28 de junho de 2017

O Jesus de Douglas Adams.

Cacau Marques
Douglas Noel Adams foi um escritor inglês, autor da famosa série de livros “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, misto de humor nonsense e ficção científica, além de ter contribuído em roteiros de Monty Python e Dr. Who para a TV. Ateu radical, como ele mesmo se dizia, Adams sempre tratava a religião (em especial o cristianismo) com certa ironia em seus livros. Mas há uma pequena menção a Jesus Cristo nas primeiras páginas do primeiro livro de sua obra cult que me deixa pensativo. Segundo Adams, Jesus foi um homem que “foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar”.
Gosto de pensar nessa frase como um testemunho do que é Jesus para um ateu. Para ele, Jesus não é Deus, pois Deus não existe. Também não é Filho de Deus, pois quem não existe não pode ter filhos. Também não é o salvador, pois não há inferno de que se livrar, nem céu para onde ir. Jesus é um homem. Ou melhor, foi um homem, pois também não se crê na ressurreição. Um homem que trazia uma mensagem e que desagradou muita gente ao ponto de ser morto por isso. E qual era essa mensagem? “Sejam legais uns com os outros para variar”.
De tudo o que podia ser dito sobre o Cristo, Adams apresenta – com humor, mas também com certo respeito pela ideia – um resumo bastante sintético do que Jesus ensinou aos seus discípulos sobre o relacionamento interpessoal. A ideia de “ser legal com os outros” encaixa-se na parábola do bom samaritano, na ordenança de considerar o outro superior a si mesmo, no dar a outra face, no exemplo do Cristo servo e, principalmente, no Novo Mandamento dado pelo Senhor: amar uns aos outros. “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13:34).
O que sobrou da mensagem foi exatamente aquilo que trazia a realidade palpável da doutrina de Cristo. Talvez fosse o único elemento do Evangelho que Adams realmente desejava ver concretizado antes de conseguir acreditar no resto. E isso me faz pensar em como pregamos o evangelho. Pensamos que, para alcançar as mentes cada vez mais materialistas do nosso tempo, a nossa pregação deve ser sustentada pelos mais brilhantes argumentos filosóficos e evidências incontestáveis da veracidade das escrituras. Isso ajuda, mas não é o principal. O que chama a atenção, o que faz a diferença, é a relevância perceptível do evangelho na vida do crente. É ver que o crente “é legal com os outros”, não para variar, não de vez em quando, mas como uma regra de conduta.
Mas como isso é possível se reagimos exatamente como um incrédulo quando somos injustiçados? Se nos iramos da mesma forma quando sofremos algum prejuízo? Se nos omitimos como qualquer um nas oportunidades de fazer o bem desinteressado? Jesus disse: “se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.” Mas não fazemos isso. Julgamo-nos no direito de utilizar a mesma justiça do “bateu-levou”, do “quem gosta de mim sou eu” e a do “sou crente, mas não sou bobo”, quando o próprio Cristo submeteu-se à mais injusta das sentenças por amor a nós. Imagine se Jesus olhasse para os soldados que o chicoteavam e dissesse: “Basta! Quem gosta de mim sou eu!” e fosse embora? Na lei de Jesus não tem “bateu-levou”. Jesus levou, mas não bateu.
Se Douglas Adams tivesse conhecido mais cristãos assim, talvez não teria permanecido ateu até sua morte em 2001. E teria descoberto que a resposta para sua pergunta sobre “A vida, o universo e tudo o mais” não é 42.

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