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10 de agosto de 2015

Sarcófago cristão.

Sarcófago cristão, com o labarum esculpido no painel central.
A partir de Constantino este símbolo cristão se popularizou,

14 de agosto de 2014

Aula de história: um relato.


Carlos Néri

Na minha mente eu tinha tudo planejado. A grande mudança conceitual, uma profunda transformação ocorre no mundo, especificamente na Europa, século V depois de Cristo, mais precisamente em 476 d.c, o império romano começa a ruir.

A intenção era lançar um olhar sobre esse momento, ou seja, a entrada da Europa no mundo medieval, a chamada "idade das trevas".

Bom! como nós seres humanos somos a única espécie da criação capaz de abstrair, dar forma e concretizar o abstrato na prática, comecei montar a aula. Primeira coisa: um mapa da extensão do império, é óbvio, dai a apresentação dos povos germânicos Bárbaros, a formação de um sistema feudal, a estrutura social medieval e suas características peculiares, o poder da igreja, a santa inquisição, a criação das universidades, o renascimento comercial, a reforma protestante, a mudança conceitual que ocorre na Europa com a reforma, a burguesia comercial, as grandes navegações, o descobrimento, o olhar dos Europeus sobre os nativos, ufa... chega!

Enfim, tudo feito em slides e apresentado em uma tv enorme e digital. Na aula seguinte preferi retornar ao meu método tradicional, reduzi todo esse conteúdo apresentado em slides em organogramas e passei na lousa, Ai começou o drama.

- Como vocês conseguem escrever e conversar ao mesmo tempo, não entendo.

Retornei para a lousa, começou a conversa de novo.

- Escutem! a grande dificuldade que vocês possuem para ler, interpretar e apresentar está no fato de que vocês foram condicionados a simplesmente copiar da lousa, isso começou lá na 5ª série onde o professor, para não ter um acesso de raiva ou um enfarto, enche a lousa para conseguir fazer a chamada, e assim vocês vieram até aqui, copiando sem ler, somente copiando.

Retornei para lousa, começou as conversas, as rizadinhas, então voltei -me para eles mais uma vez.

-Olha! se eu der um excerto de um texto a vocês e pedir para ler, vocês travarão e não vão conseguir ler, e por que? porque muitos de vocês tem consciência que possuem dificuldade para ler, e olha que vocês são 2ª ano médio, explicar então, ai piora, porque vocês somente reconhecem letras e sons, então, prestem atenção, leiam o que está sendo escrito, logo, logo termino e ai vocês ficam de boa.

Adivinhem! não preciso nem falar, né. Começou a conversa de novo.

Ao terminar o organograma, fiz uma linha do tempo que se iniciava no século V d.c e ia até o século XVI e perguntei:

-Por que no 2ª ano ano médio os materiais didáticos que recebemos nos instrui a iniciar nosso estudos nesse período histórico, ou seja, o século V d.c?

Ninguém respondeu, silêncio total. 

Ok! vou mudar a pergunta:

- Qual o grande fato histórico que marca a passagem do mundo antigo para o mundo medieval no século V?

Todos olhavam para mim, mas não falavam nada, nada. Aquela massa de alunos, aproximadamente 30 na verdade, simplesmente olhavam, até que um aluno bem na minha frente disse bem baixinho, quase sem voz, tipo um Neville Logbotom diante de um Severo Snape: - o fim do império romano.

Ouvi a resposta, dei sinal de positivo, mas queria ouvir todos, queria participação, mas eles simplesmente olhavam.

-Mais uma vez, porque o século V d.c marca a passagem do mundo antigo para o mundo medieval? eu mostrei no mapa semana passada, bem grande, o primeiro mapa que iniciei a aula.

Ninguém respondeu. A professora de apoio aos alunos com deficiência auditiva esboçou um gesto de admiração misturado com indignação. Ninguém sabia responder, ninguém sabia nada. Passou um filme na minha mente, nesse momento, esse filme é o começo desse texto onde eu tinha planejado tudo, eu parecia ser um ser distante, a lousa algo mais distante ainda e desinteressante, sem valor.

Mesmo se eu estivesse vestido de Nero, Pompeu, Julio César, Alexandre, rei Leônidas ou mesmo de Volverine ou a Coisa, mesmo assim nada disso os chamaria atenção, a apatia era tão intensa que eu me senti incapaz de romper essa barreira, pensei até em exorcismo, reza forte daquelas antigas, pensei em tudo, mais não me vinha nada viável para estimular aqueles jovens, muitos cansados por causa da escravidão do trabalho, e que possuíam energia, força, vitalidade, alegria, entusiasmo, para conversar entre si, entre seus pares, trocar SMS a todo momento, acessar o watsapp, facebook, e principalmente falar sobre meninos bonitos, o futebol no final de semana, o chefe chato da empresa, o encontro para fumar um verde depois da aula, os parceiros que estão presos, aquela mina folgada, um encontro com o namorado, e tantas outras infinitas coisas.

Me indignei, disse a todos que eu me recusaria dar aulas para grupos de pessoas que não enxergam valor nenhum no que está sendo ensinado, e sai da sala as 19:30, só voltei para fazer a chamada.

Relatei o ocorrido com alguns professores, todos me apoiaram, o meu relato é o mesmo de todos, sem excesão, ou seja, estamos fazendo verdadeiros monólogos na sala de aula, nós aprendemos mais do que os alunos que precisamos formar, não há respostas aos estímulos que lançamos todos os dias para eles, são amorfos, distantes, a escola é uma obrigação e não um prazer.

Talvez se tivéssemos em nossas salas de aula telões digitais como aqueles usados no jornal da globo e no globo esporte, talvez conseguíssemos colher frutos melhores, está claro e evidente que os olhos dos jovens estão totalmente voltados e imersos na tecnologia e o mundo fora disso é muito chato, um professor falando, demonstrando, diante de uma lousa medieval é mais chato ainda, um kit multimídia com qualidade de imagem e som ajuda, mas não é suficiente.

Bom! Estou escrevendo esse texto, hoje pela manhã porque não fui para a escola, ontem me desgastei muito e enfrentar essa realidade pela manhã não seria saudável, então só pela noite, e assumo as faltas.

9 de abril de 2014

Uma análise dos últimos 20 anos de evangelicalismo no Brasil.

Você é um filho da "geração que dançou"? - uma análise.
Livan Chiroma
Prometiam uma “Nova Unção”. Há cerca de 20 anos o campo religioso evangélico brasileiro estava praticamente estático. O costumeiro declínio numérico das igrejas históricas e o crescimento quantitativo das igrejas neopentecostais, ambos inevitavelmente demonstrado nas estatísticas.
Era inicio dos anos 2000 e os movimentos do tabuleiro evangélico dos próximos anos já pareciam definidos: Caio Fabio, fundador da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) havia se retirado do Brasil. Durante muito tempo ele foi o opositor ideológico da IURD (1977). A Associação foi soerguida para criar polaridade às organizações neopentecostais, que ganhavam poder político e econômico e inseriam a Teologia da Prosperidade nas igrejas brasileiras. No entanto, Caio foi acusado de envolvimento com o “Dossiê Cayman”, além de cometer o “pecado abominável número 1″ dos evangélicos, o pecado moral de um relacionamento extra conjugal. Foi execrado pela opinião pública evangélista. A AEVB se fragmentou. Isto aconteceu em 1998.
No início dos anos 2000, na mesma Igreja Batista que catapultou o cisma na Convenção Batista Brasileira (CBB) (nascendo a Convenção Batista Nacional – 1965), emergiu uma “nova unção” para o Brasil. Márcio Valadão, pastor da Igreja Batista Lagoinha, havia enviado seus filhos para uma temporada no instituto Christ For The Nation, Ana e André foram treinados teologicamente como avivalistas e no movimento da “Chuva Serodia”. O movimento carismático Later Rain afirmava que a geração contemporânea seria uma “geração escolhida”, portanto receberia uma “chuva fora do tempo”. Chuva de bençãos, de prosperidade e do avivamento.
Aos que viveram o protestantismo nos anos de 1990, só o advento do grupo Vencedores Por Cristo havia provocado tamanha onda transformadora cultural, sobretudo na área musical. O VPC rompeu barreiras musicais, inserindo o rock e ritmos brasileiros no protestantismo evangélico e apresentou às igrejas brasileiras um louvor congregacional destoante dos hinos do séc XVI-XIX até então padrão na maioria dos cultos evangélicos. Mas isso foi nos anos 70. Como o retorno de Ana Paula Valadão ao Brasil, a cantora e filha do pastor principal da Igreja da Lagoinha passa a liderar os momentos musicais junto à uma das bandas que conduziam adoração nos cultos da Igreja Batista da Lagoinha. Conforme seu relato, tem uma visão: durante um banho, envolta à água e as espumas do chuveiro, antevê, em sua profecia particular, que  o Brasil seria banhado por uma onda de despertamento espiritual. Este evento fundante alavanca a gravação do primeiro CD da banda, que até então era simplesmente um grupo que entre outros que ministravam os momentos litúrgicos nos cultos da IBL.  Produzido e masterizado no exterior por Randy Adams, o CD explodiu em vendas. A escolha de Adams foi certeira e trouxe um padrão sonoro e de masterização de alta qualidade dificilmente encontrada nas produções evangélicas nacionais. A compra dos direitos da canção “Shout to the Lord“, composta por Darlene Zschech, líder do ministério cristão australiano“HillSong” impulsionou a fama do grupo. “Shout to the Lord” era um sucesso garantido e o grupo “Diante do Trono”, já em seu primeira investida fonográfica, alcança destaque nacional.
Liderado por Ana, o grupo “Diante do Trono”, vendeu mais de 10 milhões de CDs e, concomitante à atuação fonográfica, impulsionou diversas novas linhas teológicas e eclesiologias pelo Brasil. Este ministério evangélico não só foi o maior catalisador musical do movimento gospel durante os anos 2000 como protagonizou uma segunda onda cultural na música cristã evangélica brasileira. Os protestantes históricos, urbanos e pós modernos, não vivenciavam outros horizontes litúrgicos por décadas. Agora seria diferente. As igrejas pentecostais e históricas estavam culturalmente estáticas, sem grandes alterações morfológicas e gramaticais e, apesar de certas tentativas para alterar o desenho das igrejas protestantes como a “Igreja com propósito”, “Rede Ministerial”, estes sistemas eclesiásticos soavam, para a maioria do grande público, gerenciais e americanizadas demais – tais fiéis históricos tinham um novo paradigma – a “nova unção”, operando principalmente através da música gospel e o sistema de igreja em células, que disciplinava os membro das igrejas à “ganhar, consolidar, treinar e enviar”.
Na carona do DT veio o G12 – sistema de células – criado 10 anos antes, em Bogotá. No inicio da década passada foi uma enxurrada de pastores históricos e pentecostais aderindo ao sistema, nem sempre com respeito à suas denominações e membresias. Os crentes tradicionais ficaram confusos. O que estaria acontecendo quase que “do dia pra noite”?
Em dez anos o deslocamento cultural foi efetivado – os antigos grupos musical das igrejas locais protestantes realizaram uma repaginação estética e estrutural/teológica. Igrejas perdiam membros e o solo se moveu de maneira sem precedentes, uma verdadeira hemorragia e circulação dos membros, em direção às igrejas “avivadas”. Ouvi-se sobre “a igreja onde as pessoas caem no chão, em êxtase” (fenômeno “reciclado” dos anos de 1960. Porém o fenômeno, que em um período anterior, era experimentado em esfera privada, discretamente, a partir de sua versão contemporânea, era exposto midiaticamente pelos famosos artistas gospeis durante suas apresentações, virou “hit”). Em um Brasil pós ditadura militar e com o amadurecimento do neoliberalismo, cuja transversalidade influenciava outros setores estruturantes para além da economia, os sujeitos agora podiam operar suas próprias escolhas. A liberdade religiosa possibilitou o intenso trânsito das saberes do sagrado – sair de suas denominações familiares para outras (ou até, migrar para outras religiões não herdadas), mais modernas e conveniente, não era mais considerado como tabu ou afronta à religião dos pais.
Nesta onda surgiram novos grupos, novas teologias, novas “moveres”. Toneladas de novas bandas e pastores midiáticos. Também neste movimento o líder de adoração foi elevado ao status de um pastor. Considerados “levitas” que podiam “ministrar” ou seja, antecediam casa canção com uma pequena pregação. Antes o estreitamento com as escrituras era condicionado ao Pastor protestante (Para o pós moderno a experiência proporcionado pela arte e pelos sons pode ser mais interessante que ouvir um sermão explicativo da bíblia ou frequentar um classe de catequização – a catarse emocional como elemento de transcendência, que era comum ao pentecostal desde o início do século XX, penetrava o culto do protestante histórico, em uma espécie de “pentecostalização tardia”, o êxtase tornava-se também régua na mensuração da espiritualidade do protestante comum/histórico). A experiência emocional cúltica definitivamente tornou-se sobrepujante à reflexão racional.  O que os crentes assistiam no DVD ou no show gospel precisava ser repetido em suas igrejas locais e nem sempre a cultura eclesiástica  local suportava tamanha e rápidas mudanças de paradigmas. Hoje praticamente todas as denominações não católicas, tem em seus repertórios, ao menos rabiscos desta Cultura Gospel, tornando-se quase dominante à todos os viéses evangélicos.
Dificilmente alguém, sendo evangélico nos anos 2000, não ter ouvido sobre os grupos musicais Filhos do Homem, Casa de Davi, Santa Geração, Vineyard, David Quilan, Ludmila Ferber e muitos outros. Nesta mesma época muitos acessaram novos arsenais espirituais para eu cardápio: Vigílias no Monte, “mantras gospel”, unção com óleo, cânticos espontâneos, shofares (uma espécie de “berrante”), batalha espiritual, demônios territoriais, etc; anteriormente esses elementos eram observadas em redutos específicos, a partir desta virada, popularizaram-se e, em muitos casos, tornaram-se fundamentais na experiência comunitária do culto cristão. Falava-se em uma “judaização do cristianismo brasileiro”.
Costumes como “cair na unção”, atos proféticos, ser “pai de multidões”, surgiram no léxico do campo religioso protestante. Uma interpolação do antigo e novo testamento. Era um movimento tectônico poderoso de carga simbólica intensa. Para se entregar ao “novo mover”, os crentes precisavam transformar suas próprias biografias religiosas. A entrega ao “irracional”, ao “sobrenatural” era necessária e muitos “históricos” (batistas, presbiterianos, metodistas, …) “desde o berço”, através da inserção de suas comunidade aos novos vetores, realizavam estas metamorfoses ou, pelo menos, simulavam.  Era preciso para “estar na visão”, embora muitos “lá no fundo” relutavam em entrar na onda,  no entanto, com a adesão de suas igrejas e pastores ao neo carismatismo protestante, abdicaram da teologia conservadora, do estudo da bíblia como padrão de fé e confiaram suas pertenças religiosas à estas “novas visões”, principalmente adquiridas em congresso, CDs e literaturas que se espalhavam pelo Brasil.
Muitos se decepcionaram com estas promessas. Milhares, talvez milhões. Nesta movimentação, diversas comunidade resistiram à tentação do crescimento rápido, da evangelização fast food, propostas pelas novas técnicas. Muita gente bem intencionada, pastores e lideres mais conservadores, equilibrados, souberam realizar esta transição cultural com respeito. Outros não. Muitos dos quais decidiram fechar os olhos e lançarem-se aos novos movimentos, forçados pela pressão de grupos à “falarem em línguas”, ser “líder de multidões”, etc; hoje, após o desgaste dentro destes movimentos, optaram pelo desligamento, junto a muitos de seus membros. Recentemente ouvimos falar sobre os desigrejados, evangélico sem igreja, aumento do número daqueles desafeitos às lógicas evangélicas. Também, pessoas com sérios problemas psicológicos propiciados por abusos de pastores e lideres gananciosos. A lista é grande…
Há de se discernir o “joio e o trigo”. Algumas comunidades “decantaram” todo o movimento, assimilaram coisas e descartaram excessos. Além disso a onda diminuiu e formarem-se algumas ilhas, regiões do “avivamento”, como Belo Horizonte (sede do ministério Diante do Trono) e Manaus (“capital” do G12, sede do ministério de Renê “TerraNova”). Também as igrejas afins formaram redes e alianças, mais fios e traços dentro do complexo mapa religioso brasileiro. Concluo sugerindo que a geração que dança está passando, os jovens e adolescentes à época, tornaram-se adultos, com maior senso crítico e de avaliação de significados. Ainda não há sinais de uma nova onda tão significativa, ou então, tornou-se a grande onda fracionada em diversas outras vagas?
E 10 anos depois? Como estão os filhos da “Geração que dança”?

15 de março de 2014

A invenção da juventude.

Livan Chiroma
Houve um tempo em que não existiam jovens. Existiam, evidentemente, pessoas na faixa dos 15 aos 30 anos de idade, mas elas não se viam como um grupo que compartilhava valores, códigos de conduta, vestimentas ou dialetos diferentes do restante da sociedade. Nesse tempo, que se estendeu até o final da Segunda Guerra Mundial, a infância era mais longa, interrompida por uma brusca entrada na vida adulta. As meninas eram meninas – ou seja, brincavam de bonecas – até os quinze anos, quando debutavam e começavam a espera, por vezes exasperadora, do pretendente com o qual se casariam. As filhas de famílias de classe média iam cursar a Escola Normal, onde aprimoravam seus dotes de futuras esposas e mães. Os garotos tinham infância um pouco mais longa: os folguedos podiam durar até os dezessete anos, quando a necessidade os empurrava para a rua, para aprenderem uma profissão e ajudar no sustento da casa. Aos mais ricos, que ingressavam nas faculdades, era permitido adiar um pouco mais a entrada no mundo do trabalho.
Essa etapa entre a infância e a adultice – a espera matrimonial das moças, a formação profissional dos rapazes – não era uma “juventude” no sentido que uso aqui, isto é, uma fase diferenciada da vida, durante a qual se compartilha valores, condutas, modas etc., diferentes dos adultos e crianças. O que todos queriam era abreviar, e não prolongar essa fase. Não havia qualquer prazer em ser jovem. A inexperiência era um martírio, motivo de escárnio para os mais velhos. Nos anos 1900, na Bolsa de Café de São Paulo, por exemplo, ridicularizava-se os rapazes que não exibissem vastos bigodes, símbolo de virilidade na Belle Époque. O que os moços e moças mais desejavam era serem valorizados e respeitados, o que só ocorreria com casamento, filhos, experiência profissional e diploma. Os jovens se preparavam arduamente para serem aceitos no mundo dos adultos, e nisso se resumia a juventude.
Tudo isso mudou no pós-guerra. Nos países ricos e, entre nós, nas famílias de classe média e alta das grandes cidades, surgiram condutas, modas, músicas, enfim, um universo de referências culturais identificadas à juventude. Nos Estados Unidos, graças à prosperidade econômica e ao costume dos empregos temporários, os jovens passaram a dispor de mais dinheiro, o que se traduziu na formação de nichos de consumo específicos para essa faixa etária. O nascimento dorock and roll, entre 1951 e 1952, exemplifica bem esse novo comportamento. Naqueles anos, garotos e garotas começaram a sintonizar rádios independentes de rythm and blues negro, a comprar discos desse gênero e a dançá-los, utilizando-se das coreografias do boogie woogie. Artistas como Fats Domino, Chuck Berry e Little Richard logo perceberam que o ritmo e o hedonismo da música negra era o que mais agradava os jovens. Por intermédio de pequenas gravadoras, lançaram composições que fundiam o rythm and blues ao country. Esse novo estilo, batizado de rock and roll, tornou-se um estrondoso sucesso e pegou de surpresa a grande indústria fonográfica. Pela primeira vez, os adolescentes ouviam um tipo de música diferente do que os seus pais gostavam.
Junto com a música, vieram o cinema e a moda. Hollywood logo percebeu que a juventude era um novo filão de consumo, e Juventude Transviada estreou em 1955, com James Dean interpretando Jim Stark, um rebelde agressivo que esbanjava charme e apelo sexual. Marlon Brando, em O Selvagem, lançado no mesmo ano, viveu um jovem líder de uma gangue de motociclistas, vestindo camiseta justa e jaqueta de couro. Dean e Brando tornaram-se os modelos daquela geração: o comportamento rebelde, agressivo e sensual de seus personagens era imitado pelos garotos e arrancava suspiros das moças. Nessa época, formaram-se violentas gangues de jovens em quase todas as grandes cidades do mundo, montados em motonetas scooters e trajando a moda rockabilly: camisetas, jaquetas de couro, calças jeans, costeletas e longos topetes.
Inventava-se, assim, a juventude, identificada pelo comportamento transgressor, pela gíria, pela vestimenta, pela música. Os adolescentes, em qualquer cultura e época, constroem suas identidades ao rejeitar a condição de crianças e romper, às vezes intempestivamente, os vínculos que os mantêm unidos aos pais. A novidade histórica dos anos do pós-guerra foi associar, a essa atitude essencialmente juvenil, dois ingredientes: a idéia de liberdade individual e o consumo. A relação entre esses elementos foi dialética, como diriam os hegelianos e marxistas. A idéia de liberdade como livre arbítrio, herdada das Luzes e fundamental para a concepção ocidental de democracia, foi transformada pelos jovens rebeldes em liberdade para escolher ser diferente dos pais, professores, padres, ou seja, dos adultos. Isso implicava no consumo de bens – músicas, roupas, adereços, filmes, drogas – capazes de defini-los como membros de um grupo que lhes emprestava identidade e, portanto, reforçava a sensação de liberdade.
Hoje, uma das idéias centrais de nossa cultura é a obsessão pela juventude. A infância foi encurtada, pois meninos e meninas querem deixar de ser crianças cada vez mais cedo. A adultice é cada vez mais postergada, pois os adultos relutam em assumi-la e querem permanecer jovens por mais tempo. Se, antes, a juventude era apenas mais um nicho de consumo, hoje se tornou o eixo quase único a orientar a produção da música, moda, cinema e outros.
Fonte: Poliscentro.com

13 de novembro de 2010

Os Afro-descendentes e o “trabalho livre”

Por Job. Nascimento

O acesso do negro ao ensino superior no Brasil está intimamente ligado ao histórico de sua inserção no mercado de trabalho. Na concepção “liberal” do mercado de trabalho, o negro aos poucos foi sendo excluído devido à expansão dos negócios ingleses que influenciaram os fazendeiros brasileiros a desistirem da escravidão. 

A abolição da escravidão iniciou-se com a mudança paradigmática do conceito de “trabalhador”. A lei Áurea de 13 de Maio de 1888 serviu como modelo de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, e também para conter as fugas de escravos que estavam ficando incontroláveis. O trabalho escravo não educava o negro, pelo contrário, degradava-o, e isso se refletiu posteriormente nas oportunidades de trabalho “livre”. 

Com a influência do pensamento “liberal” inglês que repudiava a exploração do negro e a abolição da escravidão, quem iria suprir a carência de mão-de-obra? – Os imigrantes. Alicerçada no decreto de Dom João VI (1808) que permitiu a entrada e concessão de terras à imigrantes não portugueses no Brasil, a entrada de imigrantes no Brasil cresce assustadoramente. 

Em 1850 entram no país 117.000 imigrantes; em 1880 mais de 527.000, e em 1890 1.200.000 imigrantes. Essa mão-de-obra era aproveitada no assalariamento ou empreitada, e em alguns casos se coadunava com o trabalho escravo. Em detrimento desse aumento de imigrantes (maioria europeus), havia um embargo à entrada de imigrantes negros e asiáticos. 

Em São Paulo os negros libertos encontraram mais dificuldades de se inserir de modo igual no seio da sociedade burguesa do que em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Por outro lado, na década de 40 os imigrantes europeus representavam uma parcela significativa da sociedade brasileira. Essa dificuldade do “liberto” em São Paulo ocorreu devido ao fator econômico da cidade, que foi se “aburguesando” e os imigrantes tinham acesso às melhores oportunidades de trabalho. Até nas atividades mais modestas (engraxar sapatos, vender jornais e verduras) o negro tinha desvantagem. 

O negro que tinha sido vítima do trabalho escravo agora se vê diante da dor da “desigualdade de oportunidades”. Nesta mistura entre modernidade e conservadorismo, a sociedade brasileira optou pela segunda opção. Essa nova ordem da burguesia não amenizou a opressão ao negro. O discurso de modernização, progresso e trabalho livre chega ao Brasil através da boca da elite dominante que pregou-o como uma forma de manter a desigualdade econômica e discriminação social.

P.S. Esse texto foi produzido mediante leitura de outro texto de tema parecido que não trazia o nome de seu autor.

15 de outubro de 2010

Chapeuzinho Vermelho (?)

Por Robert Darnton

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou se e perguntou lhe para onde se dirigia.

-Para a casa de vovó ela respondeu.
-Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
-O das agulhas.

Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou pri¬meiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.

Pam, pam.

-Entre, querida.
-Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
-Sirva se também de alguma coisa, minha querida. Há carne o vinho na copa. A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: "menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!"

Então, o lobo disse:

-Tire a roupa e deite se na cama comigo.
-Onde ponho meu avental?
-Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

Para cada peça de roupa corpete, saia, anágua e meias a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:

-Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.

Quando a menina se deitou na cama, disse:

-Ah, vovó! Como você é peluda!
-É para me manter mais aquecida, querida.
-Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
-É para carregar melhor a lenha, querida.
-Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
-É para me coçar melhor, querida.
- Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
- É para comer melhor você, querida.

E ele a devorou.

P.S. Você conhecia essa história de outro modo não é?

DARNTON, Robert. O Grande Massacre de gatos. Pág. 21. São Paulo: Graal, 1996.

1 de agosto de 2010

Quem precisa do Édipo?

Por Christian Dunker

Quem acompanha o cinema adolescente encontra reedições de narrativas mitológicas tais como Percy Jackson e Fúria de Titãs. Enquanto o mundo dos adultos sofre com a redução de grandes narrativas no amor ou no trabalho e com a crescente interpretação do desejo segundo uma lógica de encontros intensificados pela fugacidade, o mundo das crianças prospera à base de epopeias como Naruto e Pokemón. A mitologia grega é um intrincado labirinto de histórias que se cruzam retomando personagens e cenários que constroem pacientemente um sentido que se alterna entre a força dos personagens e a intensidade da situação. Que Naruto, a raposa de nove caudas, seja depositário de um gênio maligno para o qual ele deve encontrar um destino, e que os desafios que ele encontra sejam monótonos em estrutura e forma, isso acusaria o gosto infantil pela repetição da mesma história ampliada por extensões minimalistas. Tal como um dos grandes romances realistas, é preciso mostrar, diante de um mundo demasiadamente complexo e indeterminado, que ele no fundo se compõe de variedades combinadas do mesmo. Diante dele, ingenuidade e esperteza invertem-se constantemente em astúcia dialética.

Édipo fora do lugar?

Comparando a exiguidade narrativa do adulto, que não consegue passar de cinco ou seis temporadas sem que o argumento de seus seriados se esgote, com a proliferação de milhares de páginas medievais envolvendo lobos vampirizados, bruxos aprendizes e anéis mágicos, uma história básica como a de Édipo estaria fora de lugar ou tão demasiadamente no lugar quanto um vestido de tubinho preto. Não é nem extensa o suficiente para nos levar à letargia da promessa adiada, nem é breve e compacta como o que precisamos para este solve problem quizz que se tornou nossa vida prática administrada. Não é nem drama nem aventura, não ganha nem por pontos nem por nocaute. Fica no empate técnico ou na mistura indefinida de estilo devorado pelo gênero.

As implicações que Freud teria tirado dessa história, para falar da universalidade trágica do ser humano, parecem cada vez mais datadas e expressões particulares mal-intencionadas. A soberania de um tipo de família paranoica, dirá Deleuze; uma forma de neutralizar a sexualidade no registro da herança, dirá Foucault; uma maneira de justificar o pensamento colonial, masculino e heterossexual, ponto. Muitos psicanalistas têm defendido a aposentadoria gradual e compulsória das ideias edipianas: uma verdade a ser descoberta, a decifração do sentido, o primado da autoridade do pai e da inviolabilidade da mãe, a relevância dos laços verticais de identificação, a aspiração de universalidade do desejo em confronto com a lei.

Édipo seria uma figura passadiça. Obcecado com seu passado de fugitivo matador de esfinges, excessivamente identificado com seu papel social de tirano, potencialmente culpado ou suspeito de crimes que não sabia ter cometido. Os herdeiros de Lacan, conhecido pela operação de salvamento estrutural do Édipo (importada de Lévi-Strauss), estão divididos entre os que acreditam que as estruturas antropológicas como o Édipo ainda nos servem e os que consideram isso coisa do passado.

O que importa agora são sistemas, ordens ou processos, quiçá fluxos, não histórias, narrativas ou estruturas. Cada época tem o Édipo que merece e inversamente cada Édipo tem a época que consegue criar para si. Édipo é o protótipo do herói, ou seja, aquele que consegue compreen-der em si as contradições de seu tempo. Ele pode ser elevado e sublime como o Édipo hegeliano ou degradado e demasiadamente humano como o Édipo freudiano, isso não é tão relevante quanto o fato de que ele é um herói, e que as formas e fontes de seu conflito têm se demonstrado, até agora, renováveis.

Isso significa que ele é candidato natural a ocupar a posição-chave de intermediário e articulador entre a grande narrativa infantil e repetitiva e o conto curto e funcional da narrativa adulta e errática. Há Édipo desde que há literatura, e até mesmo antes dela, se considerarmos que a codificação, tanto pelo gênero épico de Homero e Hesíodo quanto pelas tragédias, apreen-de a tradição oral e mítica que lhe antecedeu. A questão não é saber se aquele herói vive ou morre em nossos dias, mas qual seria seu substituto. Nem mesmo Nietzsche imaginou um tempo sem heróis. Frente ao consumo tóxico de sentidos extensos e intensos, quero crer que Édipo ainda tem direito a candidatar-se como solução de sustentabilidade.

Caráter contingente

O que temos de deixar para trás é esta crença n’o Édipo, ou seja, aquilo que Ordep Serra (O Reinado de Édipo, UnB-Universa) chamou de o mito do mito de Édipo. Bem longe do relativismo desconstrutivista, devemos insistir no caráter contingente de “nosso Édipo”. Poucos se lembram que existiu um Édipo de Ésquilo e outro de Eurípedes, ambos perdidos. Especula-se que nesses Édipos Jocasta seria a personagem central, controlando perfidamente os cordões da armadilha que levaria à lúbrica experiência de poder e dominação sobre seu filho incauto e ingênuo.

Édipo foi recodificado pelos cristãos em duas vertentes. Na primeira, ele é encenado por Judas Iscariotes, em uma novela de parricídio protagonizada pelo grande criminoso. Na segunda, ele é transfigurado no papa Gregório e nesse caso não há parricídio, mas incesto sugerido que termina com nosso herói feito mártir ou santo. Soterramos que Édipo foi reescrito e humanizado por Voltaire, colocado em oposição estrutural ao Parsifal por Wagner, citado em Hamlet, parafraseado em Crime e Castigo. Isso sem falar nos Édipos sem nome, ou seja, nas versões do mito que não se referem a nenhum aspecto da narrativa, senão em sua repetição homóloga e estrutural à tragédia grega, ou ainda ao fato de que Édipo Rei é uma das peças de uma trilogia de Sófocles, continuada em Édipo em Colona e em Antígona.

Um ótimo exemplo de como podemos brincar de criar nosso próprio Édipo, sem que isso represente apenas confirmação de nossos próprios preconceitos, é a peça de Antonio Quinet Óidipous Filho de Laios – a História de Édipo pelo Avesso [em cartaz no Teatro Fábrica, em São Paulo], na qual encontramos nosso protagonista vestindo terno e debatendo-se em ataques de cólera contra Creonte, Tirésias, Jocasta e os escravos, que trajam vestimentas indígenas do Xingu. Uma catarse para nossa época, de um lado a profusão narcísica da potência em fazer o próprio destino; de outro o choque traumático do real, sem nome, sem máscara, sem imagem.

Eis a mistura tão conhecida entre a rapidez narrativa do executivo e a extensão épica da criança; a combinação entre o soberano arrogante e a queda brusca na humilhação; a desmesura do gozo e a desorientação do desejo. Não apenas um herói fraturado, ou seja, um herói cuja excepcionalidade está em portar aquilo que não pode ser reconhecido por sua época, mas a expressão da dificuldade para localizar heróis que sobrevivam aos seus atos. Os de sempre, adultos ou infantis, os há por toda parte, mas o excesso nesse caso, como em outros, aponta apenas para a falta. Édipo nunca foi, nem mesmo para a psicanálise, apenas uma história de amor pela mãe e de hostilidade pelo pai. Essa redução testemunha nossa redução paródica de todo e qualquer personagem que se queira apresentar como herói. Ficamos sem alternativa.

Aquele que se apresenta como tal estará identificado demasiadamente ao seu lugar social, o que é o protótipo de nosso anti-herói. Aquele que não o faz – ou seja, que não é consequente com sua posição – terá seu ato julgado no quadro do cinismo e recairá, portanto, no anti-herói da eficácia instrumental. Reunindo os dois casos, temos o depressivo como anti-herói e, por inversão, o maníaco como pseudo-herói, mas onde está o verdadeiro herói? Se é que precisamos de um, ainda voto no pai de Antígona, filho de Laios.

Fonte: Revista CULT, 148.

25 de julho de 2010

Constituições Brasileiras

 1. 1824

Outorgada (tornada pública) pelo imperador D. Pedro I. Fortaleceu o poder pessoal do imperador com a criação do quarto poder (moderador), que permitia ao soberano intervir, com funções fiscalizadoras, em assuntos próprios dos poderes Legislativo e Judiciário. Províncias passam a ser governadas por presidentes nomeados pelo imperador. Estabeleceu eleições indiretas e censitárias (homens livres, proprietários e condicionados ao seu nível de renda).

2. 1891

Promulgada pelo Congresso Constitucional , elegeu indiretamente para a Presidência da República o marechal Deodoro da Fonseca. Instituiu o presidencialismo, eleições diretas para a Câmara e o Senado e mandato presidencial de quatro anos. Estabeleceu o voto universal, não-obrigatório e não-secreto; ficavam excluídos das eleições os menores de 21 anos, as mulheres, os analfabetos, os soldados e os religiosos.

3. 1934

Promulgada pela Assembléia Constituinte no primeiro governo de Getúlio Vargas. Instituiu a obrigatoriedade do voto e tornou-o secreto; ampliou o direito de voto para mulheres e cidadãos de no mínimo 18 anos de idade. Continuaram fora do jogo democrático os analfabetos, os soldados e os religiosos. Para dar maior confiabilidade aos pleitos, foi criada a Justiça Eleitoral. Instituiu o salário mínimo, a jornada de trabalho de oito horas, o repouso semanal e as férias anuais remunerados e a indenização por dispensa sem justa causa. Sindicatos e associações profissionais passaram a ser reconhecidos, com o direito de funcionar autonomamente.

4. 1937

Outorgada (concedida) no governo Getúlio Vargas. Instituiu o regime ditatorial do Estado Novo: a pena de morte, a suspensão de imunidades parlamentares, a prisão e o exílio de opositores. Suprimiu a liberdade partidária e extinguiu a independência dos poderes e a autonomia federativa. Governadores e prefeitos passaram a ser nomeados pelo presidente, cuja eleição também seria indireta. Vargas, porém, permaneceu no poder, sem aprovação de sua continuidade, até 1945.

5. 1946

Promulgada no governo de Eurico Gaspar Dutra, após o período do Estado Novo, restabeleceu os direitos individuais e extinguiu a censura e a pena de morte. Instituiu eleições diretas para presidente da República, com mandato de cinco anos. Restabeleceu o direito de greve e o direito à estabilidade de emprego após 10 anos de serviço. Retomou a independência dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e a autonomia dos estados e municípios. Retomou o direito de voto obrigatório e universal, sendo excluídos os menores de 18 anos, os analfabetos, os soldados e os religiosos.

6. 1988

Retomada do pleno estado de direito democrático após o período militar. Ampliação e fortalecimento das garantias dos direitos individuais e das liberdades públicas. Retomada do regime representativo, presidencialista e federativo. Destaque para a defesa do meio ambiente e do patrimônio cultural da nação. Garantia do direito de voto aos analfabetos e aos maiores de 16 anos (opcional) em eleições livres e diretas, para todos os níveis, com voto universal, secreto e obrigatório.

Reformas Constitucionais

1961 Adoção do parlamentarismo.
1963 Volta ao presidencialismo.
1964-1967 Com o golpe de Estado e até 1967, são decretados quatro atos institucionais que permitem ao governo legislar sobre qualquer assunto. É instituída, entre outras coisas, a Lei de Greve e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS); decretam-se o fim da estabilidade no emprego, as eleições indiretas para presidente da República e governadores de estados. O Poder Judiciário torna-se mais dependente do Executivo. São extintos os partidos políticos e é criado o bipartidarismo.

1967 Uma Carta constitucional institucionaliza o regime militar de 1964. Mantêm-se os atos institucionais promulgados entre 1964 e 1967. Fica restringida a autonomia dos estados. O presidente da República pode expedir decretos-leis sobre segurança nacional e assuntos financeiros sem submetê-los previamente à apreciação do Congresso. As eleições presidenciais permanecem indiretas, com voto descoberto.

1968 Ato Institucional nº.5 Suspensão da Constituição. Poderes absolutos do presidente: fechar o Congresso, legislar sem impedimento, reabrir cassações, demissões e demais punições sumários, sem possibilidade de apreciação judicial.

1969 Nova emenda constitucional, que passou a ser chamada de Constituição de 1969. Foi promulgada pelo general Emílio Garrastazu Médici (escolhido para presidente da República por oficiais de altas patentes das três Armas e com ratificação pelo Congresso Nacional, convocado somente para aceitar as decisões do Alto Comando militar). Incorporou o Ato Institucional nº. 5. Mandava punir a todos que ofendessem a Lei de Segurança Nacional. Extinguiu a inviolabilidade dos mandatos dos parlamentares e instituiu a censura aos seus pronunciamentos. Suspendeu a eleição direta para governadores, marcada para o ano seguinte.

1979 Reforma da Constituição de 1969, em que é revogado o AI-5 e outros atos que conflitavam com o texto constitucional. Quanto às medidas de emergência, o presidente poderia determiná-las, dependendo apenas da consulta a um conselho constitucional, composto pelo presidente da República, pelo vice-presidente, pelos presidentes do Senado e da Câmara, pelo ministro da Justiça e por um ministro representando as Forças Armadas. O estado de sítio só poderia ser decretado com a aprovação do Congresso.

Fonte:
1. Montellato, Andrea; Cabrini, Conceição; Casteli Junior, Roberto - História Temática: O Mundo dos Cidadãos. Ed. Scipione, SP, 2000.
2. Site: História Mais.

18 de maio de 2010

Fidel: Fim de uma era

A trajetória de Fidel Castro , por Fábio Marton: Super Interessante.

“A História me absolverá”, disse Fidel Alejandro Castro Ruz em 1953, quando era julgado por planejar um golpe. A segunda tentativa deu certo, e em 1959 Fidel assumiu o poder em Cuba. Começavam então 49 anos de repressão, de um lado, e alta escolaridade, de outro. Mesmo com a renúncia de Fidel ao poder, em fevereiro, ainda é difícil saber se sua frase de 1953 vai se confirmar.

1926 - Filho de fazendeiro Em agosto, nasce Fidel Castro Ruz, em Biran, leste de Cuba. Ele é filho de Angel Castro, soldado espanhol que servira na repressão ao movimento pró-independência (1890-1902), mas que se assentara definitivamente na ilha e acabara se tornando um grande fazendeiro.

1953 - Golpe fracassado Ex-líder estudantil formado em Direito, participa de uma ação contra o ditador Fulgêncio Batista. O ataque ao quartel de Moncada, o segundo maior do país, acaba com 61 guerrilheiros mortos. Fidel sobrevive, mas é levado a tribunal e pega uma pena de 15 anos.

1956 - Guerrilha em cuba Um ano depois de ser libertado por uma anistia geral e de ter se mudado para o México, onde conheceu o argentino Ernesto Che Guevara e fundou o Movimento 26 de Julho, volta a Cuba a bordo do iate Granma, com 82 rebeldes. O governo reage ao desembarque, e os 15 sobreviventes se refugiam na região de Sierra Maestra.

1959 - Entrada triunfal Pressionado pela opinião pública e pela resistência da guerrilha, Fulgêncio Batista renuncia e vai para a República Dominicana. Oito dias depois, Fidel chega à capital, Havana, e assume o posto que só deixaria de vez em 2008. Fevereiro de

1962 - Embargo total Um ano depois da tentativa fracassada de invasão da baía dos Porcos, os Estados Unidos declaram embargo total a Cuba. Ao mesmo tempo, surgem planos, alguns organizados pela CIA, para matar Fidel, que se mostra mais alinhado à União Soviética.

Outubro de 1962 - Crise nuclear Aviões espiões americanos descobrem os mísseis nucleares soviéticos que haviam sido instalados em Cuba no começo do ano. É a Crise dos Mísseis, a mais grave de toda a Guerra Fria. Mas o presidente John Kennedy e o premiê soviético Nikita Kruschev chegam a um acordo, e os mísseis são retirados.

1967 - Guerrilha no mundo Depois de iniciar um movimento para tomar o poder no Congo, Che Guevara é preso e assassinado na Bolívia. Por muitos anos, Cuba financiaria e treinaria guerrilheiros na África e na América Latina, incluindo os brasileiros contrários à ditadura.

1980 - Portas abertas Em abril, Fidel declara que todos os cubanos dispostos a deixar o país estão liberados. Em seis meses, vão embora da ilha cerca de 125 mil cubanos. A medida gera muita controvérsia nos Estados Unidos, que acusam o líder cubano, que depois voltaria a fechar as fronteiras, de aproveitar a brecha para expulsar detentos.

1991 - A volta do turismo Em dezembro, a União Soviética é declarada extinta. Com isso, a economia de Cuba deixa de ganhar, aproximadamente, 5 bilhões de dólares por ano. Em 14 de agosto de 1993, visando favorecer o turismo (e, mesmo sem querer, as remessas dos exilados nos Estados Unidos), o dólar é readmitido.

2008 - Despedida Em agosto de 2006, o presidente havia delegado o controle ao irmão Raúl. Em 19 de fevereiro deste ano, ele renuncia ao poder em definitivo; cinco dias depois, seu irmão é eleito para um mandato de cinco anos. É o fim definitivo de 49 anos de governo Fidel Castro em Cuba.

6 de maio de 2010

Da Revolução Francesa e Da Declaração de 1789

Os representasntes do povo francês, constituídos em Assembléia Nacional, considerando que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos governos, decidiram apresentar, em solene declaração, os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que essa declaração, constantemente atual para todos os membros do corpo social, lembre incessantemente os seus direitos e seus de veres; a fim de que os atos do Poder Legislativo e do Poder Executivo respeitem a possibilidade de ser cada momento comparados com a finalidade de ttoda instituição política, a fim de que as reclamações dos cidadãos, baseados de agora em diante sobre princípios simples e incontestáveis, tenham sempre como resultado preservar a Constituição e a felicidade de todos. Consequentemente, a Assembléia Nacional reconhece e declara, ma presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão;

ARTIGO 1º Os homens nascem e permanecem livres e iguais nos direitos. As distinções sociasi só podem ser baseadas sobre a utilidade comum.

ARTIGO 2º A finalidade de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescindíveis do homem. Estes são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

ARTIGO 3º O princípio de toda soberania reside essencialmente na Nação. Nenhum corpo ou indivíduo pode exercer qualquer autoridade que dela declaradamente não decorra.

ARTIGO 4º A liberdade consiste em poder fazer tudo o que não prejudica aos outros: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem tem como limite apenas aqueles que garantem aos demais membros da sociedade o gozo destes mesmos direitos. Estes limites são determinados somente pela Lei.

ARTIGO 5º A Lei tem o direito de proibir só as ações prejudiciais à sociedade,. Tudo o que não é proibido pela Lei não pode ser impedido, e ninguém pode ser obrigado a fazer o que a Lei não ordena.

ARTIGO 6º A Lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de participar, pessoalmente ou através de seus representantes, da sua elaboração. Ela deve ser igual para todos, seja protegendo, seja punido. Todos os cidadãos, sen-do iguais a seus olhos, estão igualmente habilitados a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, conforme suas capacidades e sem outra distinção além daquela da sua virtude e dos seus talentos.

ARTIGO 7º Nenhum homem pode ser acusado, detido ou preso a não ser nos casos previstos pela Lei, e segundo as formas preestabelecidas. Aqueles que procuram, despacham, executam, ou fazem executar ordens arbitrárias, devem ser punidos ; mas cada cidadão citado ou detido, em virtude da Lei, deve submeter-se imediatamente; opondo resistência, torna-se culpado.

ARTIGO 8º A Lei deve estabelecer somente penas estritas e evidentemente necessárias, e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma Lei estabelecida e promulgada anteriormente ao crime, legalmente aplicada.

ARTIGO 9º Presumindo-se inocente todo homem, até que não tenha sido declarado culpado, sendo indispensável detê-lo, qualquer rigor desnecessário à detenção deve ser severamente reprimido pela Lei.

ARTIGO 10º Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, inclusive religiosas, desde que suas manifestações não turvem a ordem pública estabelecida pela Lei.

ARTIGO 11º A livre comunicação de pensamentos e opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; cada cidadão pode falar, escrever, imprimir livremente, salvo responder pelo abuso desta liberdade nos casos previstos pela Lei.

ARTIGO 12º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública: esta força é instituída em benef]icio de todos e não para a convenieência particular daqueles aos quais é confiada.

ARTIGO 13º Para se manter a força pública, e para as despesas de administração, é indispensável uma contribuição comum, a ser igualmente repartida entre todos os cidadãos, de acordo com as suas posses.

ARTIGO 14º Todos os cidadãos têm direito de apurar por eles mesmos, ou através dos seus Representantes, a necessidade da contribuição pública, de aprová-la livremente, de controlar seu uso e determinar seu vulto, a distribuição, a cobranç e a duração.

ARTIGO 15º A sociedade tem direito de solicitar prestação de contas a cada agente público da sua administração.

ARTIGO 16º Toda sociedade que não assegura a garantia dos direitos, nem determina a separação dos poderes, não tem Constituição.

ARTIGO 17º Sendo a propriedade um direito inviolável e sagrado, ninguém poderá ser dela privado, salvo quando a necessidade pública o exigir de forma evidente, e sempre através de justa indenização. Sendo a propriedade um direito inviolável e sagrado, ninguém poderá ser dela privado, salvo quando a necessidade pública o exigir de forma evidente, e sempre através de justa indenização.

(Texto extraído do livro "ORIGEM DOS DIREITOS DOS POVOS)".