15 de fevereiro de 2016

Crimes extremos ou a criatividade perturbada: assassinos em série.

Jack, o Estripador, em cena
do jogo 
Assassin’s Creed.
André Peixoto de Souza
Jack, o Estripador, esse misto de lenda e realidade, pertence a um mundo pretérito, romântico, sanguinolento por “princípio ético”: o clássico matador de prostitutas, agora útil mais à compreensão do fenômeno do morticínio cruel (ou ainda ao povoamento de um imaginário popular e literário) do que à ciência criminológica propriamente dita.
Um dos primeiros intelectuais a estudar o fenômeno patológico do assassinato em série foi o médico alemão Richard von Krafft-Ebing, na tese “Psychopathia Sexualis”, de 1886. No limite do comportamento sexual sádico estaria – como o próprio Sade compõe – o homicídio. Tesa essa que ganhou notoriedade e importância tamanha capaz de influenciar a teoria freudiana e toda a psiquiatria forense, bem como a criminalística contemporânea.
Os EUA possuem hoje os mais apurados estudos em crime serial do mundo. E não é à toa que tudo isso vem parar em nossas telas de TV, com filmes, seriados e programas sobre o tema. O FBI possui um “ranking” de patologia para os assassinos em série, e a todo instante estrutura seminários e publicações para auxiliar na compreensão, investigação e captura dos suspeitos. Uma perspectiva multidisciplinar sobre homicídio em série foi desenvolvida para investigadores e curiosamente se encontra disponível na página do “Bureau”.
Sucintamente, pode-se adiantar a percepção de que o assassinato em série é um evento extremamente raro. Talvez seja mais frequente em Hollywood do que em todo o mundo real. Mas, quanto aos “serial killers”, alguns mitos merecem ser desvendados. Em primeiro lugar, eles não são reclusos e isolados, que moram sozinhos ou com a mãe. Não são monstros e não aparentam estranheza nem necessariamente feiura ou deformação física e mental. Aliás, muitos deles possuem família, constituem lares, possuem uma rotina social e profissional comum. Outro engano é pretender sempre relacionar o assassinato em série a fatores sexuais.
Existem várias outras motivações para o homicídio serial, como os elementos psicológicos sentimentais (raiva, emoção, inveja, busca de atenção) ou então razões elementarmente financeiras – um matador de aluguel pode ser considerado um “serial killer”, e se recebe muitas “encomendas profissionais”, configura a motivação econômica, que nada tem a ver com psique ou sexualidade.
Outros mitos curiosos desvelados pelo FBI, e que normalmente chegam pela TV porquanto midiaticamente apelativos, são: o fato de não serem necessariamente os “serial killers” viajantes interestaduais que deixam seu rastro de sangue – pistas – num roteiro pré-estabelecido ou mesmo improvisado; que não conseguem parar de matar até que sejam capturados – aqui quer parecer que o FBI reconhece não haver solucionado alguns casos; que todos são insanos ou então calculistas e ardilosos “gênios do mal” – isso sim é deveras midiático!
Mas é certo que existem dois ingredientes que captam atenção do público e a mídia amplia ao máximo as suas possibilidades quando de uma ocorrência. Os ingredientes são a astúcia e o macabro.
A astúcia, de fato, está normalmente presente, salvo nos casos de distúrbio mental. E o macabro idem, o que não significa que para ser macabro a cena do crime deva ser necessariamente sanguinolenta. Às vezes um único tiro na testa pode revelar maior frieza e perturbação do homicida sem motivação do que um esquartejamento ou um canibalismo.
Mas isso já é tarefa para a psiquiatria forense, que apresenta inúmeros índices de volatilidade da mente humana, e nos dá uma demonstração do que somos capazes.
Fonte: Canal Ciências Criminais.
Autor: André Peixoto de Souza é doutor em Direito pela UFPR. Doutor em educação pela UNICAMP. Coordenador do curso de mestrado da UNINTER. Coordenador do curso de direito da UFPR. Advogado. 

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