25 de abril de 2017

Resenha: uma teologia que ilumine a mente e inflame o coração.

BOFF, Clodovis. Teologia e espiritualidade: por uma teologia que ilumine a mente e inflame o coração. Revista Pistis e Práxis. Teologia pastoral, Curitiba, v. 7, n.1. p. 112-141, jan./abr.2015.

             No presente texto Clodovis Boff propõe uma teologia que concilie a racionalidade do estudo acadêmico com a afetividade e espiritualidade da vida cristã. O autor argumenta que uma das características mais relevantes da atualidade é a emergência, no seio da cultura dominante, do interesse por religião, especificamente, por espiritualidade.
            Nota-se que este interesse por espiritualidade aumenta dentro das próprias religiões, originando os mais variados movimentos de despertar espiritual. Isso ocorre especialmente com relação às Igrejas cristãs. As correntes mais dinâmicas da Igreja católica no século XX foram os movimentos de intervenção social e movimentos de espiritualidade.
            O autor cita uma percepção sarcástica de Cioran sobre o papel do teólogo absorto na razão e alienado da espiritualidade: “um indivíduo que deixou de rezar, para estudar Deus”. Entretanto, observa-se que no processo de conhecimento o objeto tem o primado sobre o sujeito. Assim, entende-se que é a própria realidade que ensina ao homem. Mas, ele precisa estar disposto a aprender. No processo de aprendizagem há uma dialética em que o objeto só ensina enquanto é interrogado. E isso vale também para a teologia.
            Dessa forma, o autor resume este processo como um “saber amoroso”. Assim, todo o proces­so cognitivo se passa na mente. Dessa forma, por mais que uma teologia seja espiritual, ela será sempre teoria e não espiritualidade, assim como a ideia de doce será sempre ideia e não doce. Boff argumenta que uma teologia espiritual remete à espiritualidade real, pois só assim ela realiza sua proposta.
            Boff aduz que o trabalho teológico não deve se contentar com o desenvolvimento do lado verificativo ou dogmático da fé, mas principalmente o lado afetivo e espiritual. Nas palavras do autor: “os dois aspectos estão recíproca e intimamente imbricados, como cara e coroa”. Depreende-se que não existe amor sem verdade, como não existe verdade sem amor.
            Dessa maneira, a teologia não pode ser apenas racionalista, nas palavras de Boff: “osso sem carne”, mas também não deve se tornar simplesmente espiritual: “carne sem osso”, mas as duas coisas. Daí emerge, de acordo com o autor, a necessidade de uma precisão acerca do conhecimento afetivo da teologia. Da mesma forma como a inteligência e a vontade são faculdades interligadas, o afeto pode penetrar no conhecimento, não para substituí-lo, mas complementá-lo.
            O saber teológico mostra-se animado por uma vibração íntima e intensa. Mas isso não anula o rigor científico, argumenta o autor. Sendo assim, fazer teologia “por paixão” seria um equívoco, porque quando a paixão submete a inteligência em vez de servi-la. O que poderia existir seria uma teologia “com paixão”. É quando a teologia se mostra um saber vivo e propulsivo.
            Nesta mesma toada, o autor cita as palavras do cardeal Newman “só fala ao coração uma teologia que passa pelo coração”. Neste caso o inverso também é verdadeiro. Assim, a experiência espiritual divorciada da razão cai em uma gama de ilusões. A espiritualidade precisa ser orientada pela teologia.
            Boff argumenta que a unidade de conhecimento e de amor é pos­sível porque está fundada em um sujeito único, que é o homem. Dessa forma, não é propriamente a inteligência que entende e o coração que ama, mas é o homem por inteiro que entende e ama, respectivamente por meio da inteligência e do coração. Ilustrando este ponto o autor cita Aquinate: “É como o aquecer: este não deve ser atribuí­do ao calor, mas ao fogo mediante o calor”.
            A história deixou algumas lições, como aponta o autor que a melhor tradição teológica sempre uniu teologia à piedade. Isso é notório nos primeiros grandes teólogos da Igreja, que foram os Padres alexandrinos. O “gnóstico” ideal não era apenas quem tinha um conhecimento aprofundado de Deus, mas aquele que, além do saber, esta­va revestido de virtude e de santidade.
            A teologia monástica também estava voltada para a contemplação. A razão teológica não passava de um momento que incluía oração, meditação e contemplação. Assim, surgiu-se uma polêmica entre a teologia escolástica emergente e a monástica. A teologia monástica criticava a escolástica por dar mais importância ao intelecto e à especulação, deixando o afeto e a contemplação para outro plano.
            Entretanto, Boff argumenta que, citando as palavras de João Paulo II: “ninguém pense que lhe baste: a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o assombro, a observação sem a exultação, a ati­vidade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a hu­mildade, o estudo sem a graça divina, a investigação sem a sabedoria da inspiração divina”.
            Mesmo Tomás de Aquino, teólogo escolástico, afirmava que a teologia não se dá fora de um contexto de fé viva e fervorosa. Indubitavelmente, ele sustentava que a teologia é uma sabedo­ria de tipo científico, pois vem pelo esforço do estudo pessoal. Nisso ela se distinguiria da sabedoria de tipo místico, que vem como dom na forma de experiência espiritual.
            Neste processo, a oração tem um papel importante na teologia, porque sem oração não haverá boa teologia. Poderá haver teologia culta, brilhante, mas não teologia viva e fecunda. Boff argumenta que a oração é necessária em teologia por uma razão intrínseca, isto é, fundada em seu próprio objeto, que é, em verdade, um Sujeito. Sendo assim, argumenta-se que a teologia não trata de algo, mas de Alguém: Alguém que fala à sua criatura para lhe revelar seu amor e salvá-la.
            No outro pólo da questão, o racionalismo ao longo da história sempre se mostrou tentador para o estudo teológico. Com os protestantes não foi diferente. A teologia da Reforma que iniciou com uma fé que nascia da experiência, depois de dois séculos transformou-se em uma dogmática fria e polêmica.
            O autor levanta a seguinte problemática: “quais seriam as causas da dissociação entre teologia e espirituali­dade?”. Responde-se que houve uma influencia ocidental do racionalismo. Mas no fundo, porém, aquela desconexão é devida ao desequilíbrio geral entre razão, vontade e ação, cuja raiz está na queda original. Assim, o saber teológico corre sempre o risco de cair no orgulho e esfriamento da fé, especialmente no contexto da cultura secularista como a ocidental.
            Por fim, Boff propõe algumas saídas para uma teologia que concilie a razão com a vida espiritual. Precisa-se hoje agregar à dimensão teórica da teologia a espiritual. Necessita-se de uma teologia integral, que seja experiencial, mas também científica, sendo “luminosa e numinosa”. 

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