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14 de agosto de 2014

Aula de história: um relato.


Carlos Néri

Na minha mente eu tinha tudo planejado. A grande mudança conceitual, uma profunda transformação ocorre no mundo, especificamente na Europa, século V depois de Cristo, mais precisamente em 476 d.c, o império romano começa a ruir.

A intenção era lançar um olhar sobre esse momento, ou seja, a entrada da Europa no mundo medieval, a chamada "idade das trevas".

Bom! como nós seres humanos somos a única espécie da criação capaz de abstrair, dar forma e concretizar o abstrato na prática, comecei montar a aula. Primeira coisa: um mapa da extensão do império, é óbvio, dai a apresentação dos povos germânicos Bárbaros, a formação de um sistema feudal, a estrutura social medieval e suas características peculiares, o poder da igreja, a santa inquisição, a criação das universidades, o renascimento comercial, a reforma protestante, a mudança conceitual que ocorre na Europa com a reforma, a burguesia comercial, as grandes navegações, o descobrimento, o olhar dos Europeus sobre os nativos, ufa... chega!

Enfim, tudo feito em slides e apresentado em uma tv enorme e digital. Na aula seguinte preferi retornar ao meu método tradicional, reduzi todo esse conteúdo apresentado em slides em organogramas e passei na lousa, Ai começou o drama.

- Como vocês conseguem escrever e conversar ao mesmo tempo, não entendo.

Retornei para a lousa, começou a conversa de novo.

- Escutem! a grande dificuldade que vocês possuem para ler, interpretar e apresentar está no fato de que vocês foram condicionados a simplesmente copiar da lousa, isso começou lá na 5ª série onde o professor, para não ter um acesso de raiva ou um enfarto, enche a lousa para conseguir fazer a chamada, e assim vocês vieram até aqui, copiando sem ler, somente copiando.

Retornei para lousa, começou as conversas, as rizadinhas, então voltei -me para eles mais uma vez.

-Olha! se eu der um excerto de um texto a vocês e pedir para ler, vocês travarão e não vão conseguir ler, e por que? porque muitos de vocês tem consciência que possuem dificuldade para ler, e olha que vocês são 2ª ano médio, explicar então, ai piora, porque vocês somente reconhecem letras e sons, então, prestem atenção, leiam o que está sendo escrito, logo, logo termino e ai vocês ficam de boa.

Adivinhem! não preciso nem falar, né. Começou a conversa de novo.

Ao terminar o organograma, fiz uma linha do tempo que se iniciava no século V d.c e ia até o século XVI e perguntei:

-Por que no 2ª ano ano médio os materiais didáticos que recebemos nos instrui a iniciar nosso estudos nesse período histórico, ou seja, o século V d.c?

Ninguém respondeu, silêncio total. 

Ok! vou mudar a pergunta:

- Qual o grande fato histórico que marca a passagem do mundo antigo para o mundo medieval no século V?

Todos olhavam para mim, mas não falavam nada, nada. Aquela massa de alunos, aproximadamente 30 na verdade, simplesmente olhavam, até que um aluno bem na minha frente disse bem baixinho, quase sem voz, tipo um Neville Logbotom diante de um Severo Snape: - o fim do império romano.

Ouvi a resposta, dei sinal de positivo, mas queria ouvir todos, queria participação, mas eles simplesmente olhavam.

-Mais uma vez, porque o século V d.c marca a passagem do mundo antigo para o mundo medieval? eu mostrei no mapa semana passada, bem grande, o primeiro mapa que iniciei a aula.

Ninguém respondeu. A professora de apoio aos alunos com deficiência auditiva esboçou um gesto de admiração misturado com indignação. Ninguém sabia responder, ninguém sabia nada. Passou um filme na minha mente, nesse momento, esse filme é o começo desse texto onde eu tinha planejado tudo, eu parecia ser um ser distante, a lousa algo mais distante ainda e desinteressante, sem valor.

Mesmo se eu estivesse vestido de Nero, Pompeu, Julio César, Alexandre, rei Leônidas ou mesmo de Volverine ou a Coisa, mesmo assim nada disso os chamaria atenção, a apatia era tão intensa que eu me senti incapaz de romper essa barreira, pensei até em exorcismo, reza forte daquelas antigas, pensei em tudo, mais não me vinha nada viável para estimular aqueles jovens, muitos cansados por causa da escravidão do trabalho, e que possuíam energia, força, vitalidade, alegria, entusiasmo, para conversar entre si, entre seus pares, trocar SMS a todo momento, acessar o watsapp, facebook, e principalmente falar sobre meninos bonitos, o futebol no final de semana, o chefe chato da empresa, o encontro para fumar um verde depois da aula, os parceiros que estão presos, aquela mina folgada, um encontro com o namorado, e tantas outras infinitas coisas.

Me indignei, disse a todos que eu me recusaria dar aulas para grupos de pessoas que não enxergam valor nenhum no que está sendo ensinado, e sai da sala as 19:30, só voltei para fazer a chamada.

Relatei o ocorrido com alguns professores, todos me apoiaram, o meu relato é o mesmo de todos, sem excesão, ou seja, estamos fazendo verdadeiros monólogos na sala de aula, nós aprendemos mais do que os alunos que precisamos formar, não há respostas aos estímulos que lançamos todos os dias para eles, são amorfos, distantes, a escola é uma obrigação e não um prazer.

Talvez se tivéssemos em nossas salas de aula telões digitais como aqueles usados no jornal da globo e no globo esporte, talvez conseguíssemos colher frutos melhores, está claro e evidente que os olhos dos jovens estão totalmente voltados e imersos na tecnologia e o mundo fora disso é muito chato, um professor falando, demonstrando, diante de uma lousa medieval é mais chato ainda, um kit multimídia com qualidade de imagem e som ajuda, mas não é suficiente.

Bom! Estou escrevendo esse texto, hoje pela manhã porque não fui para a escola, ontem me desgastei muito e enfrentar essa realidade pela manhã não seria saudável, então só pela noite, e assumo as faltas.

7 de julho de 2012

Luz no Apagão


Por Marina Silva

O sonho de ter 10% do PIB investidos em educação pode se tornar realidade. Ele está no Plano Nacional de Educação (PNE) que a Câmara votou e vai para o Senado.

De fato, 10% do PIB brasileiro não é pouca coisa. Claro, se for apenas distribuído no atual sistema, vai escoar pelos ralos de sempre.

Ter recursos sem boa gestão gera até desalento. Mas, com uma política séria, de valorização dos professores e atenção aos alunos, modernização dos processos educacionais, incentivo à inovação, criatividade e inteligência, seria a revolução educacional que o Brasil precisa e que foi sonhada por Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Rubem Alves.

Sonho herdado por Cristovam Buarque e Maria Alice Setubal, que listou na semana passada, aqui na Folha, os consensos necessários a um pacto nacional pela educação.

O noticiário é desfavorável. A greve dos professores universitários se estende sem a devida atenção do governo.

É precária a situação das instituições públicas de ensino, do nível básico ao superior. Tristes são os hospitais universitários. É possível mudar? A resposta é sim, basta olhar mais de perto para enxergar mais longe.

A Coreia do Sul era um país pobre, teve uma longa guerra e só a partir de 1987 fez eleições democráticas.

Tornou-se, em 25 anos, a 13ª economia do mundo, avançado tecnologicamente, líder na produção de eletrônicos e na indústria naval.

Seus 50 milhões de habitantes dividem 99.720 km². Quase todos (99%) são alfabetizados, 97% dos jovens têm o ensino médio concluído e 60% cursam universidades. Por isso, não espanta o seu alto IDH, de 0,897. O crescimento econômico foi precedido e orientado pela construção de um sólido sistema educacional.

Os limites materiais, fixados pela capacidade do planeta, podem ser estendidos pela criatividade ilimitada da cultura.

No Brasil, uma população de 190 milhões compartilha 8,5 milhões de km² de terras e 55 mil km² de águas. Tudo é grande, mas, mesmo tendo melhorado nas últimas décadas, ainda estamos longe da Coreia do Sul com nosso IDH de 0,718.

O motivo do atraso? Quando 95% das universidades entram em greve e quase não se percebe é porque o "foco" do país não está na formação da juventude. E todos sabemos que o investimento na educação pode reduzir gastos com saúde e segurança, entre outros efeitos socioeconômicos.

O Brasil pode reter mais uma geração no analfabetismo e na peneira do ensino médio, num longo apagão de força de trabalho qualificada. Ou pode ir pelo caminho certo.

A aprovação do PNE reacende as esperanças de velhos e novos sonhadores. E os recursos? Se podemos investir bilhões para acelerar o crescimento a qualquer custo, por que não investir o necessário em educação para frear o atraso?

17 de maio de 2012

Educação e Sensibilidade



Por Fabrício Carpinejar

Educação combina com sensibilidade. Combina com romantismo. Mostra que estamos ouvindo o que está sendo dito. Não é um item repressor. Não traduz falta de liberdade.

É o contrário: os bons modos são revolucionários. Significa respeitar o outro de igual para igual. Significa não dar ordens. Significa intimidade.

17 de julho de 2010

Cresce o Número de Doutores no Brasil.

22/06/2010 - Gazeta do Povo

Um estudo feito pelo Centro de Ges­­tão de Estudos Estratégicos, li­­ga­do ao Ministério da Ciência e Tec­­no­­logia, mostra que houve cres­­cimento de 278% no número de doutores titulados no Brasil en­­tre 1996 e 2008. Entre as áreas de co­­nhe­­cimento que mais cresceram destacam-se as Ciências So­­ciais Aplicadas e as Ciências Hu­­manas, que em média aumentaram respectivamente 14,8% e 13,6% ao ano. Ciências Exatas e da Terra ficaram abaixo da média de 11,9%.

15 de maio de 2010

Concepções sobre educação: Mecanicista e Orgânica

T. W. Moore, Tradução de Rui Daniel Cunha: Crítica na Rede. 

Há uma distinção entre duas concepções diferentes de uma teoria geral da educação, uma distinção entre uma concepção mecanicista e uma concepção orgânica, baseada em diferentes pressupostos acerca da natureza do ser humano. Por um lado, há a suposição de que o ser humano é análogo a uma máquina, a um sistema de inputs e outputs, cujos outputs ou comportamentos podem ser modelados e dirigidos de fora. Por outro lado, há a suposição de que o ser humano é essencialmente um organismo, que cresce e se desenvolve por dentro, e cujo desenvolvimento pode ser facilitado através da provisão de ambientes estimulantes e agradáveis. Esta distinção traduz-se em diferentes noções ou teorias acerca do papel do professor e do aluno.

A perspectiva mecanicista, na sua forma mais simples, vê a educação como uma transacção entre o professor e o aluno, na qual, pelo menos inicialmente, todas as vantagens estão de um lado e todas as insuficiências estão do outro. O professor é uma autoridade, um repositório do conhecimento, um perito. O aluno não é nada disto. A transacção toma a forma de o professor entregar ao aluno o conhecimento e as competências (skills) de que ele necessita. O fluxo é de sentido único, do professor para o aluno, dado que apenas desta maneira pode ocorrer algum proveito. O professor tem pouco ou nada a aprender com o aluno; o aluno tem tudo a aprender com o professor. Assim, a situação exige o máximo de actividade pedagógica por parte do professor e o máximo de receptividade por parte do aluno. É o reconhecimento destes papéis por ambos os intervenientes que torna possível uma situação de ensino. O papel do professor é maximizar os inputs do aluno, encontrar os meios de fabricar aquelas associações na mente do aluno que constituem o conhecimento, a compreensão e a competência (skill). É tarefa do aluno receber os inputs e fazer o máximo para adquirir as associações apropriadas. A actividade do aluno, idealmente, limita-se às tarefas designadas para a produção de tais associações. A actividade “livre” ou “não estruturada” é desaprovada, especialmente a que envolve os alunos uns com os outros, como, por exemplo, o jogo ou a colaboração. Assim, o papel do professor é principalmente didáctico e regulador. Fornece o material, organiza a produção das associações e verifica se tais associações foram feitas. A sua finalidade é a obtenção dos outputs desejados por parte do aluno, a forma correcta de comportamento. A perspectiva orgânica tende a enfraquecer a polaridade rígida que caracteriza o modelo mecanicista.

O aspecto de “transacção” diminui e a ênfase é colocada na necessidade de o aluno desenvolver os seus próprios métodos de trabalho e de aquisição do conhecimento e da competência. Ainda é possível considerar o professor uma autoridade, mas o seu papel não será tão didáctico ou expositor, mas antes o de um supervisor ou consultor. O seu lugar está nas margens das várias actividades que ocorrem na sala de aula. Estará disponível para conselho e ajuda, mas não estará sempre pronto para desempenhar o papel do mestre-escola e fazer sentir a sua presença. O centro de máxima actividade será o próprio aluno. Idealmente, o aluno estará envolvido em actividades que exercitam as suas capacidades e estimulam os seus interesses, e a sua tarefa será a de conferir um sentido ao seu meio ambiente e construir por si próprio uma visão precisa da realidade. Será encorajado a fazer isto através da exploração, da experienciação, de tentativas e erros, do insight e de lidar com a realidade concreta que lhe é apresentada. A educação não será tanto uma transacção quanto um processo de descoberta.

O manual será menos importante do que os problemas para serem resolvidos aqui e agora. Mais, não fará sentido restringir a atenção do aluno às palavras do professor, dado que a tarefa primária do professor não é fornecer informação à criança nem dizer-lhe o que fazer. Existirão vantagens numa polaridade lateral, de aluno para aluno, de modo a que possam aprender entre si. Os alunos serão encorajados a cooperar entre si, a adquirir os benefícios e a disciplina da tolerância mútua numa tarefa comum. A disciplina social da cooperação tenderá a substituir o papel regulador do professor. Por trás de tudo isto está a noção de que a educação do indivíduo procede do interior, como uma consciencialização crescente do seu lugar e da sua situação, que lhe chega das suas tentativas de descobrir a natureza do seu mundo através dos seus próprios esforços.

3 de maio de 2010

Entre singularidade e a Homogeinização.

Sobre as mudanças na forma como se ensina Filosofia ao longo dos anos.

Por Franklin Leopoldo e Silva

Desde que eu era aluno de graduação sinto uma mudança muito grande na forma como se ensina filosofia. A principal delas é quanto á importância e o significado das aulas. Quando fiz graduação vigorava um outro regime didático, havia muito menos disciplinas e também muito menos aulas. As aulas representavam uma carga de informação que direcionava os alunos para uma pesquisa posterior. Era preciso ler bastante e havia tempo para isso também. E o papel da aula era muito mais o de fornecer um impulso, um estímulo para o aluno vir a pesquisar do que propriamente o de dar uma carga de informação completa ou auto-suficiente. Essa é a principal modificação.

Em primeiro lugar houve uma reforma, uma reorganização do ensino, e ela privilegiou o aspecto quantitativo. Foi aí que vieram os créditos, as horas-aula, antes disso não havia nada disso. Esse aspecto quantitativo fez com que todo o tempo do aluno fosse preenchido com aula. O aluno fica praticamente todo o tempo em sala de aula e isso faz com que tenha pouca disponibilidade para biblioteca, para pesquisas, o que o leva a entender que aula é a única coisa de que depende sua formação escolar. E na minha época ficava muito claro que a aula era um dos pontos, e até por vezes nem o mais importante. Então a modificação foi essa, tudo passou a ser centrado em aula e em quantidade de aulas.

Entrevista concedida á Revista Filosofia. N. 017. Ciência e Vida: Ed. Escala.

23 de março de 2010

Somente Piaget e Lev Vygotski?

Por. José Pacheco "Zé da Ponte"

O Brasil tem muitos bons educadores que a maioria dos brasileiros não conhece. Cito Eurípedes Barsanulfo. Ninguém fala de Anísio Teixeira nesta terra. Inclusive pouco ou nada se faz sobre o lagado de Paulo Freire. Darcy Ribeiro, Lourenço Filho, Manoel Peixoto. A maioria conhece um Jena Piaget ou Lev Vygotski, dois fósseis europeus, mas não conhece o que tem aqui dentro do Brasil.