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9 de maio de 2017

Vagabundagem espiritual.

A.W.Tozer

O homem carnal rejeita a disciplina de tais compromissos. Ele diz: "Quero ser livre. Não quero ter qualquer voto sobre mim. Não creio nisso. Isso é legalismo". Bem, deixe-me apresentar o quadro de dois homens. Um deles não fez voto algum. Ele não aceita qualquer responsabilidade desse tipo. Ele quer ser livre. E ele é livre, em certa medida - assim como um vagabundo é livre. O vagabundo é livre para sentar-se num banco de jardim de dia, dormir sobre um jornal à noite, ser posto para fora da cidade na manhã de quinta-feira e voltar e subir pelas escadas rangentes de alguma pensão na quinta à noite. Esse homem é livre, mas também é inútil. Ele apenas ocupa um lugar no mundo, cujo ar respira. Examinemos agora outro homem - talvez um presidente, ou primeiro-ministro ou qualquer grande homem que carrega sobre si o peso do governo. Homens assim não são livres. 

Porém, com o sacrifício de sua liberdade demonstram poder. Caso insistam em ser livres, poderão sê-lo, mas apenas como o vagabundo. Escolheram, porém, estar amarrados. Há muitos vagabundos religiosos no mundo que não querem estar amarrados a coisa alguma. Eles transformaram a graça de Deus em libertinagem pessoal. As grandes almas, entretanto, são aquelas que se aproximam reverentemente de Deus compreendendo que em sua carne não habita bem algum. E sabem que, sem a capacitação dada por Deus, quaisquer votos feitos seriam quebrados antes de o sol se pôr. Não obstante, visto que crêem em Deus, com reverência assumem certos votos sagrados. Esse é o caminho para o poder espiritual. Sendo assim, há cinco votos que tenho em mente, que será bom fazer e observar: 1) Trate Seriamente com o Pecado; 2) Não Seja Dono de Coisa Alguma; 3) Nunca se Defenda; 4) Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém; 5) Nunca Aceite Qualquer Glória.

TOZER, A.W. Os Cinco Votos para obter poder espiritual. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2004.

16 de julho de 2015

Aprendendo a ficar quieto.

Não interrompa. Nunca interrompa uma pessoa enquanto ele ou ela estive falando, a não ser que você pense que o que você tem a dizer é crucial para a conversa (sejamos sinceros: quando esse será o caso?). Interromper as pessoas não é apenas rude, como também quebra todo o fluxo da conversa e faz com que você pareça um tagarela. Se você realmente tem um comentário a fazer ou algo a perguntar, anote-o e espere até que a outra pessoa termine de falar para ver se o que você tem a dizer continua sendo relevante. Você ficará surpreso com quantidade de perguntas que serão respondidas se você simplesmente deixar as pessoas falarem.

Fonte:pt.wikihow.com

15 de julho de 2015

Como ficar quieto: ficando quieto durante uma conversa.

Pense antes de falar. Pessoas que são naturalmente barulhentas não possuem essa qualidade. Portanto, da próxima vez que estiver numa situação em que você está morrendo de vontade de falar alguma coisa, pare por um minuto e pergunte a si mesmo se o que você tem a dizer irá realmente ajudar a situação. Você estará dando às pessoas informações que elas precisam, fazendo-as rir ou oferecendo-as palavras de conforto, ou você estará dizendo alguma coisa apenas para ser ouvido? Se você acha que ninguém irá se beneficiar do que você tem a dizer, então é melhor guardar isso para si mesmo. Uma regra a se seguir quando você estiver começando é dizer uma de cada duas coisas que você estiver pensando. Na medida em que você trabalha para ser mais quieto, você pode dizer uma de cada três coisas, ou uma de cada quatro coisas.

Fonte:pt.wikihow.com

24 de julho de 2014

Sobre a nova vida.

Leão Magno 

Reconheça, cristão, a tua dignidade e, tornando-se partícipe da natureza divina, não pretendas voltar a cair na condição desprezível de outrora com um comportamento indigno. Recorde-te de quem é a tua Cabeça e de qual Corpo és membro. Recorde-te de que, arrancado ao poder das trevas, foste transferido para a luz e para o Reino de Deus (Sermão I sobre o Natal, 3, 2: CCL 138, 88).

22 de agosto de 2011

Espiritualidade bombástica

Por Caio Fábio

Cuidado com pessoas de espiritualidade bombástica. Cuidado com pessoas que fazem muito barulho em relação aos seus "dons pessoais". Cuidado com pessoas que se colocam como referência de espiritualidade e que fazem de suas "experiências" histórias de autopromoção!
Por trás de toda espiritualidade autodivulgada há "motivos interesseiros". Ou estão querendo receber demasiado crédito espiritual para então poderem manipular a vida dos incautos; ou desejam ser colocados como únicos e legítimos líderes do grupo de cristãos imaturos; ou querem minar a autoridade dos pastores do grupo, fazendo que eles se tornem inexperientes aos olhos do grupo ante tão tremendas experiências divulgadas pelos de espiritualidade bombástica; ou desejam um rebanho para pastorear sem ter tido o trabalho de levar ninguém à fé; ou pretendem ser os beneficiários da gratidão financeira desses "cristãos impressionados" que agora – depois de cativados – tornam-se mantenedores desses faladores enfatuados.

FÁBIO, Caio. Síndrome de Lúcifer. pp. 39-40. Venda Nova – MG: Betânia, 1988.

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9 de junho de 2011

Formação espiritual

Por Richard Foster

"O trabalho de formação nos ensina a dar as costas às nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus." 

O mundo cristão de hoje clama pelo crescimento de uma teologia que trabalhe na cruel realidade da vida diária. Infelizmente, muitos têm desistido da possibilidade de crescimento em relação à formação espiritual. Um vasto número de pessoas bem intencionadas tem se exaurido no trabalho da igreja e descoberto que isto não influencia substancialmente suas vidas espirituais. Elas descobriram que simplesmente eram impacientes, egocêntricas e medrosas quando começaram a carregar o fardo pesado do trabalho na igreja. Talvez até mais. 

Outros têm submergido em múltiplos projetos de trabalhos na área do serviço social. Mas quando o ardor de ajudar aos outros esfria por um tempo, eles percebem que tantos esforços hercúleos deixaram poucas marcas duradouras em sua vida interior. De fato, deixaram-nos mais doloridos pela frustração, raiva e amargura. Há também os que ainda têm uma prática teológica que não permite crescimento espiritual. Havendo sido salvos pela graça, essas pessoas têm ficado paralisadas nisso. A tentativa de qualquer progresso espiritual tem um sabor de “obras de retidão” para eles. Sua liturgia diz que eles pecam em palavras, pensamentos e atitudes diárias; então, pensam ser esse seu destino até morrerem. A perspectiva do Céu é o seu único alívio nesse mundo de pecado e rebelião. Conseqüentemente, essas pessoas bem intencionadas vão sentar em seus bancos na igreja – e, passado algum tempo, vão perceber que nenhum avanço foi feito em suas vidas com Deus. 

Há um mal-estar geral que nos toca a todos. Parece que nos acostumamos à normalidade da disfunção. A constante exploração da mídia em relação às torrentes de escândalos, vidas partidas e mazelas de toda sorte nos deixa não muito mais do que simplesmente chateados. Temos que esperar um pouco mais do que isso, ao menos de nossos líderes religiosos – talvez, especialmente de nossos líderes. Esta disfunção em toda parte é tão infiltrante que é quase impossível termos uma visão clara do progresso espiritual. Modelos exuberantes de santidade são raros hoje em dia; entretanto, ecoando através dos séculos até aos dias de hoje, estão inúmeras testemunhas que nos contam sobre uma vida muito mais abundante, profunda e completa. Em qualquer posição social ou em qualquer situação da vida, eles encontraram uma vida de “retidão, paz e alegria no Espírito Santo”, possibilidade descrita em Romanos 14.17. 

Eles descobriram que uma transformação real, à imagem de Cristo, é possível. Viram suas paixões egocêntricas darem lugar a um coração abnegado e humilde. Há mais de 2 mil anos, registros das vidas de grandes pessoas – Agostinho, Francis, Teresa, Kempis e muitos outros – provam que seguir arduamente nos caminhos de Jesus torna o caráter ilibado. Os registros estão aí para quem quiser ver. Há trinta anos, desde quando Celebration of Discipline (“Celebração da disciplina”) foi escrita, nós enfrentamos duas grandes incumbências: a primeira é que foi preciso rever a grande discussão sobre a formação da alma; a segunda foi encarnar esta realidade nas experiências diárias na vida individual, congregacional e cultural. Francamente, nós temos tido sucesso na primeira tarefa. Todos os tipos de cristãos agora sabem da necessidade de formação espiritual. 

É a segunda tarefa que precisa consumir a parte principal de nossa energia nos próximos 30 anos. Se nós não fizermos um progresso real nessas frentes, todos os nossos esforços vão evaporar e secar. Deus tem dado a cada um de nós a responsabilidade de “crescer em graça” (II Pedro 3.18). Isto não é algo que possamos transferir para os outros. Nós temos que tomar as nossas cruzes individuais e seguir os passos do Cristo crucificado e ressurreto. 

Todo trabalho de formação autêntico consiste em “trabalhar o coração”. O coração é a fonte de toda ação humana. Todos os mestres religiosos constantemente nos chamam, quase de forma enfadonha, para que nos voltemos e purifiquemos os nossos corações. Os grandes sacerdotes puritanos, por exemplo, mantiveram a atenção nesse ponto. Em Mantendo o Coração, John Flavel, um puritano inglês do século 17, adverte que “a maior dificuldade na conversão é ganhar o coração para Deus; e a maior dificuldade após a conversão é manter o coração com Deus”. Quando estamos trabalhando o nosso coração, as atitudes externas nunca são o centro da nossa atenção. Atitudes visíveis são o resultado natural de algo profundo, bem mais profundo. 

A máxima do patriarca Actio – “As atitudes seguem a essência” – nos lembra que a nossa atitude está sempre em acordo com a realidade interna do nosso coração. Isso, naturalmente, não reduz as boas obras à insignificância, mas as tornam questões secundárias; meros efeitos, e não causas. O significado principal é a nossa união vital com Deus, nossa nova criação em Cristo, nossa imersão no Espírito Santo. É essa vida que purifica o coração. Quando o ramo é perfeitamente unido à videira, que é o Senhor, o fruto espiritual é natural. 

Somos todos uma massa de motivos emaranhados: esperança e medo, fé e dúvidas, simplicidade e arrogância, honestidade e desonestidade, sinceridade e falsidade. Deus é o único que pode separar o verdadeiro do falso; o único que pode purificar as motivações do coração. Mas o Senhor não vem sem ser convidado. Se alguns compartimentosdo nosso coração nunca experimentaram o toque de cura de Deus, talvez seja porque não temos recebido bem o minucioso exame divino.O mais importante, mais real e mais duradouro acontece nas profundezas do nosso coração; este é um trabalho solitário e interno, que não pode ser visto por pessoa alguma, a não ser por nós mesmos. É um trabalho que somente Deus conhece. É o trabalho de purificação do coração, de conversão da alma, da transformação interior e da formação da vida. O primeiro passo é nosso retorno à luz de Jesus. Para alguns, este é uma inescrutável e lenta jornada; para outros, é um momento instantâneo e glorioso. Em ambos os casos, nós estamos começando a confiar em Jesus, para aceitá-lo como sendo a nossa vida. Nascer espiritualmente é um começo – um maravilhoso e glorioso começo –, e não um final. 

Mas o trabalho de formação mais intenso é necessário antes de nos colocarmos diante do brilho do Céu. É necessário muito treinamento para sermos o tipo de pessoa segura e reinarmos tranqüilamente com Deus. Então, agora nós estamos dando início a esse novo relacionamento. Como Pedro coloca em sua primeira carta, nós “temos nascido de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, vivendo e permanecendo na Palavra de Deus” (I Pedro 1.23). Deus está vivo! Jesus é real e atuante em nossas pequenas vidas, que são fraturadas e fragmentadas. Como Thomas Keely sustenta, nós estamos vivendo em “uma luta intolerável de agitação”. Nós sentimos a força de atração de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E estamos, conforme suas palavras, “infelizes, intranqüilos, extenuados, oprimidos e tememos fracassar”. Mas, através do tempo e da experiência – às vezes, muito tempo e muita experiência –, Deus começa a nos dar um sossego surpreendente. Nas profundezas do nosso ser, a alternância nos dá uma vida coesa intacta, de humilde adoração diante da viva presença de Deus. Não se trata de êxtase, mas de serenidade, sem abalos e firmeza de orientação da vida. 

Nas palavras de George Fox, nós nos tornamos homens e mulheres “estáveis”. Então, começamos a desenvolver um hábito de orientação divina. O trabalho interior da oração torna-se muito mais simples agora. Lentamente, descobrimos pequenos reflexos de proteção celeste e os sopros de submissão são tudo o que é preciso para nos atrair para uma orientação habitual de nossos corações voltados para o Senhor. 

Por trás do primeiro plano da vida diária, permanece a bagagem da orientação celestial. Esta é a formação de um coração diante de Deus. Para usar as palavras de Kelly, é “uma vida despreocupada de paz e poder. É simples. É sereno. É espantoso. É triunfante. É radiante. Não toma tempo algum, mas ocupa todo o nosso tempo”. Como os novatos em Jesus, estamos aprendendo, sempre aprendendo – a como viver bem, a como amar a Deus bem, e como amar nossa família, nossos amigos – e até mesmo os nossos inimigos – bem. Aprendemos também a como estudar bem; a enfrentar bem as adversidades; a administrar nossos negócios e instituições financeiras bem; a formar uma vida em comunidade bem; a alcançar os marginalizados bem; e a morrer bem. E, enquanto aprendemos como viver bem, compartilhamos com outros o que estamos aprendendo. Esta é a estrutura do amor para edificar o corpo de Cristo. 

Todavia, não estamos sozinhos neste trabalho de reforma do coração. É imperativo que nos ajudemos uns aos outros e de todas as maneiras que pudermos. E, em nossos dias, a necessidade desesperada é pela emergência de um exército sólido de guias espirituais treinados, que possam amorosamente estar lado a lado das pessoas, ajudando-as a discernir como andar pela fé nas circunstâncias de suas próprias vidas. Acontece que há uma idéia genuinamente ruim circulando nestes dias – a de que, se nós tivermos um determinado número de cursos e lermos determinada quantidade de livros, estaremos prontos para sermos guias espirituais. Lamentavelmente, a coisa não é tão simples assim. Mas o treinamento de vidas demanda o desenvolvimento da retidão, alegria e paz no Espírito Santo. Isto é a qualidade de vida – habilidade para perdoar quando se está machucado, o desejo de orar – que estamos procurando na vida de guias espirituais treinados. 

Neste ponto, temos uma dificuldade real, porque cada um pensa em transformar o mundo – mas onde estão aqueles que pensam em transformar a si mesmos? As pessoas podem genuinamente querer ser boas, mas raramente estão preparadas para fazer o que é necessário para produzir uma vida de bondade que possa transformar a alma. Sim, a formação pessoal à imagem de Cristo é árdua e longa. A busca pela comunhão que agrega poder naturalmente leva à nossa segunda grande arena de trabalho para os anos vindouros: a renovação congregacional. 

Se em nossas igrejas nós não trabalhamos arduamente pela formação espiritual, não conseguiremos pessoas espiritualmente formadas. O problema é que nós temos em nossas igrejas a “doença da pressa”. Muitos do nosso povo são viciados em adrenalina – e, em toda parte, o espírito de nossos dias é de pular, empurrar, atropelar, produzir ruídos, atrair multidões. Mas o trabalho de formação espiritual simplesmente não acontece com pressa. Ele nunca é um “assunto rápido”, como se diz. Paciência e cuidado com o tempo consumido são sempre as marcas de qualidade do trabalho de formação espiritual. 

Outra situação contextual que enfrentamos é o fato de que nós agora temos uma indústria de entretenimento cristão que é disfarçada como adoração. Ora, como nós compareceremos em reverência e temor diante do Santo de Israel, quando muitos de nossos cultos são focados em diversão? Um terceiro assunto: nós estamos lidando com uma mentalidade consumista em toda parte que, simplesmente, domina o cenário religioso. Essa mentalidade mantém as demandas individuais sempre à frente e no centro de tudo: “Eu quero o que eu quero, quando eu quero e quanto eu quero”. Naturalmente, o trabalho de formação nos ensina a dar as costas às nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus. 

Todas estas e outras coisas mais tornam o trabalho de formação espiritual em uma congregação realmente complicado. Mas é uma tarefa possível! Primeiro, isto significa que queremos experiências profundas de comunhão através do poder da formação espiritual. A Igreja é reformada e sempre está se reformando. E, se nosso coração, alma, mente e espírito estão sendo reformados – ou seja, se ansiamos por conhecer, seguir e servir a Jesus, sendo formados à semelhança dele –, então seremos poderosamente atraídos na direção de todos aqueles que têm o mesmo anelo. 

Uma pessoa cheia da beleza de Jesus tem comunhão adicionada ao poder – e os outros serão irresistivelmente atraídos na direção desta pessoa. Segundo, vamos fazer tudo o que podemos para desenvolver a ecclesiola naeclésia – “a pequena igreja dentro da Igreja”. A ecclesiola naeclésia é um compromisso profundo com a vida do povo de Deus, e não um comportamento sectário. Nenhuma separação. Nenhuma exclusão. Nenhuma formação de nova denominação ou igreja. É preciso que fiquemos dentro das estruturas estabelecidas da igreja e, aí sim, desenvolvamos pequenos centros de luz dentro dessas estruturas. A partir daí, é só deixar a nossa luz brilhar. Isto produz uma unidade de coração, alma e mente, um vínculo que não pode ser quebrado – um milagre, enfim –, abastecido de cuidado, mutualidade e compartilhamento de vida juntos que nos levará a enfrentar as circunstâncias mais difíceis. 

A última instância é a do compartilhamento do sofrimento. Não devemos nos enganar – o nosso tempo de sofrimento está chegando. Uma multidão de fatores levará a isso. Por exemplo, a cultura geral de hostilidade para as coisas concernentes ao Cristianismo está crescendo. Não devemos ficar surpresos ou mesmo tentar mudar isso. O que nós, como Igreja, deveríamos estar fazendo é construir uma vida comunitária sólida para que, quando o sofrimento chegar, não estejamos dispersos. Ao invés disso, devemos ficar juntos, orar juntos e sofrer juntos, independente do que vamos enfrentar. 

O sofrimento em comunhão pode ser um bom modo que Deus usará para um novo ajuntamento do povo e Deus. Os mestres religiosos escreveram muito sobre o treinamento do coração em duas direções opostas: contemptus mundi, o rápido desprendimento das ambições; e amor mundi, quando nosso ser é arremessado para uma divina, porém dolorosa, compaixão pelo mundo. No começo, Deus arranca o mundo de nossos corações – comtemptus mundi. 

Experimentamos um rompimento das correntes que nos atraem para posições proeminentes e de poder; passamos a viver livre e alegremente, sem enganos. E, então, quando nos libertamos de tudo isso, Deus lança o mundo de volta ao nosso coração – é o amor mundi –, quando nós e Deus, juntos, tomamos o mundo em infinita ternura e amor. Nós aprofundamos a nossa compaixão pelos feridos, pelos arruinados, pelos despossuídos. Sofremos, oramos e trabalhamos por outros de uma maneira diferente, de uma forma abnegada, cheia de alegria. Nosso coração fica estendido em direção aos marginalizados. Nosso coração fica voltado para todas as pessoas, para toda a Criação. 

Foi o amor mundi que atirou Patrick de volta à Irlanda para responder à sua pobreza espiritual. Foi o amor mundi que impulsionou Francisco de Assis para o seu ministério mundial de compaixão por todas as pessoas, por todos os animais, por toda a Criação. Foi o mesmo sentimento que levou Elizabeth Fry às portas do inferno da prisão de Newgate e induziu William Wilberforce a trabalhar a sua vida inteira pela abolição do comércio escravo; ou que fez Padre Damião viver, sofrer e morrer entre os leprosos de Molokai e impulsionou Madre Teresa de Calcutá a ministrar entre os mais pobres entre os pobres da Índia e do mundo todo. E é esse amor mundi que compele milhões de pessoas comuns, como você e eu, a ministrar vida no nome bom de Cristo a quem nos cerca. 

25 de fevereiro de 2011

Por Karl Barth

"Ouço a mensagem, sim. A fé, porém, me falta!" [Fausto, de Goethe]. Pois é - a quem ela não faltaria? Quem seria capaz de crer? Certamente não o será quem afirmar que "possui" a fé em Deus, que ela não lhe falta, que se acha "capaz" de crer. Quem crê sabe e confessa que é deveras incapaz de crer "por sua própria razão ou força". Ele se limita simplesmente a crer - chamado e iluminado pelo Espírito Santo, portanto sem se compreender a si mesmo e sobremaneira admirado de si; e crê em vista da descrença que, também dentro dele, sempre acompanha a fé e se subleva.

Ele só poderá confessar "eu creio" junto com e dentro da prece: "Senhor, ajuda minha descrença". Justamente não julgará, pois, possuir a fé, mas, antes, tão-só esperará tornar a recebê-la a cada novo dia. Portanto, a pergunta se a fé, se o evento da fé estaria ao alcance de alguma pessoa, não deixa de ser uma pergunta leviana. Que a fé se torne evento - isso não se acha ao alcance de ninguém. A pergunta séria, porém, é: poderá uma pessoa a quem se tenha apontado a obra e palavra de Deus, que se manifestaram também a seu alcance, e a quem se tenha apontado o poder vivo do Espírito, que igualmente age a seu alcance - poderá tal pessoa permitir-se e dar-se o luxo de ficar na declaração desoladora: "Acontece que me falta fé!"? Ou quererá ela deixar de flertar com sua própria descrença, quererá viver na liberdade que também a ela foi anunciada e dada, quererá viver, pois, com uma pessoa que não só deixa de rejeitar o intellectus fidei e, portanto, a cooperação na ciência teológica, mas que também é capacitada para o entendimento da fé e a cooperação na teologia? Quererá ser uma pessoa real e eficazmente admirada, abalada e comprometida, e, assim, apata para esse empreendimento.  

7 de fevereiro de 2011

A lacuna aberta pela 'pós-modernidade' e o Evangelho

Por Job. Nascimento (Novembro, 2008)

Enquanto de um lado o relativismo da pós-modernidade oprime as pessoas a serem mais tolerantes com as diferentes formas de “verdades” pregadas pelas religiões e a serem intolerantes com os que pregam uma verdade absoluta; do outro lado está o indivíduo que se vê atolado em dúvidas: se não existe verdade absoluta, como duas propostas antagônicas podem ser verdade? O que é bom? Do lado dos ateus, Nietzsche responderia: “O que é bom? – Tudo aquilo que eleva no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder” (NIEZSTCHE: 2006, p. 18). Entretanto, nem todas as pessoas nasceram para o poder. Algumas pessoas amam o poder, a dominação e a liderança em grandes cargos. Mas, existem pessoas que não tem esse instinto de liderança, elas precisam de alguém que lhes ensine o que é certo e o que é errado, que lhe dê um manual de instruções para elas saberem como devem agir. Para estes, “surge à religião, teia de símbolos, rede de desejos, confissão de espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza” (ALVES: 1999, p. 24).

O indivíduo se vê sem saída observando a pregação da tolerância pela cultura, o dogmatismo do ateísmo e a opressão da religião digladiando-se. Aí surge a oportunidade de o cristão pregar o evangelho de Jesus Cristo. Não como uma pregação ao ecumenismo, nem de um ataque contra o ateísmo e nem como um convite à uma religião convincente. Mas, simplesmente o evangelho puro e simples: da Graça de Deus e livre da lei. O cristão tem que fazer o indivíduo refletir sobre a questão crítica da vida e da salvação. E que questão é essa? “- A questão crítica é saber se o nosso passado nos é presente como manchado pelo pecado ou como perdoado. Se o nosso pecado nos é perdoado, isto significa que nós somos livres para o futuro; que nós podemos realmente entender a exigência de Deus e que podemos nos submeter a Ele como seus 'instrumentos'."(BULTMANN: 2003, p. 39).

O cristão pode aproveitar a lacuna aberta pela pós-modernidade na consciência e na existência das pessoas para pregar a Jesus Cristo. Muitas vezes essa pregação se dará numa linguagem não-verbal. Ou seja, não falando uma mensagem sobre Cristo, mas sendo a mensagem de Cristo através da evidenciação da presença do Espírito no seu ser através da conduta e do proceder. “A loucura do evangelho é a sabedoria divina para todo aquele que foi curado da perversão que consiste em fazer da razão e da bondade humana juiz de toda verdade. É pelo cumprimento da lei que Cristo nos tornou livres da maldição da lei, mas nos tornou livres de tal maneira que somos ligados a Deus” (BRUNNER: 2004, p. 88).

Referências

ALVES, Rubem. O que é religião?. 8º ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999. 
BRUNNER, Emil. O Escândalo do Cristianismo. São Paulo: Novo Século, 2004.
BULTMANN, Rudolf. Milagre. São Paulo: Novo Século, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo. São Paulo: Escala, 2006.

Espiritualidade e a vida cotidiana

Por Job. Nascimento (Novembro, 2008)

Pode soar como heresia para alguns a afirmação de que a espiritualidade seria o regulador ético do evangélico, mas não é. A bíblia em várias passagens nos deixa entender isso e a história nos mostra que tal declaração é verdadeira. Pois, a busca autêntica da espiritualidade por parte do evangélico tende a gerar nele não somente o senso de dependência de Deus. Mas, também gera sensibilidade em ouvir a Deus, em ajudar o próximo, em viver de modo ético e moral, a exercitar a fé com diligência nas boas obras, a ser humilde, manter-se modesto, ser justo e puro. Essas qualidades não podem ser desenvolvidas pelo homem natural em estado de depravação total. Elas só podem ser exacerbadas por aquele que possui o Espírito Santo e busca á Deus através da experiência mística extra-mundo que o motiva a viver em contato com o mundo numa relação intra-mundo. Ou seja, quanto mais o ser buscar o contato com Deus, mas pulsões para propagar o bem e a reproduzir o que recebeu nas pessoas ele terá.

A experiência mística da busca do contato com Deus faz com o que o homem supere o fosso que separa o homem de Deus. “A experiência penetra nas realidades que nos toca o viver. A partir da busca insaciável de Deus o mundo se sacramentaliza como lugar de sua presença; o mundo se torna então transparente. Deus reside em sua intimidade; é o Coração do coração, o sem-Fundo do fundo, a luminosidade de cada ser” (ECKHART:  2006, p. 17). Isto é, na medida em que o homem abre mão de centralizar sua vida em coisas exteriores a seu ser e passa a se relacionar com a interioridade de seu ser e no autoconhecimento ele tende a buscar mais a Deus, pois, ele sabe que sua vida não se limita a coisas, a posses ou posições e passa a enxergar o mundo sob outra ótica. Mas, essa experiência não o faz viver isolado da sociedade e negando o viver. Ao contrário o mobiliza a viver de modo mais excelente e ele deseja que as pessoas vivam iguais à ele. Imaginemos uma sociedade tendo essa visão de mundo, o cristão deve manter a espiritualidade e a buscar as experiências de adoração a Deus. Como disse alguém “vivemos numa sociedade onde o povo desaprendeu a orar”. O cristão deve colocar a oração como modo de vida. A busca da espiritualidade como um hábito. E a presença de Deus como algo comum. Sentir a Deus em todo e qualquer lugar.

Referências

ECKHART, Meister. O livro da divina consolação e outros textos seletos. 6º edição. São Paulo: Ed. Universitária São Francisco, 2006.

18 de novembro de 2010

Avivamento Urgente

Por Hernandes Dias Lopes

Aguardamos um avivamento que venha aprofundar a piedade, incitar o quebrantamento e levar as igrejas às noites de vigília e ao jejum. Quando o avivamento chegar, os crentes omissos pôr-se-ão a trabalhar; os fracos e trôpegos serão fortalecidos; as famílias esmagadas, reerguidas; as dificuldades serão sanadas e as discórdias eliminadas; pois onde o avivamento chega, medra o amor, acabam as divisões, cessam as brigas, arrancam-se as raízes da amargura, curam-se as feridas e restabelece-se a comunhão.

Aguardamos um avivamento que venha tirar as igrejas da rotina do formalismo frio, para que os crentes sejam mais santos, o culto mais vivo, a liturgia mais agradável a Deus, a pregação mais ungida, a evangelização mais apaixonada, o envolvimento missionário mais urgente, a ação social mais caridosa e a igreja santa.

A busca do avivamento deve ser para nós um caminho sem volta. Não podemos parar. É preciso avançar (...) Não podemos recuar porque alguns se desviaram, caindo em extremismos inconseqüentes. Não podemos desanimar-nos com as oposições.

Não há avivamento sem preço. Não há busca sem oposição. Não há batalha espiritual sem a fúria do inimigo. Não há parto sem dor. Não há colheita jubilosa sem a semeadura regada de légrimas. É preciso coragem para prosseguir. É preciso fé para não voltar atrás.

Precisamos inconformar-nos com o conformismo dos homens, para nos conformar-mos aos inconformismos de Deus. Não podemos chamar de normal o estado apático, letárgico, caótico, estéril e doentio da igreja hoje. O Deus da igreja não é o Deus vivo, que age e faz maravilhas ainda hoje. Ele não pode ser engessado dentro dos nossos estreitos parâmetros e limites.

Não cometamos o grave pecado de resistir ao Espírito Santo. Não podemos lutar contra Deus. Avivamento é obra de Deus (...) resistir ao avivamento é resistir à Palavra de Deus. Resistir ao avivamento  é resistir aos grandes feitos de Deus na História. Ressistir ao avivamento é negar nosso legado e nossa herança, e recalcitrar contra os aguilhões.

É preciso enfatizar, no entanto, que não se recebe avivamento simplesmente falando sobre ele ou fazendo profundas reflexões bíblicas, teológicas e históricas sobre o que Deus fez noutras épocas. O avivamento vem quando a igreja dobra os joelhos em oração, humilha-se diante de Deus e acerta a vida com Deus. Esse, portanto, é nosso desafio: avivamento já!

LOPES, Hernandes Dias. Avivamento Urgente. págs. 20-21. São Paulo: Betânia, 1994.

2 de novembro de 2010

Espiritualidade

Por Dostoiévski

"Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva."

31 de outubro de 2010

O profeta Gentileza

Por Leonardo Boff

No dia 17 de dezembro de 1961 ocorreu um fenomenal incêndio do Circo Norte-americano em Niterói vitimando cerca de 500 pessoas. Tal fato, como nos tempos bíblicos, serviu de estopim para o surgimento de um profeta, o Profeta Gentileza que no dia 11 de abril celebraria, se vivo fosse, 90 anos. José Datrino era seu nome, caminhoneiro do bairro Guadalupe no Rio de Janeiro. Seis dias após, véspera do Natal, por volta da 13 horas, enquanto descarregava um caminhão, confessou ter ouvido por três vezes uma mensagem divina: deveria abandonar os três caminhões, casa, terrenos e família e ir logo ao local do incêndio "para ser o consolador de todos os que perderam seus entes queridos". Tomou um dos caminhões, carregou-o com duas pipas de vinho de cem litros e foi a Nitéroi para cumprir sua missão. Distribuíu vinho em copinhos de plástico sob uma condição: que todos pedissem "por gentileza" e não "por favor" e que dissessem "agradecido" em vez de "muito obrigado". Aqui está a essência de sua mensagem, "gentileza" e "agradecido".

Passa a vestir-se com uma bata branca cheia de apliques, com um bastão, um longo estandarte com suas mensagens, encimado por flores para lembrar o jardim do Eden e cataventos para arejar as mentes, como dizia. Instalou-se no local do incêndio, aplainou-o, transformando-o num jardim florido. Dormia no caminhão. Por quatro anos consolou a todos que iam ao local chorar de seus mortos dizendo-lhes: "o corpo está morto mas o espírito deles está em Deus". Depois de quatro anos, percorreu o pais, o nordeste e o norte, pregando "Gentileza" e "Agradecido". Por fim fixou-se no Rio percorrendo a cidade com seu evangelho da gentileza, como um Dom Quixote bizarro mas que conquistou a simpatia de todos, cantado por músicos e artistas, até morrer em 1996 em Mirandópolis, São Paulo. Foram 35 anos de coerente missão profética. Esta figura nos sugere algumas reflexões.

O Profeta Gentileza nos confirma o fato religioso que não se inscreve no âmbito da razão analítica mas da inteligência emocional onde ocorre "o sentimento oceânico" como dizia o romancista Romain Roland se contrapondo a Freud. No Profeta Gentileza aparece uma mística trinitária, rara na história cristã, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ele sempre acrescenta uma quarto elemento feminino, a natureza ou Maria. C.G. Jung mostrou que o 3 e o 4 não devem ser vistos como números mas como arquétipos: o 3 de uma totalidade para dentro e o 4 de uma totalidade para fora. Eles dizem a Trindade cristã em si (o 3) e o Reino da Trindade que incluiu a criação (o 4).

Como todo profeta, Gentileza denuncia e anuncia. Denuncia este mundo, regido "pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo". Vê no circo destruido uma metáfora do circomundo que também será destruido. Mas anuncia a "gentileza que é o remédio para todos os males". Deus é "Gentileza porque é Beleza, Perfeição, Bondade, Riqueza, a Natureza, nosso Pai Criador". Um refrão sempre volta, especialmente nas 56 pilastras com inscrições na entrada da rodoviária Novo Rio no Caju: "Gentileza gera gentileza, amor". Convida a todos a serem gentis e agradecidos. Na verdade, anuncia um antídoto à brutalidade de nosso sistema de relações. É precursor, sob a linguagem popular e religiosa, de um novo paradigma civilizatório urgente em toda a humanidade.

O movimento Rio com Gentileza, articulado pelo Prof. Guelman, visa a gestar gentileza na cidade marcada pela violência. É o que precisamos para com a natureza e para com a humanidade se quisermos que ainda tenhamos futuro.

30 de outubro de 2010

Saramago e a busca espiritual

Por Leonardo Boff 

José Saramago se considerava ateu, mas de um ateísmo muito particular. Entendia o "fator Deus" como vem veiculado pelas religiões e pelas Igrejas como forma de alienação das pessoas acerca dos graves problemas da humanidade. Seu ateísmo era ético, negava aquele "Deus" que não produzia vida e não anunciava a libertação dos oprimidos.

Essa compreensão pude discutí-la pessoalmente num memorável encontro na noite do dia 5 de dezembro de 2001 em Estocolmo na Suécia. Ele viera à cidade para um encontro-celebração de todos os portadores do prêmio Nobel. Eu lá estava pois fora indicado para o prêmio "The Right Livelihood Award", chamado de Nobel Alternativo da Paz. Nesta ocasião convidou a mim e à minha companheira Márcia para um jantar. Foi um festim de espiritualidade mais do que de literatura. Levei-lhe um livro de contos indígenas "O Casamento do Céu com a Terra" e para a sua esposa Pilar um outro, "Espiritualidade: caminho de realização". Ele logo foi dizendo: "quero o livro de espiritualidade, pois pretendo me aprofundar neste tema". E foi então que falamos longamente sobre religião, Deus e espiritualidade. Negava a religião, mas não a espiritualidade como sentimento do mistério do mundo, da profundidade humana e do amor aos oprimidos. Mostrou sua admiração pela Teologia da Libertação por fazer do "fator Deus" uma força de superação da miséria humana. A comunhão foi tão profunda que fomos madrugada adentro, já em seu quarto de hotel, como se fôssemos velhos amigos. Márcia estava lendo o seu “Ensaio sobre a cegueira” no qual lhe fez comovente dedicatória.

O e-mail abaixo revela a experiência espiritual que juntos vivenciamos:

"Querido Leonardo, querida Márcia, Para nós, o grande acontecimento em Estocolmo foi ter-vos conhecido. Não exageramos. O resto foi a pompa e a circunstância do costume, em que até mesmo o que é sincero e autêntico acaba por se perder no meio dos formalismos e dos artifícios. O tempo que estivemos juntos foi um banho para o espírito. Quem dera que em breve surja outra ocasião. Os anos são todos terríveis para aqueles para quem a vida é terrível.

Às vezes as coisas correm melhor no mundo e isso leva-nos a pensar que estamos em paz, mas o mesmo não poderiam dizer os milhões de seres humanos cujas opiniões contam tão pouco que praticamente não se dá por elas. E se de alguma maneira chegam a manifestar-se, os modos de as silenciar, não faltam. O vosso trabalho cria e reforça consciências livres ou em processo de libertação, precisamente o que anda a faltar no mundo. Não sois pessoas para ceder ao cansaço, e essa é uma característica dos que são imprescindíveis. Desejamo-vos o melhor, sabendo que o melhor para vós é que possa melhorar a vida àqueles a quem haveis consagrado a vossa.

Com todo o carinho

Pilar e José Natal de 2001."

Ganhamos um amigo e a fé me diz que agora mergulhou naquele Mistério de amor que sempre buscou.

10 de outubro de 2010

Orar

Por Rubem Alves

Hoje vou escrever sobre a arte de orar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de orar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco) está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso - e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema:

“Olhei para este mundo - e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco... Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu..."

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo.

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas a alma precisa de beleza. E a beleza - o mundo a serve a mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos.

Além da beleza estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era multo bom.

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou este sentimento num poema:

“Dá-me lírios, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante, Faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega."

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram a terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes da alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro.

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é urna fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes “O homem tem dois olhos“, disse o místico medieval Angelus Silésius. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.“ Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria - perdidas. Perdidas as fontes da alegria as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas).

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida" : haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria.

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis, é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós", que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito mas não consegui. As orações põem música no meu silêncio.

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

8 de julho de 2010

Os caminhos da Espiritualidade.

Por Carlos Néri

Estruturas fundamentais da Espiritualidade
Primeiro momento:
O nascimento do novo homem

Ao criar o universo e a diversidade de vidas que compõe o todo natural, inclusive a natureza humana, Deus formou um sistema, não estático e inerte, cujo funcionamento que trabalha em pleno movimento faz surgir no seio dessa natureza toda espécie de ser vivo cada qual com seu corpo e inteligência que cumpre seu ciclo, seu estágio de desenvolvimento até voltar novamente para o centro orgânico que o produziu. Esse exemplo retirado da biologia, e acima de tudo de uma observação lógica do mundo natural feita em todos os tempos e épocas por grandes pensadores nos ajudaram a formular em nosso pensamento que tudo o que existe ou é, ou que virá a existir faz parte de um processo que movimenta e dá forma a uma estrutura não fechada em si mesma, mas que o próprio tempo se encarrega de realizar as devidas transformações próprias de sua natureza.

O homem não está fora desse processo, pois veio do mesmo centro orgânico que produz todo ser vivente, mas ele, o homem, se diferencia de todos os outros corpos existentes, das outras almas viventes, pois só ele, e somente ele é um ser racional, ou seja, capaz de dar razão, de formar conceitos e transformar o seu ambiente pela ação do pensar. Na experiência profunda do Ser, e em suas dimensões que se abrem para o transcendente reside à espiritualidade, definida e diretiva em um foco, em um núcleo que se desenvolve desde o ato do seu germinar, cuja razão intrinsecamente alojada em sua subjetividade intima lhe confere a compreensão da essência de sua natureza e o desenrolar de seus conceitos.

É no homem que se concretiza esse ato, único Ser da natureza que pode construir uma ponte entre o físico e o metafísico entre o natural e o espiritual, cujas dimensões de suas experiências não se limitam à natureza, a sociedade e ao Eu, e no perspaçar dos mecanismos humanos que a formam e a compõem pode ultrapassar a realidade do mundo sensível e encontrar ou reencontrar o fundamento principal do ser e do existir em uma realidade eterna não causada. Na perspectiva dos saberes Cristãos, a espiritualidade se inicia com o ouvir e o crer nas Sagradas Escrituras conforme o capítulo 10 e versículo 7 da carta de Paulo a igreja em Roma, conforme se segue: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”, ou seja, na perspectiva dos saberes cristãos o germinar da fé que faz nascer um novo homem se encontra na capacidade penetradora dessa palavra nas divisões da constituição e estrutura do ser humano. “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”, Hebreus 4: 12.

A conversão é o resultado natural da fé e é a conversão que em primeiro momento nos faz sentir a separação entre igreja e mundo através da mudança radical ou gradual do comportamento que modelado segundo a nova proposta de vida faz do novo crente um novo Ser e o ajuda na linha de compreensão e discernimento do antes e o agora. É nesse sentido que Paulo escreve à igreja de Éfeso 4: 22: “Renunciai a vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pela concupiscência enganadora. Renovai sem cessar o sentimento de vossa alma e revesti-vos do homem novo, criado a imagem de Deus em verdadeira justiça e santidade”. (VAM). É obvio que a leitura atenta do capitulo 4 nos revelará um horizonte maior que o primeiro nível da conversão, em uma grandeza de pensamento Paulo expõe que a experiência íntima e profunda do novo homem, que assume a pura e verdadeira imagem de Deus é inefavelmente superior a do homem velho, limitado as dimensões inferiores e estritamente empíricas que este está submetido.

Os olhos e a razão abertas pelo aceitar da fé e da mudança provocada pela conversão levará o crente a provar infinitamente da extensão progressiva da espiritualidade que se concretiza nos momentos de experiência, seja coletiva ou individual. A isso falaremos mais adiante. O fato real e concreto do primeiro momento da experiência da fé está, enfim, na compreensão dos limites entre as duas formas de Ser do homem, a primeira é formada segundo as leis que regem a natureza e os seres humanos em sua organização social, moral e espiritual, a segunda é regida pela fé que de seu centro emana o amor que excede todo entendimento e une os homens em um só corpo chamado por Jesus de Igreja.

Encontramos então no primeiro momento da experiência da fé que se torna exterior através da conversão as primeiras bases da formação do novo homem que está em Cristo, cujo caminho cercado pela presença de Deus se vê motivado, fortalecido em separar-se cada vez mais da ética do mundo e de se embrenhar na busca dedicada e delicada do caminho, da verdade e da vida. Nosso Senhor não nos ensinou nenhuma pratica ascética de espiritualidade, isso se constitui em um tipo de alienação, mas na busca da santificação e pureza do Ser se torna inevitável para o novo crente o afastar-se das impurezas do mundo.

Como desdobramento desse primeiro momento o “buscar” se constitui um passo seguinte e natural da experiência da fé, cuja ferramenta está na oração. Na verdade esse é o primeiro passo de aprendizado do novo crente, buscar significa orar e oração é dialogo, é proximidade e reciprocidade com quem se dialoga e reconhecendo a natureza da pessoa com quem dialogamos, podemos ser ousados em dizer que nesse dialogo paira uma áurea de glória e transcendentalidade que se manifesta através da real presença de Deus que emana do pólo central de nossa interioridade.

Na escola do Cristo aprendemos que a vida do novo homem possui toda uma trajetória de oração, ela é fortalecimento para o novo Ser segundo a imagem e semelhança de Deus, como também uma iniciação no caminho da espiritualidade, do trabalho e da devoção. Ao completar trinta anos e após a sua aprovação no Batismo, Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo, nesses quarenta dias de forte pressão espiritual e física, Jesus se dedicou em manter uma profunda comunhão com o Pai e um doloroso sacrifício de seu próprio corpo, dessa forma, ele pode se colocar em uma posição irrevogável de obediência e submissão ao verdadeiro Deus e cumprir sua missão salvadora e redentora da humanidade.

O resultado da busca é a estrita comunhão com Deus, que não pode ser circunscrita e nem julgada pelo homem da ciência, pois acontece na categoria do espírito, ou seja, o espírito como nível ontológico mais elevado entre os níveis estruturais do ser humano onde brota a experiência mística, lugar impossível de penetração pela metodologia cientifica devidamente reconhecido pelos cientistas da religião como “uma força vital que anima as religiões, alimentando seus ensinamentos e os ritos transmitidos” (Greschat, 2005). Ao vivenciar mais intensamente essa experiência de fé que cresce a medida da busca e da comunhão o novo Ser não mais terá prazer nas concupiscências do mundo regido pelo sistema, embora ser tentado faça parte integral do conflito entre velho e novo homem.

A essa altura, podemos afirmar que o novo homem nascido do e para o evangelho possui uma medida de inteligência que o capacita a agir em prol da fé e do Reino de Deus, realidade última da fé, não podemos enfatizar categoricamente o tempo decorrido entre o nascimento e a primeira formação do novo homem, nem mesmo a totalidade dos mecanismos internos psicológicos que mediam essa transição, pois o objeto de investigação sobre a mística é o testemunho dos próprios místicos, logo, é pluridisciplinar e multiforme transcendendo a capacidade e a perícia metodológica da pesquisa.

A primeira etapa do processo de crescimento e amadurecimento em Cristo se completa a partir do entrelaçamento e da ação mutua da fé, da pregação do evangelho e da oração formando as estruturas fundamentais da nova vida em Cristo, cuja base de sustentação está na pedagogia das Sagradas Escrituras que formam o fio condutor para a iluminação e a ação da pregação do evangelho com o devido intuito de produzir nova vida, novo nascimento a todo aquele que crer (Jo 5: 24). A esse momento chamamos de primeiro amor e é marcado por certa medida de inteligência, conforme dito acima, e pelo forte desejo e impulso de leitura e meditação das Sagradas Escrituras, uma vida intensa de oração e de pregação do evangelho.

Para a interpretação cristã de orientação evangélica a iluminação ou revelação é uma conseqüência natural da comunhão com Deus através da fé, da oração e da pregação cujo objetivo é edificar, consolar ou exortar e não está dissociada da revelação Maior que está nas Sagradas Escrituras cuja pedagogia orienta e instrui o crente fortalecendo as estruturas fundamentais gerando as competências e habilidades necessárias à ação evangelizadora e o caminhar do crente no mundo que possibilita, por sua vez, o “entender” necessário para o alcance e discernimento correto dessa iluminação ou revelação em Cristo Jesus.

A confirmação da existência da iluminação ou revelação se concretiza com o testemunho da realidade da presença de Deus manifestada pelo Espírito Santo na intersubjetividade humana, o Espírito Santo é o “Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós” (Jo 14: 17). A verdade traz a tona o que está oculto e encoberto, portanto, o gerador da iluminação que todo crente é alvo é o próprio Deus na pessoa do Espírito Santo. Aqui temos as etapas do primeiro momento da espiritualidade ou comunhão com Deus a partir do novo nascimento, a iluminação divina, revelação íntima de Deus está na conjuntura da fé, essa é a espinha dorsal da espiritualidade, sua elevação torna-se a íntima em Deus pela oração e prática do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo alcançando por fim a iluminação ou revelação íntima de Deus.

Essa iluminação ou revelação, não se pode conceituar como um movimento entusiástico da mente, mas como uma inteligência intima e esclarecedora que não nos confundi, mas ao contrário, nos faz sentir sua real presença, evidência ultima no homem que Jesus Cristo ressuscitou, e que está em nós mediante o seu Espírito Santo e ao ser manifestada a razão humana produz a confirmação de sua realidade a partir do “testemunho” daquele que a presenciou e da promessa de Nosso Senhor Jesus contida nas páginas das Sagradas Escrituras. O novo homem nascido em Cristo deve atentar, nesse primeiro estágio da espiritualidade para não elevar de forma única algumas das estruturas fundamentais da fé em detrimento a outras, a fé, a pregação do Evangelho e a oração seguida da profunda leitura e meditação das Sagradas Escrituras devem atuar como um “todo inseparável”, pois, o amadurecimento e o alcance de uma vida cada vez mais elevada em direção à Deus depende do crescimento equilibrado das estruturas fundamentais.

A elevação de algumas estruturas e a estagnação de outras pode gerar alguns “equívocos de entendimento” na ação evangelizadora, comprometendo a compreensão e o discernimento da inteligência espiritual podendo causar problemas que se tornam cada vez mais generalizados. Persiste-se ainda nos saberes cristãos, especialmente de orientação carismática uma espiritualidade mistérica e profética desprovida de uma devida pedagogia orientadora à luz das Sagradas Escrituras, cuja fonte está somente na elevação da fé e da oração. A essência da espiritualidade é mistérica e profética no sentido de que sua fonte é estritamente transcendente e aponta para uma revelação que de acordo com as Sagradas Escrituras leva o crente a aguardar com temor e esperança a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, porém o fato de suas estruturas se desenvolverem sem a pedagogia dos patriarcas, dos profetas e do Evangelho pode levar o crente a uma espécie de alienação centralizando os dons espirituais como referência e retirando a “responsabilidade do crente” em sua formação centralizando a ação evangelizadora na mística dos fenômenos.

Referências

LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Antropologia Filosófica. São Paulo: Ed. Loyola, 1991.
__________ Henrique Cláudio de. Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental. São Paulo: Ed. Loyola, 2000.
GRESCHAT, Hans Jurgen. O que é ciências da Religião. São Paulo: Ed. Paulinas, 2006.

3 de junho de 2010

Diferença entre Religião e Espiritualidade

Por Ed René Kivitz

Para quem não sabe, semanas atrás os jogadores do Santos foram convidados a ir a um hospital em que são tratadas crianças portadoras de deficiências mentais. Já na porta do hospital, alguns jogadores ficaram sabendo que ele está ligado a entidades espíritas e, imediatamente, se recusaram a entrar no hospital, sob a alegação de que sua religião, não declarada no momento, mas presumivelmente evangélica, os proíbe de contatos com o espiritismo. Recusaram-se, assim, a manter contato com as crianças doentes. Outros jogadores entraram no hospital e cumpriram a tarefa para a qual haviam se deslocado até ali.

Criticado, como os demais do grupo resistente, Robinho exigiu: "- É preciso que respeitem a religião da gente". Texto sobre o episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral, para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos.

Ed René Kivitz, Pastor evangélico e santista desde pequenino, faz as seguintes ponderações: Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sòzinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

COISA DE RELIGIÃO

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais Bíblia e de cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo,ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião.

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.

Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião. O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

ESPIRITUALIDADE

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproximam os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião. Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar - você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

21 de março de 2010

A espiritualidade no período Medieval

Por Job. Nascimento

O período Medieval (500 – 1500) comparado com o período antigo é radicalmente diferente. Enquanto o período antigo enfatizava o afastamento da sociedade o medieval mostra a igreja cristã como uma organização religiosa poderosa. No período medieval o cristianismo, agora institucionalizado, dialoga e insere dentro da espiritualidade elementos de outras religiões antigas dos povos tidos como bárbaros. As pessoas comuns não podiam mais expressar sua crença em outra religião, pois, o cristianismo havia se tornado a religião do estado e quem desobedecesse era taxado de herege. Esse elemento hierárquico da igreja era também evidenciado nos símbolos da espiritualidade.

Quem já entrou numa catedral gótica, construída neste período, facilmente nota a hierarquia que estava presente. “As catedrais eram enormes, de forma que era possível se sentir pequeno diante de tanta grandeza. Algumas catedrais tinham a luminosidade tão escassa que não era possível nem mesmo enxergar o teto. Do ponto de vista simbólico (e que acaba refletindo na espiritualidade), a idéia é que as pessoas ao entrarem nestes monumentos sentissem sua pequenez diante de Deus” (PIRES, 2005, p. 48). É evidente que este período foi marcado pela centralização dos símbolos e elementos da espiritualidade.

Mas, ao se aterem mais aos símbolos exteriores, acabaram se esquecendo da busca pela manifestação interior da espiritualidade. O fato de nem ao menos poderem ver o teto das igrejas evidenciava o aspecto grandioso de Deus que era “totalmente outro”, muitos o enxergavam como um ser inatingível e que precisava de intermediários sacerdotais para se comunicar com o simples cristão, daqui surgiu à figura de Maria como intercessora. “O povo ia á igreja não para entender o que se passava, mas para sentir a presença do sagrado, que é mistério, que eles não entendiam muito bem, mas sabiam que era grandioso” (PIRES, 2005, p. 49).

Enquanto de um lado os cristãos simples não entendiam bem o que se dava no campo da espiritualidade do outro existiam a classe sacerdotal que tinha certo poder sobre o sagrado. Assim, surgiu a idéia da penitência estabelecida para quem saíssem das regras estabelecidas pelos clérigos. Meister Eckhart, um dos místicos mais conhecidos deste período, tem uma oração que parece contraditória, ele pede a Deus que Deus o livre de Deus. Ou seja, o que ele estava pedindo era que Deus o livrasse do poder dogmático da igreja para ele viver livre do Deus pregado por eles para adorar o Deus Bíblico. Outra mística importante deste período foi Tereza de Ávila, ela afirmava que a dor e o sofrimento eram agentes de ligação do homem á Deus.

14 de março de 2010

Espiritualidade e o Cuidado com o próximo

Por Job. Nascimento

Assim como vários outros aspectos da sociedade, da religião e do movimento evangélico no Brasil, o conceito de espiritualidade foi alterado de seu significado original pela pós-modernidade. Hoje, espiritualidade se tornou uma palavra quase impossível de defini-la dado os inúmeros movimentos religiosos que se proliferam pelo Brasil. Alguns têm empregado o termo espiritualidade apenas para se referirem as experiências místicas; outros para adjetivar aquele que fala numa freqüência maior em línguas (glossolalia) o chamam de "espiritual"; e ainda existem aqueles que quando pensam em espiritualidade logo associam a palavra a movimentos esotéricos. Mas, espiritualidade ou "mística" está muito além das experiências com o sagrado e é mais que o falar em línguas.

Espiritualidade não se refere apenas a coisas sobrenaturais, supranaturais ou transcendentes. Veremos neste capítulo que espiritualidade está associada à ética cristã, a vida no seu dia a dia e no cuidado com o próximo. A espiritualidade é refletida na conduta do indivíduo. Aquele que se arroga ser superior a outros em espiritualidade não aprendeu nem a do alfabeto do que é ser espiritual. Posso afirmar que pessoas que poucas vezes freqüentam a igreja e pouco falam em línguas, são espirituais porque se compadecem do próximo em amor. E indivíduos que cuidam tanto ser espiritual pela prática arrogante e "auto-justificadora" de disciplinas espirituais, não são espirituais. Pois, espiritualidade e arrogância não combina. A espiritualidade como um regulador ético do indivíduo presta ao ser um favor muito superior do que a moralidade. Pois, a moralidade pode mudar com o passar dos tempos.

A espiritualidade quando procede de experiências autênticas com Deus tende a suscitar no indivíduo conhecimentos muito além do racional e a gerar nele cargas de amor que jamais pensaria em ter e expressar. Ou seja, o espiritual vive uma vida de propagação da bondade, do amor e da Graça que de graça recebeu de Deus. O espiritual sempre primará pelo bem de seu próximo. Coisas que possam gerar benefício próprio em detrimento do malefício de outrem não serão aceitas pelo "espiritual", porque ele está ligado em coisas superiores ás materiais. Mas, o espiritual não vive uma vida de negação da existência com esperança na vida vindoura. Ele vive o aqui e agora ajudando o próximo e a si mesmo em gratidão a Deus, em fé, pela vida eterna. "O justo pela sua fé viverá" (Hc 2.4b).

(Job, dezembro de 2008)

28 de fevereiro de 2010

Sobre o Reino

Por Caio Fábio

O Reino de Deus não é somente a salvação espiritual. Não é regeneração, apenas. A regeneração é somente um item na globalidade do Reino de Deus. Portanto, não o encerra, não o contém, não o reduz, não o amarra, não lhe impõe fronteiras.

O Reino de Deus também não são somente interesses religiosos supra-denominacionais. Falo assim porque alguns que conseguiram libertar-se do claustro e do cativeiro denominacional, referem-se aos interesses da igreja supra denominacional como sendo tudo quanto possa constituir a plenificação do Reino de Deus.

O Reino de Deus é mais que minha igreja, é mais que sua igreja, é mais que todas as denominações juntas. O Reino de Deus não se contém em perspectiva humana alguma. Tentar contê-lo e domesticá-lo é blafêmia.

Em síntese: O Reino é maior do que todas as categorias humanas. Sejam religiosas, sejam teológicas, sejam históricas, de que nível forem. O Reino vaz tudo, extrapola tudo. Está aqui, mas está para além de tudo.