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9 de maio de 2016

Presidente da Câmara anula sessão que aprovou impeachment.

Foto: G1.
O deputado Waldir Maranhão (PP-MA), presidente em exercício da Câmara dos Deputados, decidiu anular a sessão em que a Casa aprovou o andamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff. A decisão é desta segunda-feira (9/5) e será publicada no Diário Oficial da Câmara nesta terça-feira (10/5). Em nota à imprensa, o deputado afirma que a sessão do dia 17 de abril foi nula porque os partidos fecharam questão a favor ou contra o impeachment, e muitos deles adiantaram seus votos. “Não poderiam os partidos políticos ter fechado questão ou firmado orientação para que os parlamentares votassem de um modo ou de outro, uma vez que, no caso deveriam votar de acordo com as suas convicções e livremente”, diz o texto.
“Também considero que o resultado da votação deveria ter sido formalizado por resolução, por ser o que dispõe o Regimento Interno da Câmara e o que estava originalmente previsto no processamento do impeachment do presidente Collor, tomado como paradigma pelo STF para o processamento do presente pedido de impeachment”, justifica o deputado. Com isso, ele anulou as sessões dos dias 15, 16 e 17 de abril e determinou que sejam feitas novas deliberações sobre o impeachment no prazo de cinco sessões contados da data em que o processo for devolvido ao Senado, onde hoje tramita.
Na quinta-feira (5/5), a Comissão Especial que discute o impeachment de Dilma no Senado aprovou parecer pela admissibilidade, que seria levado ao Plenário da Casa esta semana. Caso o Plenário aprovasse a admissibilidade, Dilma ficaria afastada do cargo de presidente para que o Senado julgasse a acusação de crime de responsabilidade. Agora, o processo volta à Câmara para ser votado de novo. Na nota, Waldir Maranhão afirma que tomou a decisão em recurso da Presidência da República, enviado à Câmara pela Advocacia-Geral da União. Ele não acolheu o argumento de que houve nulidade porque os deputados, ao votar, fugiram do tema da denúncia e falaram de outros assuntos.
Waldir Maranhão é o primeiro vice-presidente da Mesa Diretora da Câmara e assumiu o comando da Casa depois que o Supremo Tribunal Federal afastou Eduardo Cunha (PMDB-RJ) do cargo. O entendimento foi o de que Cunha, réu em ação penal na corte e acusado de usar da posição para atrapalhar as investigações, não poderia estar na linha sucessória da Presidência da República. O presidente em exercício é aliado do governador do Maranhão, o ex-deputado Flavio Dino (PCdoB-MA), e votou contra o impeachment em abril.
Fonte: Conjur.

30 de abril de 2015

De quem é a culpa pela violência de ontem?

Job. Nascimento

1. Se você votou no Governador que foi eleito em primeiro turno e fez a projeto de Lei que você leu na íntegra e discorda, a CULPA É SUA;
2. Se você será afetado pela mudança promovida pelo projeto de Lei, que você leu na íntegra o seu conteúdo e discorda, e não se manifestou, a CULPA É SUA;
3. Se você votou em um deputado que votou SIM para o projeto, que você leu na íntegra e discorda do conteúdo, a CULPA É SUA;
4. Se você não será afetado pela mudança que o projeto produz, você não leu o projeto e nem sabe quais mudanças irão ocorrer, e mesmo assim se manifestou com pedras e revidando a força da PM, a CULPA É SUA;
5. Se você se aproveitou da manifestação para ganhar status com as causas dos professores e possivelmente ganhar votos; aproveitou o protesto para lucrar e sugar os manifestantes com venda de produtos e fortalecer sindicatos, a CULPA É SUA;
6. Se você foi eleito pelo povo e não atende às reivindicações da população, a CULPA É SUA;
7. Se você é policial e se aproveitou do tumulto para exceder na força, usando contra servidores públicos o que deveria ser usado com bandidos, a CULPA É SUA

13 de fevereiro de 2015

DostoievskY e o PT.

Flávio Morgenstern.
A maneira de o PT fazer política é simples e consabida: cria “programas sociais” que nada mais são do que modelos de cotas para qualquer atividade humana, tentando “incluir” mais pessoas na sociedade economicamente ativa. Funcionais ou não, tais programas repetem a mesma estrutura em todos os ramos, tornando cada novo passo político petista apenas uma repetição do mesmo script.
O Fome Zero, pelo qual Lula foi até indicado ao Prêmio Nobel da Paz antes de descobrirem quão mal feito e risível era (gerou ruptura de Lula até com Frei Betto, notório caudatário da ditadura de Fidel Castro), nada mais era do que a “transferência” forçada de dinheiro dado em gorjetas em restaurantes para um “fundo” que daria parte do montante a alguns pobres. Fracassado de cabo a rabo, o programa logo foi forçosamente “esquecido” pelo partido, sem que praticamente ninguém na imprensa, que deveria vigiar o governo, cobrasse os governantes pelo desastre. A seguir, veio o Bolsa Família, aparentemente com menos furos, em que o governo simplesmente dá dinheiro que toma por impostos de outras pessoas para alguns pobres, que lhe respondem com uma obediência eleitoral de joelhos, como se Brasília fosse Meca.
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Assim é o Minha Casa, Minha Vida: toma-se dinheiro de impostos para criar casas para os mesmos que pagam impostos. Assim é o Mais Médicos: cria-se postos de saúde ocupados por semi-escravos cubanos ao invés de permitir que profissionais trabalhem onde querem. O Fundo de Amparo ao Trabalhador também toma dinheiro do trabalhador para que este agradeça ao governo quando este resolve lhe dar uma parte de volta. O PROUNI também força cotas em universidades. E assim segue o modelo, do Luz no Campo ao Brasil Carinhoso, que “tira da miséria” modificando os critérios de pobreza, dando dois reais aos pobres e dizendo que “acabou com a miséria”. O esquema permanece até em fiascos retumbantes, como o Primeiro Emprego ou o Fome Zero.
Antes do PT, “programas sociais” eram formas mais “ativas” de o governo intervir na economia. Num sistema capitalista, as pessoas produzem riqueza (material ou mesmo de idéias) e trocam pelo produto do trabalho das outras. É o chamado laissez-faire (“deixe-os fazer”). Alguns, que não gostam do esforço necessário para enriquecer, buscam atalhos. Usualmente através do Estado, a única instituição que pode agir sempre por força, tomando algo de algumas pessoas e “dando” a outras, através de um planejamento central de alguns burocratas. É o intervencionismo, chamado politicamente de “social-democracia”, ou Welfare State.
Acreditada por muito tempo como a melhor forma de governo, pois aparentemente “tira os pobres da pobreza”, a social-democracia soa inatacável até hoje, depois de exibir sinais de derrocada até no suposto paraíso nórdico. Os liberais, tratados como insensíveis à pobreza, apenas conhecem o truque: o governo nãoproduz nada, então, quando um governante aparentemente “dá” algo a alguém, não está tirando dinheiro do seu próprio bolso, e sim tomando do bolso alheio. Sem produção de riqueza no processo, os produtores têm menos incentivos para produzir (sendo consumidos por impostos), e a riqueza vai diminuindo, tendo-se cada vez menos algo a “distribuir”.
Aproxima-se os pobres dos ricos não tornando os pobres ricos (no máximo, ganham algumas migalhas da obediência eleitoral), mas sim tornando os ricos mais pobres. A social-democracia, aparentemente perfeita no curtíssimo prazo, é uma catástrofe humanitária no longo, enquanto o capitalismo enriquece cada vez mais os pobres, como mostra o Índice da Liberdade Econômica  o migalhismo contra a riqueza da liberdade.
Tais programas sociais do Welfare State eram combatidos por Lula quando era oposição. Lula era contra o Bolsa Escola, que pagava uma mensalidade a famílias pobres, desde que mantivessem os filhos na escola. Era contra o Leve Leite de Paulo Maluf em São Paulo, que fazia o mesmo com latas de leite em pó. Era contra qualquer distribuição de cesta básica ou outras formas de compra de voto disfarçadas.
Tal fato ficou registrado em um famoso vídeo de Lula em 2000, quando ainda não estava no governo, xingando os críticos de seus programas de imbecil e ignorante. O Bolsa Família simplificou tudo: acabou com o disfarce. Compra-se o voto e pronto, e com dinheiro vivo. O Lula que criticava quem votava com o estômago agora é contra quem não vota estomagado. Por que isto se dá? A resposta também é simples: a tentação do poder. Libido dominandi, estudada desde Santo Agostinho. Para explicá-la, nada melhor do que recorrer ao maior clássico russo.
Nem só de pão vive o homem
Assistindo a todo o teatrinho petista desde 1880, Fiódor Dostoievsky, considerado por 9 em cada 10 falantes o maior romancista de todos, sem que nunca seja entendido direito, conhecia muito bem os planos de Lula, Dirceu, Dilma e toda a caterva petista. Em sua última obra, Os Irmãos Karamázov, uma disparidade de vozes adversas e cheias de conflitos internos são postas a debater os assuntos mais filosóficos, sobretudo concernentes à religião. Ivan Karamázov, o irmão do meio, intelectual e lutando contra a 
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melancolia da rejeição e inadequação ao mundo, é um ateu descrente dos descrentes da época, preferindo mesmo argumentar a favor da superioridade moral da Igreja, ainda que sem Deus, aos fanáticos revolucionários ou até aos burocratas do Estado moderno.

Em um dos momentos mais sublimes da prosa mundial, Ivan conta a seu irmão Aliócha Karamázov, noviço de um monastério, um poema que pretende escrever, chamado O Grande Inquisidor (trecho tão grandioso que é muitas vezes tratado como um conto à parte do livro). No poema, Jesus Cristo volta à Terra em plena Inquisição espanhola, sendo trancafiado por um velho inquisidor imediatamente.
Seu algoz comenta a Jesus de quando Ele fora “tentado” no deserto (Mateus, 4:1-11), afiando que o espírito tentador, na verdade, conseguiu reunir a sapiência de todos os sábios futuros da Terra – “governantes, sacerdotes, cientistas, filósofos, poetas”. Lula e o PT inclusos. Resumiu o diabo “toda a futura história do mundo e da humanidade” nestas três tentações. Quando o espírito quer que Jesus prove ser o Filho de Deus transformando as pedras em pães, Jesus obtempera, mesmo faminto no jejum: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”.
O que o tentador faz, na verdade, além de demonstrar simploriedade e reducionismo no falso ceticismo, é resumir toda a questão da liberdade dos homens diante dos governantes, “porquanto para o homem (…) nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade!” No bojo da tentação impingida a Jesus, resta o pecado mortal e mortífero da subordinação de toda a raça humana. É como se o diabo pedisse para transformar as pedras em pães “e atrás de ti correrá como uma manada a humanidade agradecida e obediente, ainda que tremendo eternamente com medo de que retires tua mão e cesse a distribuição dos teus pães”.
Jesus-biblia
Alguém mais notou que Jesus resistiu à tentação, mas nenhum petista, nenhum social-democrata, nenhum burocrata da “reforma social” deixou de sucumbir à perdição de transformar pedras em pães, ainda que temporariamente, ainda que falsamente, mesmo que simplesmente manipulando índices, em nome de ter agradecimentos obedientes, de homens reduzidos a pedintes gratos, despidos de toda vergonha, honra, trabalho e destino próprios, solícitos a cobrir de ovações e votos ao primeiro que sacrificar sua liberdade no altar da mistificação e da manipulação da realidade em troca da mais ínfima migalha gratuita?

Jesus notou a contradição: “Que liberdade é essa se a obediência foi comprada com o pão?” Certamente não a liberdade de ver a realidade como é, sem querer manipulá-la pela bruxaria e tapeação.
Alguém que viva apenas de pão pode ver algo além do maior tirano como um grande benfeitor, escondendo o seu medo de que pare de lhe dar pães? É o que diz o inquisidor, crendo que o tentador mostrou tão bem como o homem se resume a uma besta fera buscando saciar seus apetites quando não é mais livre: “Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas famintos?”
Pode-se ler tal clarividência sem pensar em como são fracos os espíritos de quem justifica o mensalão – ou mesmo de quem o aceita como um “mal menor” em nome da “justiça social” da “distribuição de renda”, o migalhismo esmolista petista? Pode-se não se pensar na mídia governista? Na blogosfera progressista? Em homens menos rastejantes, mas ainda verminosos, do escol de Foucault, Lacan, Gramsci, Marcuse, Derrida, Zaffaroni, Negri e outros negadores do crime? São os que preferem o rebanho obediente, que dirá: “É preferível que nos escravizeis, mas nos deem de comer”. Não existe mais crime, apenas “causas sociais”, sobretudo a desigualdade econômica. Para estes, “até a morte é mais cara do que o livre-arbítrio no conhecimento do bem e do mal”. É o selvagem de Rousseau, só consciente de seu apetite.
A crise do PT disputando poder ou da social-democracia precisando pagar a conta surpreende alguém? Não ao inquisidor de Ivan Karamázov: “Finalmente compreenderão que, juntos, a liberdade e o pão da terra em quantidade suficiente para toda e qualquer pessoa são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca saberão dividi-los entre si!”
lenin-propaganda
Jesus rejeita a bandeira do pão e da terra (curiosamente, divisa comum aos comunistas, nazistas e futuros partidos sindicalistas e “trabalhistas”) em nome da liberdade e do pão dos céus. Todavia, alerta o inquisidor, “Eles destruirão os templos e cobrirão a terra de sangue. Mas essas tolas crianças finalmente perceberão que, mesmo sendo rebeldes, são rebeldes fracos que não aguentam a própria rebeldia.”

Se antes o rei benevolente precisava ser milagroso, hoje o burocrata da obediência mundial, da destruição de consciências no formigueiro da igualdade e unanimidade modista, pode ser um novo ídolo sem tanto: “Ao receberem os pães de nossas mãos, eles, evidentemente, verão com clareza que os pães, que são seus, que eles conseguiram com as próprias mãos, nós os tomamos para distribuí-los entre eles sem qualquer milagre, verão que não transformamos pedras em pães e, em verdade, estarão mais alegres com o fato de receberem o pão de nossas mãos do que com o próprio pão!”
Fica alguma dúvida da razão do fanatismo petista, da crença de que a distribuição justifica qualquer crime, da mistificação sobre as figuras falsas dos mandantes-em-chefe, da nulidade cultural e de consciências inovadoras entre as hostes petistas? Dostoievsky, é claro, sabia antever tudo. E nunca votaria na esquerda ou no PT.

27 de junho de 2014

Simplicidade sem mudança = nada.

Um líder que não promove mudanças nem altera coisa alguma em seu país, Estado ou município não é um bom líder. Mesmo que ele seja nobre, seja humilde, ande de fusca, seja simples, utilize o sistema público de saúde e doe seu salário. Se ele não promover mudança não adianta de nada essas atitudes louváveis. Aliás adianta sim, como exemplo, como autopromoção ou incentivo para que as pessoas ajam igual, somente. Neste caso o presidente Mujica do Uruguai se enquadra bem nessa definição. Pelo mundo afora o presidente uruguaio é louvado, elogiado e admirado por seu estilo de vida simples, mas em seu país o índice de aprovação circula em torno de 45 à 52% (muito inferior ao de Dilma no Brasil). O que adianta ser um líder simples se não operar nenhuma mudança (exceto a legalização da maconha)? Podemos citar inúmeros exemplos de pessoas que eram simples, mas promoveram mudanças e foram importantes para o seu povo, não é o caso de Mujica. Se alguém quer ter uma vida simples, pacata e sossegada que fique longe dos cargos públicos e de liderança que exigem posturas diferentes.

11 de março de 2014

Carlos Alberto Bezerra Jr. e a bancada evangélica.

Em recente entrevista concedida à Revista Cristianismo Hoje, o Deputado e Pastor Carlos Alberto Bezerra Jr. falou porque não se mistura com a bancada evangélica. Recortamos o seguinte trecho da entrevista:
Muitos evangélicos são eleitos com bandeiras meramente corporativas, visando a agradar ao próprio segmento e até mesmo agindo como despachantes de igrejas. Qual a sua avaliação sobre a atuação dos crentes na política brasileira?
Nunca me alinhei a bancadas evangélicas, nem quando fui vereador, nem agora, como deputado. Isso porque esses grupos nunca se notabilizaram por suas boas práticas ou significativas contribuições para o país. Ao contrário; no mais das vezes, essas frentes politiqueiras se notabilizaram por escândalos e mais escândalos, e por transformar Deus em cabo eleitoral. Tudo isso faz com que a opinião pública se torne cada vez mais refratária à figura do evangélico na política, e contribui para reforçar uma visão caricata e estereotipada desse tipo de parlamentar – que, cá entre nós, não é exatamente injusta, a julgar pelo tanto de absurdos cometidos em nome de Deus em Casas legislativas de todo o país. Por tudo isso, desconfio daqueles que se autoproclamam defensores da Igreja. A Igreja já tem em Jesus seu único e suficiente defensor. Esse modelo que leva às cadeiras dos Legislativos de todo o país gente que não tem outro interesse que não o de proteger ou conceder privilégios à denominação que representa é uma clara privatização religiosa do espaço público. Vou acreditar em bancada evangélica quando significar a união de parlamentares em prol da agenda do Reino. Sou seguidor de Jesus e busco reafirmar minha fé em tudo o quanto faço no Parlamento paulista; porém, jamais me afirmarei representante desse ou daquele grupo.
Fonte: Cristianismo Hoje.

26 de julho de 2013

As manifestações no Brasil e os Black Blocs.

Os protestos no Brasil começaram como manifestações pacíficas por melhores serviços públicos e contra a corrupção, mas se transformaram em movimentos que sempre termina em violência.
Entre os diversos movimentos que participam dos protestos, há os Black Bloc, um grupo dentro dos modelo anarquista. Novidade no Brasil, mas não no mundo, os Black Bloc sempre escondem o rosto para não serem identificados pela polícia, agridem qualquer tipo de jornalista em qualquer lugar do mundo onde atuem, quebram câmeras dos profissionais de imprensa e divulgam na internet seus próprios vídeos. Nos Estados Unidos foram descritos como o câncer violento que destruiu o movimento Occupy Wall Street.
Eles são os anarquistas vestidos de preto que levam o anarquismo a sério, não seguem líderes nem possuem disciplina e estrutura. O grupo tem em comum a tática de enfrentar a polícia e quebrar vidraças, o que descrevem como uma performance simbólica para desafiar o sistema. O problema é que, numa manifestação de massa, a violência aparece para a opinião pública sem distinção de motivo. O cidadão comum não diferencia saque consumista ou depredação de um suposto gesto revolucionário e prefere generalizar a violência como caos, desordem ou, na palavra da vez, vandalismo.
‘O objetivo deles não é necessariamente levar adiante uma agenda política, mas de alguma maneira acreditam que a imagética desta violência entre eles e a polícia ou entre eles e a propriedade privada, de alguma forma vai inspirar as massas. Sob o meu ponto de vista, não funcionou. E afasta muita gente’, explica o jornalista Ari Paul, que há anos cobre as ações do Black Bloc pelo mundo.
O filósofo John Zerzan é um dos anarquistas mais conhecidos dos Estados Unidos defende as táticas do Black Bloc, como úteis para deflagrar um processo real de mudança. ‘Se tivermos oportunidade de conversar sobre o que está em questão e de como manifestações simbólicas e bem comportadas não levam a nada, podemos ir adiante. Não vai ser fácil. É preciso assumir riscos. Caso contrário você continua a se conformar’, diz Zerzan.
 
Black Blocs no Brasil
Foi uma surpresa a ação de anarquistas nas recentes manifestações de rua no Brasil. Poucos sabiam até mesmo da existência de grupos organizados e ativos no país com sites na internet. A maior novidade, no entanto, foi a presença, em alguns dos momentos mais violentos, de jovens anarquistas vestidos de preto que protestam usando a tática Black Bloc.

Um dos integrantes desse grupo, um estudante de 20 anos que não quis se identificar, falou ao Sem Fronteiras. Ele foi o único a concordar em dar entrevista. Todos os outros abordados, argumentam que seria incoerente falar com a TV Globo, já que discordam da visão que a grande mídia tem dos Black Blocs e de falar sobre um coletivo que não existe como grupo. Veja a entrevista:
Jovem: O Black Block Brasil, na verdade, é o mesmo do mundo inteiro. Ele não é um grupo não é uma organização. O nome Black Bloc é uma tática, um meio de agir nos protestos, defendendo as pessoas que não têm condições de ficar, digamos, peitando a polícia na hora em que ela atira e joga bomba. Não existe reunião, não existe liderança, nós não sabemos nem quantos somos.
Repórter: O que vocês querem? Qual a reivindicação de vocês?
Jovem: A reivindicação que nós temos no protesto, ela é diferente da nossa ideologia. Nós temos uma ideologia, mas nós também temos pé no chão. Nós estamos nesses protestos fazendo a proteção e reivindicando as mesmas pautas do protesto.

Repórter: E como eu faço para diferenciar vocês dos vândalos?
Jovem: A diferença é a seguinte: os vândalos normalmente andam com blusas na cabeça, sem blusas ou então com blusas na cabeça e blusas de outras cores. Bermudas etc. A Black Bloc anda em grupo, ela só fica junto. Ela não anda separada. Com capuz preto, máscara preta, calça preta, blusa preta, óculos preto, máscara de gás, sempre mantendo um padrão preto.

Repórter: E tem gente que se infiltra no movimento de vocês? Existe alguma divisão dentro do Black Bloc Brasil?
Jovem: Infelizmente isso acontece.

Repórter: Em que situação vocês são violentos? Você já foi violento alguma vez?
Jovem: A violência da Black Bloc, ela não se dá em atacar, somente em se defender. A polícia atira com bala de borracha, a polícia tem escudo, tem proteção, a polícia tem bomba de gás, a polícia tem bomba de efeito moral e a única coisa que a gente tem para se defender são madeiras, paus e pedras. Na verdade, a gente tem que responder a altura. Não digamos que a gente é agressivo, nós respondemos simplesmente à altura que a polícia ataca, mas lixo na rua faz parte da tática Black Bloc que atrasa a movimentação da tropa.

Fonte: Globo News.

19 de junho de 2013

Minha opinião sobre os protestos nas palavras de Flavio Morgenstern



"Lembro do Heisenberg contando na biografia dele dos protestos da juventude alemã. Ouviam Bach, emocionados. Anos depois, o resultado: Hitler" (F.B)


"No que vão dar os protestos?" (...) As pessoas clamam por uma injustiça que, até o dia anterior, elas mais praticavam do que eram vítimas. O futuro promissor vira o único juiz dos atos presentes. Sujeito e objeto das violências cometidas são invertidos na retórica. Fato e norma também trocam de lugar em qual dita qual na análise de conjuntura.

A massa, perdida entre duas forças atuais, grita, clama por algo novo, o futuro, mas não diz o que diabos quer. Alguns políticos dizem que ela é do lado A, outros dizem que é do lado B. Espiões, infiltrados e oportunistas são denunciados pela própria população, que aprende do dia para a noite a dor e a delícia de ser agente em um Estado policial.

O sentimento de pertencimento é gigantesco, embora nenhuma, nenhuma proposta prática seja colocada em funcionamento. Tudo o que se diz é no plural majestático: "Nós, o povo", "nós, o gigante", "nós, os bacanas". Os inimigos denunciados tampouco estão no singular: são os políticos, a elite, a polícia. Vez ou outra, sequer precisam ser um substantivo concreto: é o comodismo, o atraso, o que está como está.

A própria turba, para fazer parte do grupo consciente, legal, aquele que clama por mudança, dissolve sua individualidade. "Somos todos iguais", "vamos além de partidos", "Cansamos tanto do lado A quanto do lado B". Uniformizam-se, com roupas iguais, caras iguais, palavras iguais, posturas iguais, penteados iguais e máscaras iguais.

Igual também é o inimigo genérico, abstrato, intangível e malévolo, causa de todo mal, e o único que unifica todos que estão contra alguma coisa que nem conseguem apontar o que é – portanto, a fúria, o ódio, é canalizado por onde tenha alguma coisa quebrável no caminho. 

O discurso é radicalmente contrário às autoridades. Finalmente uma nova aurora parece surgir no horizonte. Nossas reivindicações serão atendidas. Por uma nova autoridade que ainda desconhecemos completamente. Mas só a própria mobilização já é aplaudida.

De repente, sem entender o motivo, sem argumentos, sem justificativa aparente, sem absolutamente nada de relevante ter acontecido, dois grupos se cindem. Nós e eles. O futuro e o lixo da história. Pessoas que ontem almoçavam juntas hoje estão de dois lados distintos numa guerra civil. A discussão se dá apenas na crença de que algo acontecerá ou não. Não há o que discutir, afinal: nada aconteceu, a não ser a massa se agitando.

A energia é absoluta. E nos primeiros dias absolutamente nada acontece. Alguns se cansam. Outros estão doidos pelo sangue do inimigo, mas ainda não puderam pegar em armas e descobrir quem é essa Nêmese que deve ser degolada a dentadas.

É preciso mais do que fúria cega para manter o movimento contrário a tudo isso que está aí. É preciso ordem no caos. É preciso de um líder. Não de uma autoridade atual, mas de um líder de carisma. É preciso de uma voz jovem, bonita e altissonante que diga: "Amigos, nós somos os caras do bem, e todos os nossos problemas foram causados pelos caras do outro lado da rua. Agora o reino de injustiça acabou e não mais andaremos com eles no recreio. Estamos todos juntos? Então, marchem!"

Assim se construiu a Alemanha nazista, a União Soviética, a China de Mao. Foi numa briga entre partidos da República de Weimar, entre Brancos e Vermelhos, entre nacionalistas e socialistas que as pessoas se cindiram. Entre coisas abstratas pelas quais a maioria das pessoas não dariam um bocejo que muitos deram a vida – e tiraram muitas outras. 

Foi com um protesto sem propósito e sem proposta, contrário à toda autoridade, que a autoridade surgiu. Sem derrubar ninguém: foi posta lá nos braços do povo. Nunca deram o poder absoluto a quem não prometia trocar o presente por completo. Nunca houve totalitarismo sem um povo muito revoltado com tudo isso que está aí.

6 de fevereiro de 2013

Os gabinetes da crise - A hipocrisia institucional

Nós sabemos e ele sabe, mas o Governo se esconde até o instante da tragédia. A cobrança da sociedade é logo esquecida, o próprio desalento se transforma em vezes nada.

A imprensa se despede e leva consigo os políticos.

Ficamos nós que já não somos.

Quem falou em banalidade do mal?

As autoridades se surpreendem quando a chuva cai e o balão pega fogo. Não importa, haverá abrigos para os rotos, teto para os desabrigados, hospitais para os feridos e pêsames para os mortos.

A fatalidade ignora culpa, até por que é fatalidade.

Mas a mentira no Brasil tem perna curta, embora ninguém ligue por que a memória também é curta.

Seja como for, nos primeiros dias da catástrofe há uma euforia do desespero; a mobilização é instantânea, a solidariedade é sôfrega e comovente, o socorro trafega rápido trazendo bombeiros, a Defesa Civil, médicos, enfermeiros, voluntários e as autoridades. É possível conhecer a dimensão do flagelo pela importância dos representantes públicos presentes. A proporcionalidade deve ser respeitada; quanto maior o estrago e o número de mortos (o número de desabrigados e feridos é quase irrelevante), maior a hierarquia do preposto da República no local do acidente (do presidente ao vereador). Assim, dependendo da magnitude do cataclismo, em cadeia nacional ou na rádio da região afetada, os políticos prestam depoimentos para uma imprensa ofegante pelas melhores tomadas das visões do horror. Em geral, deploram a desgraça havida, prometem investigação extenuante, a crucificação dos culpados em praça pública, compensação para as vítimas, providências incontinenti, milhões e milhões dos fundos de emergência, e vão embora.

Antes, instalam o gabinete da crise para enfrentar aquela situação angustiante e se deixam todos fotografar, com o rosto crispado e circunspecto, reunidos em uma enorme mesa, com ouvidos atentos para as orientações sempre sensatas dos especialistas em desastres. Em seguida à reunião, os representantes do poder, os mais graduados, concedem entrevistas e dissertam sobre as medidas imediatas a ser adotadas e projetam a adoção de diversas outras para um futuro próximo.

Logo, as vozes de indignação e de promessas vão diminuindo, diminuindo, até que não se ouve sequer um suspiro soprado pelo vento mais indiscreto. As ações reparadoras duram menos ainda. Na data do aniversário da hecatombe, algum jornal se lembra e reclama a falta do compromisso assumido e não concretizado pelo Governo. No dia seguinte, depois de uma explicação técnica e contundente do ministro responsável, a marola se dissolve e até o silêncio pede desculpas.

O Ministério Público, atento à justificativa, fecha a cara, diz um palavrão, anda de um canto para outro, toma um whisky, olha para o lado, e vai dormir.

Se não fosse pela criação do gabinete da crise, haveria, ao menos, uma leve, levíssima, sensação de conforto.
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*Francisco de Assis Chagas de Mello e Silva é advogado do escritório Candido de Oliveira – Advogados

9 de novembro de 2012

Republicanos devem renascer com políticos jovens e hispânicos pró-mercado

Por Gustavo Chacra

Os republicanos perderam esta eleição por pouco. Tiveram praticamente a metade dos votos. No Colégio Eleitoral, passaram dos 200 delegados. Massacre foi a vitória de Ronald Reagan (republicano) sobre o Walter Mondale em 1984 ou Richard Nixon (republicano) sobre o George McGovern em 1972. Eles conquistaram todos os Estados menos um em cada uma destas ocasiões.

Na verdade, Obama teve uma campanha melhor. Seus estrategistas erraram menos e conseguiram vender um presidente apesar da alarmante taxa de desemprego, em 7,9%, que seria 11% se a população economicamente ativa fosse a mesma de 2007. E os republicanos fizeram gols contra como em algumas declarações imbecis de candidatos ao Senado, espantando o eleitorado feminino. Caso tivessem realizado uma campanha melhor, poderiam ter hoje a Casa Branca e o Senado.

O primeiro foco dos republicanos precisa ser no eleitorado hispânico. Eles podem recuperá-lo. Em 2004, 45% votaram em George W. Bush. Atualmente, há enorme insatisfação com Barack Obama, que deportou mais de 1 milhão. O problema é que uma frase de Romney nas primárias, a self-deportation, que não foi bem explicada, deixou muito negativa a sua imagem.

A saída para os republicanos é usar seus políticos hispânicos, que são bem mais populares do que os raros democratas de origem latino-americana. Tem o Marco Rubio, senador pela Flórida, a Susana Martinez, governadora do Novo México, o Ted Cruz, senador eleito pelo Texas, e até mesmo o Jeb Bush, ex-governador da Flórida, casado com uma mexicana, com filhos que se identificam como hispânicos e fluente em espanhol. Para completar, os democratas possuem apenas Hillary Clinton como nome forte para 2016. Os republicanos contam com vários candidatos preparados, como Paul Ryan, Chris Christie (meio queimado depois do furacão Sandy), Rubio, Rand Paul, Jeb Bush, Bobby Jindal, Robert McDonnell e outros. Todos sérios. Verdade, figuras bizarras como Rick Santorum devem tentar de novo. Mas será difícil ele superar os bem preparados jovens do partido.

Antes de terminar, lembro que sempre pregam a morte de um partido. Foi assim com os democratas em 1972, 80, 84, 2004 e, não se esqueçam, 2010. Política é cíclica. Os republicanos, se adotarem um discurso um pouco mais moderado e levarem em conta posições dos libertários, atrairão o eleitorado jovem, que prefere Ron Paul a Obama, e hispânico.

12 de dezembro de 2011

A militarização e a problemática uspiana: 1ª Parte

Torna-se extremamente necessário que todos pensem a origem do problema, não achando que ele se apresenta do jeito que está, como a-histórico e eterno, independente e naturalizadoPor Daniel Nunes Leal [*]


Os acontecimentos dos últimos tempos, acerca da presença intensiva da PM no campus da Universidade de São Paulo (USP) e das consequências que isso tem gerado, nos levam a pensar estratégias que podem ser debatidas e postas em prática a respeito das ações, sempre repressivas, tomadas por parte de um mecanismo do Estado. Muito se tem feito a respeito, como assembleias e plenárias, com apresentação de propostas extremamente inteligentes e maduras. Porém, seu alcance ainda se encontra um tanto limitado dado o tamanho da universidade: assim, precisamos estender tal debate a todo o ambiente acadêmico e também para fora de seus limites. Julgo também ser necessário dar minha humilde parcela de contribuição para o enriquecimento do movimento, talvez não propondo ideias diferentes das de meus companheiros, mas fazendo-o como um exercício de organização de concepções através do presente texto.
Diversos fatores se apresentam como resultados de políticas ditatoriais, de caráter elitista e neoliberal, da parte da reitoria e do governo. Podemos nos ater desde as terceirizações dos funcionários da limpeza até chegarmos à práticas antidemocráticas tal como estamos vivenciando: a polícia na universidade. Por parte dos alunos, é importante notar a alienação e o estreitamento aos discursos sensacionalistas e reacionários da imprensa burguesa e do Estado. Uma terceira via torna-se pertinente, que leva a analisar as relações da USP com seus arredores: somente a adianto, já dizemos que a especulação imobiliária em seus entornos segrega ainda mais a população pobre, deixando-a cada vez mais marginalizada; o objetivo final seria tornar a universidade um espaço da elite e para a elite, com a “produção do conhecimento” voltada para atender a classe dirigente.
Sem mais, o restante desse manifesto nos mostra de forma rápida a gênese do problema e suas implicações sócio-históricas, comenta sobre os fatos ocorridos e tenta, quem sabe, propor soluções para a retirada da PM, a reestruturação social nos campi, sua abertura para a população e uma reflexão sobre o que pode ou não ser a segurança, sendo primordial o papel de estudantes, professores, funcionários e população nesse processo de construção de uma nova universidade.
A origem do problema
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Avenida Central (atual Rio Branco) em 1905, Rio de Janeiro. Foto de Augusto Malta.
A gênese do problema é algo que se mostra óbvio: todos sabem que a violência urbana tem seu início no processo de desigualdade social. No caso do Brasil, tal fato é pertinente desde sua, digamos, “ocidentalização”. Servindo de base para o mercantilismo português, a margem oriental sul-americana foi extremamente explorada, juntamente com uma forma de trabalho coercitiva.
O projeto de país sempre foi pensado tendo como base seu território e não sua população, justificando a violência decorrente durante séculos de luta. Não é objetivo desse trabalho muito se estender acerca desses fatos, mas um exemplo bastante cabível e ilustrativo é o da história da reforma de Pereira Passos, realizada no Rio de Janeiro de 1902. Àquela época, o projeto vigente era o de “modernizar” o território, incorporando os sertões, fundos territoriais, à lógica civilizada [1]; algo não muito diferente dos ideais vidalianos [**]. Para tal fim, um grande número de pessoas foi segregada, afastada do centro, isolando-se realmente do processo urbano e organizando-se em espaços autônomos, como favelas. Conforme afirmou certa vez Milton Santos, o pobre brasileiro nunca teve o direito de ser cidadão; as classes dominantes e médias nunca quiseram ser cidadãs [2].
A partir de fatos como esses e da não chegada do Estado a tais áreas segregadas (como se este também fosse oferecer grande ajuda), podemos pensar a violência tal como se incorpora hoje. A força policial, um dos braços do Estado, coloca-se sobre esses espaços, que atualmente abrangem uma grande quantidade de pessoas, para exercer sua lógica de domínio territorial, realizada, como sempre, através da força. O Estado, sempre incapaz ou desinteressado em trazer soluções efetivas para melhorar a vida da população, usa a força direta da repressão militar, como se os próprios moradores dos subúrbios não já fossem vítimas de sua própria condição. Entre outras questões, a limitação linguístico-conceitual [3] do pobre leva-o a atribuir suas limitações a razões individuais e familiares, fazendo-o criar uma imagem negativa de si mesmo, não permitindo uma visão ampla que o faça enxergar a estrutura que mantém sua condição desfavorável. Seria preciso, ao menos, que este tivesse acesso a termos como “luta de classes” e que se engajasse neste fim; e que fosse desenvolvido habilidades de abstrações ou de referência a categorias mais gerais.
A “solução” da militarização é somente emergencial, um “tapa-buraco” que mata o indivíduo agressor e o agredido, não chegando à raiz da situação e por fim nada resolvendo. O policial por si só, sempre submisso à disciplina sobre corpo e mente, prende, julga e penaliza - ou somente penaliza. Sua origem está associada à defesa da propriedade e do poder do Estado, sendo uma aliada das classes dominantes e uma forma de execução da coerção nas classes submissas. No Brasil, sua figura pode ser comparada à do capitão-do-mato, que captura e pune a mando de seu senhor o “negro fujão”.
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Sobre todos esses fatores soma-se a presença estatal por meios indiretos, inclusive em micro-relações de poder, o que torna a situação ainda mais trágica. Os países de capitalismo tardio vivem, portanto, um sério problema: as desigualdades sociais associadas a uma prática coercitiva intrínseca a uma rede de relações de poder complexa e altamente ramificada a níveis profundos. Basta observar as câmeras de vigilância: um reflexo da sociedade que vigia a si mesma e que, sempre que possível, entrega um outro a seu “Pai”. Fecham-se os olhos para a causa desses problemas. O governo faz-se alheio; a mídia, influenciando as massas, mascara o problema e justifica a violência.
O praticante de um ato contrário à “lei” é punido por uma questão, entre outras, política. Na realidade, ao desafiar o poder do Estado ele consequentemente (ou teoricamente) agride a honra do povo. É castigado o indivíduo (e não o “crime” em si) que lesou a soberania institucional – a lei pondo-se acima da própria sociedade civil (no Brasil, basta nos atermos ao que está dito: a constituinte pondo-se sobre o território; a população com um papel secundário de “construção do país”). Atinge-se, no processo, seu espírito, sua psique em um nível profundo. Associa-se um fracionamento do poder legal de punição, por meio dos juízes, médicos, psicólogos, educadores [4] e, por fim, através da própria sociedade que o reprime. Não digo que tais atos são sempre negativos, mas em caso como tal, em que vemos a polícia, um meio violento, agindo sobre uma reivindicação de liberdade, a situação tem caráter puramente abusivo.
Uma questão persistente, porém até irrelevante, cai de encontro com a legalização da maconha. Para os que estão fora do espaço universitário, não parece óbvio que o motivo dos protestos antimilitares levam em conta tudo o que foi e que será analisado aqui (sendo a causa suprema a autonomia de pensamento crítico), e não se resume à questão da cannabis. E a ação (para frisar) da política dos Estados e empresas de comunicação de massas é de jogar os problemas sobre essa questão, considerada ilegal e imoral, o que leva manipulados a qualificarem os alunos como “maconheiros” ou “revoltados”. E, somente para completar, o tráfico tem sua origem, tal como dito, no processo de diferenciação social!
Torna-se extremamente necessário que todos pensem a origem do problema, não achando que ele se apresenta do jeito que está, como a-histórico e eterno, independente e naturalizado.
A desmistificação da questão dos estudantes
Dando continuidade ao discutido anteriormente, outros fatos mostram-se gritantes em relação ao que tem acontecido no movimento, o que mascara totalmente as reivindicações dos estudantes. É preciso desmistificar para quem está de fora o que tem ocorrido.
É irracional que pessoas apoiem a violência e alimentem discursos de cunho fascista tal como se tem visto nas bocas de “letrados”, nas redes sociais e principalmente nos noticiários. Tantos são os exemplos, extremamente lamentáveis, que nem valem ser citados. Todos eles, porém, utilizam-se de chavões e de argumentos ilógicos, circundando os mesmos temas.
ocupacao-estudantil-da-usp_por-carlos-latuffRealmente, não são todos que têm possibilidade de estudar em um local como a USP; e se isso acontece é porque não tiveram acesso, na maior parte das vezes, à boa educação e porque o sistema de vestibulares os segrega. Estes são os dois eixos principais que colocam a universidade como um “espaço inacessível” aos de menor renda. Porém cabe dizer que a universidade também possui um sem número de estudantes que também não se encontram em uma situação financeira favorável.
Discursos tais como os que tornam heróicos os atos realizados no regime militar e que, a partir de seu fim, nada seria necessário por lutar somente ilustram um grau maior de alienação. Porém, mesmo nos idos de 1960 ou 70, pessoas que julgam situações como as que ocorrem no campustomariam a mesma posição reacionária, pois, no fim, não estão conscientes de sua situação histórica. O pensamento esquerdista jamais é compreendido pelo posicionamento retrógrado, anacrônico. Há de se despertar uma consciência real do indivíduo, que rompa sua alienação, que por sua natureza tente buscar a verdade, cabível em nosso tempo histórico e que possa, no futuro, construir uma sociedade apoiada no ponto de vista das massas e não de uma minoria hegemônica [5].
O fim do vestibular e a melhoria do sistema educacional no nível básico, que se torna cada vez mais depredado, tendo por fim o papel de despertar a consciência são, portanto, elementos de suma importância. Nós apenas lutamos por liberdade!
A sociedade da tecné que acriticamente se torna reprodutora da ordem vigente
Tem-se acentuado na contemporaneidade (o período denominado técnico-científico-informacional [6]) uma supervalorização do dinheiro, que tem como base o fundamentalismo consumista. Vivemos um período de acumulação realizada sob uma forma de espoliação. Temos a “mercadificação” das relações, com o capitalismo adentrando em todos os setores sociais: os meios naturais e a cultura aderem à lógica do valor de troca – o que antes era de propriedade coletiva agora se submete ao capital, gerando uma expropriação tal como a das terras comunais da acumulação primitiva a partir dos séculos XVI-XVII. Vide o absurdo da indústria cultural, em que esta é tratada como uma verdadeira mercadoria.
Ora, as crises são administradas pela classe dominante rumo a uma monopolização da economia e da política. O capital financeiro (representante da atual fase do capitalismo), especulativo, baseia-se numa acumulação abstrata, que não passa pela produção de mercadoria, excluindo o trabalho e gerando uma grande massa industrial de reserva, o que por sua vez desvaloriza o trabalhador e exacerba a mais-valia, em um processo de constante renovação que o capitalismo, devorador, exige: o trabalho necessário diminui cada vez mais, ao passo que o excedente aumenta, acumulando uma riqueza (agora essencialmente abstrata), na mão de poucos [7].
Cabe acrescentar que, devido a uma padronização de comportamentos em um nível que já não é de hoje (que seja talvez intrínseca ao pensamento moderno), a sociedade passa a defender a ordem e a normalidade e condenar o que escapa do padrão, como se tem visto nos acontecimentos ligados aos protestos antipolicialescos na USP.
Atualmente, porém, o consumo é quem dita um comportamento massificado e reificado em que, paradoxalmente, a competitividade, a ânsia de superar o outro, move o ser ao passo que o consumo o imobiliza, torna-o estático [8]. O homem, na sociedade da informação, perde sua essência e torna-se um grande vazio, receptáculo de informações irrelevantes e efêmeras como em um grande espetáculo.
daliÉ indispensável salientar que a gênese do comportamento capitalista está em uma valorização burguesa do trabalho, em detrimento da essência verdadeira do indivíduo. Sua aplicação pode ser associada a uma concepção metafísica de explicação de fenômenos naturais e sociais expressa em Aristóteles, em sua teoria de quatro causas [9]: numa explanação sucinta, existe uma “causa eficiente” que atua como instrumento à “causa final”, receptora. No pensamento moderno, a natureza é vista como causa eficiente (mensurável, mecânica, que obedece a leis) subordinada à causa final do “espírito humano”, livre. Numa sociedade de classes, a causa eficiente é a trabalhadora, acrítica, praticante da técnica que serve à causa final, representada pela fração dominante, ideóloga, que dessa forma pretende esconder sua dominação de classe: o trabalho é visto pela burguesia como expressão de livre vontade e com fins próprios e a ideologia, como ilusão (para citar algum exemplo), classifica a todos como “iguais” em uma sociedade economicista, na qual “vale-se pelo que se tem”.
Ora, o trabalho se apresenta, em um nível interior ao indivíduo, como uma negação do corpo, que trabalha em favorecimento do espírito, que se enriquece (o homem sendo visto como ser natural e espiritual). Porém, acredito que na contemporaneidade, em uma sociedade corpólatra, o espírito se desvaloriza, perde sua essência, dando uma margem ainda maior à prática alienatória, em que o corpo não reconhece o trabalho de seu espírito (em uma concepção hegeliana), em que o trabalhador não se reconhece no produto de seu trabalho (atendo-se a Marx).
Temos, portanto, uma sociedade servente, baseada na técnica, que mal raciocina, que jamais reflete (o pensamento ficou para os ideólogos) e que, por fim, somente reproduz a ordem vigente. A epistemologia crítica, em contrapartida, perde-se e necessita urgentemente ser reativada. A técnica, base da sociedade contemporânea, já se encontra relativizada (tal como utilizada pelo homem) e só se realiza por intermédio da política; mas é responsável, paradoxalmente, pela “morte” desta, já que são as políticas das empresas que atuam em lugar da Política [10]. Além disso, “o uso extremado de técnicas e a proeminência do pensamento técnico conduzem à necessidade obsessiva de normas. Essa pletora normativa é indispensável à eficácia da ação” [11]. A política em afirmação insere-se em todos os campos sociais. O válido passa a ser somente o legislado e o que está de fora, em tal visão, é condenável: uma “paranoia que clama por formalidade, por legislação”, que desqualifica pejorativamente o que não se ajusta a esse novo padrão. Cabe acrescentar, de forma sucinta, que a criminalização do indivíduo que “não se adapta” tem sua origem em um ato de marginalização do criminoso (iniciada com uma grande reforma do sistema punitivo no século XVIII); mas esse “bandido” na sociedade burguesa é menos o assassino do que o ser que viola o direito à propriedade [12].
iphoneslaveO espaço universitário, por sua vez, apresenta-se como um reflexo da sociedade estrutural moderna, submetido à ideologia tecnificada. Os interesses das grandes transnacionais se impõem, uma vez que suas políticas atuam juntamente às do Estado, funcionando em jogo conflituoso: em última instância, o Estado cede aos interesses do grande capital expansionista e cada vez mais concentrador. Portanto, temos a universidade cedendo à lógica de produção capitalista em detrimento da produção do conhecimento para a sociedade: as empresas atuam dentro desse espaço, estruturando-o de acordo com seu interesse, aderindo-o a uma produção capitalista alienatória [13]; escolhe-se o que é ou deixa de ser pesquisado; e finalmente deixa-se de questionar. Deste modo, a autonomia da academia, de acordo com seu caráter crítico, de livre pensamento e da propagação da cultura, é sufocada pela racionalidade instrumental que torna o conhecimento e a ciência mercadorias.
Da mesma forma que a universidade, não só os estudantes, mas a sociedade em geral põe-se a tratar-se como mercadorias; não só pelo fato de ser obrigada a vender sua força de trabalho em troca de salário, mas porque também ela, submetida à ideologia dominante, faz questão de se adequar às exigências do mercado, pondo-se, por exemplo, a realizar cursos e especializações que entram em acordo com os interesses do capital. É uma alienação de si próprio: “O valor de uma pessoa em uma economia de mercado é determinado da mesma forma que o ‘valor’ de qualquer outra coisa: pelas vendas no mercado” [14]. Dessa forma, “o homem se sente como uma coisa a ser empregada no mercado, e não como um agente ativo, como portador de poderes humanos. Está alienado desses poderes. Seu objetivo é vender-se a si próprio com sucesso no mercado” [15].
Devemos, através da razão crítica, pôr a reificação (em um nível mais abstrato) em debate; a geografia, cumprindo sua função, deve pensar essa lógica sob o âmbito da organização espacial.
A apatia social – a questão da alienação
Apesar do crescimento do movimento estudantil - e até dos que estão de fora - na luta contra a privatização da universidade (a polícia torna-se uma das ramificações do processo), temos, de um lado, comportamentos reacionários por parte de certos indivíduos e, de outro, estudantes indiferentes perante a situação. Ora, é bastante difícil manter-se omisso ao que vem ocorrendo acerca da militarização do campus; assim, uma falta de posição pode nos levar a pensar a respeito da alienação do universitário.
Os fatores que entorpecem o indivíduo giram em torno da ideologia dominante (cujos desdobramentos estão sendo analisados). No entanto, uma questão pertinente acerca da alienação, além do trabalho em forma direta, cai de encontro com a política. Assim como o trabalhador não se reconhece no resultado de seu trabalho, o indivíduo também não se sente parte do processo político. Uma democracia realizada nos moldes atuais associa-se a uma representatividade ilusória que desencadeia em impotência e apatia perante a política. Estamos em uma realidade em que não temos uma alternância efetiva de poder e em que os escolhidos não representam os interesses do povo (e jamais representarão), somados às suas submissões aos grandes capitalistas, algo que já é próprio do Estado. Isso faz parte de um processo ainda maior, inerente ao modo de produção, em que os indivíduos sentem os processos sociais como forças desconhecidas atuando sobre eles e que lhe fogem ao controle.
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Dentro do espaço acadêmico a situação é pior: há votações para reitor, mas sua eleição depende da boa vontade da gestão estatal. Logo, são os interesses do governador que se projetam de forma ditatorial. As políticas realizadas pelo reitor também são de caráter essencialmente totalitário: este manda ou desmanda segundo seus interesses e de seus associados nas fechadas reuniões de reitoria, em confluência aos ideais do partido governante. O convênio PM-USP é só mais um dos exemplos de despotismo.
Porém, é necessário salientar que os rumos que a universidade está tomando não se podem resumir à figura do reitor J. G. Rodas, mas sim devem estender-se a uma análise de toda a lógica capitalista vigente. Em um primeiro momento, sim, é difícil combatê-la com o que temos em mãos. Sendo assim, “se tivermos, nesse instante, uma pistola com uma única bala, em quem atiraremos?” Acredito que na estrutura de poder da universidade. Isso por si só já impediria a entrada da polícia no campus e é, sem dúvida, condição indispensável para sua retirada. É a falta de participação dos estudantes no processo político que os dopa, que os torna indiferentes perante situações, incluído, é claro, os fenômenos de “adestramento” que os cerca fora do ambiente acadêmico.
Por outro lado, a voz dos estudantes ainda se mantém viva em assembleias e plenárias que deliberam ações contra o sistema, e que, infelizmente, não contam com a presença de todos, dando margem a discursos que tentam deslegitimá-las, com pretextos como: “A assembleia não representa a visão de todos. Sou contra as decisões tomadas nela!”. É óbvio que elas têm suas limitações, mas estas são as únicas formas de abertura de um debate que, na realidade, não termina quando a reunião se encerra. Elas dão margem a asserções e ao amadurecimento de ideias; permitem práticas concretas e pensadas. Além de tudo, uma assembleia é aberta a todos.
Torna-se algo impreterível a conscientização desses estudantes para massificar o movimento. É estender o debate a diferentes pessoas e incentivá-las à participação na luta que é, na verdade, um interesse da classe; é conscientizá-las de seu papel histórico, como estudantes e talvez como futuros intelectuais, de defenderem os interesses da sociedade.
A proposição é, para frisarmos novamente, a reforma da estrutura de poder através da luta, quem sabe, por uma participação direta da comunidade no espaço acadêmico, tendo por início e fim a reforma política dentro de cada departamento, abrangendo maior participação igualitária e proporcional de discentes, docentes e funcionários, tornando o poder, em uma macro escala, melhor organizado (solucionando também uma das limitações de assembleias gerais, e ocorrendo – como solução - no máximo eleições de delegados temporários para questões mais gerais), tentando-se simultaneamente, assim, combater nessas duas frentes (departamental e geral). Pensa-se tal processo sem a burocracia e a limitação da representatividade (que jamais se encontra de acordo com os interesses da população), intermediada pela conscientização dos estudantes no incentivo de sua participação no processo político na universidade e fora dela.
[*] Estudante de geografia.
[**] O termo vidaliano refere-se ao geógrafo Vidal de La Blache.
Notas
[1] Antonio Carlos Robert Moraes: “Geografia Histórica do Brasil”, e. Annablume, 2ed., 2011.
[2] Milton Santos: “Por uma outra globalização”, e. Record, 1ed., 2001.
[3] Ideia expressa em Juan E. Díaz Bordenave: “O que é comunicação”, e. Brasiliense, 7ed., 2001.
[4] O fracionamento do poder em diversas esferas está presente originalmente na obra de Michel Foucault: “Vigiar e Punir”, e. Vozes, 5ed., 1988. A ideia da própria sociedade inclusa em tal âmbito é do autor do presente texto.
[5] Ideia aproximada é expressa em Michael Löwy: “As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchausen”, e. Cortez, 7ed., 2001. Porém, mais especificamente é quando o autor se refere à Lukács que tal teoria se aprofunda. Portanto, aconselhável consultar o clássico de György Lukács: “História e consciência de Classe”, e. Martins Fontes, 1ed., 2003.
[6] Termo cunhado por Milton Santos para descrever o atual período do capitalismo, encontrado originalmente em “Metamorfoses do Espaço Habitado”, e. Hucitec, 1988.
[7] A teoria da acumulação por espoliação é desenvolvida por David Harvey em “O Neoliberalismo”, e. Edições Loyola, 2005.
[8] Milton Santos: “Por uma Outra Globalização”, ob. cit.
[9] Marilena Chauí: “O que é ideologia”, e. Brasiliense, 1ed., 1981.
[10] Milton Santos: “Por Uma Outra Globalização”, ob. cit., p.67.
[11] Ibidem, p. 36.
[12] Michel Foucault: “Vigiar e Punir”, ob. cit.
[13] Sobre tal questão, podemos nos ater a análise de Quaini sobre o espaço: para ele, o espaço se encontra como resultado histórico do trabalho alienado. Ver: Massimo Quaini: “Marxismo e Geografia”, e. Paz e Terra, 3ed., 1979.
[14] E. J. Hunt; H. Sherman: “História do Pensamento Econômico”, e. Vozes, 4ed., 1985, p. 214.
[15] Erich Fromm: “The Sane Society”, Nova York, 1985 . Trecho extraído de E. K. Hunt, Howard J. Shermann: “História do Pensamento Econômico”, ob. cit., p. 215.



Fonte: PassaPalavra