norte-americanas no mundo, especialmente em países pobres, fornecendo armas e treinamento da CIA para alguns grupos radicais na Nicarágua, Afeganistão, a invasão do Panamá para prender Noriega, etc. Em Tiros em Columbine demonstra-se que o uso de armas de fogo é uma autodefesa contra o inimigo e isso é um pensamento inerente à cultura americana. Um indicativo claro da influência desse pensamento nos jovens é o relato em que um jovem é suspenso da escola por ter ameaçado um professo com um nugget de frango, utilizando-o como uma espécie de arma com o fim de coagir o docente. 

27 de março de 2015

A origem do homem.

       
O documentário da Discovery Channel “A origem do homem” é baseado numa pesquisa realizada por uma cientista americana em 1987, o documentário é de 2002 e o presente relatório de 2010, ou seja, 23 anos separam a pesquisa da cientista de nós. Faço essa consideração devido ao fato da velocidade com que as descobertas científicas e os achados arqueológicos estão ocorrendo, porque 23 anos poderia dá o valor apenas histórico para essa pesquisa.
            Segundo a pesquisa apresentada no documentário, toda a raça humana teria uma ancestral comum. A chamada “Eva genética” seria uma africana que habitava a África Oriental, ela não era a única mulher e tampouco a mais fértil de sua tribo. Mas, o seu gene foi o único que sobreviveu. Essa pesquisa foi orientada a partir da observação do DNA Mitocondrial de vinte europeus e de vinte afro-americanos. Os vinte afro-americanos apresentaram algo em comum, enquanto que os europeus eram diferentes.
            Sete gerações deixaram a África oriental e se espalharam por todo o mundo através da travessia do mar velho chegando ao Iêmen; depois indo até a Austrália dando origem aos aborígines que seriam descendentes das primeiras filhas da “Eva genética”; até chegar na América passando pelo Estreito de Bering cerca de 20 mil anos atrás e evoluindo para se adaptar às intempéries do clima muito frio encontrado no Alasca, que chegava a ter 5 km de espessura de neve.
            As eras glaciais impediram que os humanos modernos se espalhassem pelo mundo mais rapidamente. Aliado a isso tem a erupção do vulcão localizado na Malásia que dizimou boa parte deles.
            É importante notar que nem todos aceitam a teoria da saída única da África. Além de alguns afirmarem que houve um grande combate na Europa entre os Neandertais e os humanos modernos. Os humanos modernos eliminaram os neandertais. Uma prova disso foi o achado de uma ossada de uma pelve com um furo de uma lança achado na Europa o que indica que ouve um confronto.
            A diferença entre asiáticos, africanos e americanos se dá pela própria evolução e adaptação da espécie ao clima. Locais mais frios tendem a clarear as pessoas, enquanto que as regiões mais quentes exigem que a pele seja escura para se proteger dos raios ultravioletas. O clareamento total do africano se deu em vinte mil anos. A temática final do documentário é que não devemos fazer discriminação de raças e de cor, pois, todos temos uma ancestral comum: a “Eva genética” e que era africana.

11 de fevereiro de 2015

Justiça.

SANDEL, Michael J. Justiça. 4ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

            O que é justiça? O que é moral? O que é ética? São perguntas que acompanham o homem desde tempos remotos e em detrimento à essas perguntas surgem outras: o que é moralmente certo? O que seria fazer o certo? É partindo dessas perguntas que o autor de “Justiça – o que é fazer a coisa certa” Michael J. Sandel se propõe a fazer uma análise abrangente desses conceitos e sua aplicabilidade na atualidade.
            Os princípios de “justiça” não devem basear-se em nenhuma concepção particular de virtude ou da melhor forma de vida. No entanto, o autor relaciona o conceito de justiça com a noção de bem-estar, liberdade e virtude. Citando alguns acontecimentos trágicos ele nos faz refletir de forma abrangente, de modo que, para algumas situações algo seria moralmente correto e outras situações a mesma atitude seria “imoral”.
            No Afeganistão alguns soldados americanos se deparam com alguns pastores de cabras e um adolescente. Alguns pensam em matar os pastores visto que poderiam delatar eles e colocar em risco a missão. Entretanto, seria moralmente errado matar pessoas desarmadas, decidem. E passados alguns instantes os pastores de ovelhas delatam os soldados e eles são mortos pelos talibãs. Três vidas foram trocadas por dezenove. Até onde algo moralmente certo é aplicável em algumas situações?
            O autor argumenta que o raciocínio moral não é somente uma forma de persuadir os outros, mas é uma maneira de resolver nossas convicções morais e descobrir no que acreditamos e o porquê. Por isso o debate sobre a moral, ética e justiça é válido, às vezes uma discussão pode mudar nossa opinião.

            O livro é excelente. É de fácil assimilação e recomendado para todos os estudantes de direito (e de outras ciências também) para uma visão mais abrangente sobre a aplicabilidade de alguns conceitos éticos no caso concreto, combater os pré-conceitos infundados e ajudar no debate sobre os conceitos de “justiça”. O autor nos convida à refletirmos sobre a razão da nossas convicções e no que elas se baseiam.

21 de janeiro de 2015

O processo.

KAFKA, Franz. O processo. 8ª Edição. São Paulo: Martin Claret, 2011.

          Franz Kafka foi um importante escritor Belga do século XX. Suas obras influenciaram pensadores de diversos ramos do saber desde a filosofia e literatura até a psicologia e o Direito. Fechado em si mesmo, quase um hipocondríaco, Kafka demonstrava a natureza tirânica da existência e os limites da consciência humana que se esbarrava com o jogo de interesses das pessoas. Quanto mais isolado e solitário alguém pudesse se achar, mais inserido e partícipe da sociedade ele estava.
            Em “o processo” o autor mostra como a vida de Josef K, homem pacato, honesto e acima de qualquer suspeitas, é mudada com a existência de um processo. Josef K não sabia o motivo que estava sendo indiciado e nem porque de repente alguns homens invadem sua casa e o enchem de perguntas. No início ele achou que era uma brincadeira de algum colega do banco. Mas a seriedade dos senhores que o interrogavam tirou essa possibilidade.
            O Sr. K que antes só se preocupava com os interesses de seus clientes no banco e com o pagamento do aluguel à senhora Grubach agora se via extremamente perturbado por um processo penal que ele desconhecia a origem, o porquê e como poderia se defender visto que não existiam fatos nem provas para serem rebatidas e questionadas.
            Josef K contratou o Dr. Huld para ser seu advogado, apesar de sua doença, este se mostrou burocrático e tirânico. Amigos e parentes já sabiam da existência do processo penal do Sr. K e o censuravam acreditando que ele deveria ter feito algo muito ruim para que fosse criado um processo contra ele. Quanto mais Josef K tentava fugir de seu processo, mais ele se esbarrava com pessoas que sabiam sobre os trâmites do processo, à priori elas pareciam querer ajudá-lo, mas com o passar do tempo se mostravam ligadas de alguma forma ao tribunal. O autor mostra nesse livro o caráter discricionário dos tribunais e juízes e suas influências sobre os advogados e funcionários que trabalhavam em busca de status e reconhecimento. Enquanto os acusados viviam atormentados pela idéia de a qualquer momento ser presos ou perderem suas posses, e por não saberem o motivo da existência do processo, como aconteceu com o Sr. K que foi executado sem saber o “porquê”.

1 de setembro de 2014

Direito Civil: o parentesco natural ou civil.

Job. Nascimento

Recurso Especial n. 1087163 – Relatora Ministra Fátima Nancy Andrighi.

1. A partir do artigo 153 do Código Civil: “O parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consangüinidade ou outra origem”. Disserte acerca das formas de filiação.

De acordo com a doutrina a filiação é a relação de parentesco que se estabelece entre pais e filhos, sendo designada, do ponto de vista dos pais, como relação de paternidade e maternidade. O direito de filiação revela-se como sendo uma situação de estado em que investe uma determinada pessoa. Este estado de filiação que se encontra o filho, ou ainda, que vincula uma pessoa a uma família do qual se originam efeitos e conseqüências jurídicas. Existem três tipos de filiação genérica; adotiva, a presumida e a natural. A filiação adotiva é a resultante do instituto da adoção, a presumida é determinada por dispositivos legais que se presumem naturais os filhos gerados na constância do casamento, já a filiação natural é a que diz respeito à questão biológica e que tem provocado diversas ações de investigação de paternidade. Assim, ainda que despida de ascendência genética, a filiação socioafetiva constitui uma relação de fato que deve ser reconhecida e amparada juridicamente. Isso porque a parentalidade que nasce de uma decisão espontânea, frise-se, arrimada em boa-fé, deve ter guarida no Direito de Família. Na hipótese, a posse do estado de filho, por parte do pai socioafetivo, ocorreu amparada pela presunção legal de que o filho havido na constância do casamento era do casal.

2. Apresente a hipótese fática do julgado.

A problemática do caso em questão surge da hipótese de que a posse do estado de filho, por parte do pai socioafetivo, ocorreu amparada pela presunção legal de que o filho havido na constância do casamento era do casal. A filiação putativa gerou, tanto no pai socioafetivo, quanto na sua filha, de acordo com a ministra Nancy Andrighi a serena sensação de equilíbrio e normalidade, cada vez mais raros nos universos familiares modernos e, a despeito da ausência de vínculo biológico prova cabal de que ele não é elemento essencial à parentalidade, incensurável o desvelo e atenção que o recorrente pai socioafetivo, despendeu na criação e formação da criança. Indo além desse cuidado no trato com aquela que acredita ser sua filha, mesmo após saber da ausência do vínculo biológico entre eles, empreendeu aguerrida batalha judicial para manter incólume o registro de nascimento, no qual figura como efetivo pai da criança. Essa circunstância argumenta a ministra, por si só, evidencia que há sobeja afetividade, desejo de ser pai, e preocupação com o futuro da filha, nos laços que unem filha e pai socioafetivo, houve a plena posse da filiação ante o intenso relacionamento socioafetivo ocorrido. A paternidade biológica ostentada pelo pai biológico que, se não tem o condão de vincular inexoravelmente a filiação, por certo, detém peso específico ponderável, deve-se observar que o liame genético ainda é importante marcador para definição de questões relativa à filiação. No entanto, apesar dessa relevância, o bem-estar da criança e do adolescente, regra programática que impacta toda a interpretação dos componentes legais a ela relacionados, acomoda as filiações socioafetivas para considerá-las válidas, desde que voltadas para o desiderato primeiro.

3. Explique os fundamentos jurídicos da referida decisão, identificando a problemática envolvendo a filiação socioafetiva.

            A Ministra Nancy Andrighi cita vários doutrinadores para afirmar que não pode ser considerado genitor o ascendente biológico da mera concepção, tão só porque forneceu o material genético para o nascimento do ilho que nunca desejou criar. Como também argumenta que existe um viés ético na consagração da paternidade socioafetiva, a qual tem servido de fundamento para vedar as tentativas processuais de desconstituição do registro de nascimento, quando de forma espontânea uma pessoa registra como seu filho alguém que sabe não ser o pai consanguíneo, na chamada adoção à brasileira.
No caso em questão ainda existe o fato de que se passaram mais de três anos, e o autor sabia que a sua filha era criada por outra pessoa, que assumia publicamente a condição de paternidade, e da criança cuidava como filha, sendo três anos um período mais do que suficiente para consolidar a paternidade socioafetiva, afirma a ministra. Esse período de inércia afetiva demonstrou evidente menoscabo do genitor em relação à paternidade, sendo relevante, prossegue a ministra, citar que o non facere aqui evidenciado, apesar de não ser causa do imbróglio criado, foi meio eficiente para a sua perpetuação por mais de 03 anos e a consolidação dessa situação fática. E aqui se encontra o obstáculo intransponível à pretensão do autor: a filha, com o passar dos anos, e como resposta ao carinho, amor e atenção despendidos pelo seu pai socioafetivo, apropriou-se da condição de filha, status que em nome da primazia dos interesses do menor não lhe pode ser agora negado, apenas para dar guarida ao reconhecimento do vínculo genético que detém com aquele que, na prática, nunca foi seu pai. Conclui a ministra Nancy Andrighi, apontando os fundamentos jurídicos e nuance da paternidade socioafetiva.

26 de agosto de 2014

Deus não está morto.

Job. Nascimento


Não, não estou falando de uma crítica a afirmação de Nietzsche no terceiro livro das Intempestivas. Mas sim do filme cristão em cartaz nos cinemas. Muito bom. E a onda de sms/whats/email etc. "Deus não está morto" está fazendo muitos frutos. Gostei do filme. 

No entanto, esse filme levanta algumas questões sérias: Deus precisa ser defendido? É possível ter uma fé racional? Até onde um debate sobre a existência de Deus pode ser considerado sério? Se provar por A mais B que Deus existe isso não anularia a fé? O "Deus necessário" que o teísmo defende é o Deus bíblico? Até onde o debate não descambará para simplesmente criticas de argumentos e de "falsos dilemas", ironias, silogismos etc redundando num debate pra mostrar quem é mais inteligente? Ora, "sem fé é impossível agradar a Deus" (Escritor aos Hebreus) "é absurdo, por isso tenho fé" (Tertuliano) "a fé nunca é ligada a coisas naturais e sim a sobrenaturais e que transcendem ao ser" (Tillich) 

Além disso, existem três categorias: acreditar, crer e ter fé. Acreditar: acreditar em fadas e gnomos (se digo que acredito em Deus digo que ele é um mito ou lenda que eu escolhi acreditar); crer: ligado a categoria de crença (sistematização de um crer. Se digo que creio em determinada coisa, automaticamente isso me remete a um sistema de crenças); ter fé: é irracional, não se explica, é impossível, por isso se tem fé. A fé liga diretamente o homem ao sobrenatural e automaticamente à Deus.

Dito isso, o debate sobre a existência de Deus é nulo pra quem tem fé. Ele não tem interesse em defender a Deus, sua fé é inabalável por qualquer argumento. Assim, todo debate gira em torno de crença, de um acreditar (seja teísta ou (neo)ateísta). Reputo esse debate como o de um fariseu com um incrédulo. Porque apologética é coisa de fariseu e as maiores barbáries que a humanidade sofreu foram feitas por pessoas que quiseram defender a honra de Deus. Eu não preciso defender Deus. Eu tenho fé em Deus. Somente.

A bíblia diz "a fé vem pelo ouvir" e não "a fé vem pelo convencer". Isto porque ninguém se converte pela via do assentimento intelectual. O assentimento intelectual ou a conversão pela via de argumentos ocorre quando alguém muda de ideologia, de partido ou de pensamento. Isso não ocorre com o Evangelho porque ele não é uma filosofia. Não sou eu que escolho crer, mas a fé que me domina.

Além do mais, Jesus fugia de debates como estes. Quando perguntaram com que autoridade ele falava/fazia determinadas coisas, Ele respondeu evasivamente: "o batismo de João é do céu ou é dos homens?" os fariseus pensaram: "se dissermos que é dos céus ele vai perguntar porque não cremos, se dissermos que é dos homens a multidão vai nos apedrejar." então responderam: "não sabemos". Ai Jesus respondeu: "então não falo também com que autoridade eu faço essas coisas". Ora, se o meu referencial (Jesus) foge de debates como esses e responde desta forma, porque eu me atreveria a "defender a honra" de Deus. 

Por fim, os argumentos que "provam" a existência de Deus são temporais. Hoje as 5 vias de Tomás de Aquino é refutada por qualquer seminarista iniciante. Deus existe? Com certeza, tenho fé. E o simples fato de colocar isso em dúvida já é uma blasfêmia. Como diria Emil Brunner "perguntar: será que Deus existe? É fugir da seriedade".A apologética afasta as pessoas de Deus e aproxima de um simulacro de crença. O Evangelho não deve ser um texto que dominamos, mas que ele domine e nos transforme.

Nele, 
Que existe e que silencia diante da indagação: "será que Deus existe?"

27 de abril de 2014

O trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho.

Job. Nascimento

OSORIO, Claúdia. ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho.

            O texto em tela foi escrito mediante uma análise do método de intervenção na saúde do trabalhador que foi adotado por um hospital público do Rio de Janeiro em que o trabalhador é convidado a participar junto com o analista no processo da intervenção em saúde. Neste caso, o trabalhador seria o protagonista da análise dos acidentes de trabalho.
          Observamos que a psicodinâmica do trabalho tem como base a luta contra o sofrimento psíquico. A autora pontua que para a psicodinâmica do trabalho a subjetividade é enxergada como “produção psíquica da luta contra o sofrimento”, no entanto, para a clínica da atividade é “produto da atividade”. Outro ponto importante nesta análise é a “atividade” que não se limita apenas aos gestos realizados, porque a atividade não é somente aquilo que se faz, mas, também o que não se faz. Desta forma, podemos afirmar que o desgaste psíquico é entendido pelo que os trabalhadores não podem fazer, como também por aquilo que fazem.
            Na ACAT visa-se fazer com que o trabalhador observe seu próprio trabalho para se conhecer as diversas situações que resultaram no evento em análise (o acidente de trabalho). A ACAT é composta por algumas etapas, a primeira delas é a encenação do acidente, nesta fase o trabalhador leva o analista para o local onde ocorreu o acidente e, assim, recria o ocorrido e ver por outras perspectivas de que forma ele poderia se repetir.
            A autora afirma que para o trabalhador se transformar em um instrumento em favor dele próprio é necessário que haja confiança mutua entre ele e o analista. Desta forma, pode-se passar para a próxima etapa do processo que é a construção esquemática de diversos fatores que cominaram no acidente.
            O objetivo da ACAT não é tão somente fazer com que o trabalhador tenha um conhecimento mais apurado sobre sua atividade, nem tampouco tentar recriar de modo fidedigno o ocorrido no acidente, mas gerar um conhecimento de ofício e assim proporcionar para o trabalhador um desenvolvimento em sua atividade.
            Desta forma, para a autora, essas intervenções visam muito mais do que simplesmente conhecer e denunciar determinadas formas de dominação e sofrimento, mas proporcionar ao trabalhador novas formas de construir relações com o mundo.
            Quando o trabalhador auxilia seu próprio tratamento ele pode, assim, observar seu acidente e construir um mecanismo metodológico próprio no seu ofício com a pretensão de evitar a repetição do acidente.
            A eficácia do método depende de que o analista seja apenas um auxiliar, para que determinadas escolhas sejam tomadas e determinadas práticas sejam deixadas de lado. Desta forma, a autora pontua bem que é necessário que o protagonista da análise seja o trabalhador, que possui um saber operacional e que pode transformá-lo diretamente. 

25 de junho de 2012

Justiça - Michael J. Sandel


Por Job. Nascimento

SANDEL, Michael J. Justiça. Capítulos I, II. 4ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

            “Justiça” é um livro fruto do trabalho do professor Michael J. Sandel na busca por um conceito de justiça, moral e ética na atualidade. O autor tenta construir um conceito de ética dissociado dos preconceitos da cultura e região, na mesma medida em que este conceito deve estar próximo ao dia a dia das pessoas. É preciso sair da caverna (como na conto de Platão), como também é necessário ouvir os moradores da caverna.
            Só conhecemos nossos conceitos éticos e morais quando estamos em meio a algum conflito. É com base nesta premissa que o autor cita várias histórias e coloca as diversas possibilidades de soluções éticas para casa situação. Cada proposta é moralmente aceitável na mesma medida em que em outras circunstâncias pode ser taxada como “imoral”.
            O primeiro episódio citado por Michael Sander é a devastação do estado da Flórida pelo furacão Charley. Nesta ocasião muitos se aproveitaram para vender produtos e serviços mais caros. O estado criou leis contra o abuso de preços para tentar conter a alta. Mas seria correto o Estado taxar o “livre comércio”? Seria correto as empresas se aproveitarem da tragédia para lucrarem mais?
            O autor ainda cita mais duas histórias: “os merecedores do coração de púrpura” que é a condecoração dada pelos EUA aos soldados feridos em guerra. Os soldados que sofreram com problemas psicológicos teriam também o direito de receber?; e “a revolta contra o socorro dos bancos na crise econômica”, seria correto o governo ajudar empresas privadas? E essas empresas poderiam usar esse dinheiro para premiar executivos que talvez fossem os responsáveis pela crise?
            Essas são questões que o autor nos leva a refletir. Mostrando-nos diversos pontos de vista e uma análise mais abrangente de cada situação. Estas questões estão ligadas às relações entre bem-estar e liberdade. Recomendo o livro, excelente leitura, linguagem simples e de fácil assimilação.    

10 de junho de 2012

Amélia, Surplus, Os executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo.

Por Hadassa Ladislau 

Obra fictícia baseada na vinda da atriz francesa Sarah Bernhardt ao Brasil em 1905, quando apresentou a peça Tosca no Rio de Janeiro, o filme Amélia com direção e roteiro de Ana Carolina trata sobre o encontro entre a Divina atriz e 3 matutas do interior de Minas Gerais, irmãs de sua camareira (Amélia, que dá nome à trama), acometida pela febre amarela em Buenos Aires, que a levou a morte antes mesmo que pudesse chegar ao Brasil e reencontrar suas irmãs, mas fez com que estas (Francisca e Osvalda) e a empregada (Maria Luiza), tivessem contato com um universo evoluído representado por Sarah Bernhardt.

Sarah é a personificação da metrópole: o luxo presente nas roupas, nos objetos, na postura, na educação. Pode-se perceber em seu universo a cultura, o refinamento e a elegância típicos da sociedade parisiense do século XX. É a realidade inversa das mineiras, em que fica evidente a ignorância, pouca – ou quase nenhuma – cultura, rusticidade, falta de etiqueta e de modos. Em alguns momentos encenam situações grotescas. Dois universos completamente antagônicos e opostos. O superior e o inferior, o lixo e o luxo, o primeiro mundo e o terceiro mundo, unidos por Amélia mesmo depois de sua morte.

O período contextualizado no filme é caracterizado como parte da Belle Époque, ciclo de grandes transformações na arte, cultura, no modo de pensar viver e agir da sociedade, assim como grandes invenções que possibilitaram novas formas de comunicação e interação entre os países, como o telefone, o telégrafo sem fio e o avião. Talvez este tenha sido o momento que apontou os primeiros ensaios para um mundo globalizado. Mundo que cria desigualdades sociais e seres excluídos, sem acesso às mesmas riquezas das nações detentoras do poder do capital.

O desenvolvimento econômico dos países de primeiro mundo criou uma sociedade de consumo, impulsionada pelo poder midiático a comprar sem limites e sem necessidades verdadeiras. Todo esse consumo para o qual evoluímos no século XXI é criticado no documentário Surplus (Erik Gandini, 2003) que coloca em destaque as consequências do consumismo exacerbado, como a destruição do meio ambiente, poluição dos mares e rios pelos países superdesenvolvidos, enquanto as consequências para os países emergentes é o subdesenvolvimento, pobreza, atraso, dependência e miséria. Segundo dados do documentário, os países de primeiro mundo representam 20% da população mundial e, no entanto consomem 80% de todos os recursos naturais do planeta. Esse ritmo poderá produzir um colapso econômico mundial à medida que o trabalho e consumo constantes estão destruindo tudo a nossa volta.

O documentário ilustra as diferenças dos dois sistemas mundiais vigentes: o capitalismo e o socialismo, ao comparar a história de Tania, cubana que ficou deslumbrada ao visitar a Europa e presenciar a diversidade de produtos existentes e a possibilidade de escolha entre eles. Logo se sentiu influenciada pelo ambiente, afirmando ter o seu corpo uma necessidade cada vez maior de consumir os produtos disponíveis, fossem eles um Big Mac ou um programa da MTV. Afinal Cuba é um país que não aprova o consumismo e muito menos propaganda que o incentive, fato este confirmado e enfatizado nos discursos de Fidel Castro. Tal controle é exercido tão rigidamente que o consumo de qualquer produto é limitado por pessoa através de cotas. Isso garante que todos tenham pelo menos as necessidades básicas supridas.


Em contrapartida, outra história contada é a de Svante, um jovem sueco já milionário aos 19 anos, que gasta metade de seu tempo procurando uma forma de gastar seu dinheiro e preferiria nunca tê-lo ganhado, pois sente falta da vida dura quando não era tão fácil comprar um apartamento. Ele sente um enorme vazio existencial, pois deter tanto dinheiro não significa possuir felicidade e uma razão para sua breve vida.

Ao comparar os dois lados da moeda dos sistemas mundiais, Gandini não sugere soluções aos problemas que cada sistema pode causar, mas nos faz refletir sobre o rumo que a sociedade está tomando, e o que cada um pode fazer para mudar isto. Uma das criticas de John Zerzan (filósofo e escritor norte americano, cujos comentários são base para o desenrolar das imagens de Surplus),  é em relação à forma de manifestação contra as injustiças sociais. Segundo ele uma forma de manifestação pacífica, com marchas e faixas levantadas escritas em letras garrafais é ineficaz, pois não age diretamente sobre o produto do capitalismo. Ao contrário de uma depredação contra alguma propriedade, esta sim surtiria mais efeitos. Ao mesmo tempo em que é chamada de violenta, não pode ser violenta em sua essência, pois um prédio, ou uma janela não podem ser violentados no sentido geral da palavra.

O ideal em que Zerzan se apoia e defende é o anarcoprimitivismo, filosofia que diz que a única forma de acabar com a destruição causada pelo homem é a erradicação da indústria e o retorno às formas primitivas de viver em sociedade, abandonando a tecnologia moderna que conquistamos depois de séculos de ciência e desenvolvimento. Segundo esta filosofia o ser humano voltaria à um estado selvagem de existência. 


Longe de criticar essa mentalidade, hoje em dia, em um mundo maciçamente globalizado, a realidade é muito distante deste conceito anarcoprimitivista. Existe cada vez mais uma supervalorização do capital humano. Em seu livro “Os executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo. Capital humano e empreendedorismo como valores sociais” (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007), Osvaldo López-Ruiz afirma que estamos vivendo um novo momento no cenário do capitalismo.  Passamos por um primeiro plano em que o empresário era o motor da fábrica, investia tanto o capital como sua força direta de gestão e sua capacidade de inovação (p. 242). Num segundo momento vivemos o que Galbraith (apud LÓPEZ-RUIZ, 2007, p. 242) denominou de tecnoestrutura, em que o motor de impulso da empresa passa para uma entidade de especialistas. A tomada de decisões não é mais concentrada no Empresário, antes é difusa entre esta entidade coletiva. Segundo López-Ruiz, o novo momento no cenário capitalista é o ensemble individualism, momento em que há uma eliminação da distinção entre os conceitos de capital e trabalho. No ensemble individualism o trabalhador é dono de seu próprio capital. Falamos aí de um capital intelectual. Ele escolhe onde, quando e como investir sua capacidade, competência técnica, habilidades, talentos, inteligência e destreza, assim como escolhe em que momento deve retirá-los da organização. Hoje o vinculo do trabalhador com a empresa é muito mais efêmero do que antigamente. O trabalhador é investidor de si mesmo, é o seu próprio capital. O capital humano.


Levando em conta todo o processo de Globalização podemos concatenar os filmes e o livro analisados, considerados sobre uma perspectiva de evolução. O contexto de Amélia nos remete ao passado, aos primeiros esboços da formação de uma aldeia global, onde Paris e Brasil tem uma relação cultural próxima, de troca e interdependência.  Posteriormente Surplus nos remete ao estado atual que chegamos depois do inicio do processo de globalização (que tem como marco inicial o fim da II Guerra Mundial). As consequências desastrosas e caóticas da busca incessante pelo consumo, fruto do capitalismo predominante na maioria das nações. Ao mesmo tempo em que o mundo globalizado permite a expansão dos negócios entre países emergentes e desenvolvidos, também causa pobreza, desigualdade e desastres ambientais . As considerações de Osvaldo López-Ruiz nos dão indicações sobre o panorama capitalista que está florescendo pouco a pouco, mas já mostra tendências de se tornar um novo fenômeno de massa, em que o capital mais importante não será mais o capital financeiro, mas sim o capital intelectual, indispensável em um mundo cada vez mais competitivo, com transformações cada vez mais rápidas e complexas.

Referências:

AMÉLIA. Direção: Ana Carolina Teixeira Soares. Rio de Janeiro: Crystal Cinematográfica. Riofilmes 2000. (126 min). NTSC, COR. 35mm.

LÓPEZ-RUIZ, Osvaldo Javier. Os executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo: Capital humano e empreendedorismo como valores sociais. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007.

SOARES, Cleuza Maria. Entre o champanhe e o café: o filme Amélia à luz dos estudos pós-coloniais. 2011. Trabalho apresentado ao XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências  Sociais, Bahia, 2011.

SENRA, Stella. Amélia: dependência de dois mundos que se estranham. Sinopse. São Paulo, nº 8. p 38-41. Jul 2007

3 de maio de 2012

O Processo


Por Job. Nascimento

            O livro “O Processo” representa uma das obras primas da literatura mundial, o autor Franz Kafka viveu em Praga no início do século XX. Os roteiros e paisagens dessa estória com certeza foram influenciados por essa cidade medieval gótica, com elementos eslavos e marcada pelos traços barrocos e sombrios. Os lugares escuros, como o da casa do pintor Titorelli que o Sr. K vai visitar são provas disto. Neste livro também foi determinante o fato de Kafka ter estudado direito na Universidade de Praga, o que favoreceu os relatos sobre os trâmites processuais.
            Josef K era um funcionário importante na hierarquia do banco em que trabalhava. Homem de reputação indiscutível e que aparentava não ser capaz de cometer qualquer delito. De repente, toda essa reputação é maculada por um processo que estranhamente é aberto contra ele. Homens invadem sua casa e fazem interrogatórios vazios e o Sr. K vai diante do juiz de instrução e tenta se defender contra o que ele desconhece.
            A obscuridade do processo e a inacessibilidade à justiça são coisas comuns no processo do Sr. K que tenta de diversas formas não somente se defender, mas também entender o porque e por quem estava sendo processado penalmente. A severidade dos juízes e a impossibilidade de defesa por parte dos advogados eram elementos recorrentes no relato dos processos dos outros acusados que o Sr. K encontrava no tribunal e no escritório do Dr. Huld.
            Pessoas totalmente improváveis e esquisitas de alguma forma estavam ligadas ao tribunal que parecia que controlava e acompanhava todos os passos do Sr. K. Josef K é levado para um lugar fora da cidade por homens que parecem ser ligados ao tribunal, passam pela polícia e parece que o tribunal está dissociado da polícia ou opera de forma equivalente a ela. O Sr. K é executado com uma facada e morre desconhecendo o motivo que o levou a esta punição.
            Afora os elementos ideológicos ligados a noção do homem moderno que parece se apegar de forma impotente a algo que o transcenda, Franz Kafka mostra o caráter obscuro dos processos penais, a impossibilidade de defesa dos acusados e o estranho mecanismo que faz funcionar a maquina judiciária que ele denomina simplesmente como “O Tribunal”.

KAFKA, Franz. O processo. 5ª Edição. São Paulo: Martin Claret, 2008.

13 de julho de 2011

Uma vida cheia do Espírito

Por Job. Nascimento

Charles Finney foi um importante evangelista e avivalista do século 19. Alguns historiadores relatam que talvez ele tenha ganhado cerca de 500.000 pessoas para Cristo. Seu fervor na oração, dedicação na pregação e preocupação pelo evangelismo eram notórios e evidentes. 

Finney no presente texto afirma que cultura e eloqüência cristã de nada valem se não houver o “poder do alto”. Esse poder seria a presença e o batismo com o Espírito Santo na vida do pregador/seminarista. Assim, esse poder transforma tímidos pescadores em poderosos pregadores, como aconteceu com os discípulos. 

A oração por reavivamento não passa de um jogo vazio de palavras se não existir na intercessão sinceridade, fé e demonstração em atos o que se busca. Não adianta pedir reavivamento em prantos na igreja e ao sair do templo cruzar os braços e se fazer de cego diante dos pecadores. 

Por fim, Finney se revolta contra aqueles que pregam a auto-justificação do pecado a partir da abstinência do erro. Ele diz que se tentarmos vencer o pecado por nós mesmos perderemos a batalha. Pois é o Espírito Santo que convence vence e santifica o homem e qualquer tentativa humana de tentar se justificar é negar a cruz. 

Excelente livro. Finney disserta nesta coletânea de pequenos artigos com maestria sobre o poder do Espírito Santo e sua influência na vida do cristão. O Espírito Santo não é uma força cósmica estática, como alguns afirmavam, mas como Finney ratifica é um Ser pessoal que nos acompanha e instrui.

FINNEY, Charles G. Uma vida cheia do Espírito. Venda Nova-MG: Betânia, 1978.
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12 de julho de 2011

Refletindo sobre a saúde com grupos de adolescentes

Por Job. Nascimento

A adolescência é um período de transformações: corporal, psicológica e social. É na segunda década de vida que o indivíduo descobre o mundo e se descobre no mundo. A importância dos grupos nessa fase é evidente. Bemto Lourenço defende a criação de grupos de educação em saúde para essa faixa etária. Afim de inseri-los no desenvolvimento de ações de promoção de saúde, potencializando seu crescimento e absorvendo sua vivência. 

O adolescente tem forte vínculo com o grupo, esse vínculo evidencia uma forma de defesa em que ele busca formar sua identidade fora de ambiente familiar. A proposta de criação de “grupos de adolescentes” na educação em saúde tem como objetivo criar um espaço saudável para a participação e expressão do jovem, onde ele é fortalecido, enriquecido, compreendido e ensinado a compreender. 

O autor adverte que o grupo não pode ser utilizado apenas como uma espécie de tutorial em que os jovens são informados sobre os sintomas da sífilis, gonorréia ou sobre os efeitos da maconha. Porque a simples informação não garante proteção. Valendo-se da máxima platônica: “você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa”, Lourenço afirma que a atividade do grupo começa a partir do que é trazido pelo jovem ao grupo, inicia-se o processo de reflexão junto com o grupo. 

Na reflexão sobre o problema o grupo de adolescentes precisa observar dois pontos essenciais: a percepção de si mesmo (manifestação de afetividade, sensibilidade, espontaneidade e criatividade) e a percepção do outro. É necessário também estabelecer algumas regras específicas, colocando o contexto, espaço e duração dos encontros, envolvendo o grupo na aceitação e no compromisso. Com o intuito de criar um clima favorável à quebra de resistências e a consolidação de vínculos de confiança e respeito mútuos. 

A criação de grupos de educação em saúde para grupos de adolescentes nas UBS (Unidades Básicas de Saúde), defendida pelo autor, tem como objetivo desmistificar a idéia de que a UBS é apenas um lugar de doença e doentes, e transforma-las num espaço comunitário e divertido de saúde. Esse modelo serve tem pretensão de ser efetivo cuja a fundamentação básica é: Prevenção e Promoção de Saúde.

LOURENÇO, Bemto. Trabalho em grupos de adolescentes: reflexão em Saúde.
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14 de maio de 2011

O precioso sangue de Cristo.

Por Job. Nascimento

SPURGEON, Charles Haddon. O precioso sangue de Cristo. São Paulo: PES, 1993. 

Charles Spurgeon é um dos maiores pregadores da história do cristianismo. Ele influenciou centenas de pregadores, entre eles A.W. Tozer e Billy Graham. Foi um calvinista extremo, de modo que acreditava que não seria possível alguém que acreditá-se na “caída da graça” pudesse ser feliz. Seus sermões, vinte e cinco anos após sua morte atingiam enormes cifras e tiragens de 300.000 exemplares na Inglaterra, o que para a época era um número impressionante. 

O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado. O seu sangue nos resgatou para a incorruptibilidade. Sem o derramamento de sangue não há remissão de pecados. Então, qualquer cristão, pregador ou ministério que deixe de anunciar o sangue de Cristo não pode ser considerado bíblico, pois o seu sangue é indispensável ao perdão dos pecados, inicia Spurgeon. 

Spurgeon exclama que o sangue de Cristo nos redimiu da lei. Antes, éramos escravos dela, estávamos sob a lei. Agora estamos debaixo do sangue de Cristo. Não tememos mais a lei, suas sanções não são proferidos contra nós mais. Por isso, o valor do sangue de Cristo está principalmente em sua expiação eficaz. Cristo veio ao mundo e foi punido em lugar de seu povo. O sangue de Cristo também tem poder de preservação. 

O sangue de Cristo é precioso por causa de sua influência comovedora no coração humano. O empedernimento do coração do homem acaba quando encontra o sangue de Cristo. O sangue de Cristo ainda pacifica e influência a santificação do cristão; dar acesso ao Pai; tem o poder confirmador (porque ratifica a nova aliança); e tem poder vencedor porque: “eles venceram por causa do sangue do cordeiro” (Apoc. 12.11), Spurgeon cita Toplady para concluir o livro: “Lei e terrores apenas endurecem, enquanto operam sozinhos, mas um senso de perdão comprado por sangue logo dissolve o empedernido coração”. 

Esse livro de Spurgeon nos transmite uma interpretação tão apaixonada sobre o poder do sangue de Jesus Cristo, que mesmo já tendo ouvindo falar sobre esse tema por diversas vezes fui surpreendido e tocado com suas palavras. Recomendo o livro e é uma importante leitura para qualquer que queira entender uma das bases do evangelho: “o sangue de Cristo”.

21 de abril de 2011

"Amor por Anexins" de Artur de Azevedo

Por Job. Nascimento

Artur de Azevedo nasceu na cidade de São Luís em 1855. Foi dramaturgo, contista, poeta e jornalista. Foi também um dos defensores da abolição da escravatura. Escreveu uma vasta obra de peças (passando de duzentas). Ao mudar-se para o Rio de Janeiro dirigiu o Teatro João Caetano onde encenou quinze peças originais em menos de três meses. 

“Amor por Anexins” é uma peça de sua juventude. Ocorre no Rio de Janeiro, como o título já sugere é um romance que se desenrola em torno de Anexins (“adágios”), que são pronunciados por Isaías (um velho solteirão) à Inês (uma costureira viúva à procura de casamento). Isaías pede Inês em casamento, mas ela rejeita-o. Até que recebe uma carta de Filipe que a abandonou para se casar com outra, por dinheiro. 

Assim, ela decide ceder aos anexins de Isaías e aceita seu pedido. Não por amor, mas pelo dinheiro. A peça é excelente. A leitura envolvente. A capacidade de encaixar adágios a todas as falas de Isaías torna a leitura engraçada e dinâmica. Só faço uma ressalva quanto ao tema: “amor por anexins”, amor não há, e sim “casamento por anexins”.

9 de fevereiro de 2011

O chamado para o ministério

Por Job. Nascimento

SPURGEON, Charles Haddon. O chamado para o ministério. São Paulo: PES, 1990. 

Charles Haddon Spurgeon foi um teólogo e pastor batista inglês do século XIX, considerado o príncipe dos pregadores, ele escreveu mais de 135 livros e pouco mais de 5.000 sermões. No pensamento de Spurgeon destaca-se seu calvinismo e extremo zelo pela pregação e pelo ministério. 

 É dever de todo cristão propagar o evangelho. Segundo Spurgeon o cristão que não prega o evangelho é um impostor. Entretanto, o chamado para o episcopado não é para qualquer um. Ele necessita de preparo e mais que isso de chamada divina. O Espírito Santo designa alguns para agirem como superintendentes, e outros para se submeterem à vigilância de outros, para o seu próprio bem.

Spurgeon argumenta que nenhum homem deve intrometer-se no rebanho como pastor; antes, ele deve ter os olhos postos no Sumo Pastor, e esperar o seu sinal e sua ordem. Assim, antes do homem se posicionar na frente de alguma obra, ele deve esperar o chamamento divino. Por que “como pregarão se não forem enviados?”. Ele não deve se lançar às pressas a um cargo sagrado, porque senão o Senhor dirá: “Eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e não trouxeram proveito nenhum a este povo, diz o Senhor” (Jr. 23.32). 

Um embaixador não enviado seria objeto de riso. Homens que se arrogam o direito de serem chamados embaixadores de Cristo precisam compreender mais profundamente que o Senhor lhe “entregou” a palavra da reconciliação. Entretanto, mesmo diante de muitas recomendações para não se auto-nomear ministro de Cristo sem ser, Spurgeon ansiava que se cumpri-se a promessa: “e vos darei pastores segundo o meu coração” (Jr. 3:15) e “levantarei sobre elas pastores que as apascentem” (Jr. 23:4). Concluindo, Spurgeon adverte que se alguém puder ficar satisfeito sendo redator de jornal, merceneiro, fazendeiro, médico, advogado ou senador em nome de Jesus siga seu caminho, mas não siga o ministério se conseguir de alguma forma viver sem ele. 

 Esse pequeno livro de Spurgeon, quase um opúsculo, chama-nos atenção para que não nos intrometermos no ministério cristão (especialmente o episcopado) senão formos previamente chamados por Deus. Spurgeon, no entanto, se mostra um tanto radical quanto a possibilidade de um pastor bi-vocacionado, para ele o ministério necessita de atenção integral.