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15 de dezembro de 2017

As tentações da vida.

Texto: Mateus 4.1-11.
Introdução: Devemos observar que Jesus foi tentado logo após ser declarado Filho de Deus e Salvador do mundo. Os grandes privilégios e os sinais especiais do favor divino não asseguram a ninguém que não possa vir a ser tentado. Porém, se o Espírito Santo dá testemunho de que temos sido adotados como filhos de Deus, isso contestará todas as sugestões do Espírito mal (Henry).
O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno e suficiente. Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja.
Observamos que Cristo sofreu quando foi tentado. Da mesma maneira, as tentações, quando não cedemos a elas, não são pecado. Mas são aflições. Outro exemplo disso é o caso de José. Ele, mesmo não cedendo com a mulher de Potifar, sofreu para se desvencilhar e ainda foi preso e injustiçado.

1ª Tentação: perder a esperança na bondade de Deus. O inimigo coloca em dúvida a bondade de Deus. Ele tenta se aproveitar de nossas condições exteriores. Todos que se encontra em algum tipo de aperto devem redobrar a guarda.  Jesus venceu essas dificuldades respondendo “está escrito”. Não podemos seguir o rumo de nossas próprias opiniões, quando nossas necessidades forem urgentes.

2ª Tentação: desconfiar dos cuidados e proteção de Deus. Poucos perigos são maiores que o desespero e a presunção, especialmente sobre assuntos relacionados a alma. A cidade santa é o lugar aonde o inimigo mais tenta as pessoas à presunção e orgulho. Todos os lugares altos são escorregadios. O Inimigo está bem versado nas Escrituras e é capaz de citá-las facilmente? Sim. É possível que um homem tenha sua cabeça cheia de noções das Escrituras, e sua boca cheia de expressões das Escrituras, enquanto seu coração esteja cheio de inimizade inflamada contra Deus e contra toda bondade
O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Salmos 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagrado.

3ª Tentação: ganância e poderSatanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos, que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram entregues por algum tempo. Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo e vencendo a tentação e o tentador.
A glória do mundo é a tentação mais encantadora para quem não pensa e não se dá conta; isto é o que mais facilmente vence os homens. Em outro texto do Evangelho Jesus responde: “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?”.

Considerações Finais: Após a tentação Cristo foi servido e estimulado pelos anjos. Isso nos ensina que os cuidados de Deus e sua bondade nos atingirão para nos estimular quando vencermos a tentação. Sim, vale a pena vencer e resistir ao mal. 

3 de dezembro de 2017

A preparação para o ministério.

Texto: Mateus 03.
Fontes: HENRY, Mattew; NASCIMENTO, Job.
Introdução. O texto nos mostra que João Batista habitava e andava pelo deserto da Judéia. Esse deserto não era desabitado, mas também não era populoso. Matthew Henry afirma que “nenhum lugar é tão remoto a ponto de excluir-nos da visita da graça”. Do mesmo modo, nenhuma consciência encontra-se tão adormecida que não possa ser despertada pelo Espírito Santo.
            Nas mensagens de João Batista estava presente a temática do arrependimento. Para ele o início da vida com Deus iniciava com uma mudança de pensamento (metanóia). O arrependimento implica uma mudança no juízo, na disposição, nos afetos, uma inclinação melhor para a alma. A mudança de pensamento, consequentemente, gera uma mudança de caminho.
            É importante destacar que muitos desceram às águas do batismo de João, mas poucos ficaram firmes na confissão de fé que fizeram publicamente. Isso lança luz sobre a vida cristã na contemporaneidade, podem existir muitos ouvintes interessados, mas poucos crentes verdadeiros. A curiosidade pode levar muitas pessoas a ouvirem a Palavra, no entanto, muitas nunca se submetem ao seu poder.

I. Ser cheio do Espírito: pré-requisito para o ministério. Atualmente vemos muitos se preocuparem exclusivamente com a preparação intelectual para o ministério. Não negamos que a capacitação contínua é importante. No entanto, alguns se esquecem do essencial para o serviço cristão: ser cheio do Espírito Santo. Podemos citar alguns exemplos bíblicos da importância de ser cheio do Espírito:
            Eliseu para suceder o ministério profético de Elias ele pediu para receber da porção do Espírito que estava sobre Elias; Jesus foi cheio do Espírito e logo após foi para o deserto para ser tentado; os apóstolos antes de realizarem a obra evangelística foram cheios do Espírito no dia de Pentecostes. Após ser cheio pelo Espírito, Pedro pregou e quase três mil pessoas se converteram a Cristo.
          A primeira coisa que devemos aspirar em nossos ministérios não é o reconhecimento público, mas, ao contrário, temos que desejar ardentemente ser cheios do Espírito.

II. Dar frutos: uma consequência do ministério. O Evangelho é claro: a árvore que não der frutos será cortada e lançada no fogo (Mateus 3.10). Segundo Matthew Henry: “toda árvore com muitos dons e honras, por mais verde que pareça em sua profissão de fé e desempenho exterior, se não der bons frutos, dignos de arrependimento, é cortada e lançada ao fogo da ira de Deus, que é o lugar próprio para as árvores estéreis”.
            Frequentemente nos preocupamos tão somente com o não cometimento de erros morais, como: mentir, roubar, adulterar etc., mas isso é algo bastante raso quando se trata do Evangelho. Jesus disse que nossa justiça deve exceder a dos fariseus. Em outras palavras Ele estava dizendo que o cumprir dessas atividades morais deve ser algo bem básico, corriqueiro e habitual. Nós devemos também nos preocupar com os frutos.
            Em outra passagem Jesus encontra-se com uma figueira que estava bem vistosa e aparentava ter frutos. Entretanto, não era época de figos. Ao chegar nesta árvore Jesus reparou que ela não tinha frutos, por isso ele verbalizou que ela secasse. Do mesmo modo, muitos de nós nos comportamos como esta figueira, vistosos aparentamos ter bastantes frutos. No entanto, nossos frutos são apenas discurso.
Destaque-se sempre que nossos corações corruptos não podem dar bons frutos, a menos que o Espírito Santo implante a boa Palavra de Deus neles. Por isso precisamos ser cheios do Espírito.

III. Ser cheio do Espírito para vencer o maligno: conforme já dissemos acima, Jesus foi batizado e, no mesmo ato, cheio do Espírito para logo em seguida ser levado para o deserto e ser tentado pelo inimigo. É preciso estar cheio para vencer o mal. Essa verdade encontra-se presente também nas palavras do apóstolo Tiago quando ele diz: “sujeitai-vos a Deus, resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós”.
            Em outra passagem encontramos alguns homens que foram expulsar demônios em nome do Deus de Paulo. Os demônios falaram: “sabemos quem é Jesus e conhecemos Paulo, mas vocês quem são?”, aqueles homens foram humilhados, apanharam e fugiram pelados pelas ruas. É preciso estar cheio do Espírito para vencer o inimigo e as dificuldades da vida cristã.

Considerações Finais: Somente o poder purificador do Espírito Santo é que pode produzir a pureza de coração e seus santos afetos. Por isso precisamos ansiar constantemente por sermos cheios do Espírito Santo. Destaque-se ainda que os cristãos verdadeiros são como trigo, substanciosos e úteis. Por outro lado, os hipócritas são como palha, são levianos, vazios e inúteis.
No batismo de Jesus houve uma manifestação das três pessoas da Trindade: o Pai confirmando o Filho como Mediador; o Filho que se encarrega da obra; O Espírito Santo que desce sobre Jesus para ser comunicado ao povo. Em Jesus os nossos sacrifícios espirituais são aceitáveis, porque ele é o altar que santifica todo Dom. Deste modo, para os que não estão em Cristo, Deus é fogo consumidor; para aqueles que estão em Cristo, um Pai reconciliado. Que possamos provar das bênçãos do Pai amoroso.

12 de novembro de 2017

Jesus, a reconstrução da história do homem com Deus.

Texto: Mateus 2.
Introdução: Certamente há uma coisa mais difícil que fazer, é refazer. Refazer é mais complicado. Refazer traz consigo memórias, registros. Refazer funciona como um filme que a cada passo que nós damos para frente existe motivos para darmos dois para trás. Refazer é dar um passo para traz para ir para frente. Refazer é uma marcha-ré para manobrar para frente. Assim é a história do nascimento de Jesus. É uma reconstrução sobre o monturo, sobre o lixo e sobre a ruína da humanidade.
Nosso Senhor Jesus escolheu uma pequena cidade da Judéia para nascer, Belém. Nesta cidade simples Ele nasceu em um lugar ainda mais simples, uma estrebaria. O grande Rei nasceu num dos lugares mais vis da terra. Sem auxílio, muito provavelmente, de parteira ou médico Maria deu a luz ao Príncipe da Paz. Entre os povos do oriente era corrente o entendimento de que quando um grande rei vinha ao mundo a sua estrela aparecia nos Céus para indicar o caminho para seus súditos o adorarem. Note-se que o texto não nos diz que eram três os magos, mas sugere-se esta quantidade pelo número dos presentes: ouro, incenso e mirra. Ainda, é preciso dizer que eles não eram reis, apenas magos. Quando chegaram perto, indagaram Herodes onde encontrariam o novo rei. Herodes faz uma conferência e pergunta para os principais líderes e estudiosos, eles sabiam exatamente onde Jesus nasceria, porém não conseguiram reconhecê-lo nem dar-lhe glória. Jesus tem sido identificado em nossas vidas? Jesus nasceu em nossos corações? Temos um conhecimento sobre a vida de Jesus ou fomos transformados pela vida do Mestre?

Curiosidades: Sobre a estrela: pode ter sido uma conjunção planetária, uma supernova ou algo simplesmente sobrenatural. Qualquer que tenha sido o caso, alude à estrela de Jacó (Números 24.17), que foi profetizada por outro gentio, Balaão.

I. Conhecer não significa intimidade: os principais sacerdotes e escribas sabiam muito sobre o messias: onde iria nascer, como se chamaria e qual seria o seu ministério. Citaram vários profetas sustentando sua argumentação. No entanto, conhecimento não significa intimidade nem proximidade. Muitas vezes nos deparamos com alguém que diz: ‘fulano é meu amigo’, mesmo ele apenas o cumprimentando na rua. Neste caso confunde-se familiaridade com intimidade. Esta pessoa pode ter uma política de ‘boa vizinhança’, entretanto, não tem conhecimento suficiente para se assentar e comer à mesa com ‘fulano’. Os peritos religiosos concluíram dos profetas que o Messias devia nascer em Belém, mas nenhum deles preocupou-se em fazer a curta viagem com os magos, para ver a Cristo. Algumas vezes nós dizemos saber tudo sobre Cristo, mas não nos dispomos a andar alguns metros para adorá-lo ou falar de seu amor para nosso próximo.

II. Jesus nasceu em nossos corações? Após os magos falarem da estrela que viram do oriente, esse sinal foi perturbador para Herodes. Havia muitas suspeitas que faziam-no ver complôs por toda a parte. Além disso, havia na Judéia constantes perturbações por causa de falsos messias. Tendo, pois, ouvido falar do menino que nascera rei dos judeus, muito mais temeu pelo trono. Por isso, buscou matar aquele que considerava seu rival político. O povo judeu a muito tempo achava que uma mudança grande estava prestes a acontecer em Israel e no mundo. O rei dos judeus foi diligentemente procurado por pessoas que não eram de seu povo. Ora, Jesus nasceu em terra Judéia, no entanto, os seus não reconheceram. Isso demonstra nossa dificuldade em reconhecer a graça que nasce em nosso quintal. É muito mais fácil ouvir o Ching Ling que vem do oriente do que ouvir o João que é meu vizinho. Mas se Jesus nasceu em nossos corações nós não temos mais essa consciência de tempo e espaço. Nós sabemos que Ele pode se manifestar em qualquer lugar e em qualquer pessoa, especialmente simples e humildes.

Ilustração: Havia um sujeito que pertencia a um clube de ateus. Uma noite foi escutar um sermão de George Whitefield e, na próxima reunião do clube, pediu a palavra e começou a repetir ao pé da letra o que tinha escutado, com o fim de caçoar a religião. Enquanto falava, imitando o tom de voz e os gestos de Whitefield, empalideceu, parou, sentou-se e logo confessou a seus amigos que, enquanto “pregava”, o sermão atingiu seu coração e foi convertido. O clube se dissolveu. Este homem foi o irmão Thorpe, de Bristol, a quem Deus usou poderosamente para a salvação de muitas pessoas. Prefiro que você leia a Bíblia, nem que seja para zombar dela, a que não leia. Prefiro que venha ouvir a Palavra de Deus, odiando-a, do que não venha.

III. Temos conhecimento sobre a vida de Jesus ou fomos transformados? Será que o Evangelho é um texto que nós dominamos ou nós somos dominados e transformados por ele? Essa é uma pergunta crucial para nossa cristã. O conhecimento é bom, mas não significa proximidade ou intimidade. Deus pode usar a qualquer um, até mesmo uma jumenta. Melhor é ser alguém curado falando sobre uma enfermidade do que ser um teórico da doença. Certo poeta cearense disse: “eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é experiência com coisas reais. Longe o profeta do terror como a laranja mecânica anuncia, amar e mudar as coisas me interessa mais”. O Senhor está interessado mais em pessoas que colocam em prática o que ouve, mais do que aqueles que teorizam e dissecam suas palavras.

Considerações Finais: É hora de reconstruir. É hora de recomeçar. É hora de olhar para si mesmo e ver o que nos tornamos e aceitar a desconstrução e reconstrução do Senhor. É hora de dizer: Senhor, não tenho nenhuma opinião sobre a reconstrução, eu não tenho ideia de onde começar, aceito totalmente a tua obra e a tua vontade, me molda por completo.

22 de outubro de 2017

Antecedentes de um Rei.

Autor: NASCIMENTO, Job.
Título: Os ascendentes de Jesus Cristo e sua relevância na introdução ao Evangelho.
Texto: Mateus 1.1-17.
Introdução: Neste texto o evangelista Mateus elenca o nome dos ancestrais de Jesus Cristo e sua caminhada até chegar ao nascimento do Messias. Esta lista foi feita porque os judeus eram muito aficionados em genealogias. Mateus objetivava argumentar que Jesus era descendente de dois importantes homens de Deus na história, Abraão e Davi. Não por acaso, a lista de Mateus inicia em Abraão, o pai da fé, aquele que deixou seus parentes e suas terras e seguiu em direção a uma promessa.
            Davi, homem segundo o coração de Deus, devido a sua dedicação ao Senhor foi-lhe prometido que o reino de Israel sempre teria um descendente de Davi. Os profetas, posteriormente, afirmaram que o Cristo nasceria de Judá, em Belém. Esses são alguns pontos que foram enfatizados por Mateus em sua genealogia, com o fim de provar que Jesus era o Cristo, o Messias. A promessa feita a Davi teve seu cumprimento no nascimento de Jesus Cristo.
            Entretanto, na lista de Mateus temos alguns nomes que aos olhos humanos não poderiam constar, devido a seu estilo de vida, a sua descendência ou a algum erro que cometeram. No entanto, até mesmo na genealogia de Jesus encontramos graça. Pessoas que tiveram uma segunda chance em sua vida e receberam a honra de integrar a lista de ancestrais de Jesus Cristo para toda a posteridade. Entre os diversos nomes encontramos três mulheres controversas: Raabe, Rute e a mulher de Urias.
            São pessoas improváveis, que não deveriam estar na genealogia de Jesus pela ótica da sociedade. Mas devido a um ato de fé ou de graça, foram eternizadas na lista de ascendentes de um Rei Eterno, Jesus Cristo.

I. Raabe uma mulher afligida pela sociedade: Esta mulher, segundo consta em Josué 2.1 ela era uma prostituta. Talvez ela não tivesse qualquer oportunidade para ter outro tipo de trabalho; foi influenciada a entrar nessa profissão; condicionada pela família ou inúmeras outras razões. Mas pelo seu ato de abrigar e salvar a vida de dois espiões enviados por Josué ela foi salva. Raabe teve uma oportunidade de reconstruir sua vida ao lado de um israelita de nome Salmom.
            Encontramos algumas passagens na Bíblia que fazem referência ao nome de Raabe, como alvo da graça e participante da promessa messiânica, como Salmos 87.4: “entre os que me conhecem incluirei Raabe”; Hebreus 11.31: “pela fé a prostituta Raabe, por ter acolhido os espiões, não foi morta com os que haviam sido desobedientes”; Tiago 2.25: “caso semelhante é o de Raabe, a prostituta: não foi ela justificada pelas obras, quando acolheu os espias e os fez sair por outro caminho?”
         Raabe era uma prostituta. Mas o evangelho não pergunta sobre nossos antecedentes, o evangelho se preocupa com nossa postura de fé. A fé fez Raabe romper com seu povo e, por isso, ela teve uma segunda oportunidade em sua vida. Ela recebeu a glória de estar eternizada na galeria de nomes da genealogia de Jesus, mostrando que para o caminho com Deus não exige lista de pré-requisitos, ao contrário, o convite é apenas para uma caminhada de fé, onde o mais importante é o que Deus pensa e não o que a sociedade acusa.

II. Rute, uma mulher insistente: Rute era uma mulher moabita (um dos povos rivais de Israel no Antigo Testamento) ela havia se casado com um homem israelita. Essa união a luz das normas de Israel não era permitida. Entretanto, ela foi ministrada e acompanhada por uma boa sogra. Após a morte de seu esposo Rute poderia voltar para seu povo, poderia retornar para sua casa e casar-se com outro homem e seguir sua vida. No entanto, ela apegou-se com sua sogra e disse: “teu povo é meu povo, o teu Deus é meu Deus” (Rute 1.16).
            Essa afirmação de Rute demonstrou o que estava em seu coração. Ao seguir na caminhada de fé com sua sogra e após insistência e trabalho junto à fazenda de Boaz, acabou recebendo graça e uma segunda oportunidade para sua vida. No ano do jubileu, aonde um parente mais próximo resgatava alguém de sua família que era escravo ou algo semelhante, Boaz resgatou a Rute e se casou com ela. Dessa relação nasceu Obede, o pai de Jesse, avô do Salmista Davi.
            Aos olhos puristas de um israelita do antigo testamento não era possível que uma mulher moabita tivesse oportunidades na sociedade. Mas Deus não olha para as características colocadas na vida de uma pessoa, seja prostituta, bastarda, viúva ou qualquer outra coisa. Fomos todos adotados pelo mesmo pai e estamos na mesma condição espiritual diante de Deus. Rute, uma moabita, através de sua fé foi inserida no rol de nomes que integram a genealogia de Jesus Cristo.

III. A mulher de Urias, uma mulher sem nome. Essa talvez seja uma das figuras mais controversas da bíblia. Esta mulher deitou-se com o Rei enquanto seu esposo estava na guerra. Seu esposo era um homem valoroso, isso é o que se depreende quando ele volta para a corte e ao ser enviado para casa ele dorme na porta do palácio porque não era capaz de deitar-se com sua esposa enquanto seus companheiros estavam lutando e morrendo em guerra.
            Mateus não dá nome à mulher de Urias. Mas nós sabemos que é Bate-Seba (conforme o Antigo Testamento). Talvez ela tivesse sido maltratada e difamada no reino por ter adulterado com o rei enquanto seu esposo morria no campo de batalha. Ela poderia ter feito diversas coisas, poderia ter se matado devido a pressão social que sofreu; poderia ter tentado fugir; poderia ter pedido para ir embora para Davi. No entanto, ela sofreu as consequências de seu erro ao perder seu filho. Davi orou, jejuou e buscou. Mas após a morte da criança ele levantou-se e seguiu.
            Mesmo tendo recebido tantas coisas da sociedade, tanta opressão. Ela seguiu. E aqui mostra a realidade do evangelho que é um convite para ser, apenas. E não realizar uma série de obras. Talvez a maior coisa que ela tenha feito foi a criação de seu filho Salomão. Salomão foi o rei mais sábio e mais rico de seu tempo e ele nasceu de uma mulher que tinha sido adultera. Deus dá segunda chance para todos, porque a sua graça não trabalha com nossos critérios meritórios.

Considerações Finais: A graça nasce em lugares mais improváveis. Aonde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus. Essas mulheres que estão presentes na genealogia de Jesus Cristo representam uma síntese do evangelho. Elas tiveram uma segunda chance, tiveram a oportunidade de recomeçar, nasceram de novo. Isso mostra que para Cristo não existe pessoas às margens do evangelho. Todos podem ser atingidos por essa graça e amor que nos transcende.
            De alguma forma estamos ligados com estas mulheres (Raabe, Rute e a Mulher de Urias). Nossas histórias eram complexas, tiveram altos e baixos, no entanto, o Espírito nos chamou e a Graça de Deus nos alcançou, de modo que hoje somos um em Cristo. A confissão de que nada somos e que precisamos de Jesus nos une, conforme Ratzinger: quem acredita em Jesus entra por meio da fé na Sua origem pessoal e nova, recebe essa origem como própria. Todos os crentes, em primeiro lugar, “nasceram do sangue e da vontade do homem”; mas a fé lhes dá um novo nascimento: entram na origem de Jesus Cristo, que agora se torna a sua própria origem. Em virtude de Cristo, através da fé n’Ele, agora nasceram de Deus[1].
            É por isso que eu creio no Evangelho. Não existe perdido que não possa ser achado; não existe consciência adormecida que não possa ser despertada pelo Senhor; não existe pessoa que não possa nascer de novo, mesmo que ela seja uma prostituta, uma viúva ou adúltera. Deus é Deus dos excluídos.



[1] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré – Infância. 2ª edição. São Paulo: Planeta, 2017. P. 19.

12 de outubro de 2017

Da decisão do STF.

Job. Nascimento

A ADIN que o Supremo decidiu suscitava a questão se o poder judiciário poderia submeter qualquer medida do 319 do CPP (diversas da prisão) a parlamentares. O STF entendeu que sim. Mas caso o juízo entenda que a medida prejudica o mandato do parlamentar, submeterá a casa legislativa. Decisão muito sensata e que manteve a independência e harmonia dos poderes, a meu ver. Na prática: tornozeleira eletrônica (não precisa submeter a casa legislativa); recolhimento de passaporte (não precisa submeter a casa legislativa) etc. O ponto determinante que firmou o entendimento do acórdão (sugerido por Celso de Mello, após voto da Carmem Lúcia) foi o inciso VI do artigo 319 do CPP. As outras medidas, podem ser aplicadas sem a consulta a casa legislativa. Muito sensata decisão.

10 de outubro de 2017

Argentina na Copa?

Foto: El País. 
Job. Nascimento

Comentaristas e boa parte dos brasileiros torcendo para a Argentina se classificar para a Copa da Rússia, argumentando que seria uma pena um craque como Messi ficar fora etc et. al. Bom, eu torço para o Brasil apenas. Messi teve outras copas e não fez nada; jogou contra Bolívia, Venezuela e Peru e não fez nada; não fará falta na copa. Se a Argentina não ganhar hoje e não se classificar, que fique no sofá porque não mereceu.

19 de setembro de 2017

O caso Jô.

Job. Nascimento

Os comentaristas não se cansam de crucificar o Jô por não ter se acusado ao fazer o gol de mão ou não reconhecer isso após o jogo, principalmente porque teria sido beneficiado e enaltecido a atitude do Rodrigo Caio. No jogo do primeiro turno, contra a mesma agremiação do Vasco da Gama, o Luís Fabiano fez um gol semelhante com a bola tocando ainda mais abaixo no braço, mas ele não foi sabatinado porque o gol não foi determinante pra vitória e ele não tinha falado nada sobre moralismo na TV. Mas é assim que ocorre com aqueles que falam publicamente sobre valores. Seja professor, pastor, cristão, procurador, político etc. Quando se fala teoricamente sobre moral e ética e na primeira oportunidade de demonstrar isso na prática não o faz, a cobrança é maior. É preferível não falar nada e surpreender com uma atitude louvável do que falar muito e, na prática, proceder de forma diversa. Segue o jogo. O Jô ainda terá muitas oportunidades, assim como cada um de nós temos todos os dias de demonstrar na prática aquilo que professamos.

16 de setembro de 2017

O caso Santander.

Job. Nascimento

Eu confesso que estava meio desligado dessa exposição. Pelo tamanho da repercução achei que era algo que passou em rede nacional em horário nobre; que estava exposto em parques durante o dia; ou que tinha passado por diversos Estados da federação. Mas foi uma exposição em um museu específico. Tendo em vista a quantidade de pessoas que frequentam museu e a baixa atratividade e divulgação desta exposição, acho que no máximo caberia notas de repúdio das entidades de classe do Estado em questão. Surgiu um movimento de várias igrejas que retiraram suas contas do referido banco devido à exposição. Achei a ação desproporcional. Mas, cada igreja, fundação, associação ou cidadão é livre para escolher as empresas que deseja trabalhar. Os critérios da escolha geralmente orbitam sobre valores, visão e missão. Normal. Agora não posso divinizar minhas escolhas, chamar de vontade de Deus ou utilizar espaços de ministração de cura para exposição de ideias e pensamentos meus. Creio que as ovelhas olham mais para sinceridade de nosso ministério, na clareza das ministrações e esmero nos estudos bíblicos do que para nossos posicionamentos políticos-sociais-econômicos. Geralmente admiro teólogos e pastores pelo seu zelo aos estudos, por sua dedicação e fidelidade ao ministério. Não por seus posicionamentos políticos, em geral a história mostra que são equivocados.

25 de agosto de 2017

Resenha: "Em defesa de Cristo".

Job. Nascimento

“Em defesa de Cristo” trata-se de um filme baseado na obra com o mesmo título de Lee Strobel. O referido filme entrará em cartaz nos cinemas do país no dia 14 de setembro do corrente ano. A história é baseada em fatos e retrata a odisseia de um jornalista de um grande jornal americano em busca de provas que desqualifiquem a fé cristã. O jornalista Strobel, que também possui formação em direito, foi instigado a fazer uma pesquisa para provar a farsa do cristianismo após sua esposa se converter ao evangelho através do contato com uma enfermeira do hospital de misericórdia. Indignado, Strobel investiga todos os argumentos utilizados pelos cristãos para sustentar sua fé. Com o desenrolar da pesquisa as coisas vão afunilando e ele é obrigado a fazer algumas concessões intelectuais.
            No percurso, ao ver o seu casamento em frangalhos, ele percebe nas palavras de sua esposa que a conversão ao evangelho tinha feito o amor dela aumentar por ele. Ao final, ele acaba se convertendo, não convencido totalmente pelas evidências (pois, algumas brechas continuaram), mas impulsionado pelo amor de Cristo demonstrado na pessoa de sua esposa. O filme é excelente. Mostra diversos argumentos sobre os desdobramentos da morte e ressurreição de Jesus. Mas é uma linguagem tranquila, não evangelical, sem aquelas chamadas emotivas e pedantes que alguns filmes do gênero gospel fazem. É um filme para convidar pessoas não cristãs para assistirem justas sem se sentir mal com a linguagem.
            Apesar de não gostar de temas relacionados à apologética, esse filme é diferente de outros que vi, recomendo. Deixa bem claro que não são argumentos que convertem um ateu, não existe assentimento intelectual na chamada do evangelho, mas apenas amor e graça. Dia 14 de setembro vá aos cinemas e leve mais alguém. 

3 de agosto de 2017

Resenha: "Jesus de Nazaré – A Infância" de Bento XVI.

Job. Nascimento

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré – A Infância. 2ª edição. São Paulo: Planeta, 2017.

O Papa Emérito Bento XVI escreve com primor sobre a vida de Jesus Cristo. Neste volume ele trata da infância de Jesus, enfatizando as narrativas de Mateus e Lucas. Em Mateus percebe-se a proposta de relacionar as profecias do Antigo Testamento com as palavras, ações e vida de Jesus. Isso ocorre porque Mateus escreve para os Judeus que esperavam o cumprimento da promessa da chegada do Messias.

Sendo assim, desde a genealogia há uma necessidade de ligar Jesus com Davi e, consequentemente, com Abraão. Deus havia feito uma promessa para Abraão, ele era avançado em idade e sua esposa já não podia ter filhos. Segue-se desta maneira, Isaque que casa-se com Rebeca que era estéril; Jacó tem em Raquel o seu amor maior e esta era estéril; do mesmo modo, Zacarias (esposo de Isabel) era sacerdote e avançado em idade, não acreditando mais na possibilidade de ter filhos. Em Maria tem-se um milagre maior, esta não era estéril, mas concebeu pelo Espírito Santo.

Nessa linha, Bento XVI afirma que há uma ligação entre a promessa e esperança dos patriarcas e o nascimento de Jesus Cristo. Deus promete para Abraão: “em ti serão benditas todas as nações”. Jesus, descendente de Abraão, abençoa Judeus, Gadarenos e Siro-fenícios, comissionando os seus discípulos após a ressurreição: “ide por todo o mundo e façam discípulos”, ou seja, “ide e tornem benditas todas as nações a partir do Evangelho”.

A abordagem de Bento XVI segue enfocando a sinceridade de Maria que recebe a promessa e vive com as consequências desta na pequena vila que residia. José, do mesmo modo, apesar de correto diante da lei, não expõe a Maria e segue o conselho do Anjo que viu em sonhos. Deste modo, expõe-se a justiça e correção de caráter de José e também sua percepção e sensibilidade espiritual para discernir as palavras do Senhor na fala do anjo.

O autor argumenta que Jesus cumpre a trilogia messiânica enfatizada em Isaías: a) a virgem vai dar a luz (Isaías 7); b) luz nas trevas, um menino nasceu para nós (Isaías 9); c) o rebento do tronco, sobre o qual repousará o Espírito do Senhor (Isaías 11). Recomendo a presente obra, é difícil lê-la e não sentir-se tocado pelos detalhes do cumprimento da promessa divina em Cristo. Um livro para ler devagar, anotar, sublinhar e reter. 

18 de junho de 2017

De Abraão ao Evangelho.

Foto: Bolsa Blindada. 
Mateus pretendeu relacionar a origem de Jesus com o “pai da fé” Abraão. Pois, a ele Deus prometeu: “em ti serão benditas todas as nações”. Por isso, já na genealogia, o olhar volta-se para a conclusão do Evangelho, onde o Ressuscitado diz aos apóstolos: “Fazei que todas as nações se tornem discípulos” (Mateus 28.19), cumprindo a promessa feita a Abraão. A partir do evangelho todas as nações são benditas. 

28 de maio de 2017

Apóstolo Tomé.

Foto: J.N
Job. Nascimento

Ontem meditamos sobre a vida do apóstolo Tomé. Esse apóstolo era conhecido pela sua racionalidade, só acreditava naquilo que era palpável, visível.  As vezes nos comportamos como Tomé, cobramos demonstrações claras e visíveis de Deus em nosso cotidiano. Entretanto, é preciso darmos um salto de fé, abandonando a razão para chegarmos a Deus. Jesus ensina: "bem-aventurado aqueles que não viram, mas creram". Tomé nos deixou lições preciosas. Como a humildade e submissão ao senhorio de Cristo "Deus meu e Senhor meu". Ele foi missionário nas índias. Cada discípulo tinha uma personalidade, um jeito, uma profissão. Não por acaso o Senhor os chamou, representando um grupo específico. O Senhor nos chama para sermos testemunhas com nossa personalidade e jeito. Que sejamos benção em nosso grupo, tribo, povo.

Abraço, Nele que nos ama, chama e revela, apesar de nossa descrença.

24 de maio de 2017

Resumo: Relação terapêutica.

Job. Nascimento

MUJER, Sonia; VERMES, Joana Singer. Relação terapêutica. Págs. 101-110.
  
            O texto em análise pretende analisar as nuances que envolvem a relação terapêutica. As autoras argumentam que o trabalho terapêutico visa proporcionar mudanças comportamentais que amenizem o sofrimento e insiram contingências reforçadoras. Isso decorre de alguns comportamentos presentes na relação interpessoal. O sucesso da terapia está relacionado à relação entre terapeuta e paciente. Um paciente que tenha uma boa relação e percepção da terapia acaba tornando o tratamento mais efetivo.
            As autoras apontam alguns fatores importantes na relação terapeuta-cliente, como: a) o papel do terapeuta; b) as características do terapeuta; c) comportamentos do terapeuta.
            No que diz respeito ao papel do terapeuta argumenta-se que o profissional deve se apresentar como uma audiência não punitiva, também um agente que auxilie reforçando determinadas resistências, proporcionando um ambiente de tolerância onde o cliente exponha suas emoções aversivas livremente e aumentar as chances do cliente suportar as interpretações.
            Quanto às características do terapeuta as autoras afirmam que o resultado do tratamento depende em grande parte deste elemento. Entre as características elencadas pelas autoras, destacam-se: a) postura empática e compreensiva; b) aceitação desprovida de julgamentos; c) autenticidade; d) autoconfiança; e) flexibilidade na aplicação das técnicas. Por outro lado, existem características no terapeuta que podem influenciar negativamente o tratamento, como: 1) elementos da vida do profissional; 2) diferenças nos valores éticos, morais ou religiosos; 3) identificação com o problema do cliente. Quando o terapeuta é muito direto em suas posições isso acaba gerando mecanismos de resistência nos pacientes.
            Por fim, quanto à postura do terapeuta na relação as autoras relatam que o comportamento do terapeuta influenciam de forma determinante no tratamento de acordo com as técnicas e táticas abordadas. Elencam-se pelo menos nove comportamentos: 1) solicitação de informações; 2) fornecimento de informações (sobre o andamento da terapia, sobre aspectos psicológicos e técnicas utilizadas); 3) empatia, calor humano; 4) sinalização; 5) aprovação; 6) orientação; 7) interpretação; 8) confrontação; 9) silêncio. Apesar de não existir um posicionamento uníssono quando a essa lista, as autoras argumentam que são os aspectos mais relevantes no que diz respeito ao comportamento do terapeuta e a relação com a efetividade do tratamento.
            No outro pólo da relação, o cliente, também influencia determinantemente na efetividade do tratamento. Alguns posicionamentos do cliente exigem do terapeuta uma postura diferenciada para o estabelecimento da relação. A ausência de motivação e as variações do paciente podem prejudicar a terapia. As autoras argumentam que a faixa etária deve ser observada, os aspectos sócio-econômicos, transtornos psiquiátricos etc. Todos esses fatores se não observados dificultam o estabelecimento da relação terapêutica.
            A efetividade de algumas terapias e o insucesso de outras é um fator muito relativo, de acordo com as autoras. Mas uma tática bastante comum entre os terapeutas é auxiliar os clientes a construírem, um repertorio comportamental mais vasto: coragem, habilidade interpessoal, racionalidade, perseverança, realismo, capacidade para o prazer etc.
            Por fim, concluem as autoras apontando alguns instrumentos necessários na avaliação da relação terapêutica. Esses instrumentos são: a) o questionário (pesquisas); b) observação das sessões de terapia. Os profissionais brasileiros no ramo comportamental têm produzido importantes estudos e pesquisas de caráter descritivo, contribuindo para o avanço da análise do comportamento, relatam, finalizando as autoras. 

19 de maio de 2017

O caso Temer (Parte 2).

Job. Nascimento

Áudios totalmente inconclusivos. O Temer se comportou igual a nossa reação com amigos "papudos" que vivem contando vantagem que não correspondem a realidade. O sujeito investigado pela lava jato diz "já tenho um juiz comigo e o juiz substituto e um procurador que me informa tudo". Aí o Temer "ótimo, ótimo". Em outras palavras: bacana, legal campeão tu está sendo investigado pela lava jato e está conseguindo informações (papudo), ótimo, ótimo. Não vi em nenhum áudio, nem aquele dos 1% de queda da Selic qualquer informação comprometedora. Sobre a Selic ele diz: "é, tem que cair. Mas cair (juros) responsavelmente". Não tem como adiantar algo sobre redução de juros antes da discussão no copon, se o pessoal visse como economista debate na reunião não diria isso. mas é isso aí, o caso Temer uniu todo mundo: o pessoal da lava jato e os pro-lula/Dilma revanchistas que querem que ele caia também.

18 de maio de 2017

O caso Temer.

Job. Nascimento

Fiat justitia ruat caelum, expressão latina que significa: “seja feita justiça, ainda que os céus caiam”. Essa expressão nunca foi tão atual e oportuna no contexto político brasileiro. Entretanto, sem querer dar uma de advogado do diabo, mas não enxerguei nos áudios do Temer nada que se encaixe com o que foi alardeado pela mídia anteriormente. Quem fala e descreve é o Joesley, Temer tem papel passivo na conversa. Factoides que venderam bem. Voltamos à normalidade e segue as políticas de reforma e tímidos crescimentos. Antes assim que a recessão. Que as águas se acalmem, os juros caiam, a inflação caia e o emprego aumente. Amém e graças a Deus.  

2 de maio de 2017

STF e as Decisões de Habeas Corpus.

A jurisprudência do STF diz que só se pode permanecer em prisão preventiva após sentença de segundo grau. A segunda turma obedeceu ao entendimento do STF para soltar Dirceu e Eike. A primeira turma não obedeceu ao entendimento do STF e mandou prender o goleiro Bruno (Boa Esporte - MG) de novo, mesmo sem sentença de segundo grau. Vai entender esse pessoal do Supremo Tribunal Federal. 

1 de maio de 2017

Resumo: O sentido comum teórico dos juristas e o “princípio” da “verdade real”.

Foto: Blog do Tarso. 
Job. Nascimento

STRECK, Lenio Luiz. O sentido comum teórico dos juristas e o “princípio” da “verdade real”: o ponto de encontro do solipsismo com o árbitro. São Paulo: Revista de Estudos Criminais, 2012.

         O presente texto apresenta uma crítica ao princípio da busca da verdade real no direito processual penal e direito penal. Observa-se que a doutrina jurídica constitui-se como um construto de técnicas de “fazer crer”, afirma o autor. Streck propõe apresentar a deficiência filosófica presente na ideia de “buscar a verdade real” no processo.
         Streck afirma que a dogmática jurídica é conservadora, sistemática, formalista e decisionista, porque é refém do sentido comum teórico. Isso porque, ao servir de instrumento para a interpretação/sistematização/aplicação do Direito, a dogmática jurídica aparecerá como um conjunto de técnicas com as quais os juristas conseguem produzir a linguagem oficial do Direito.
         Essa linguagem oficial argumenta o autor, representam um sustentáculo do que se pode chamar de “paradigma dominante do direito”. É o que Streck chama de habitus dogmaticus. Sendo que o habitus é o lócus da decaída para o discurso inautêntico repetitivo psicologizado e desontologizado. Mesmo após o advento da Constituição de 1988 esse modo de “fazer direito” continua.
         A ciência jurídica é controlada pela dogmática, de modo que a dogmática indica não somente os problemas tradicionais, mas também as soluções. Além dos tipos de problemas que devem fazer parte das investigações. Observa-se que a crise da ciência do Direito é também um capítulo da crise da racionalidade política da sociedade.
         O autor afirma que em tempos de intersubjetividade, grande parte dos juristas ainda trabalha com os modelos liberais-individualistas: “Caio”, “Tício” e “Mévio”, os manuais que disseminam a dogmática jurídica mudaram muito pouco. Afirma-se que é a estandartização que cresce assustadoramente cotidianamente em plena época da informação em massa.
         A Constituição Federal apresenta indicadores para uma ruptura com os paradigmas, mas os mais de vinte anos que se passaram não testemunharam uma ampla adaptação do Direito aos ditames da Constituição. Nota-se que o conjunto teórico dos juristas é um conjunto de crenças, valores e justificativas por meio de disciplinas específicas legitimadas pelo discurso dos órgãos institucionais.
         O autor argumenta que a “verdade real” é um sintoma da prevalência do sentido comum teórico. Especula-se que o sentido de uma palavra depende de sua própria existência histórica, a qual é proveniente da intercomunicação cultural entre os seres humanos. Assim, as significações da cultura vão tecendo o conjunto de crenças e ficções que permite instituir a disciplina e o conformismo na sociedade.
         O autor quando problematiza o princípio da verdade real e a algaravia conceptual afirma que a critica dele não tem por escopo produzir um ambiente castrador que acarrete alguma limitação ao estabelecimento de novas teorias ou mesmo a incorporação de novos autores no diálogo. A questão é a necessidade de se criar um modelo mais rigoroso de avaliação de argumentos teóricos no campo jurídico para que o “novo” tenha condições de aflorar.
         Ao citar Warat o autor argumenta que identificou um sistema de produção de subjetividades cientificas (uniformização de sentido), as quais agiriam em prol das verdades postas pelo Estado. Analisando essa problemática, inserido no modo de compreender e ensinar o direito, Warat verificou a existência de (re) produções de verdades jurídicas, chamando esse fenômeno de senso comum teórico dos juristas.
         O autor afirma que no caso da ciência jurídica trata-se de condensações de saberes, que estabelecem de forma massificada os fatos jurídicos. Dito de outro modo, o cientificismo censurador (formador de realidades) é substituído pelo juridicismo, isto é, uma forma de ciência específica que reproduz aprisionamentos e uniformizações de sentido, tendo como consequência a retirada de autonomia da comunidade jurídica.
         Streck argumenta que se passou por uma transformação (atualização), pois os juristas - inseridos no sentido comum teórico – propuseram-se a transpassar a rede de conhecimentos até então dominante conseguindo, desse modo, identificar certas vaguezas na letra da lei. Cumpre salientar que esse “rompimento” - com o imaginário jurídico massificador– não significa dizer que os juristas desvendaram ou superaram o secreto.
No entanto, houve apenas algumas mudanças nas verdades oferecidas e, por consequência, aceitas pela comunidade jurídica acrítica. Em outras palavras, a superação da lei caracterizou poucas mudanças no modo de se compreender o Direito, considerando que essa nova verdade não está isenta de censura e subjetividade controlada pela instituição social.
Streck como um representante do habitus dogmaticus (Streck) ao superarem as verdades vinculadas pela lei, caíram em uma nova armadilha paradigmática e doutrinária. O problema do ensino raso continua, porém, com algumas evoluções. Agora a lei não é mais autossuficiente e a resposta, encontrada pelo senso comum, é a criação de princípios que solucionem as ambigüidades da lei. Como se percebe, trocou-se “seis por meia dúzia”.
Streck utilizou-se de uma situação hipotética para melhor ilustrar o senso comum teórico dos juristas. O referido argumenta revela que o direito brasileiro vem sofrendo um problema sistêmico, no que diz respeito ao modo como vem sendo ensinada da ciência jurídica no Brasil. Segundo o autor, o Direito vem sendo ensinado de forma errada e incompleta, o que proporciona a formação de um senso comum teórico.
O direito como vem sendo doutrinado serve para que a situação social brasileira permaneça estática. Assim, a situação atual se manterá e não haverá evolução e melhorias na ciência jurídica. O referido autor vale-se teorizações críticas para desmistificar o que seja o denominado senso comum teórico e sua contribuição à institucionalização da crise paradigmática do Direito.
Nesse sentido, Streck sustenta que o mito só é mito para quem acredita (conhece). Do mesmo modo o senso comum teórico só é conhecido e considerando pelas pessoas revestidas de capacidades (críticas) em reconhecer sua existência. Assim, referindo-se a essa categoria de juristas, o autor denuncia haver um habitus dogmaticus no direito.
         Afirma-se que parece não haver dúvida de que um Juiz imparcial e um Promotor de Justiça independente são os requisitos indispensáveis à implantação de um sistema processual-penal democrático. Isso deveria vir pela plena aplicação do princípio acusatório, sepultando-se, de uma vez por todas, o sistema inquisitorial que caracteriza o Código de Processo Penal, de 1941, ainda assentado no mito da verdade real (que, na verdade, sempre mascara a busca pela condenação do réu).
Pontue-se que na busca pela “verdade real” tanto o “sistema” inquistório como o “sistema” instrumentalista (do campo processual civil) têm, no protagonismo judicial e na discricionariedade, o seu “elo”, isto é, o seu DNA. A lógica inquisitorial estabelecida como caminho à solução do caso traz à tona a busca do mito da “verdade real”, porém, os direitos fundamentais devem ser respeitados no processo e a verdade material não pode ir além do respeito aos direitos primordiais. Isso deve ser encarado como grandes conquistas decorrentes de um processo histórico.
O autor conclui que a raiz da equivocada compreensão está em uma espécie de “abandono da filosofia”. A prova desse abandono pode ser demonstrada na confusão feita pela doutrina, seguida pela jurisprudência, claro acerca da busca pela “verdade real”. Essa “verdade” demonstrada pela doutrina e jurisprudência é mutável de acordo com a ocasião.
Streck afirma que ora a verdade é mostrada como ontológica (clássica), ora é produto da vontade (solipsismo). Assim, os efeitos colaterais dessa confusão de paradigmas são demonstrados na adoção do livre convencimento no projeto do Novo Processo Penal, como se fosse um avanço.
O autor afirma que os protagonistas do referido projeto esquecem que é o livre convencimento que está ligado ao mesmo paradigma anterior que foi o sustentáculo da verdade real nas últimas décadas. Assim, graças a algaravia conceitual, a “verdade real” acabou sendo transformada em um prêt-à-porter significativo, que serviu como álibi teórico para qualquer tipo de decisão.     
Assim, a simples invocação do adjetivo “real”, afirma o autor, não tem nada a ver com o realismo filosófico; nada tem a ver com a ontologia clássica (a busca da essência). Deste modo não há nada de verdade na “verdade real”. A “verdade real” seria uma “ilusão de verdade”.

30 de abril de 2017

Resumo: Construir as competências desde a escola.

Job. Nascimento

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 1999.

O questionamento que permeia a abordagem do Philippe Perrenoud é: vai-se á escola para adquirir conhecimentos, ou para desenvolver competências? Essa pergunta oculta um mal-entendido e designa um verdadeiro dilema. O mal-entendido está em acreditar que, ao desenvolverem-se competências, desiste-se de transmitir conhecimentos. Quase que a totalidade das ações humanas exige algum tipo de conhecimento, ás vezes superficial, outras vezes aprofundado, oriundo da experiência pessoal, do senso comum, da cultura partilhada em um círculo de especialistas ou da pesquisa tecnológica ou científica. Quanto mais complexas, abstratas, mediatizadas por tecnologias, apoiadas em modelos sistêmicos da realidade forem consideradas as ações, mais conhecimentos aprofundados, avançados, organizados e confiáveis elas exigem (...)
Não existe uma definição clara e partilhada das competências. A palavra tem muitos significados, e ninguém pode pretender dar a definição. O que fazer, então? Resignar-se á Torre de Babel? Procurar identificar o significado mais comum em uma instituição ou em um meio profissional? Avançar e conservar uma definição explícita? (...)
Fala-se, ás vezes, em competências apenas para insistir na necessidade de expressar os objetivos de um ensino em termos de condutas ou práticas observáveis; ou seja, retoma-se a “tradição” da pedagogia do domínio ou das diversas formas de pedagogia por objetivos. Essas abordagens estão em absoluto superadas, desde que sejam dominados seus conhecidos excessos: behaviorismo sumário, taxionomias intermináveis, excessivo fracionamento dos objetivos, organização do ensino objetivo por objetivo, etc. (...) Conhecidos esses limites, hoje não se deveria mais ousar ensinar sem perseguir metas explícitas, comunicáveis aos estudantes, e sem que se avaliem, regularmente, os aprendizes e seu grau de realização. Inicialmente, essa avaliação deve ser feita para fins de regulação (avaliação formativa) e, a seguir, quando não há mais tempo para o ensino-aprendizado, para fins de certificação (...)
Outro significado comum é a oposição existente entre a noção de competência e de desempenho: o desempenho observado seria um indicador mais ou menos confiável de uma competência, supostamente mais estável, que é medido indiretamente. É uma acepção desenvolvida tanto na lingüística quanto na psicometria (...). É salutar no debate sobre a avaliação que se fundamente uma crítica dos exames que julgam o nível de uma pessoa com base em um desempenho pontual, exigido em condições muito particulares. Ninguém se arriscaria a defender uma escola que visasse a desempenhos sem futuro, embora o aprender de cor, rejeitado pela doutrina, seja encorajado na prática. O fato de que a competência, invisível, só possa ser abordada através de desempenhos observáveis não acaba com a questão de sua conceituação. É verdade que se poderia descrever um conjunto de ações que remetesse para a competência subjacente, sem perguntar como ela funciona. Talvez assim fosse possível nomear, classificar, repertorizar as competências ao acrescentar o verbo “saber” a um verbo que caracterize um conjunto de ações semelhantes (...). Precisa-se, então, de um inventário dos recursos mobilizados e de um modelo teórico da mobilização. Para isso, é preciso formar uma idéia do que ocorre na caixa-preta das operações mentais, mesmo com o risco de que não passem de representações metafóricas no estágio das ciências da mente (...)
Para Chomsky, a competência lingüística é “uma capacidade de produção infinita”, isto é, pronunciar um número infinito de frases diferentes. Se generalizarmos, pode-se dizer que uma competência permite produzir um número infinito de ações não-programadas. Em uma conversa, ninguém sabe, via de regra, que frase enunciará um minuto mais tarde, nem que gesto fará. O indivíduo não tirará nem suas palavras, nem seus atos, de algum repertório predefinido do qual tais elementos poderiam ser procurados. Ele não precisa conservar dentro de si um grande livro contendo todas as frases que talvez precise utilizar “algum dia”. Sua imensa capacidade de invenção torna esse repertório inútil. A competência, tal como Chomsky a concebe, seria a capacidade de continuamente improvisar e inventar algo novo, sem lançar mão de uma lista preestabelecida. Nessa perspectiva, a competência seria uma característica da espécie humana, constituindo-se na capacidade de criar respostas sem tirá-las de um repertório (...)
O ensino das línguas estrangeiras tem evoluído para métodos orais, precisamente para superar a conhecida contradição entre estudo e prática. Ninguém pode negar que isso seja um progresso. Porém, essa evolução já chegou ao nível do necessário, para desenvolver em todos os alunos competências reais de comunicação em língua estrangeira? Oito anos de estudos de inglês á razão de quatro horas semanais, 35 semanas por ano, são 140 horas por ano, e um total de 1.120 horas. É um período enorme, dirão os professores de música, que não dispõem sequer da metade desse tempo para iniciar os mesmos alunos á sua arte. Contudo, o que representam 1.120 horas, tão descontínuas e divididas, quando aprendemos a nossa língua materna por uma imersão diária, desde o nascimento, em um “banho de língua” tanto mais eficaz que devemos comunicar-nos para obter o que queremos, de preferência imediatamente (...)
Só há competência estabilizada quando a mobilização dos conhecimentos supera o tatear reflexivo ao alcance de cada um e aciona esquemas constituídos. Examinemos, pois, essa noção, ao mesmo tempo intuitiva e complexa, onipresente na obra de Jean Piaget, Retomada atualmente tanto na pesquisa sobre as competências como na didática, por exemplo, por Vergnauld a respeito dos campos conceituais (...). Ocasionalmente, associam-se os esquemas a simples hábitos. De fato, os hábitos são esquemas, simples e rígidos, porém nem todo esquema é um hábito. Em sua concepção piagetiana, o esquema, com estrutura invariante de uma operação ou de uma ação, não condena a uma repetição idêntica. Ao contrário, permite, por meio de acomodações menores, enfrentar uma variedade de situações de estrutura igual. É, em certo sentido, uma trama da qual nos afastamos para levar em conta a singularidade de cada situação. Assim, um esquema elementar tal como “beber em um copo”, ajusta-se a copos de formas, pesos, volumes e conteúdos diferentes (...)
Ligar o desconhecido ao conhecido, o inédito ao já vistos, está na base de nossa relação cognitiva com o mundo; porém, a diferença está em que, ás vezes, a assimilação ocorre instantaneamente, a ponto de parecer confundir-se com a própria percepção da situação e, outras vezes, precisa-se de tempo e de esforços, ou seja, de um trabalho mental, para apreender uma nova realidade e reduzi-la, ao menos em certos aspectos e de maneira aproximativa, a problemas que se sabe resolver (...)
Por um lado, casos nos quais não é observada quase nenhuma defasagem entre o momento em que se apresenta a situação e o momento em que o sujeito reage; isso não significa que não haja nenhuma mobilização, mas sim que ela é quase instantânea; a competência assim, portanto, a aparência de um complexo esquema estabilizado; por outro lado, situações nas quais essa mobilização não é evidente, não é rotinizada, requerem uma reflexão, uma deliberação interna, uma consulta até de referência ou de pessoas-recursos.
Em contextos diversos, competência e savior-faire parecem ser noções intercambiáveis. A noção de savio-faire é bastante ambígua. Conforme o locutor e o texto, ela designa: ora uma representação procedimental, um esquema da ordem da representação um “saber-fazer”; ora um savoir y faire, um esquema com certa complexidade, existindo no estado prático, que procede em geral de um treinamento intensivo, á maneira do patinador, do virtuoso, do artesão, cujos gestos tornaram-se “uma segunda natureza” e fundiram-se no habitus; ora uma competência elementar, ou uma parte da ação manual.
O Autor opta pela segunda designação (o savoir y faire), e discorre sobre três conseqüências: 1. Um savoir-faire já existe no estado prático, sem estar sempre ou imediatamente associado a um conhecimento procedimental. No entanto, se corresponder a um conhecimento procedimental, poderá gerar, por automatização, uma simplificação e um enriquecimento progressivos. Inversamente, um procedimento pode resultar da codificação de um saber-fazer preexistente no estado prático; 2. Todo savoir-faire é uma competência; porém, uma competência pode ser mais complexa, aberta, flexível do que um saber-fazer e estar mais articulada com conhecimentos teóricos; 3. Um savoir-faire pode funcionar como recurso mobilizável por uma ou mais competências de nível mais alto (...)
Existiram, então, tantas competências quantas situações? A vida coloca-nos, com maior ou menor freqüência, conforme nossa idade e condição e, também, em virtude de nossas escolhas, frente a situações novas, que procuramos dominar sem reinventar completamente a pólvora, lançando mão de nossas aquisições e experiência, entre a inovação e repetição. Boa parte de nossas condições de existência é desse tipo. Com efeito, nossa vida não é tão estereotipada para que, a cada dia, tenhamos exatamente os mesmo gestos para fazer, as mesmas decisões para tomar, os mesmos problemas para resolver. Ao mesmo tempo, não é tão anárquica ou mutante que devamos constantemente, reinventar tudo. A vida humana encontra um equilíbrio, o qual varia de uma pessoa ou fase do ciclo de vida para outra, entre as respostas rotineiras para situações semelhantes e as respostas serem construídas para enfrentar obstáculos novos.
Falando sobre o treinamento Perrenoud argumenta que o treinamento poderia ser associado a um “aprendizado no campo” relativamente incompressível, quaisquer que sejam a duração e a qualidade da forma anterior. Nenhum engenheiro adapta-se imediatamente a um determinado posto de trabalho em uma determinada empresa; ele se torna “operacional” somente após ter assimilado o que há de singular em seu novo ambiente de trabalho: a organização do local e das atividades, as tecnologias, a cultura da empresa, as relações porfissionais. Existe até a tentação, nessa perspectiva, de reduzir a competência á aquisição de “conhecimentos locais” que completam os conhecimentos gerais assimilados durante a formação de base. Isso equivaleria a ignorar o fato de que, mais além dessa aquisição indispensável, a competência situa-se além dos conhecimentos. Não se forma com a assimilação de conhecimentos suplementares, gerais ou locais, mas sim com construção de um conjunto de disposições e esquemas que permitem mobilizar os conhecimentos na situação, no momento certo e com discernimento (...)
Após pintar o quadro do que seria competências e a sua aplicação Perrenoud prossegue: as competências são importantes metas da formação. Elas podem responder a uma demanda social dirigida para apreender a realidade e não ficar indefeso nas relações sociais. Procuremos aqui nos equilibrar entre otimismo beato e um negativismo em princípio (...)
Perrenoud faz um paralelo entre competências e práticas sociais: Toda competência está fundamentalmente, ligada a uma prática social de certa complexidade. Não a um gesto dado, mas sim a um conjunto de gestos, posturas e palavras inscritos na prática que lhes confere sentido e continuidade. Uma competência não remete, necessariamente, a uma prática profissional e exige ainda menos que quem a ela se dedique seja um profissional completo. Assim, como amador, pode-se dar um concerto, organizar viagens, animar uma associação, cuidar de uma criança, plantar tulipas, aplicar dinheiro, jogar uma partida de xadrez ou preparar uma refeição. Tais práticas, entretanto, admitem uma forma profissional. Não há nada de estranho nisso: os nvos ofícios, raramente, nascem ex nihilo e, de maneira geral, representam o término de um processo de gradativa profissionalização de uma prática social inicialmente difusa e benévola (...)
Perrenoud ainda traz á luz á procura de competências transversais: para escrever programas escolares explicitamente ao desenvolvimento de competências, pode-se tirar, de diversas práticas sociais, situações problemáticas das quais serão “extraídas” competências ditas transversais. Basta tentar o exercício por um instante e nota-se que o leque é muito amplo, para não dizer inesgotável. Para reduzi-la, para chegar a listas de razoável tamanho, procura-se elevar o nível de abstração, compor conjuntos muito grandes de situações (...)
Essa problemática é embaraçosa para quem deseja elaborar um referencial de competências transversais. Por definição, tal referencial é padrão, pois convida os que o utilizam a aceitarem os conjuntos de situações escolhidos pelos autores do referencial, ou seja, sua visão do mundo. Essa maneira de agir é parcialmente defensável no campo das profissões, devido á referência comum a uma cultura profissional que propõe uma tipologia das situações de trabalho. Nada existe de equivalente para as situações da vida. As ações e as operações repertoriadas no dicionário – imaginar, raciocinar, analisar, antecipar, etc. – não correspondem a situações identificáveis, tão abstratos é seu nível de formulação e a ausência de referência a um contexto, a um desafio, a uma prática social (...)
Competências e disciplinas constituem uma antinomia? Perrenoud responde que: alguns temem que desenvolver competências na escola levaria a renunciar ás disciplinas de ensino e apostar tudo em competências transversais e em uma formação pluri, inter ou transdisciplinar. Esse temor é infundado: a questão é saber qual concepção das disciplinas escolares adotar. Em toda hipótese, as competências mobilizam conhecimentos dos quais grande parte é e continuará sendo de ordem disciplinar, até que a organização dos conhecimentos eruditos distinga as disciplinas, de modo que cada uma assuma um nível ou um componente da realidade (...) Essa posição pode surpreender, pois os partidários das competências “transversais” na maioria das vezes, defendem a abordagem por competências, enquanto os defensores das abordagens disciplinares dela se defendem. Essas clivagens é que devem ser superadas. O acento posto aqui e acolá – efeito de moda! – sobre as competências ditas “transversais” pode, paradoxalmente, prejudicar a abordagem por competências, que não nega as disciplinas, mesmo que as combine ocasionalmente na resolução de problemas complexos. A transversalidade total é uma fantasia, o sonho de uma terra de ninguém, na qual a mente seria construída fora de qualquer conteúdo ou, antes, utilizando os conteúdos como meros campos de exercício mais ou menos fecundos de competências “transdiciplinares” (...)
Outro problema levantado por Perrenoud é o problema de “tudo disciplinar” e o “tudo transversal”: se cada competência for referida a um conjunto de situações, a questão crucial é de ordem empírica: será que as situações mais prováveis recorrem prioritariamente aos recursos de uma disciplina? De várias disciplinas? De todas elas? De nenhuma? Várias hipóteses podem e devem ser consideradas, tais como: 1. Há situações cujo domínio encontraseus recursos, essencialmente, em uma única disciplina: escrever um conto, explicar uma revolução, identificar transformações geofísicas, dissecar um rato ou transcrever uma melodia mobilizam conhecimentos disciplinares diferentes, embora todas elas apelem para certos savoir-faire metodológicos comuns a várias disciplinas e esquemas mais gerais de pensamento e de comunicação. As situações escolares, inclusive no estágio de avaliação, são geralmente construídas para serem “intradisciplinares”, e o mesmo ocorre com as situações de trabalho, quando a tarefa profissional coincide com uma disciplina, o que é o caso para parte dos ofícios que exigem uma formação literária, gerencial ou científica “pura”; 2. Há situações cujo domínio encontra seus recursos em várias disciplinas identificáveis. É o caso de muitas situações de vida fora da escola, no trabalho e fora do trabalho. No trabalho, os empregos menos qualificados recorrem geralmente a aspectos de certas disciplinas escolares, como o francês, a matemática, ás vezes, certos elementos de biologia, química ou física; 3. Existem situações cujo domínio não passa por nenhum conhecimento disciplinar – exceto a língua materna, que preexiste ao seu ensino – e depende, unicamente, de conhecimentos fundados na experiência ou na ação, de conhecimentos tradicionais ou profissionais ou, ainda, de conhecimentos locais difíceis de classificar de acordo com a grade disciplinar. Para quais disciplinas escolares apela-se ao organizar um casamento ou adestrar um cão? (...)
Segundo Perrenoud pode acontecer a transferência e a integração dos conhecimentos, e mais notadamente no ensino médio, pode-se pretender dispensar conhecimentos disciplinares sem preocupar-se com sua integração em competências ou com seu investimento em práticas sociais (...). Existe uma tentação, na formação geral, de trabalhar separadamente capacidades descontextualizadas, definidas em um elevado nível de abstração: saber comunicar, raciocinar, argumentar, negociar, organizar, aprender, procurar informações, conduzir uma observação, construir uma estratégia, tomar ou justificar uma decisão (...). Perrenoud conclui: se a abordagem por competências não passar de uma linguagem da moda, ela modificará apenas os textos e será rapidamente esquecida. Se sua ambução for a transformação das práticas, passará a ser uma reforma do terceiro tipo, que não pode economizar um debate sobre o sentido e as finalidades da escola e, tampouco, instalar-se em um profundo divórcio entre aquilo que os professores pensam e aquilo que o sistema espera dela. Construir competências desde a da escola requer “paciência e longo tempo”.