21 de abril de 2017

Resenha: Quanto vale ou é por quilo?

Foto: TV Brasil.
Job. Nascimento

            O filme “quanto vale ou é por quilo” faz um paralelismo entre o comércio de escravos de alguns séculos atrás e a atual exploração da miséria pelos profissionais do marketing social, que mostram uma solidariedade que é apenas de fachada. O capitão-do-mato, no filme, captura uma escrava fugitiva, que está grávida. Depois de entregá-la ao senhor de engenho e receber a recompensa, a escrava aborta o filho que esperava. Na atualidade uma ONG implanta o projeto de Informática na Periferia em determinada comunidade carente. Arminda trabalha no projeto, descobre que os computadores foram comprados com notas superfaturadas, por isso ela precisa ser tirada do esquema. Candinho é o matador de aluguel que é responsável por eliminar a moça e, assim, tenta conseguir sustento para a esposa grávida.
            No texto de Vera da Silva Teles encontramos a argumentação de que o Estado estava sendo desmantelado e os serviços públicos eram precários em tempos de neoliberalismo dominante. Tentamos entender primeiramente o contexto imediato da autora e verificamos que ela é oriunda da faculdade de humanas da USP (instituição de forte influência esquerdista) e o texto data de 1998 (ano em que FHC estava na presidência). Dito isso, podemos entender as críticas da autora às políticas públicas de então. A autora afirma que seu texto não deveria ser entendido como apenas um exercício de reflexão para pôr à prova o sentido crítico e questionador que a linguagem dos direitos.
Celina Souza, no entanto, afirma que as últimas décadas registraram o crescimento da importância das políticas públicas, assim como das instituições, regras e modelos que regem sua decisão, elaboração, implementação e avaliação. Isso é notório, na atualidade o imenso gasto em políticas públicas com a pretensão de erradicar a pobreza e/ou incluir camadas mais pobres da sociedade no mundo digital e no mercado de consumo.
Se por um lado, essas políticas públicas são importantes para o resgate e desenvolvimento de muitas pessoas que estão à beira da sociedade, por outro lado elas criam pessoas dependentes cada vez mais de um Estado paternalista que o ajude e ampare. Não gera no cidadão o desejo de perseguir seu sustento já ele é dado pelo Estado. Além de facilitar o desvio e a indústria milionária das ONG’s que movimentam muito dinheiro às custas da necessidade de outros e, pretensamente, promovendo solidariedade e inclusão de pessoas carentes.
Diante disso, e fazendo uma junção entre o filme e os textos em análise, podemos concluir que vários fatores contribuíram para dar maior visibilidade desta área das políticas públicas. O primeiro fator foi a adoção de políticas restritivas de gasto, que passaram a dominar a agenda da maioria dos países, em especial os em desenvolvimento. A partir dessas políticas outras medidas econômicas como as sociais, ganharam maior visibilidade.
            É indubitável que no Brasil há muitas desigualdades em várias esferas da vida social (herança dos tempos de escravidão). Entretanto, essas constatações de desigualdades sociais no Brasil que são mostradas no filme, também há um ciclo vicioso que gera e sustenta essas desigualdades e que aparentemente se mostra como solução para esses problemas: criação de ONG’s. O filme é irônico e taxativo na sua análise das desigualdades no Brasil, mas assistindo e enxergando a partir das lentes dos textos supracitados podemos entender e concordar com o roteirista desse longa metragem. 

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