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23 de agosto de 2014

Saúde Mental e o Policial Militar: a concepção de Policiais Militares acerca do estresse relacionado ao seu trabalho dentro da perspectiva de saúde mental.

Carlos da Silveira e Larissa Valeska Freitas de Souza

Resumo:Nesse artigo aborda-se a concepção de policiais militares acerca do estresse, na perspectiva da saúde mental. Procurou-se analisar qualitativamente, através da Análise do Discurso, a fala dos sujeitos da pesquisa, sendo três policiais militares – um soldado feminino, um masculino e um sargento. Os resultados apontam para um policial consciente da importância do buscar e da promoção dos serviços e cuidados de saúde mental; no entanto, percebe-se que não os fazem atribuindo a vários fatores, como a precariedade destes serviços prestados pela instituição. Percebe-se, portanto, a possibilidade do adoecimento psicossocial dessa categoria profissional, negando-se a possibilidade desse sofrimento, o qual diz de um sintoma, do subjetivo; diferente dos sinais, os quais se inscrevem no fisiológico. A pesquisa traz apontamentos da fragilidade desses serviços dentro da Instituição Policial Militar, pontuadas pelos próprios policiais; sinalizando para a importância de outras pesquisas dentro desse tema, para uma melhor compreensão dos dados emergidos e de quais implicações esse “não buscar e não promover” dos serviços e cuidados de saúde mental, possam ter sobre esses policiais, suas famílias, a instituição e a sociedade. Portanto, abri-se a possibilidade de novos olhares e fazeres na promoção e cuidados em saúde mental, para o policial militar e consequentemente, para toda sociedade.

Palavras-chave:Estresse. Saúde Mental. Policial Militar.


1. Introdução

Com o tema sugerido nesse artigo,“Saúde Mental e o Policial Militar – A concepção de Policiais Militares acerca do estresse relacionado ao seu trabalho dentro da perspectiva de saúde mental”procurou-se investigar a concepção de policiais militares acerca de sua relação com o estresse, na sua profissão, analisando tais concepções a partir de um olhar da saúde mental. Assim, abrindo novos olhares e possibilidades para novas pesquisas nesse campo; no entanto, aqui já fazendo alguns apontamentos qualitativos a partir dos dados analisados.
Atualmente, a instituição Policial Militar do Estado do Rio Grande do Norte (PM/RN) conta com um efetivo de aproximadamente 9 mil policiais, segundo o Departamento de Pessoal da Polícia Militar do Rio grande do Norte (DPPM/RN, 2012), entre homens e mulheres, nos quais a maioria exerce sua função ostensivamente (fardados, armados e equipados) nas ruas das cidades deste Estado. Entendendo que nesse fazer constrói-se significados para esses sujeitos, pois como nos traz Codo, Soratto e Vasques-Menezes (2004), o indivíduo é indissociável do trabalho; portanto, ligado e constituído a partir deste por meio de seus significados em suas vidas.
O Policial Militar no seu trabalho diário enfrenta várias situações de risco, onde num extremo está a população a qual deve proteger e, do outro, o perigo eminente, os diversos tipos de violência, bem como crimes contra a vida aos quais também estão expostos (OLIVEIRA e SANTOS, 2010). No próprio juramento de compromisso à profissão, é submetido a defender a sociedade com o risco da própria vida o que, literalmente, acontece. Sendo assim, uma profissão que por sua própria natureza já compromete a segurança de vida do profissional que a exerce (COSTA, 2007; OLIVEIRA e SANTOS, op. cit.).
Dessa forma, este profissional vive num constante estado de alerta, podendo a vir desencadear outro estado, a eminência do estresse patológico, que apesar da definição de Lima (2003apudCONDÔLO et. al., 2006), o estresse não é uma enfermidade, e sim uma preparação do organismo para lidar com situações estressoras, variando de pessoa para pessoa, sendo, portanto, um mecanismo relevante para a sobrevivência humana, normal, necessário e benéfico ao organismo, fazendo com que o indivíduo fique mais atento e sensível em situações de perigo ou de dificuldades.
O indivíduo que vivencia situações constantes de estresse, logo poderá a vir desencadear vários desequilíbrios psíquicos como um nível mais alto do estresse, o distress (CONDÔLO et. al., 2006), o que poderá desencadear consequentemente, diversas formas de transtornos mentais (depressão, pânico, burnout e etc., os quais não serão enfatizados aqui) e, consequentemente, a morte desse indivíduo, tanto literalmente como no sentido psicológico, em decorrência da falta de uma atenção e cuidados especializados na saúde mental do mesmo (LIMA, 2003; COSTA, 2007).
Nesse sentido um aspecto relevante aqui, relacionado à morte por consequências de problemas mentais, é o suicídio entre policiais militares (OLIVEIRA, 2011). Nesse aspecto, Lima (2003) aponta que, em pesquisa feita através de informações de várias partes do país, com as primeiras extraídas de uma tese desenvolvia por um psicólogo da Polícia Militar de São Paulo – Uma Cultura Suicida – divulgada pela “Revista Isto É” (1994), o número de suicídios entre policiais daquela corporação havia aumentado 50% em 1994 e que era crescente desde 1979.
Apesar de esses dados serem antigos e da PM de São Paulo, é possível encontrar informações sobre casos de Policiais Militares que cometeram suicídios só em Natal-RN, envolvendo indivíduos com episódios depressivos e sofrimento psíquico, dentro da instituição Policial Militar; entendendo-se, portanto, como uma ausência de uma política interna voltada para a promoção da saúde mental, bem como, para o controle do estresse, segundo o Centro de Apoio Psicossocial Ao Policial (CIASP. 2012).
Nesse sentido, essa pesquisa aponta como objetivo principal investigar as concepções dos Policiais Militares acerca do estresse laboral dentro de uma perspectiva da saúde mental; comparando tais concepções com um conceito de saúde mental mais bem difundido dentro do atual contexto sociocultural na Saúde do Brasil, investigando assim, aproximações e distanciamentos. Justificando-se, portanto, pela relevância que tais resultados trazem para esses profissionais, tal como para toda sociedade; pois, uma instituição tão importante como dispositivo de segurança pública, constituída de sujeitos biopsicossociais, necessita de políticas internas que visem o cuidado e a promoção, contínuos e efetivos, de saúde mental para os seus profissionais.


2. Fundamentação Teórica

O Policial Militar, como já dito, lida com diversas situações de risco e perigo constantes, bem como com sua clientela, em especial, a sociedade (SARTORI, 2006ApudOLIVEIRA, 2011). Pessoas das mais diversas culturas, que esperam desse policial um atendimento de qualidade e, sobretudo, humanizado – o que é muito pertinente – pois, quem se encontra em algum tipo de perigo, portanto fragilizado psicologicamente, necessita de um atendimento por um policial preparado nesses aspectos (COSTA, 2007). Contudo, não se observa dentro dessa instituição, segundo levantamentos nas literaturas pesquisadas para esta pesquisa, um trabalho efetivo de promoção a saúde mental que venha dar condições para esse policial lidar com suas questões nesse aspecto (COSTA, 2007; CONDÔLOet.al., 2007; OLIVEIRA, 2011). Percebendo-se assim, uma dificuldade na prestação de um atendimento de qualidade e humanizado e no lidar com pessoas de diversas culturas, caso o nível de estresse desses policiais seja alto e constante; e ainda, é percebida a ausência de uma educação nesse sentido, para que os mesmos saibam lidar com essas questões.
Pode-se levar ainda esse questionamento para as inter-relações laborais, familiares e, sobretudo, para o próprio indivíduo que aqui, até agora, está sendo citado como um profissional, representante de uma instituição, com diversas atribuições e responsabilidades; podendo melhor ser analisado como um sujeito, com suas afetações, emoções e subjetividades. Não incorrendo no erro de uma pesquisa em saúde mental voltada apenas para a preocupação com o rendimento profissional desse sujeito, mas com o próprio sujeito (OLIVEIRA, op. cit.).
Nesse sentido, essa pesquisa foi voltada para o indivíduo, pensando como consequência disso um indivíduo saudável, dentro do possível, em todas as esferas de sua vida para, então, poder prestar um serviço de segurança pública não só de qualidade e humanizado, mas com satisfação pessoal, considerando nesse aspecto o conceito de saúde mais difundido(embora já reformulado, mas aqui nos direcionando a esse respeito), a saber, “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.” (OMS, 1948) embora utópico, mas aqui apontando um ideal de saúde.
Em um conceito mais amplo na atualidade, tal como nos traz Scliar (2007), saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural, ou seja, não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá de contextos como: época, lugar e classe social, bem como, de valores individuais, concepções científicas, religiosas e filosóficas. Podendo-se pensar o mesmo das doenças; ou seja, dependerá do contexto em que o indivíduo se inscreve (SCLIAR, 2007).
Vale salientar que para o indivíduo ingressar na corporação, é submetido a testes psicológicos e físicos que o avalia se tem pré-requisitos para assumir tal função, porém após seu ingresso na corporação não há um trabalho efetivo voltado para o acompanhamento da saúde mental do mesmo (CIASP, 2012), fato este desconhecido até mesmo pela própria sociedade, cuja mesma é clientela primeira deste profissional. Dessa forma, espera-se destes um pronto atendimento dentro das diversas demandas da sociedade (OLIVEIRA e SANTOS, op. cit.).
Entende-se aqui, portanto, existir vários fatores que podem contribuir para que a saúde mental desses profissionais seja comprometida: o distanciamento destes dos seus familiares, já que são submetidos à certa escala de serviço desgastante, e na folga procuram outra atividade para complementar a renda familiar (OLIVEIRA e SANTOS, op. cit.); falta de condições (logística e humana) de trabalho; falta de reconhecimento e valorização profissional por parte de atores sociais (não visando que por trás da farda existe um indivíduo) que consequentemente acaba desmotivando e deprimindo o profissional devido à insatisfação com a própria profissão; e as próprias relações interpessoais (COSTA, 2007).
Nesse aspecto, abarcamos alguns conceitos para melhor compreensão da pesquisa, tal como oEstresseque pode ser definido como a soma de respostas fisiológica ou emocional determinadas por estímulo externo (estressores) que podem provocar ansiedade e tensão perceptíveis pelo organismo no qual são exigidos mecanismos adaptativos propiciando meios adequados à reação e preservação da integridade e do equilíbrio (POLITO e BERGAMASHI, 2006apudOLIVEIRA, 2011). Considerando-se como parte multíplice e dinamicamente na interação entre indivíduo e ambiente, sendo assim iniciadas as necessidades como também as capacidades de cada sujeito, e consequentemente irão obter resposta do organismo a uma mudança.
A expressão estresse passou-se a ser de uso corriqueiro, divulgada através dos diferentes meios de comunicação generalizando, simplificando e até mesmo ocultando as reais consequências que o estresse laboral traz para o sujeito num todo; nessa perspectiva, o estresse relacionado ao trabalho (Estresse Laboral) pode ser definido como a situação em que a pessoa percebe seu ambiente de trabalho como ameaçador podendo ser entendido como um desequilíbrio entre as exigências ocupacionais e a capacidade de resposta do indivíduo, constituindo-se em um importante problema de saúde ocupacional, sendo as somas de respostas físicas ou mentais inerentes aos estímulos do ambiente de trabalho que de alguma forma cobra do indivíduo respostas adaptativas que podem ocasionar e influenciar comportamentos negativos desse profissional (OLIVEIRA, op. cit.).
Com isso, surge mais um conceito, oEustresseque pode ser entendido como o estresse positivo, que impulsiona o indivíduo para a vida, para reagir positivamente frente aos estressores. Sendo gerado a partir de sensações reconhecidas pelo indivíduo como positivas (CONDÔLOet. al., 2007),o que, na contramão, surge oDistresseque, nesse caso, as ligações emocionais reagem diante de uma situação de perigo, conduzindo-o a  um  quadro  depressivo e  reconhecido  como  fator  de  intimidação  e ameaça.
Aqui, pode-se compreender o estresse em quatro níveis:alerta,resistência, quase exaustão e exaustão(LIPP, 2003 apud ROSSETet. al., 2008). Tais níveis podem ser descritos da seguinte forma: o nível deAlertaé considerado a fase positiva do estresse, o ser humano se energiza por meio da produção da adrenalina, tem sua sobrevivência preservada e uma sensação de plenitude é frequentemente alcançada; o nível deResistência, a segunda fase, a pessoa automaticamente tenta lidar com os estressores (estímulos desencadeadores do estresse) de modo a manter sua homeostase interna (auto regulação do organismo). Se os fatores estressantes persistirem em freqüência ou intensidade, há uma quebra na resistência da pessoa e ela passará à fase deQuase Exaustão, que aqui, as defesas do organismo começam a ceder, já não conseguindo resistir às tensões e restabelecer a homeostase. É nesta fase que as doenças graves podem ocorrer nos órgãos mais vulneráveis, como enfarte, úlceras, psoríase, depressão e outros (ROSSETet. al., 2008).
Há um enfraquecimento da pessoa que não consegue mais se adaptar ou resistir ao estressor e, assim, as doenças começam a surgir, não sendo ainda tão graves, como na fase de exaustão, mas caracterizando-se por fase preocupante e danosa para o organismo (ROSSETet. al., 2008; LIPP 2001).
Há ainda o nível mais preocupante, aExaustão, pois é nesta última fase que surgem as doenças mais graves, em função da diminuição do sistema imunológico, surgindo, principalmente, a hipertensão arterial, problemas dermatológicos, depressão, raiva, ansiedade, angústia, apatia, alteração do humor e hipersensibilidade emotiva, levando a necessidade indispensável da intervenção de profissionais especializados, não podendo e nem sabendo o indivíduo, lidar com tais fatores (ROSSETet. al., 2008).
Outro conceito dentro dessa perspectiva é o deSaúde Mental, que pode ser entendido como sendo um estado de equilíbrio dinâmico que resulta da interação do indivíduo com os meios interno e externo, suas relações interpessoais, qualidade de vida, suas características orgânicas, seus antecedentes pessoais e familiares, ou seja, é o envolvimento do homem no todo biopsicossocial, resultando na diversificação e interação que o mesmo esteja inserido (FONSECA, 1985); e ainda, segundo Codo, Soratto e Vasques-Menezes (op. cit. p. 279), a capacidade de se auto construir, produzindo e reproduzindo, a si e à espécie; tendo, como rompimento dessa capacidade, distúrbio psicológico, sofrimento psicológico ou doença mental.


3. Metodologia

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa de caráter eminentemente descritivo, desenvolvida através de um método clínico-qualitativo.
Para Campos (2004), o método qualitativo tem como escopo “o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes”, assim, correspondendo ao universo mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos, os quais não se reduzem à operacionalização de variáveis, a manipulação de objetos concretos, e sim permeado pelo subjetivo, pelo o que diz do significado que cada sujeito dá diante dos fenômenos sociais. E ainda, o mesmo autor aponta uma definição de método qualitativo, segundo Minayo, como um método que abarca a questão do significado e da intencionalidade como pertencentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, as quais são tomadas, desde seu advento a sua transformação, como construções humanas significativas (CAMPOS, op Cit. apud MINAYO, 1996, p.10).
Quanto aos sujeitos da pesquisa, esta foi feita com quatro participantes, sendo três policiais militares – um soldado e um sargento lotados na CIPRED, um soldado feminino da Companhia de Policiamento Feminino (CPFEM) - e um psicólogo do CIASP. Foram ainda usados os critérios de inclusão e exclusão para melhor definir os sujeitos da pesquisa.
Como critério de inclusão considerou-se o tempo de serviço na instituição (mais de dois anos no mínimo), tendo em vista a possibilidade de uma inviabilidade com menos tempo que esse, pois o sujeito poderá não ter ainda uma concepção considerável da problemática dentro da instituição policial militar; o ambiente de trabalho (também onde já trabalhou), levando em consideração a possibilidade de uma relação entre a função específica com o estresse desse policial.
Como critério de exclusão, não foram selecionados policiais com menos de dois anos de Instituição pelos mesmos fatores citados anteriormente; policiais que estão à disposição de órgãos civis e que, assim, não estejam desempenhando diretamente sua função de policial; portanto, sendo mais viáveis aqueles que estejam lidando no seu dia a dia com a segurança pública (atividades de risco) diretamente.
Foi utilizada para a pesquisa a entrevista semi-estruturada participativa, que permitiu a abertura de espaços para colocações de novas demandas emergentes dos entrevistados; bem como a participação direta dos pesquisadores criando assim um espaço de pesquisa mais próximo dos sujeitos pesquisados (LIMA et. al, 1999).
A pesquisa iniciou-se com a visita aos campos, conhecendo os espaços físicos, seu pessoal e dinâmicas de funcionamento. Solicitamos a autorização aos responsáveis por aquelas instituições (CIPRED e CPFEM) para aplicação da pesquisa através de ofício expedido pela direção do curso de Psicologia da UnP.Em outro momento, solicitamos aos policiais que estavam presentes, voluntários para a pesquisa, esclarecendo-os do que se tratava e seus objetivos, selecionando apenas dois na CIPRED e um na CPFEM, dentro dos critérios de inclusão/exclusão mencionados anteriormente.
Após apresentação do instrumento de pesquisa - Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual esclarece aos participantes a natureza e os objetivos da pesquisa e de suas participações na mesma, deixando-os informados sobre sua autonomia nesse processo - iniciou-se a entrevista coletando os dados sociodemográficos dos mesmos. Levantaram-se informações sobre os seguintes dados: iniciais do nome; Idade; escolaridade; cursos; tempo de serviço; em que área trabalha; em que outras áreas já trabalharam; estado civil/quanto tempo; filhos; posto/graduação e se possuía plano de saúde.
Em outro momento, deu-se inicio a entrevista propriamente dita abarcando questões sobre suas concepções acerca do estresse no trabalho e saúde mental. Para isso foram formuladas nove perguntas, algumas envolvendo questões pertinentes ao tema e sua profissão tais como as questões três e quatro do questionário de pesquisa disponibilizado no apêndice deste trabalho.
Os dois primeiros entrevistados foram os policiais da CIPRED, sendo realizada a noite em suas residências, respectivamente, por ser inviável na instituição devido sua dinâmica de funcionamento; a terceira entrevista se deu na CPFEM com a policial no horário de expediente.
A análise dos dados segue um processo indutivo, no qual se estabelece um método mental por intermédio do qual, partindo-se de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas (CAMPOS, 2004). Nesse sentido, analisamos as diversas falas dos sujeitos da pesquisa numa perspectiva da análise do discurso que, segundo Lima (2003), a análise não é feita a partir da linguística do texto em si, nem numa perspectiva sociológica ou psicológica de seu contexto, mas de uma articulação de sua enunciação sobre certo lugar social. Pensando ainda, desvelar o que está latente nas falas dos sujeitos, considerando o lugar em que esses se inscrevem e os atravessamentos engendrados sobre os mesmos.


4. Discussões e Resultados

A análise dos dados foi engendrada a partir das questões que se inscrevem nos objetivos geral e específicos, os quais fundamentam toda essa pesquisa. Entendendo, a partir dos diversos autores aqui pesquisados, que a falta de promoção e a não busca (pela Instituição e policiais respectivamente) dos serviços de saúde mental dentro da instituição Policial Militar, implicam em sérias consequências para esses profissionais e a sociedade.
O perfil sócio demográfico dos policiais pesquisados, aponta para um indivíduo casado, com um filho em média, ensino superior ou técnico completos, idade entre 30 e 43 anos, tempo de serviço entre 8 e 23 anos, todos exercendo suas funções em serviços internos e externos nas suas respectivas sub unidades de polícia. Assim, percebendo-se desse sujeito um profissional com certo tempo de serviço, experiência e informado, já que todos apresentaram uma formação técnica ou acadêmica. Nesse sentido, trata-se de sujeitos que já tem certa leitura da profissão e da vida; tais sujeitos vivenciados em experiências várias, as quais podem lhes apropriar de concepções acerca do seu estresse, da saúde mental e da própria vida.
Na análise pode-se constatar a partir das concepções desses policiais, acerca do estresse laboral e saúde mental, algumas aproximações e distanciamentos desses conceitos, os quais aqui são aportados por um olhar mais amplo de sujeito biopsicossocial, tal como nos trazem Rosset e colaboradores (2008), em que o estresse é uma reação do organismo frente a estímulos estressores e que se subdivide em quatro fases, alerta, resistência, quase exaustão e exaustão; e ainda, Martins (2004), conceituando saúde mental como, esta devendo abranger o homem no seu todo biopsicossocial, o contexto social em que está inserido e a fase de desenvolvimento em que se encontra.
Nesse sentido, analisaram-se alguns pontos como aproximações desses conceitos, tal como no seguinte recorte para as perguntas do questionário: “O que você entende e como lida com o estresse?
Sargento L – “Então o estresse está ligado a tudo na vida do ser humano [...] ele tem que se observar primeiro, saber como está a parte imunológica dele, se ele está cansado se ele está fadigado, se ele está rendendo como deve render e se observar propriamente, esse policial.”
Nesse recorte, observou-se que esse policial traz em sua concepção um entendimento de estresse ligado a questões psicofisiológicas, bem como a fatores exógenos, apontando que há uma relação entre fatores externos e orgânicos para o estresse no indivíduo. Contudo, observou-se ainda, que mesmo tendo essa aproximação conceitual, o policial traz também, concepção do estresse e da saúde mental voltadas para uma relação de produção do trabalho, tal como se confere no recorte seguinte:
Sargento L – “[...] e o estresse é hoje uma das principais causas de desmotivação, do descumprimento do cidadão no trabalho, isso em todos os aspectos, [...]” (sobre o estresse); “A saúde mental na minha visão é um sistema de tratamento [...] às vezes o funcionário chega cansado ele não rende, ele não ta rendendo como deveria render, ele tem potência, ele tem potencial pra crescimento, mas não consegue desenvolver suas funções porque por algum problema psicológico [...]. E esse tipo de caráter faz com que esse funcionário não venha render o que pode render, ele sabe que pode render, mas não consegue desenvolver suas funções” (sobre saúde mental).
Assim, dar-se a ideia de que o indivíduo deve estar bem e motivado paracumprircom suas obrigações no trabalho, e não para seu bem estar pessoal; e ainda, na perspectiva organicista, percebe-se o estresse implicando apenas em fatores orgânicos objetivos (sinais), possivelmente negando fatores subjetivos (sintomas), no que se poderá dizer que é preciso verificar a presença de sinais específicos no organismo para se diagnosticar o estresse, ignorando seus precedentes, os sintomas, os quais dizem dos sofrimentos, dos desconfortos da alma, o que é da ordem da subjetividade.
Nesse sentido, corrobora a ideia de que a difusão do termo estresse veio tanto para contribuir como para confundir o sujeito, já que muitos estudos surgiram contribuindo com novas descobertas, mas que se popularizou (o termo estresse) pelo senso comum, atingindo de alguma forma a própria pesquisa científica, transformando o conceito em “fórmula mágica” (CODO, SORATTO, VASQUES-MENEZES, op. cit. pp. 280, 281).
Outra questão avaliada, a partir de perguntas específicas nessa pesquisa, foi a da concepção desses policiais acerca da saúde mental, sua importância para eles enquanto profissionais da segurança pública e para a instituição. Para essas questões pode-se observar que os mesmos demonstram conhecimento da importância de tais serviços – Psicologia, Psiquiatria, Instituições de Saúde Mental, como se pode observar nos seguintes recortes:
Soldado G - “... Saúde mental é qualidade de vida, [...] é ter disponibilizado pelo próprio trabalho mesmo, no próprio trabalho através dos gestores, Segurança [Pública] ou mesmo qualquer outro trabalho.”;
Soldado feminino E – “Nesse ponto de saúde mental, eu acredito que seja uma perturbação realmente da saúde. Quando você não consegue pensar ou “ter” condições de ter autonomia em si de realizar suas funções, seus afazeres; de alguma forma tem esse prejuízo. Aí deixa de ter saúde mental, é isso que quero dizer. É um conceito muito complexo, mas quando esse estado de saúde é desequilibrado por esse motivo, aí já afeta sua saúde mental.”
No entanto, apontam para a deficiência daqueles serviços dentro da Instituição Policial Militar; trazendo ainda desconhecerem os mesmos (serviços), de modo efetivo, dentro da corporação:
Sargento L - “[...] No centro clínico [...] temos vários profissionais, mas a questão psicológica a policia militar deixa a desejar nessa questão. É por isso que acontecem os problemas na rua, eles estão pela junta medica e começa os problemas nas ruas, [...] policiais com questão de violência, porque não tão tendo acompanhamento, estão pela junta médica, mas não tem esse acompanhamento[...]”
Soldado G – “[...] se contratasse mais psicólogos que ajudaria muito, porque o caso de policiais afastados não é brincadeira... São muitos policiais afastados aí que não tem acompanhamento. “A gente... Somos” tratados de uma forma que realmente de “se vira”. Da dez dias, se afasta, depois volta novamente,  ninguém tem um pingo de interesse pra saber como anda nossa mente não.”;
Soldado feminino E - “[...] é muito importante esse serviço, [...] e deveria ser uma coisa corriqueira, uma coisa constante esse acompanhamento, deveria ser muito comum para o policial ter esse acompanhamento sempre.”.
Nesse sentido, é unânime a concepção dos policiais acerca da importância destes serviços; no entanto, apontam a instituição como responsável pela falha destes, não se incluindo nesse processo de responsabilização. Cabendo, portanto, uma investigação à parte sobre quais atravessamentos permeiam esses policiais, para que os mesmos não se reconheçam nesse processo.
Outro ponto analisado nessa mesma questão foi o porquê dos policiais, no geral, não buscarem esses serviços – saúde mental – no que se levantou como respostas, em suas concepções, a precariedade dos serviços dentro da instituição, mais uma vez corroborando a ideia de que tais serviços devam partir da mesma; a falta de tempo, embora reconhecendo que precisam desses serviços; e ausência de sinais, já que estes são indicativos de doenças mais “visíveis”. Portanto, só aí procurando um médico, ignorando os sintomas, a parte mais subjetiva da doença -   um sofrimento psíquico, uma angústia, uma tristeza, por exemplo. Averigua-se isso nos seguintes recortes:
Soldado G – “A não procura é “dado” primeiramente porque o serviço realmente é muito precário ou mesmo nem exista, de psicologia na polícia. Tem só o psiquiatra que ali que conversa, mas que é muito deficiente.”;
Soldado feminino E – “[...] nunca procurei... Por quê?... Eu acredito [...] A gente teve aquele estresse naquele momento depois passa, e agente tem tantas coisas, na verdade eu acredito que seja mais por isso, minha vida é tão corrida tem trabalho tem filho tem que estudar, [...] então você acaba que deixando de lado tem coisas mais urgentes, tem prioridade, tem coisas mais urgentes.” E “[...] agente acaba deixando de lado a saúde, procura o médico em si quando a um problema de saúde mais visível, que agente acha que incomoda mais, acaba procurado o médico pra tratar de qualquer coisa, qualquer parte sendo corpo né? E essa outra parte (subjetiva) fica mais esquecida.”
Ainda dentro dessa perspectiva, emerge a concepção dos policiais de, culturalmente, ligarem a busca dos serviços de saúde mental (como a Psicologia) à loucura, como se verifica aqui:
Soldado feminino E – “[...] não é só coisa de louco como a gente ouve “Ah tá louco” “ta com problema mental”, é um serviço que deveria ser comum que todos nós precisamos de ajuda pelo menos fazer uma avaliação com o psicólogo saber como a gente tá, o nosso emocional, o nosso nível de estresse [...]” e “Mas, eu o pouco que ouço, que eu vejo, muitas pessoas tem preconceito realmente de serem chamadas de louco, de dizer que não tem condições de exercer a profissão, de continuar; são criticadas, são ridicularizadas. Muitas, quando expõe algum tipo de problema que ta apresentando e dizem “ah procure um psicólogo” “um psiquiatra” a pessoa é exposta, fica “meia” exposta, meio ridicularizada. Acho que isso também é um bloqueio.”
Numa análise geral desses dados, pode-se concluir que os policiais apontam um conhecimento acerca do estresse e da importância da saúde mental e da psicologia dentro da instituição e na vida como um todo. No entanto, não buscam tais serviços apontando vários fatores, tais como tempo, ir ao médico apenas “quando há um problema mais visível” e precariedade desses serviços na instituição.
Apesar desses fatores apontados pelos policiais, verificou-se mais recorrentemente em suas falas, a acentuada relação dessa não busca com a precariedade[4]dos serviços de saúde mental ofertados pela Instituição Policial Militar, mesmo reconhecendo da necessidade dos serviços, não os buscando por outras vias.
Outro ponto relevante na análise são os recortes apontados pelos policiais acerca do preconceito, dentro da própria instituição, em buscar os serviços de saúde mental. Sendo, portanto, esse buscar os serviços de saúde mental, ligado a uma não valia desse sujeito, a ridicularia, a “loucura”.
Nessa análise observou-se uma concepção dos policiais permeada por atravessamentos culturais [re]produzidos pelos mesmos: de uma relação entre buscar os cuidados e serviços de saúde mental (como a Psicologia) ligados à “loucura”, como se essa busca dissesse de/para um indivíduo “louco”; portanto, muito próximo da análise feita nas entrevistas dos policiais participantes. Cabe aqui, um aprofundamento na pesquisa desse campo dentro do tema, pois, apesar das entrevistas não estarem aqui na íntegra, elencou-se qualitativamente os principais pontos para discussão e reflexão do assunto pesquisado.
Emerge-se, portanto, a importância do tema e de uma profilaxia em saúde metal dentro dessa instituição, promotora de segurança pública, com o intuito de promover efetivamente esses cuidados e serviços em saúde mental para os sujeitos que a constituem, homens e mulheres dotados de desejos e singularidades, sem os quais deixariam de ser um ser, uma pessoa autônoma. Pensando assim, serem mais viáveis os cuidados e prevenção do que os tratamentos; afinal, como disse Bernardino Ramazzini no século XVII, “É melhor prevenir que remediar” (CODO, SORATTO, VASQUES-MENEZES, op. cit. p. 289).


5. Considerações Finais

Nesse trabalho pode-se compreender que, possivelmente, a busca dos serviços e cuidados de saúde mental pelos PM´s está ligada a uma concepção errônea entre buscar esses cuidados com o constrangimento e a “loucura”; apontando assim, para uma cultura naturalizante do adoecimento psicossocial dos mesmos. Portanto, observa-se que não é comum a procura ou a promoção de serviços efetivos de saúde mental dentro da Instituição Policial Militar.
Percebeu-se ainda, que os PM´s têm ciência da importância dos serviços de saúde mental, no entanto, não os buscam por vários fatores, sobretudo, o da precariedade de tais serviços na instituição. Assim, de certa forma, os PM´s pesquisados desconsideram a sua responsabilidade dentro desse processo, tendo em vista essa precariedade; contudo, não os buscando por outras vias, mesmo reconhecendo-os como importantes e necessários.
Considera-se a partir desta pesquisa que há uma urgência nesses serviços dentro desta instituição de grande relevância para a sociedade, pois, para PM/RN lidar com as demandas desta sociedade, se faz necessário não só aparatos logísticos, técnicos e metodológicos, mas principalmente de profissionais qualificados e cuidados nos diversos aspectos, biopsicossocial. Compreende-se que tais profissionais são indivíduos dotados de desejos e singularidades, e não, apenas, mais um profissional, número de série, ou “soldado”, como que pluralizando esse sujeito e lhe privando de ser enquanto um ser singular. Afinal, o prejuízo, muitas vezes, é para o próprio policial e família, o qual tem seu sofrimento psíquico negado; para a instituição que será constituída por um profissional fragilizado psiquicamente; e a sociedade, a qual depende desses para a manutenção da paz e ordem pública, que nesse sentido, não será atendida com qualidade e proficiência.
Essa pesquisa propõe-se à abertura de novos olhares e pesquisas para as questões aqui investigadas, pois as mesmas não se estancam aqui. Cabe-se, portanto, outras investigações, tais como, “quais as implicações desse não buscar e promover efetivos, da saúde mental, dentro da Instituição Policial Militar?” “Por quais atravessamentos esses policiais são permeados para essa não busca, e etc.”. Com isso, procurando corroborar sempre com outros saberes e instituições, com o objetivo principal de promover o bem estar desses profissionais, seus familiares e de toda a sociedade, pois nela e para ela são inscritos.

Referências:

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CODO, Wanderley; SORATTO, Lúcia; VASQUES-MENEZES, Iône, A. V. B.Psicologia, organizações e trabalho no Brasil – Saúde Mental e Trabalho.Porto Alegre: Artmed, (2004). Cap. 8.
CONDÔLO, Marcos Lins; ZANIN, Flávio Gaya; COSTA, Gil Oliveira da; HILGEMBERG, Cleise M. A. T. –Estresse, a influência no desempenho dos profissionais integrantes das carreiras de fiscalização, policia militar e civil no estado do Paraná: um estudo de caso. Ponta Grossa- PR, 2006.
COSTA, Marcos Aurélio de Albuquerque. Estresse –Um diagnóstico dos policiais militares da cidade de natal – Brasil.Tese apresentada a Universidade Federal do Rio Grande do Norte para obtenção do título de doutorado em ciências da saúde pelo programa de pós-graduação em ciências da saúde, Natal, p. 1-69, 2007.
LIMA, M.A.D. da S. et al. Relato de Experiência:A utilização da observação participante e da entrevista semi-estruturada na pesquisa em enfermagem.R. gaúcha de Enfermagem. Porto Alegre, v.20, n. esp. p. 130-142. 1999.
LIMA, Maria Elizabeth Antunes.A polêmica em torno do nexo causal entre distúrbio mental e trabalho. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 10, n. 14, p. 82-91, dez. 2003. Disponível em: http://www.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20041213154638.pdf
LIPP, Maria Emmanuel Novaes. Estresse emocional: a contribuição de estressores internos e externos.Rev. Psiq. Clínica 28. 2001.
MARTINS, Maria da conceição de Almeida.Factores de risco psicosociais para a saúde mental.Educação, ciência e tecnologia. p. 255. 2004. Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.19/575
MAURIVAN, Batista Silva; SARITA, Brazão Vieira- O Processo de Trabalho do Militar Estadual e a Saúde Mental.Saúde Soc. São Paulo, v.17, n.4, p.161-170, 2008. Disponível em:   http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v17n4/16.pdf
OLIVEIRA, Daniela Rosa.Atividade policial e sua relação com a síndrome de burnout.Revista Eficaz – Revista científica online z ISSN 2178-0552, Av. João Paulino Vieira Filho, 729, Novo Centro – Maringá/PR, Cep: 87020-015, 2011.
OLIVEIRA, Katya Luciane de / SANTOS, Luana Minharo dos.Percepção da saúde mental em policiais militares da força tática e de rua.Sociologias, Porto Alegre, ano 12, no 25, set./dez. 2010, p. 224-250..
Organização Mundial de Saúde – OMS, 1948. Disponível em: http://www.casan.com.br/index.php?sys=9
RIO GRANDE DO NORTE. Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social - SESED. Centro de Apoio Psicossocial Ao Policial – CIASP/2012. Endereço: Avenida Amintas Barros, 4083, Lagoa Nova, na Cidade de Natal/RN.
RIO GRANDE DO NORTE. Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social - SESED. Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte – PM/RN. Companhia Independente de Prevenção ao Uso de Drogas – CIPRED/PM-RN. Avenida Jerônimo Câmara Lagoa Nova - Natal/RN59063-100 - Anexo ao CAIC Contato: (84) 3232-2396cipred@rn.gov.br
RIO GRANDE DO NORTE. Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social - SESED. Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte – PM/RN. Departamento De Pessoal - DPPM, 2012. sesed@rn.gov.br ou imprensa.sesed@gmail
ROSSETTI, Milena Oliveiraet. al.O inventário de sintomas destresspara adultos de lipp (ISSL) em servidores da polícia Federal de São Paulo.  Revista Brasileira De Terapias Cognitivas, 2008, Volume 4, Número 2. p.110.
SCLIAR, Moacyr.História do conceito de saúde. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 2007. Disponível em:  http://www.scielo.br/pdf/physis/v17n1/v17n1a03.pdf

Fonte: Psicologado - Artigos de Psicologia

14 de julho de 2014

Indicadores de qualidade dos serviços em saúde e intervenção do psicólogo.

Job. Nascimento

            Para um planejamento institucional, organização, coordenação e identificação de qual intervenção médica ou psicológica serão mais efetivas é imprescindível medir a qualidade e quantidade em programas e serviços de saúde. Aqui são avaliados na medição os resultados, processos e a estrutura necessária ou utilizada, bem como as influências e repercussões promovidas no meio ambiente.

Informações são imprescindíveis para a administração de qualquer empresa, principalmente quando transformadas em indicadores que se prestam a medir a produção de programas e serviços de saúde bem como estabelecer metas a serem alcançadas para o bem-estar da população (BITTAR: 2001, p. 21).

            No que tange a função dos indicadores, eles medem aspectos qualitativos ou quantitativos que estão relacionados com o meio ambiente, com a estrutura, com os processos e resultados: meio ambiente se refere aos aspectos relacionados às condições de saúde de uma determinada população, aqui são avaliados os aspectos demográficos, geográficos, educacionais, socioculturais, econômicos, políticos, existência ou não de instituições de saúde; a estrutura é a parte física de uma instituição, os seus funcionários, equipamentos e aspectos ligados à organização; os processos são atividades de cuidados que são realizadas para um determinado paciente ou grupo; os resultados são a demonstração dos efeitos conseqüentes da combinação de fatores entre o meio ambiente, estrutura e processos acontecidos ao paciente depois que algo é feito ou não a ele ou a um grupo.
            Bittar (2001) argumenta que para os indicadores sejam encarados como válidos é necessário ter alguns atributos necessários: validade, sensibilidade, especificidade, simplicidade, objetividade e baixo-custo.
            Um indicador que está intimamente ligado com a intervenção do psicólogo em saúde e, consequentemente ligado ao estágio realizado no Lar de Meninas Pinheiros são os indicadores de estrutura, processo e resultado. De acordo com Soller (2011, p. 596):

Esta abordagem de três dimensões para avaliação da qualidade em serviços de saúde é possível porque boa estrutura aumenta a probabilidade de bom processo e bom processo aumenta a probabilidade de obter melhorias na saúde e bem-estar dos indivíduos ou populações, ou seja, bom resultado. Desta forma deve-se deduzir que condições estruturais podem ser tanto desfavoráveis quanto condutivas ao bom cuidado, não se podendo afirmar, entretanto, se o cuidado, em função destas, será bom ou ruim.

O trabalho realizado com as crianças do lar Pinheiros objetivou trabalhar a afetividade e cooperação dentro do grupo, no entanto, se verificou uma enorme competição entre as meninas. Neste sentido Bosi (2007, p. 157) afirma que “O reconhecimento do plano dialógico como espaço de humanização das práticas não se refere apenas ao resgate de demandas subjetivas, afetivas, no plano das singularidades”. De acordo com Bleger (1989) é possível que o indivíduo absorva um enriquecimento ou até mesmo empobrecimento de constituir-se como ser humano, através da instituição em que frequenta, o psicólogo deverá realizar atividades que venham enriquecer e desenvolver esse sujeito, fazendo-o identificar-se com os colegas e instituição.
A Casa-lar é responsável pelo reconhecimento da constituição do cidadão, é através desta educação que lhes é transferida que fará com que a criança aprenda o funcionamento social, conscientizando-as que poderão brevemente ir para um lar onde terão de conhecer outras pessoas chamá-las e aceitá-las como pais, irmãos. Desta forma, os indicadores dês estrutura, processo e resultados foram extremamente importantes no que tange a uma avaliação da instituição sob a ótica da intervenção do psicólogo, especialmente porque “refere-se, ainda, à construção de novos horizontes para as práticas avaliativas em saúde a partir do reconhecimento das demandas subjetivas adormecidas pela distância e alienação” (BOSI: 2007, p. 157). No estágio realizado na casa lar, tendo em vista os indicadores supracitados, conclui-se que a intervenção do psicólogo se dá através de uma educação não linear onde esta não está seguindo uma lógica de causa e efeito, permitirá a reflexão, a criação e a inclusão do novo na vida do individuo, ela acaba com as dicotomias entre teoria e prática, sujeito e objeto, e constrói uma nova forma de relacionamento entre as pessoas.

Referências:

BLEGER, J. Psico-higiene e Psicologia Institucional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

BOSI, Maria Lúcia Magalhães. Avaliação da qualidade ou avaliação do cuidado em saúde? Revista Saúde Pública 2007; 41 (1): 150-3.

SOLLER, Schelle Aldrei de Lima da. Uso de indicadores de qualidade para avaliação de prestadores de serviços públicos: um estudo de caso. Revista de administração em saúde. Rio de Janeiro 45 (3): 591-610, Maio/Jun. 2011.


BITTAR, Olímpio J. Nogueira. Indicadores de qualidade quantidade em saúde. Revista de Administração em saúde. Vol. 3, n. 12 – Jul-Set, 2001.

10 de julho de 2014

Políticas Públicas, Psicologia Comunitária e Justiça.

Job. Nascimento
            Em “Os miseráveis” vê-se uma crítica ao judiciário e ao Estado que pune severamente um homem por ter cometido um crime de ordem famélica, pois assaltou uma padaria com o fim de saciar a fome de seus irmãos. O filme traça uma espécie de determinismo onde o homem é condicionado pelo meio, indicando que a ausência de uma intervenção estatal para proporcionar uma melhora de vida para o indivíduo tende a levá-lo para uma vida torta onde a própria sociedade pune o homem que ele condicionou a ser. Isso se torna claro no seguinte trecho: “que minuto fúnebre este em que a sociedade se afasta e relega ao mais completo abandono um ser que raciocina”. Aqui o personagem principal faz apontamentos de grande relevância: ele estava sendo preso por um ato reprovável e que não era pela porta do roubo que se fugia da miséria. Entretanto, a falha não era somente de Jean Valjean, pois o castigo não teria sido muito severo para seu erro? O exagero da pena não colocava o “criminoso” na posição de vítima, pondo o direito do lado de quem cometeu o crime?
            Neste ponto encontra-se uma íntima relação entre políticas públicas, o papel da psicologia comunitária e o conceito de justiça. A sociedade como um todo (incluindo a atuação do Estado) não pode sacrificar seus cidadãos, seja pela falta de auxílios no que tange ao emprego e dignidade ou pela severidade dos castigos. No que concerne à política de assistência social, considera-se fundamental a noção de que esta corresponde apenas um sistema da proteção social, o que significa que não compete somente a ela a responsabilidade pelo atendimento às demandas sociais; portanto, sua prática deve se desenvolver necessariamente em interação com as demais políticas públicas e sociais. Aliando políticas públicas com a psicologia comunitária pode-se chegar a um melhor entendimento do conceito de justiça social.
            A Chácara Meninos de 4 Pinheiros é um exemplo de como políticas sociais podem ser efetivas na inclusão pessoas que estão em situação de extrema vulnerabilidade social. No filme “Os miseráveis” nota-se um homem que é tão pobre que rouba para comer e alimentar seus irmãos e na prisão é condicionado a agir de uma forma que sua pena é aumentada para 19 anos. No entanto, na Chácara Meninos 4 Pinheiros vê-se justamente o contrário: alguém que foi resgatado das ruas torna-se uma pessoa potencialmente capaz de resgatar e auxiliar outros meninos, como é o caso do José que é citado no texto: “eu trabalho há oito anos na chácara. Já fui menino de rua e estou retribuindo o que o Fernando fez por mim”. A omissão leva à indiferença, no entanto, a ação gera uma resposta grata e, posteriormente, a retribuição.
            Na temática recorrente ao longo do filme verifica-se o debate acerca da ideia de Justiça. Muito influenciado por valores cristãos o conceito de justiça em “os miseráveis” aparece vinculado a valores e a ideia do que é o “correto” de modo mais amplo e não apenas a partir da ótica jurídica em cada situação. Nota-se no filme um debate sobre o relacionamento entre o direito e a justiça; mostrando situações em que ambos caminham em direções opostas e questionando nestes casos como se deveria proceder.
Num contexto de intervenção social observa-se que o psicólogo pode atuar através de trabalho com equipes multidisciplinares com o objetivo de estabelecer procedimentos práticos de acordo com a demanda social e possibilidades de ação; em reuniões com profissionais de outras áreas e moradores para análise das necessidades e possíveis soluções, inclusive com o incentivo à formação de grupos de autogestão e à formação de recursos humanos da própria comunidade, e propostas de atividades específicas. Pode ser trabalhada também a importância de fortalecer o envolvimento afetivo com os objetivos e programas de ação na comunidade.

O conceito de justiça pode ser um para algumas classes abastadas da sociedade e outro para as classes menos favorecidas. No entanto, com a adoção de políticas públicas efetivas com o auxílio da psicologia comunitária pode-se mudar o conceito de justiça de alguém que tinha sido esquecido pela sociedade. Mudando a ideia de uma punição severa por o erro (“os miseráveis”) por uma ideia de retribuição grata a uma oportunidade ganha (“4 pinheiros”).