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3 de abril de 2017

Resenha: Os anseios da vida cotidiana e os Salmos.

MESTERS, C. Deus onde estás. PP. 109-121. Belo Horizonte: Vega.

            Neste breve texto C. Mesters fala de forma sucinta, mas abrangente sobre o livro dos salmos e sua relação imediata com o culto e a vida dos israelitas e mediatamente com nosso cotidiano e o encontro com Deus na nossa vida atarefada e cercada de tecnologia que muitas vezes podem deixar nebulosa a presença de Deus na nossa vida.
            Segundo o autor os Salmos mostram Deus como Alguém que se manifesta a qualquer instante, se relaciona com o homem e intervém nas suas dificuldades ajudando-o. Os Salmos não são uma expressão perfeita de oração, pelo contrário, revela os movimentos seculares dos israelitas: suas crises, dúvidas, alegrias, tristezas e angústias.
            C. Mesters relata a forma lenta e progressiva com que os Salmos foram compostos, sua diversidade e ligação íntima com o seu autor, no período de cerca de 1000 anos. Agostinho tinha uma preocupação especial com os Salmos “interpretar de tal maneira que o seu povo pudesse encontrar nos Salmos um reflexo da sua vida. Davi foi o principal autor com cerca de 70 cânticos.
             O autor encerra o texto evidenciando uma possível dificuldade de nosso tempo na recitação e apreço pelos salmos alegada por muitos de que ele trata da vida de um povo distante de nós e que não vivemos a mesma realidade deles. Mesters rebate afirmando que os Salmos e nossa vida são como dois vasos que se comunicam entre si e têm a mesma raiz: “o homem à procura do Absoluto que se reflete na problemática tão diversificada da sua vida de cada dia”.
            Excelente o texto de C. Mesters de início o texto pode afugentar os leitores com a simplicidade das palavras, mas superada a primeira parte do texto ele nos leva a uma análise mais profunda e ao mesmo tempo devocional dos Salmos mostrando que eles não foram compostos para “servirem de documento de arquivo, mas foram inspirados para serem orados e despertarem para a oração”.

            

2 de abril de 2017

O poder e um modelo de pastoral eficaz para nosso meio e tempo.

BEZERRA, Cícero. Conversas sobre Jesus. Curitiba, 2010.
  
            O poder é algo que indubitavelmente está na maior parte das relações humanas. Os homens exercem o poder, são subservientes ao poder e, muitas vezes, carecem de algumas estruturas de poder para sua identificação e sobrevivência. O poder pode destruir e criar, ele demole relacionamentos, a confiança, o diálogo e a integridade. O poder tem esse caráter dúbio e explosivo, servindo para o bem e para o mal.
           O pastor Cícero Bezerra afirma que em meio a tantas manifestações de poder coercivo de sua época Jesus demonstrava outra forma de poder, o poder do amor. Esse por sua vez era frágil, vulnerável, conquistava pela fraqueza e pela capacidade de doar e perdoar. Assim, Jesus apontava o caminho para a esperança e libertação de seu povo: sofrido, explorado, doente e confuso religiosamente.
            Jesus tinha uma postura que se identificava com o pobre, com os doentes, com os excluídos e menos favorecidos. Essa atitude de Jesus para com os menos favorecidos era o seu alvo principal. Pois, Jesus veio para curar os doentes, confortar os tristes, libertar os escravos. Ele demoliu os paradigmas de sua época e arvorou o paradigma do amor e da liberdade.
            Nós, que moramos na América Latina, devemos desenvolver modelos de pastorais que estejam intimamente ligados e identificados com o modelo legado por Jesus. Sem abusos de poder, tanto na imposição de dogmas quanto na normatização de condutas pretensamente “adequadas”. Uma postura pastoral adequada exige renúncia, dedicação, sofrimento e capacitação contínua do líder em seu favor e em favor de seus liderados.
             Cícero Bezerra faz um levantamento ético, teológico e sociológico sobre a noção de poder e sua implicação na sociedade e na cosmovisão da mesma. Ele mostra como Jesus lidava com o poder e como demoliu as estruturas de poder de sua época e colocou outro paradigma, o paradigma do amor. Desta forma, uma pastoral que prima pelo título de “cristã” deve reproduzir o modelo de Jesus, especialmente para atingir os doentes, fracos e menos favorecidos.

1 de abril de 2017

O sermão escatológico de Jesus.

Job. Nascimento

1 INTRODUÇÃO

No presente artigo sobre o capítulo 13 de Marcos encontrou-se alguns apontamentos importantes, especialmente no que diz respeito à relação deste capítulo com a escatologia cristã e a apocalíptica judaica. Augustus Nicodemos (2000) intitula essa perícope como “o sermão escatológico de Jesus”. O mesmo autor argumenta que há uma relação entre o Novo Testamento e os apocalipses judaicos, essa relação está além do gênero literário.
            Stern (2009) sugere que o Sermão escatológico de Jesus em Marcos 13 é um “pequeno apocalipse”. Bultmann (2007), por outro lado, afirma que o mundo do Novo Testamento refletia um misto de idéias gregas com a mitologia apocalíptica judaica. Observa-se ainda que a busca pelo Jesus Histórico não pôde ignorar o aspecto escatológico de sua pregação.
            Segundo Barclay (2010), o capítulo 13 de Marcos é um dos capítulos mais difíceis do Novo Testamento para a compreensão do leitor moderno. Isto é assim porque é um dos capítulos mais judaicos da Bíblia. Do princípio ao fim se desenvolve dentro da história e as idéias judaicas. Em todo ele Jesus emprega termos e figuras muito familiares para os judeus de seus dias, mas que são muito estranhas, em realidade desconhecidas, para muitos leitores modernos.
Mesmo assim, Barclay (2013) afirma que não é possível desprezar este capítulo e passá-lo por alto, porque nele tem-se a fonte de muitas idéias a respeito da Segunda Vinda de Jesus. A dificuldade desta doutrina é que, atualmente, ou ela é desdenhada completamente e nem sequer se pensa nesta doutrina ou se perde completamente o equilíbrio e chega a ser para alguns virtualmente a única doutrina da fé cristã, mistificando-a.
O sermão escatológico de Jesus Cristo mostra a sua importância e validade tanto para o primeiro público ouvinte como para a igreja atual, pelos seguintes pontos: 1) descrição do princípio das dores (Marcos 13.5-13); 2) o tempo de aflição para toda a Judéia (Marcos 13.14-23); 3) a vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27); 4) o pronunciamento acerca da proximidade da vinda de Cristo e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37); 5) exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37); 6) o dia do juízo.

2 O SERMÃO ESCATOLÓGICO DE JESUS

            Esse sermão encontra-se localizado textualmente sucedendo a afirmação de admiração do templo de um discípulo: “ao sair Jesus do templo, disse um de seus discípulos: Mestre! Que pedras, que construções!”[1]. Assim, em resposta à esta pergunta, Jesus faz uma declaração profética da destruição iminente do templo de Jerusalém: “(...) vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada”[2].
            Posteriormente, inicia-se o sermão escatológico de Jesus Cristo que constitui-se como uma resposta para as preocupações dos discípulos de quanto isso poderia ocorrer. Alguns pesquisadores faz uma lista de objetivos explícitos ou implícitos de Jesus ao pronunciar este sermão escatológico.

2.1 OBJETIVOS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

Encontra-se várias listas de objetivos que são feitas por diversos pesquisadores. No entanto, cita-se a mais recorrente entre eles que é a lista também descrita por Nicodemus (2000), que argumenta que o sermão escatológico de Jesus tinha alguns objetivos bastante claros:

1) corrigir a visão dos seus discípulos sobre a destruição do templo, a sua vinda e o fim dos tempos (aparentemente os discípulos haviam confundido como se fossem a mesma coisa);
2) advertí-los a não serem engodados pelos falsos profetas e falsos “cristos” que viriam, e pelos sinais e maravilhas que esses falsos profetas seriam capazes de produzir;
3) estabelecer uma ampla e geral da história, começando com sua morte e ressureição até o juízo final;
4) advertí-los a que estivessem preparados para o dia e a hora desconhecidos de sua vinda.

            Ao tentar corrigir a visão dos discípulos sobre a suntuosidade do templo, Jesus lançava luz para a sua iminente destruição. Por outro lado, Jesus falava de uma realidade mais profunda e importante do que a construção física do templo. Segundo Henry (2002, p. 809):

Observemos quão pouco o Senhor Jesus Cristo valoriza a pompa exterior, onde não existe a verdadeira pureza de coração. Contempla com compaixão a ruína das almas preciosas, e chora por elas, porém, não o encontramos contemplando com tristeza a ruína de uma casa famosa. Então, lembremo-nos do quão necessário é que tenhamos uma morada mais duradoura no céu, e que estejamos preparados para ela por meio da obra do Espírito Santo, e que esta morada seja buscada por meio da fervorosa utilização de todos os meios de graça.

            Quando Cristo redireciona o olhar dos discípulos para uma realidade mais importante que a grandeza do templo, Ele mostra o quão triste será a ruína das pessoas e, por isso, demonstra sua compaixão. Neste contexto, encaixa os pontos dispostos por Nicodemos (2000), em que Cristo fala sobre sua morte, ressurreição e sua segunda vinda, alertando-os para não serem engodados pelos falsos “cristos” que poderiam fazer alguns sinais miraculosos também.

2.2 DIVISÃO DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            De acordo com o entendimento de Nicodemus (2000, p. 13) as partes principais do Sermão Escatológico, são as seguintes:

a)    O princípio das dores (Marcos 13.5-13), onde Jesus informa aos discípulos os sinais dos tempos a acontecerem no período interino, não como uma indicação da proximidade do fim, mas como uma garantia de que o mesmo virá;
b)    O tempo da grande aflição para a Judéia (Marcos 13.14-23), onde Jesus aparentemente retorna à pergunta dos discípulos sobre a destruição do templo com o fim de advertí-los a fugir da destruição eminente de Jerusalém;
c)    A vinda do Filho do Homem (Marcos 13.24-27), onde Jesus trata da sua segunda vinda, com uma descrição dos sinais que acontecerão imediatamente antes dela;
d)    O pronunciamento acerca da proximidade da sua vinda e seu caráter repentino e inesperado (Marcos 13.28-37), com o propósito de impressionar os discípulos quanto à iminência da parousia;
e)    Exortação para vigiar e estar preparados para aquele dia (Marcos 13.33-37);
f)     O dia do juízo.

No primeiro ponto sobre o princípio das dores (13.5-13), Jesus fala aos discípulos sobre os sinais do tempo que antecederão a chegada do Grande Dia[3]. Um dos sinais seria o aparecimento de líderes que afirmarão serem o “cristo”. De acordo com Sproul (2005, p. 1171): “No ano de 130 d.C., Bar Kochba – líder de uma rebelião judaica contra os romanos – reivindicava ser o Messias e era aceito como tal por seus seguidores, e alista (de supostos messias) tem crescido desde então”.
            No segundo ponto do sermão escatológico, Jesus fala sobre o tempo de grande aflição que sobreviria sobre a Judéia (13.14-23). De acordo com Henry (2002, p. 809):

Os judeus apressaram o ritmo de sua ruína ao rebelarem-se contra os romanos, e ao perseguirem os cristãos. Aqui temos uma profecia sobre a destruição que lhes sobrebeio cerca de quarenta anos mais tarde; uma destruição e um estrago como jamais sofreram em toda a sua história. As promessas de poder para perseverarm e as advertências sobre o afastamento, concordam entre si. Porém, quanto mais considerarmos estas coisas, veremos motivos mais abundantes para fugir sem demora a nos refugiarmos em Cristo, e a renunciarmos a todo objeto terrestre pela salvação da nossas almas.

            Apesar da abordagem devocional, Henry (2002) lança luz sobre a predição de Jesus sobre a ruína iminente de Jerusalém. O terceiro ponto do sermão escatológico de Jesus trata do Segundo Advento de Cristo (24-27). Neste sentido, Moody (2010, p. 76), argumenta:

Cristo colocou este grande acontecimento especificamente naqueles dias, após a referida tribulação, obviamente se referindo ao tempo descrito em 13.14-23. Isto exige uma de duas explicações. Ou Cristo viria logo depois de 70 A.D, ou as aflições dos versículos 14-23 têm uma dupla referência, tanto à destruição de Jerusalém por Tito como à Grande Tribulação no fim dos tempos. Considerando que a primeira explicação é impossível, a última interpretação torna-se a chave para se compreender o capítulo como um tudo. A linguagem usada para descrever os abalos nos céus foi em grande parte extraída do Antigo Testamento: Isaías 13.1; 34.4; Joel 2.10, 30,31.

            Dessa maneira, Moody (2010) fala sobre as possíveis interpretações que se poderia dar a esse texto, indicando uma interpretação mais acertada seria a que indica para a volta de Cristo data posterior à destruição de Jerusalém por Tito. Na mesma toada, Moody (2010, p. 77), pondera:

Ainda que seja melhor fugir aqui a um literalismo extremo, não temos motivos para não entendermos estas expressões como se referindo às alterações celestiais reais que precederão imediatamente a vinda de Cristo. De modo nenhum torna-se estranho que um acontecimento tão momentoso seja introduzido dessa maneira. Esta é a volta pessoal e corporal de Cristo à terra com grande poder e glória, que foi descrita em passagens tais como essas Atos 1:11; II Tessalonicenses  1.7-10; 2:8; Apocalipse. 1.7; 19.11-16. "Com o céu obscurecido servindo de cenário, o Filho do Homem se revela no Shequiná da glória de Deus."

            O quarto ponto do sermão escatológico de Jesus trata do pronunciamento sobre proximidade de sua vinda e o caráter repentino e inesperado (28-37). Alguns pesquisadores e biblicistas afirmam que nesse trecho tem-se a aplicação do sermão escatológico de Jesus. De acordo com Henry (2002, p. 809):

Temos a aplicação do sermão profético. Quanto à destruição de Jerusalém, é preciso esperar, pois virá dentro de pouquíssimo tempo. Quanto ao final do mundo, não pergunteis quanto virá, porque o dia e a hora não são do conhecimento de nenhum homem. Cristo, como Deus, não poderia ignorar nada, porque a sabedoria divina, que habitava em nosso Senhor, era comunicada à sua alma humana conforme o beneplácito divino. O nosso dever em relação aos dois casos é estar alertas e orarmos. O nosso Senhor Jesus, quando ascendeu ao alto, deixou algo para que todos os servos façam. Devemos estar sempre vigilantes esperando o seu regresso. Isto se aplica à vinda de Cristo a nós em nossa morte, como também ao juízo geral. Não sabemos se o nosso Senhor virá nos dias de nossa juventude, na idade madura ou em nossa velhice, porém, assim que nascemos começamos a morrer e, portanto, devemos esperar pela morte. O nosso grande esforço deve ser no sentido de que, quando vier o Senhor, não nos encontre confiados, agradando a nossa concupiscência em conforto e preguiça, despreocupados em relação à nossa obra e dever. O Senhor diz a todos que velem, para que sejam encontrados em paz, sem manchas e irrepreensíveis.

Conforme exposto acima por Henry (2002) o último trecho do sermão escatológico de Jesus Cristo é um chamdo à vigilância constante porque nenhum homem sabe o dia e a hora em que virá o filho do homem. Finaliza-se o sermão com o dia do juízo. Após essa abordagem mais didática e biblicista, passa-se a verificar os aspectos históricos deste sermão escatológico de Jesus Cristo.

3 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DO SERMÃO ESCATOLÓGICO

            Pode-se dividir os aspectos históricos do sermão escatológico de Jesus Cristo em alguns blocos específicos: a) a ruína de uma grande cidade; b) a agonia de uma grande cidade; c) o caminho difícil de fuga; d) a segunda vinda de Cristo. Dessa maneira, pode-se verificar a maior parte do sermão escatológico de Jesus refere-se à destruição de Jerusalém e fuga de seus habitantes, posteriormente, a segunda volta de Cristo.

3.1 A RUÍNA DE UMA CIDADE (MARCOS 13:1-2)

De acordo com Barclay (2010), O templo construído por Herodes era uma das maravilhas do mundo. Começou a ser construído nos anos 20-19 a.C., na época do Jesus não estava ainda completamente terminado. Estava edificado sobre a cúpula do Monte Moriá. Em vez de nivelar a cúspide da montanha se formou uma sorte de grande plataforma levantando muros de blocos maciços que encerravam toda a área. Sobre esses muros se estendia uma plataforma, reforçada por pilares sobre os quais se distribuía o peso da superestrutura.
Nesse sentido, Josefo (2012) diz que algumas dessas pedras tinham treze metros de comprimento por quatro de alto e seis de largura. Seriam algumas dessas pedras imensas as que motivaram o assombro dos discípulos galileus. A entrada mais magnífica ao templo era a do ângulo Sudoeste. Aqui, entre a cidade e a colina do templo se estendia o Vale do Tiropeion, cruzado por uma ponte maravilhosa.
Segundo o entendimento de Josefo (2012) cada arco tinha quatorze metros e em sua construção se empregaram algumas pedras de oito metros de comprimento. O vale corria a não menos de setenta e cinco metros por baixo. A largura da brecha que passava por cima da ponte era de uns cento e vinte metros e a própria ponte tinha um comprimento de dezessete metros. A ponte conduzia diretamente ao Pórtico Real. Este consistia em uma dupla fila de colunas fortes, todas de doze metros de altura, e todas cortadas de um sólido bloco de mármore.

3.2 A AGONIA DE UMA CIDADE (MARCOS 13.14-20)

Segundo Rienecker (2005), neste trecho Jesus antecipa algo do tremendo terror do cerco e a queda final de Jerusalém que iria acontecer. Esta advertência foi que quando vissem os primeiros sinais de que isso ocorreria, os habitantes deveriam fugir a tempo, sem se preocuparem em recolher as roupas ou salvar os seus bens. No entanto, verificou-se posteriormente que o povo fez exatamente o contrário. O povo se aglomerou em Jerusalém e a morte chegou das formas mais terríveis possíveis. Segundo Barclay (2010, p. 34):

O que Jesus quer dizer quando fala da abominação desoladora? Nos dias de Jesus os homens esperavam não só o Messias, mas também esperavam a emergência de uma potência que seria a encarnação do mal, uma potência que reuniria a seu redor tudo o que estava contra Deus. Paulo chamou a essa potência o homem do pecado (2 Tessalonicenses 2:3).
           
Verifica-se que no ano 70 D.C. Jerusalém caiu diante do sítio do exército do General Tito, que posteriormente se tornou imperador de Roma. Segundo Barclay (2010, p. 35):
Os horrores desse sítio constituem uma das páginas mais negras da história. O povo da campina se amontoou em Jerusalém. Tito não teve alternativa que render a cidade por fome. A questão se complicou pelo fato de que até em momentos tão terríveis havia seitas e facções dentro da própria cidade, Jerusalém estava em perigos de fora e de dentro.

            Observa-se, de acordo com Josefo (2010) que formam levados cerca de noventa e sete mil cativos e cerca de um milhão e cem mil morreram por inanição ou feridos pela espada.

3.3 O CAMINHO DIFÍCIL (MARCOS 13.9-13)

Segundo Barclay (2010), Jesus não deixou qualquer dúvida para seus seguidores que eles tinham escolhido um caminho mais difícil. Não se podia afirmar que não tinha conhecido de antemão as condições do serviço de Cristo. O ser entregue aos concílios e ser açoitados nas sinagogas se refere à perseguição judaica.
Verifica-se que em Jerusalém havia o grande Sinédrio, que era conhecido como a corte suprema dos judeus, mas cada povo e aldeia tinham seu Sinédrio local. Diante desses Sinédrios locais seriam julgados os hereges que confessassem para serem açoitados publicamente nas sinagogas.
Sendo assim, os governantes e reis se referem a processos ante os tribunais romanos, tais como o que Paulo enfrentou perante Félix, Festo e Agripa. A conclusão é que os cristãos eram maravilhosamente fortalecidos em seus julgamentos e saiam vitoriosos ou como mártires.

3.4 SUA SEGUNDA VINDA (MARCOS 13.7-8, 24-27)

Neste ponto, como já exposto acima, Jesus tratou de forma inconfundível sobre seu retorno. Freston (2010) afirma que o interessante é que as coisas que Jesus profetizava estavam, de fato, ocorrendo. Cristo profetizou guerras e os partos estavam, realmente, pressionando as fronteiras do império romano. Segundo Barclay (2010, p. 37):

Jesus Profetizou terremotos e uns quarenta anos depois o mundo romano ficava estupefato ante o terremoto que devastou a Laodicéia, e fascinado pela erupção do Vesúvio que sepultou em lava a Pompéia, que durante séculos permaneceu ignorada. Profetizou fomes, e a houve em realidade em Roma nos dias do Cláudio.

Outro ponto relevante deste trecho do sermão escatológico de Jesus é o que diz respeito à ressurreição dos mortos justos. Neste sentido, Moody (2010, p. 79), relata:

Neste ponto acontecerá a ressurreição dos justos mortos e a transformação dos santos vivos (cons. I Co. 15.51-53; I Ts. 4.13-18). Então ele reunirá os seus escolhidos, os redimidos de todas as dispensações, presente e passadas. Quanto à palavra escolhidos. A palavra episynaxei, ajuntará, é a forma verbal do substantivo episynagôgê, "ajuntamento", em II Ts. 2:1 (reunião). Ajuntar-se-ão com o Senhor descendo, vindos de todas as partes da terra (dos quatro ventos), até mesmo dos recantos mais remotos (da extremidade da terra até à extremidade do céu).

Nesta passagem o que se deve verificar é o fato de que Jesus afirmou que voltaria. Pode-se dizer que o foco do sermão escatológico de Jesus era muito mais que uma preparação dos discípulos para os últimos dias e um programa detalhado sobre a história, como ocorre em alguns apocalipses judaicos.
Verifica-se que os sinais dos tempos que foram elencados por Jesus são mais uma confirmação de que Deus trará um fim do que marcadores de períodos determinados da história humana. Jesus acaba trazendo uma tensão entre o “já” e o “ainda não” no imaginário apocalíptico. Por tanto, apesar de ter algumas semelhanças com a apocaliptica judaica, o sermão escatológico de Jesus tem foco distinto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
           
O sermão escatológico de Jesus conforme registrado em Marcos 13, apesar de ser considerado como uma obra da apocaliptica judaica, porém, por baixo das semelhanças externas de imagens, linguagens e tópicos, há profundas diferenças quanto aos temas básicos como a visão do mundo presente, a concepção messiânica e o lugar de Israel e dos gentios na história. No sermão escatológico, uma abordagem cristológica da história aparece em destaque.
Jesus se mostra como o centro da história e aponta para uma grandeza maior do que a construção de um templo. A grandeza estava nas pessoas que armazerariam a mensagem do Evangelho. O Evangelho em si é maior do que qualquer construção humana, pois, passará o templo, os céus e a terra, mas ele não passará.
O sermão escatológico de Jesus alerta os seus discípulos no sentido de estarem sempre trabalhando. Desse modo, a mensagem de Jesus surtiu efeito nos primeiros cristãos que, pois, eles foram fortalecidos a não esmorecer diante das advercidades, perseguições e embates dos mais diversos. O sermão escatológico de Jesus é um convite para um redirecionamento de olhar, para focar naquilo que é eterno e deixar de lado o que é terreno.

 REFERÊNCIAS

BARCLAY, William. Lucas. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo: Novo Século, 2000.

FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Nem Anjos nem Demônios. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

MOODY, D.L. O Evangelho de Lucas. São Paulo: Hagnos, 2010.

NICODEMUS, Augustus. O sermão escatológico de Jesus: análise da influência da apocalíptica judaica nos escritos do Novo Testamento. Fides Reformata, vol. 3. 2000.

RIENECKER, Fritz. Evangelho de Lucas. 5ª edição. São Paulo: Editora Esperança, 2005.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Atos, 2008. 






[1] Marcos 13.1. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[2] Marcos 13.2. Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida. 
[3] Na expressão: “Grande dia”, leia-se: “dia da volta do Filho do Homem”.

30 de março de 2017

Conceito de Ordem Pública.


      
      A conceituação do que vem a ser “ordem pública” é muito complexa. A problemática da definição é antiga e remonta ao impasse da sua primeira designação se teria sido cunhada por Savigny ou por Joseph Story. Apesar das dificuldades apresentadas pela doutrina, observa-se que a ordem pública está ligada à filosofia de uma nação, demonstrando os seus aspectos sociais, políticos, jurídicos e econômicos. É a essência de uma nação no seu aspecto valorativo.
            Desta forma, torna-se impossível conceituar de forma absoluta ou concreta a Ordem Pública, porque a essência dos valores de determinado Estado é abstrata e complexa demais para limitar-se a um conceito homogêneo e único. Assim, emerge outra questão: já que há uma impossibilidade na conceituação da Ordem Pública, como aplicá-la ao Direito? Deve-se avaliar a mentalidade e sensibilidade média da sociedade em determinado contexto histórico. Após esta avaliação, observando aquilo que é estranho ou chocante para essa sociedade neste período histórico deve ser rejeitado pelos juízes e pela doutrina.
            Dito isso, é importante pontuar qual seria a importância da Ordem Pública para o Direito Internacional Privado, que é tão somente impedir a aplicação de leis oriundas de outros países, atos realizados no estrangeiro e a execução de sentenças de cortes que não sejam nacionais no Brasil quando forem contrários à Ordem Pública brasileira. Esse entendimento depreende-se da LINDB em seu artigo 17º:

As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes.

            A ordem pública tem algumas características: a) a relatividade – que é denotada da medição da mentalidade e sensibilidade média de determinada sociedade em determinada contexto histórico; b) contemporaneidade – é o aspecto duplo em que se avalia a época em que o ato foi praticado e atentou contra a Ordem Pública e o tempo em que este ato está sendo julgado, por exemplo, um indivíduo pode ter cometido um ato que estava de acordo com a Ordem pública numa determinada época, mas agora no dia do julgamento não é mais aceitável; c) fator exógeno – a Ordem Pública é algo externo a lei e não pode ser disciplinada por alguma lei específica.

REFERÊNCIAS


MARQUES, Jussara Cristina. Ordem Pública, ordem privada e bem comum: conceito e extensão nos direitos nacional e internacional. Revista Jurídica Cesumar. v.2, n. 1 – 2002.

28 de março de 2017

Aspectos emocionais envolvidos no processo de luto.

SIEGA, Caroline Michels. Aspectos emocionais envolvidos no processo de perda e luto nas diferentes fases do ciclo de vida familiar. Florianópolis: Familiare, 2008.

            No presente texto Michels aborta os desdobramentos emocionais que envolvem o processo de perda e luto dentro do ciclo familiar sob a premissa da Teoria Relacional Sistêmica. A autora argumenta que existem aspectos que afetam na elaboração da perda na família, tais como: a) o tipo de morte; b) o papel funcional da família sobre a morte; c) rituais específicos para a perda; d) histórico de perdas anteriores etc.
            Michels problematiza sobre as diversas fases o processo de luto. Entretanto, é preciso notar que não existe época certa para que isso suceda, porque cada perda tem seu valor emocional e é única. Argumenta-se que o processo de luto é bem elaborado quando a família reconhece a perda, reorganiza seus papéis e cria outros padrões de funcionamento, construindo e planejando o futuro. Neste ponto, consente-se com a autora.
            Alguns teóricos, em concordância com Michels, afirmam que as reações emocionais das pessoas envolvidas nas perdas dependem do nível de funcionamento e integração emocional na família. Nota-se que as perdas podem desequilibrar todo um sistema familiar, essas perdas podem ser: a) físicas quando o familiar sai de casa; b) funcional quando um ente tem doença que o incapacita permanentemente e prejudica o sustento da família; c) emocional quando se perde alguém que organizava as festas da família.
            No que diz respeito à atuação do terapeuta, Michels sustenta que os rituais terapêuticos têm como função facilitar a expressão do sofrimento. O terapeuta pode avaliar o ritual da família, os rituais diários e que fazem parte do ciclo da vida para compreender a maneira como a família lida com perdas anteriores e como está lidando com a perda atual.

            Entretanto, apesar de toda a argumentação de Michels, sustenta-se que dentro de uma perspectiva sócio-cultural da morte, o terapeuta precisa conhecer como é a maneira de cada cultura viver o luto, quais atitudes específicas do grupo étnico a esse respeito. É necessário conhecer a perspectiva familiar sobre a natureza da morte e as possíveis expectativas de vida após a morte. Conclui-se, auxiliar membros de uma família a lidar com uma perda significativa é demonstrar respeito pela herança cultural e encorajá-los a cerimonizar a morte de um parente e reorganizar o sistema familiar após a perda desse ente querido, não obstante a sua importância e papel exercido dentro desse sistema. 

27 de março de 2017

Análise do poema "o retrato" de Cecília Meireles.


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— em que espelho ficou perdida,
A minha face?

(Retrato, Cecília Meireles)

             Observa-se no poema supracitado que o eu lírico desenha a si mesmo, descrevendo as mudanças que ocorreram com o passar do tempo: mudanças físicas, psicologias e de percepção. A autora compara quem ela era no passado e como ela se enxerga no presente.
As alterações observadas por Meireles são elencadas pela descrição de alguns membros, como: olhos, lábio, rosto e mãos. Todos esses órgãos recebem um adjetivo que não corresponde ao que era anteriormente, mas que correspondem ao que eles se tornaram.
            Neste poema, como em outras partes da obra de Cecília Meireles notam-se alguns temas comuns, tais como: a existência humana, a invalidade dos bens materiais, a falta de sentido na vida, a solidão, a perda e a distância. A rapidez no tempo da vida é descrito pela mudança: “tão simples, tão certa, tão frágil...”. No poema percorre-se toda a existência humana: a infância, a adolescência, a fase adulta e idosa. Em tom melancólico, mas não desesperador a autora descreve essa mudança como algo comum e que se tem que aceitar, pois é a condição natural da vida humana.
            Cecília Meireles aborta essa temática através de sua linguagem poética carregada de símbolos e traços estilísticos, podendo ser considerada como uma poetisa pós-simbolista. Os versos curtos de Meireles, bastante pessoal têm características descritivas e sensoriais.

Nos últimos versos do poema há uma indagação do eu lírico, que pretende saber em qual momento perdeu sua vivacidade. A poeta fala de forma metafórica “espelho” que poderia significar o lugar, a circunstância; a “face” pode significar a vida, a infância e juventude. Meireles de forma magnífica e utilizando o eu lírico destaca o tema da existência humana e sua fugacidade de maneira filosófica, mas simples. 

26 de março de 2017

A onda.

GANSEL, Denis. A onda. Berlim: Constantim Filmes, 2009.
  
O presente texto visa analisar os métodos educacionais do filme “A onda” de Denis Gansel. Neste filme abordam-se algumas questões importantes e contemporâneas para a educação, para a política e filosofia. A trama do filme gira em torno do professor Rainer Wegner, que pretende ensinar seus alunos sobre autocracia. Como a turma não se interessou pelo tema, o professor propôs uma experiência em que se explicam os mecanismos do poder e do fascismo.
            No filme, o professor Wegner se intitula líder do grupo e escolhe o lema “força pela disciplina”, assim dá ao movimento o nome de “a onda”. Com o passar do tempo, os discentes acabam propagando o poder da unidade e ameaçam os outros alunos. Em certa altura do filme o professor Wegner decide parar com a experiência. No entanto, percebe que o experimento saiu de seu controle. Na pesquisa verificou-se que a história do filme é baseada na história real que sucedeu na Califórnia.
            Cada educador trabalha conteúdos diversos por meio de técnicas que visam repassar conhecimento para seus alunos. O docente deve verificar qual é o perfil dos alunos para que saiba qual técnica será mais adequada para cada grupo de alunos. No filme, Wenger escolheu o método da simulação de um governo ditatorial para ensinar aos seus alunos a autocracia. O professor representava o ditador e os alunos a população governada.
            Podem-se levantar várias hipóteses para o sucesso inicial da experiência e a posterior perda de controle: a) faixa etária dos alunos; b) o meio que estavam inseridos (sociedade, escola e família); c) o despreparo intelectual dos alunos para separar a ficção da realizada; d) fragilidade quanto a própria identidade dos alunos. Essas podem ser algumas hipóteses para explicar o que ocorreu no filme no desenrolar da experiência.
            Observa-se algumas possíveis dificuldades do professor, como o fato de que talvez fosse também algo novo para ele. Isso na docência pode ter consequências desastrosas. O docente deve fazer um estudo para conhecer melhor os alunos antes de utilizar qualquer metodologia diferenciada. Também deve analisar se aquela experiência surtirá os efeitos esperados no contexto específico de alunos que se pretende aplicar.


25 de março de 2017

A importância do ato de ler.

         
   O presente texto constitui-se como uma análise do vídeo que apresenta o pensamento de Paulo Freire sobre a importância da leitura. Na mesma toada demonstra-se a relação dos argumentos de Paulo Freire com os temas estudados nos tópicos anteriores; a contribuição da disciplina da didática para a formação do docente; e a importância da didática para o professor de letras.
            Conforme demonstrado no vídeo, para Paulo Freire a importância da leitura demonstra-se na significação que cada primeira leitura tem para cada aluno. Nesse sentido, o teórico cita o exemplo de um senhor que depois de escrever, ler e perceber o som fonético de uma palavra (“Nina”), ele sorriu de forma contagiante, dizendo: “Nina é o nome de minha mulher”. Há uma libertação, um “alívio centenário” a partir da leitura. Essa é a importância da leitura para Paulo Freire. A leitura é um instrumento de libertação.
            Relacionando os temas abordados por Paulo Freire com o restante da matéria estudada na disciplina, pode-se dizer que o professor deve sempre estar em busca de novos métodos didáticos para apresentar os conteúdos para seus alunos. Essa busca, segundo Paulo Freire, é semelhante a de um movimento numa marcha incansável para o novo.
            A didática é uma disciplina bastante importante na formação do docente. Essa importância verifica-se a partir da possibilidade de oferecimento de novas formas de intervenções na passagem de saberes para os alunos. A didática, portanto, é uma disciplina que não pode ser feita de fora para dentro. Ela deve ser formada com os professores e alunos, decidindo os rumos metodológicos do conteúdo que se pretende estudar.

            Por fim, como pode se verificar, a didática é importante para todos os segmentos da docência. No entanto, ela é ainda mais importante na docência de letras. Isto porque o conhecimento da língua é uma porta de saída de vários medos, frustrações, preconceitos e desigualdades. O conhecimento da língua é um instrumento de empoderamento do indivíduo. Dessa forma, uma deficiência na passagem desse conteúdo compromete esse movimento libertador, conforme ensina Paulo Freire. Sendo assim, a didática é importante para o professor de letras porque constitui um instrumento eficaz no auxílio da passagem de conteúdo. 

24 de março de 2017

Vieira, ou a cruz da desigualdade.

BOSI, Alfredo. Vieira, ou a cruz da desigualdade. Novos Estudos. Nº 25, Outubro de 1989. 
  
            De acordo com o autor Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira foram contemporâneos. Gregório retratava as mazelas existentes na Bahia, no entanto, Vieira é um pouco mais amplo em seus sermões e faz uma leitura mais abrangente sobre o seu tempo. Vieira era jesuíta, conselheiro de reis, confessor de rainhas, preceptor de príncipes, diplomata em cortes européias, defensor de cristãos-novos, eram um homem internacional.
            Vieira apresenta o Sistema Colonial brasileiro em sua época e as contradições de seu tempo. Inicialmente, o padre persegue as falsas aparências. Assim, o paradoxo do remédio perigoso vem ilustrado com histórias e exemplos extraídos da Escritura. Bosi argumenta que o padre Vieira apresenta que a santidade dos fins desejados por Deus nada tem a ver com a imperfeição dos meios contingentes que nascem da fraqueza humana.
            O padre Vieira critica o a cristandade de seu tempo, afirmando: “servir à Fé com as armas da infidelidade, oh que política tão cristã! Alcançar a Fé as vitórias, e pagar à infidelidade os soldos, oh que cristandade tão política!". Vieira, contrapondo a justiça de cima à injustiça de baixo, não só afirma que a lei da igualdade é superior ao acaso da desigualdade, como exorta os homens a mudarem o estado em que vivem, abandonando "o que são para chegarem a ser o que devem".
            Vieira defende os índios dos colonos do Maranhão em um dos seus sermões, quando prega diante da viúva rainha Dona Luísa. Em outro momento, Vieira prega sobre os negros lançando questões: como vive o negro o "doce inferno" dos engenhos de açúcar? De que maneira o tratam os senhores brancos? Quais os passos do seu dia-a-dia, desde que nasce até que morre? O padre afirmava que a vida do escravo se assemelhava como a paixão de Cristo.
            Apesar de o texto de Alfredo Bosi lançar luz sobre o papel importante da pregação de Antônio Vieira em sua época, desmascarando as aparências daquela sociedade, percebe-se um horizonte um pouco mais amplo. No Antigo Testamento, profetas como Isaías, Sofonias, Amós e Miquéias criticavam a injustiça no meio dos israelitas e desmascaravam as liturgias hipócritas. Estes afirmavam que o verdadeiro culto é a justiça social. Paralelamente, Vieira alguns milênios depois afirmava algo semelhante, de que a moral da “cruz para todos” era uma arma que havia espoliado o trabalho humano em benefício de uma determinada classe. De certa forma, a condição colonial acabou impedindo a universalização do ser humano.

23 de março de 2017

A espiritualidade e o nosso cotidiano como cristão na América Latina.

BEZERRA, Cícero. Conversas sobre espiritualidade. Belo Horizonte: Betânia, 2001.

Cícero Bezerra é pastor e professor do seminário Betânia em Curitiba. Seus livros sempre giram em torno da teologia pastoral e sua aplicabilidade no nosso dia a dia aqui na América Latina. No presente livro ele pretende fazer uma leitura da espiritualidade cristã no nosso cotidiano.
O homem está cada vez mais ligado com a tecnologia e, na mesma medida está cada vez mais distante do seu próximo e consequentemente da espiritualidade e de Deus. Muitas vezes as próprias atividades eclesiásticas concorrem com Deus. O autor argumenta que a sensibilidade pelas necessidades do próximo é deixada de lado e trocada por uma “espiritualidade superficial e tecnológica”.
            Muitos têm pretendido escrever sobre a espiritualidade, entre eles estão os espíritas, adeptos da nova era e demais filosofias orientais. No entanto, Cícero Bezerra pretende fazer uma abordagem cristã. Assim como o homem anseia e busca algo que o preencha, Deus se manifesta e atrai o homem e mostra que o seu relacionamento com Deus não é baseado em proibições, ao contrário em aceitação. A espiritualidade é impossível de se compreender na sua plenitude, pois, é como uma impressão digital, cada um tem a sua através de suas experiências únicas.
            O autor ressalta um ponto importante no livro, de que o pecado afasta o homem de Deus e em detrimento disso impossibilita ao homem de ter uma verdadeira espiritualidade. Mas, a espiritualidade não é apenas ao sobrenatural e místico, ao contrário ela se mostra no dia a dia mostrando que o homem espiritual é simples, e evidencia através de seu relacionamento com a família que o seu contato com Deus tem uma relação de verdade.

            Com linguagem simples e descomplicada Cícero Bezerra faz uma abordagem da espiritualidade nas suas mais diversas manifestações na vida do homem. Deste modo, o homem espiritual também é alguém que se preocupa com os pobres e lhe dedica atenção e solidariedade, ao contrário do que muitos antigos pensavam que era necessário se isolar para encontrar a espiritualidade, a espiritualidade está no nosso dia a dia aqui na cidade grande mesmo, como o próprio Jesus pediu em oração “Pai, não peço que os tire do mundo, mas que os transforme”. Recomendo a leitura do livro.