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13 de fevereiro de 2015

DostoievskY e o PT.

Flávio Morgenstern.
A maneira de o PT fazer política é simples e consabida: cria “programas sociais” que nada mais são do que modelos de cotas para qualquer atividade humana, tentando “incluir” mais pessoas na sociedade economicamente ativa. Funcionais ou não, tais programas repetem a mesma estrutura em todos os ramos, tornando cada novo passo político petista apenas uma repetição do mesmo script.
O Fome Zero, pelo qual Lula foi até indicado ao Prêmio Nobel da Paz antes de descobrirem quão mal feito e risível era (gerou ruptura de Lula até com Frei Betto, notório caudatário da ditadura de Fidel Castro), nada mais era do que a “transferência” forçada de dinheiro dado em gorjetas em restaurantes para um “fundo” que daria parte do montante a alguns pobres. Fracassado de cabo a rabo, o programa logo foi forçosamente “esquecido” pelo partido, sem que praticamente ninguém na imprensa, que deveria vigiar o governo, cobrasse os governantes pelo desastre. A seguir, veio o Bolsa Família, aparentemente com menos furos, em que o governo simplesmente dá dinheiro que toma por impostos de outras pessoas para alguns pobres, que lhe respondem com uma obediência eleitoral de joelhos, como se Brasília fosse Meca.
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Assim é o Minha Casa, Minha Vida: toma-se dinheiro de impostos para criar casas para os mesmos que pagam impostos. Assim é o Mais Médicos: cria-se postos de saúde ocupados por semi-escravos cubanos ao invés de permitir que profissionais trabalhem onde querem. O Fundo de Amparo ao Trabalhador também toma dinheiro do trabalhador para que este agradeça ao governo quando este resolve lhe dar uma parte de volta. O PROUNI também força cotas em universidades. E assim segue o modelo, do Luz no Campo ao Brasil Carinhoso, que “tira da miséria” modificando os critérios de pobreza, dando dois reais aos pobres e dizendo que “acabou com a miséria”. O esquema permanece até em fiascos retumbantes, como o Primeiro Emprego ou o Fome Zero.
Antes do PT, “programas sociais” eram formas mais “ativas” de o governo intervir na economia. Num sistema capitalista, as pessoas produzem riqueza (material ou mesmo de idéias) e trocam pelo produto do trabalho das outras. É o chamado laissez-faire (“deixe-os fazer”). Alguns, que não gostam do esforço necessário para enriquecer, buscam atalhos. Usualmente através do Estado, a única instituição que pode agir sempre por força, tomando algo de algumas pessoas e “dando” a outras, através de um planejamento central de alguns burocratas. É o intervencionismo, chamado politicamente de “social-democracia”, ou Welfare State.
Acreditada por muito tempo como a melhor forma de governo, pois aparentemente “tira os pobres da pobreza”, a social-democracia soa inatacável até hoje, depois de exibir sinais de derrocada até no suposto paraíso nórdico. Os liberais, tratados como insensíveis à pobreza, apenas conhecem o truque: o governo nãoproduz nada, então, quando um governante aparentemente “dá” algo a alguém, não está tirando dinheiro do seu próprio bolso, e sim tomando do bolso alheio. Sem produção de riqueza no processo, os produtores têm menos incentivos para produzir (sendo consumidos por impostos), e a riqueza vai diminuindo, tendo-se cada vez menos algo a “distribuir”.
Aproxima-se os pobres dos ricos não tornando os pobres ricos (no máximo, ganham algumas migalhas da obediência eleitoral), mas sim tornando os ricos mais pobres. A social-democracia, aparentemente perfeita no curtíssimo prazo, é uma catástrofe humanitária no longo, enquanto o capitalismo enriquece cada vez mais os pobres, como mostra o Índice da Liberdade Econômica  o migalhismo contra a riqueza da liberdade.
Tais programas sociais do Welfare State eram combatidos por Lula quando era oposição. Lula era contra o Bolsa Escola, que pagava uma mensalidade a famílias pobres, desde que mantivessem os filhos na escola. Era contra o Leve Leite de Paulo Maluf em São Paulo, que fazia o mesmo com latas de leite em pó. Era contra qualquer distribuição de cesta básica ou outras formas de compra de voto disfarçadas.
Tal fato ficou registrado em um famoso vídeo de Lula em 2000, quando ainda não estava no governo, xingando os críticos de seus programas de imbecil e ignorante. O Bolsa Família simplificou tudo: acabou com o disfarce. Compra-se o voto e pronto, e com dinheiro vivo. O Lula que criticava quem votava com o estômago agora é contra quem não vota estomagado. Por que isto se dá? A resposta também é simples: a tentação do poder. Libido dominandi, estudada desde Santo Agostinho. Para explicá-la, nada melhor do que recorrer ao maior clássico russo.
Nem só de pão vive o homem
Assistindo a todo o teatrinho petista desde 1880, Fiódor Dostoievsky, considerado por 9 em cada 10 falantes o maior romancista de todos, sem que nunca seja entendido direito, conhecia muito bem os planos de Lula, Dirceu, Dilma e toda a caterva petista. Em sua última obra, Os Irmãos Karamázov, uma disparidade de vozes adversas e cheias de conflitos internos são postas a debater os assuntos mais filosóficos, sobretudo concernentes à religião. Ivan Karamázov, o irmão do meio, intelectual e lutando contra a 
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melancolia da rejeição e inadequação ao mundo, é um ateu descrente dos descrentes da época, preferindo mesmo argumentar a favor da superioridade moral da Igreja, ainda que sem Deus, aos fanáticos revolucionários ou até aos burocratas do Estado moderno.

Em um dos momentos mais sublimes da prosa mundial, Ivan conta a seu irmão Aliócha Karamázov, noviço de um monastério, um poema que pretende escrever, chamado O Grande Inquisidor (trecho tão grandioso que é muitas vezes tratado como um conto à parte do livro). No poema, Jesus Cristo volta à Terra em plena Inquisição espanhola, sendo trancafiado por um velho inquisidor imediatamente.
Seu algoz comenta a Jesus de quando Ele fora “tentado” no deserto (Mateus, 4:1-11), afiando que o espírito tentador, na verdade, conseguiu reunir a sapiência de todos os sábios futuros da Terra – “governantes, sacerdotes, cientistas, filósofos, poetas”. Lula e o PT inclusos. Resumiu o diabo “toda a futura história do mundo e da humanidade” nestas três tentações. Quando o espírito quer que Jesus prove ser o Filho de Deus transformando as pedras em pães, Jesus obtempera, mesmo faminto no jejum: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”.
O que o tentador faz, na verdade, além de demonstrar simploriedade e reducionismo no falso ceticismo, é resumir toda a questão da liberdade dos homens diante dos governantes, “porquanto para o homem (…) nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade!” No bojo da tentação impingida a Jesus, resta o pecado mortal e mortífero da subordinação de toda a raça humana. É como se o diabo pedisse para transformar as pedras em pães “e atrás de ti correrá como uma manada a humanidade agradecida e obediente, ainda que tremendo eternamente com medo de que retires tua mão e cesse a distribuição dos teus pães”.
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Alguém mais notou que Jesus resistiu à tentação, mas nenhum petista, nenhum social-democrata, nenhum burocrata da “reforma social” deixou de sucumbir à perdição de transformar pedras em pães, ainda que temporariamente, ainda que falsamente, mesmo que simplesmente manipulando índices, em nome de ter agradecimentos obedientes, de homens reduzidos a pedintes gratos, despidos de toda vergonha, honra, trabalho e destino próprios, solícitos a cobrir de ovações e votos ao primeiro que sacrificar sua liberdade no altar da mistificação e da manipulação da realidade em troca da mais ínfima migalha gratuita?

Jesus notou a contradição: “Que liberdade é essa se a obediência foi comprada com o pão?” Certamente não a liberdade de ver a realidade como é, sem querer manipulá-la pela bruxaria e tapeação.
Alguém que viva apenas de pão pode ver algo além do maior tirano como um grande benfeitor, escondendo o seu medo de que pare de lhe dar pães? É o que diz o inquisidor, crendo que o tentador mostrou tão bem como o homem se resume a uma besta fera buscando saciar seus apetites quando não é mais livre: “Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas famintos?”
Pode-se ler tal clarividência sem pensar em como são fracos os espíritos de quem justifica o mensalão – ou mesmo de quem o aceita como um “mal menor” em nome da “justiça social” da “distribuição de renda”, o migalhismo esmolista petista? Pode-se não se pensar na mídia governista? Na blogosfera progressista? Em homens menos rastejantes, mas ainda verminosos, do escol de Foucault, Lacan, Gramsci, Marcuse, Derrida, Zaffaroni, Negri e outros negadores do crime? São os que preferem o rebanho obediente, que dirá: “É preferível que nos escravizeis, mas nos deem de comer”. Não existe mais crime, apenas “causas sociais”, sobretudo a desigualdade econômica. Para estes, “até a morte é mais cara do que o livre-arbítrio no conhecimento do bem e do mal”. É o selvagem de Rousseau, só consciente de seu apetite.
A crise do PT disputando poder ou da social-democracia precisando pagar a conta surpreende alguém? Não ao inquisidor de Ivan Karamázov: “Finalmente compreenderão que, juntos, a liberdade e o pão da terra em quantidade suficiente para toda e qualquer pessoa são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca saberão dividi-los entre si!”
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Jesus rejeita a bandeira do pão e da terra (curiosamente, divisa comum aos comunistas, nazistas e futuros partidos sindicalistas e “trabalhistas”) em nome da liberdade e do pão dos céus. Todavia, alerta o inquisidor, “Eles destruirão os templos e cobrirão a terra de sangue. Mas essas tolas crianças finalmente perceberão que, mesmo sendo rebeldes, são rebeldes fracos que não aguentam a própria rebeldia.”

Se antes o rei benevolente precisava ser milagroso, hoje o burocrata da obediência mundial, da destruição de consciências no formigueiro da igualdade e unanimidade modista, pode ser um novo ídolo sem tanto: “Ao receberem os pães de nossas mãos, eles, evidentemente, verão com clareza que os pães, que são seus, que eles conseguiram com as próprias mãos, nós os tomamos para distribuí-los entre eles sem qualquer milagre, verão que não transformamos pedras em pães e, em verdade, estarão mais alegres com o fato de receberem o pão de nossas mãos do que com o próprio pão!”
Fica alguma dúvida da razão do fanatismo petista, da crença de que a distribuição justifica qualquer crime, da mistificação sobre as figuras falsas dos mandantes-em-chefe, da nulidade cultural e de consciências inovadoras entre as hostes petistas? Dostoievsky, é claro, sabia antever tudo. E nunca votaria na esquerda ou no PT.

24 de dezembro de 2010

Um Presídio. Uma descrição. Um ancião crente.

Por Dostoiévski

Era um homem mirrado, todo grisalho, de cerca de sessenta anos. A primeira vez que o fitei tive forte impressão, já que ele era muito diferente dos demais. Havia tamanha placidez em seu olhar, uma tal serenidade, que eu sentia certo lenitivo em observá-lo; principalmente em reparar naqueles seus olhos dum azul claro, olhos leais, de pálpebras já franzidas. Conversava com ele repetidamente. Raras vezes encontrei na minha vida criatura que transmitisse tanta mansidão e simpatia.

Fora mandado para o presídio por causa dum crime de suma gravidade. É que, entre os fanáticos do Starodubov, irrompera um movimento de retorno à igreja oficial. As autoridades faziam tudo para os atrair e conseguiam muitas conversões, mesmo entre os principais sectários antigos. Junto com outro grupo, os fanáticos renitentes, chefiados pelo velho, resolveram se levantar em prol da “Fé”, sendo que eles, como “Crentes”, trataram de fazer represálias. Incendiaram uma igreja do Estado, recém-construída na região.

Como um dos instigadores da luta religiosa e do sacrilégio foi o velho condenado a trabalhos e remetido cá para Sibéria. Era um pequeno-burguês próspero; deixara em casa mulher e filhos. Veio, porém, de ânimo sobranceiro para o exílio, convencido de estar sofrendo em prol da “Fé”. Bastava a gente ficar um momento perto dele para logo vir esta reflexão: “Como pudera aquele homem se amotinar?” Conversei com ele muitas vezes sobre a “primitiva Fé”. Não cedia um ponto nas suas convicções, mas na sua réplica não punha um vestígio sequer de rancor ou de aversão.

No entanto lançara fogo a um templo e não negava isso. Só se podia deduzir que considerava intimamente aquele ato como uma “glória”, portanto lhe sendo indiferente o sofrimento a que isso o levara. Para ter certeza o sondei, fiz-lhe perguntas em circunlóquio; nunca externou prosápia ou orgulho por sua ação. Havia entre nós, no presídio, outros “Velhos Crentes”, a maior parte siberianos. Tratava-se de gente relativamente culta, de aldeões bastante esclarecidos à sua maneira, opinando por meio de argumentos hábeis: gente, porém, intolerante, reacionária, obstinada e rancorosa, muito diferente daquele velho; talvez mais versado nos textos bíblicos, não querendo, porém, saber de debates e controvérsias.

Ele tinha uma índole muito espontânea, prazenteira; ria sempre, não com aquela gargalhada cínica e borçal do presidiário, mas dum modo compreensivo, simpático, onde sobrenadava muita gordura, condizendo bem com sua cabeça branca. Talvez eu me engane, mas acho o seguinte: pela risada dum homem podemos classificá-lo; se nos for dado simpatizar com um homem desconhecido por causa da sua risada podemos tranqüilamente garantir que se trata dum homem bom.

Esse velho merecia e obtinha de todo o presídio uma consideração geral, sem que por isso se jactasse de nada. Os presos chamavam-no de avô e não o atiçavam. Disso se podia deduzir a espécie de prestígio que desfrutara entre seus correligionários. Ainda assim, toda essa resignação, sua prestimosidade, mesmo nos trabalhos pesados, encobria a nostalgia que ele procurava esconder de todos.

Eu dormia com ele no mesmo alojamento. Certa madrugada, aí por volta das três horas, acordei com o ruído de soluços. O velho estava diante do aquecedor e lia orações em seu livro escrito à mão. Chorava, e ouvi quando a todo instante suplicava: “Senhor, não me abandones! Senhor, fortalece-me! Nunca mais, nunca mais verei os meus pequeruchos!” Não posso exprimir a mágoa que aquilo me causou.

A esse velho foi que os detentos passaram a confiar a guarda dos seus dinheiros. Embora os presidiários fossem todos capazes de furtar, tinham absoluta confiança no velho e sabiam que o dinheiro estava garantido. Ele escondia o dinheiro em um lugar secreto; mas nunca ninguém chegou a descobrir onde...

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Recordações da casa dos mortos. Págs. 50-51. 1862.

2 de novembro de 2010

Espiritualidade

Por Dostoiévski

"Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva."

22 de agosto de 2010

O presídio como uma casa de mortos

Por Dostoiévski

Os presídios, mesmo com trabalhos forçados, de primeira, segunda ou terceira categoria, isto é, em minas, pavimentações, em artesanato e em degredo temporário ou perpétuo, longe estão de reformar o delingüente; são locais puramente de castigo, garantindo teoricamente à sociedade renovação dos indivíduos que são segregados dela. O encarceramento e o trabalho pesado só hipertrofiam no recluso o ódio, a sede de instintos, e complementarmente acarretam indiferença e marasmo espiritual.

Não resta dúvida de que o tão gabado regime de penitênciária oferece resultados falsos, meramente aparentes. Esgota a capacidade humana, defibra a alma, avilta, caleja e só oficiosamente faz do detento "remido" um modelo de sistemas regeneradores. Na verdade esse "reajustado" não é senão um ex-vivente, um despojo, um casulo murcho e inibido. Está-se a ver que o delinqüente exarceba cada vez mais sua rebeldia, que se organiza em potencial de rancor.

Para ele a sociedade erro e ele quis castigá-la. Ou, quando não, o castigo que ele, sim, teve, uma vez cumprido é automaticamente uma absolvição, antes mesmo do termo, já se considerando ele de contas feitas com a sociedade. Ora, desde as eras antes do direito em ordenações se sabe que aqui, ou alhures no mundo, isso de crime é crime deveras, tal conceito permanecendo enquanto houver humanidade viva. No presídio, então, por que é que a gente ouve, por entre risadas irresponsáveis, alusões aos atos mais hediondos, monstruosos e infames?

Fonte: DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Recordações da Casa dos Mortos. Pág. 28. São Paulo: Martin Claret, 2008.

10 de maio de 2010

A Manhã das Noites Brancas


Por Fiodor Dostoiévski

Final do Romance "Noites Brancas".

A Manhã

As minhas noites acabaram naquela manhã. Estava um dia medonho. A chuva caía e batia tristemente nas vidraças. O pequeno quarto estava imerso na obscuridade, pois, lá fora, o céu estava coberto. A cabeça andava-me à roda, estava com uma enxaqueca e a febre insinuava-se por todo o meu corpo. 
- Uma carta para ti. patrão! Foi o correio que a trouxe — ouvi dizer a voz de Matriona.
— Uma carta! De quem? — exclamei, saltando da cadeira.
— Ora! Sei lá!
Olha, pode ser que esteja escrito por dentro de quem é. Quebrei o lacre. Era dela!

«Peço-lhe perdão!», escrevia Nastenka. «Suplico-lhe de joelhos que me perdoe. Enganei-o e enganei-me a mim própria. Era um sonho, um fantasma... Hoje sofri por si mil mortes. Perdão! Peço-lhe perdão’ «Não me censure, pois não mudei fosse o que fosse quanto a si. Disse-lhe que o amaria e continuo a amá-lo, faço mais do que amá-lo. Meu Deus, se pudesse amar-vos a ambos ao mesmo tempo! Se o senhor fosse ele! Se ele fosse o senhor!» Esta frase atravessou-me o cérebro. São as tuas próprias palavras; Nastenka, que me vêm à memória. «Deus é testemunha daquilo que eu gostaria de fazer agora por si! Sei que está mergulhado no acabrunhamento e no desgosto. Causei-lhe mal, mas, quando amamos, lembramo­-mos das ofensas? Ora, o senhor ama-me, não é verdade? «Obrigada, sim, obrigada por esse amor! Ele está impresso na minha memória como um sonho delicioso, daqueles que recordamos muito tempo depois de termos já despertado; porque recordarei eternamente o instante em que tão fraternal­mente o senhor me abriu o seu coração e em que tão magnanimamente aceitou a oferta do meu coração magoado, para o conservar, acalentar e proteger...

Se me perdoar, a sua recorda­ção será erigida por mim num sentimento eterno e nobre que nunca mais se apagará da minha alma... Conservarei essa recordação, ser-lhe-ei fiel, não o trairei, não trairei o meu coração: ele é demasiado constante para que isso possa suceder. Ainda ontem, como viu, ele voltou tão depressa à posse daquele a quem para sempre pertence. «Voltaremos a encontrar-nos, o senhor virá a nossa casa, não nos abandonará, será perpetuamente meu amigo, meu irmão... E quando me vir, dar-me-á a sua mão... sim? Dar-ma-á, pois ter-me-á perdoado, não é verdade? Continua­rá a amar-me como até aqui? «Sim, ame-me, não me abandone, pois eu amo-o de tal maneira neste instante, porque sou digna do seu amor, porque eu o mereço.., meu querida amigo! Casamos na próxima semana.

Ele continua apaixonado, nunca me esqueceu... Não se zangue por lhe falar dele. Quero que o conheça: será amigo dele, não é verdade? «Perdoe-me! Recorde e ame a sua Nastenka.» Li esta carta diversas vezes. As lágrimas toldavam-me os olhos. Por fim, caiu-me das mãos e escondi o rosto. — Meu rapaz! Eh, meu rapaz! — disse Matriona. — Que foi, velhota? — Já tirei a teia de aranha do tecto. Agora até já te podes casar, se quiseres, convidar amigos, tudo irá ficar em ordem... Fitei Matriona .. Era uma mulher ainda cheia de vivacidade, uma velha jovem; mas, não sei porquê, pareceu-me de súbito com o olhar baço, com rugas no rosto, curvada, estragada... Não sei porquê, subitamente, pareceu-me que o quarto envelhe­cera como Matriona.

Paredes e soalho estavam sem cor, tudo ficara turvo e obscuro; pareceu-me que as teias de aranha se tinham multiplicado. Não sei porquê, ao olhar através da janela pareceu-me que, por seu turno, o prédio em frente também escurecera, que o reboco das suas colunas se esboroava e caía, que as cornijas tinham enegrecido e aberto fendas e que as paredes, de um amarelo carregado e gritante, tinham perdido a cor... Ou, então, um raio de sol que surgira subitamente por detrás de uma nuvem carregada de chuva escondera-se de novo atrás dela, e tudo pareceu escurecer novamente diante dos meus olhos; ou talvez que diante de mim tenha num ápice perpassado, desagradável e triste, toda a perspectiva do meu futuro e eu me tenha visto, exatamente como sou hoje, quinze anos depois, envelhecido, no mesmo quarto, com a mesma Matriona, à qual todos esses anos não teriam tomado mais esperta.

Mas que só eu recorde a minha dor, Nastenka! Que eu não chame com amargas censuras uma nuvem sombria sobre a tua clara e tranqüila felicidade, que não desperte no teu coração o arrependimento nem o amargure com um secreto remorso ou o obrigue a bater com tristeza nos momentos de felicidade. Que não faça fenecer as ternas flores que colocarás nos teus cabelos negros no dia em que irás com ele ao altar... isso nunca! Nunca! Que o teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno o teu gentil sorriso e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato. Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?...

13 de março de 2010

Chico e Dostoiévski

Por Job. Nascimento


É incrível como muitas vezes nos identificamos com alguns escritores ou personagens destes. Muitas vezes essa identificação é motivada por sua semelhança conosco: física, de pensamento, de sorte ou de destino. Chico poderia muito bem se identificar com algum personagem de algumas "meta-histórias" que estão em voga hoje, mas por uma razão muito sui generis, ele não pode. Chico se identifica com Doistoiévski, tanto por sua história de vida, como pela característica de seus personagens que por algum motivo são parecidos com ele: como o sonhador de "Noites Brancas", "Aleksei Ivanovitch" de "O Jogador"  e Prícipe Míchkin de "O Idiota". O motivo de tamanha semelhança? - Isso é evidente, quem conhece Chico e leu Dostoiévski percebe logo de cara, especialmente quem leu "Noites Brancas".

4 de fevereiro de 2010

Notas do Subsolo

Notas do Subsolo (1864) é um marco no grandioso conjunto de obras que Dostoiévski legou á humanidade. Dotado de um humor mordaz, provocativo e desafiador, este livro introduz as idéias de moral e política que o escritor mais trade abordaria nas obras-primas Crime e Castigo e Os irmãos Karamazov. Sua idéia de "homem subterrâneo" legou á ficção européia moderna um dos principais arquétipos, encontrado também em Kafka, Hesse, Camus e Sartre: o anti-herói morbidamente obcecado com a sua própria impotência de lidar com a realidade que o cerca.

Esta obra, publicada inicialmente na revista Epokha, editada por Dostoiévski e por seu irmão Mikhail, traz em si várias discussões filosóficas. Dividida em duas partes, é um autoflagelante monólogo no qual o narrador, um rebelde contrário ao materialismo e ao conformismo, discute sua visão negativa do mundo e aborda as principais questões do seu tempo, constituindo uma narrativa de uma intensidade incomum.