27 de março de 2017

Análise do poema "o retrato" de Cecília Meireles.


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— em que espelho ficou perdida,
A minha face?

(Retrato, Cecília Meireles)

             Observa-se no poema supracitado que o eu lírico desenha a si mesmo, descrevendo as mudanças que ocorreram com o passar do tempo: mudanças físicas, psicologias e de percepção. A autora compara quem ela era no passado e como ela se enxerga no presente.
As alterações observadas por Meireles são elencadas pela descrição de alguns membros, como: olhos, lábio, rosto e mãos. Todos esses órgãos recebem um adjetivo que não corresponde ao que era anteriormente, mas que correspondem ao que eles se tornaram.
            Neste poema, como em outras partes da obra de Cecília Meireles notam-se alguns temas comuns, tais como: a existência humana, a invalidade dos bens materiais, a falta de sentido na vida, a solidão, a perda e a distância. A rapidez no tempo da vida é descrito pela mudança: “tão simples, tão certa, tão frágil...”. No poema percorre-se toda a existência humana: a infância, a adolescência, a fase adulta e idosa. Em tom melancólico, mas não desesperador a autora descreve essa mudança como algo comum e que se tem que aceitar, pois é a condição natural da vida humana.
            Cecília Meireles aborta essa temática através de sua linguagem poética carregada de símbolos e traços estilísticos, podendo ser considerada como uma poetisa pós-simbolista. Os versos curtos de Meireles, bastante pessoal têm características descritivas e sensoriais.

Nos últimos versos do poema há uma indagação do eu lírico, que pretende saber em qual momento perdeu sua vivacidade. A poeta fala de forma metafórica “espelho” que poderia significar o lugar, a circunstância; a “face” pode significar a vida, a infância e juventude. Meireles de forma magnífica e utilizando o eu lírico destaca o tema da existência humana e sua fugacidade de maneira filosófica, mas simples. 

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