7 de outubro de 2015

Será que existe Deus? - Texto de Emil Brunner.


Se alguém pergunta nestes termos, só é possível responder como aquele sábio grego, ao qual curiosos perguntaram, assim, por Deus: Silenciou. Esta é a única resposta cabível a perguntas da curiosidade: "Existe um Deus? Estou curioso por saber se existe ou não". Convinha, talvez, retrucar: Não, Deus não "existe". Existe a cordilheira do Himalaia, existe o planeta Urano, existe o elemento rádio, existem, enfim, todas aquelas coisas de que falam as enciclopédias. Mas, Deus não "existe", ou, em outras palavras: Deus não existe para os curiosos. Deus não é um objeto da ciência, não é algo que possamos incorporar ao nosso patrimônio de sabedoria, como o filatelista adquire e inclui em sua coleção uma estampilha rara, para dizer: Ali está, a mais linda, a mais preciosa de todas. Deus não é algo nesse mundo, quiçá o maior dos seres ou o maior dos habitantes da Terra. Deus não está no mundo, pelo contrário, o mundo está em Deus. 

Se respondêssemos à tua pergunta: "Sim, Deus existe", irias para casa enriquecido, apenas, por mais uma ilusão. Haverias de pensar: Deus também é algo daquilo que "existe". Precisamente isso ele não é, se é verdadeiramente Deus. Ele nunca é algo ao lado ou entre outras coisas. Não há algo congênere com o que existe. Montanhas, planetas e elementos são objetos da ciência; mas Deus não. Porque Deus é a causa de que há algo para conhecer e saber. Sem Deus nada existiria. Sem Deus nada poderíamos saber. Só é possível saber algo porque Deus é. Só é possível perguntar por Deus, porque ele já é o autor secreto da pergunta. Senão vê. Se perguntares, sinceramente, por Deus, não como curioso, não qual filatelista espiritual, mas sim, aflito, de coração angustiado, acuado pelo medo de que poderia não haver um Deus, e, consequentemente, tudo ser em vão e a vida toda um grande absurdo, se perguntares assim por Deus, já sabes em princípio que ele vive. Não poderias perguntar, assim, pelo Altíssimo sem saber algo dele. Queres que haja Deus, porque do contrário tudo é absurdo. 

Teu coração, efetivamente, já sabe de Deus, porque, do contrário, o mal não seria mau e o bem não seria bom; seria tudo o mesmo. Não há dúvida, sabes que Deus é, por saberes que o bem e o mal não devem ser iguais. Talvez duvides da existência de Deus em face das muitas injustiças que há no mundo. Ainda não notastes que, duvidando, crês em Deus? Que a justiça esteja com a razão e não com a injustiça, não é outro postulado que esse: Há um Deus. Teu coração protesta contra a injustiça, porque conhece a Deus. Quando perguntas por Deus, ele já está à tua retaguarda e faz com que possas perguntar assim.

Não é o coração apenas; a natureza também nos fornece indícios de Deus. Nunca vi que o acaso criasse ordem, que do acaso surgisse algo de lógico, harmonioso e até artístico. Não é crendice crer que Deus criou o mundo; mas demonstra falta de absoluta falta de critério e juízo quem acredita que o olho humano, a constituição de um inseto ou um campo florido nada mais sejam do que obras do acaso. Quem vê um muro, logicamente deduz: Mãos humanas empilharam essas pedras, não o acaso. Milhões de vezes mais complicada e artística é a constituição da retina do olho. Ignorar ou desconsiderar esse fato é tudo, menos prova de inteligência. A pergunta "Existe Deus?" é, mais precisamente, uma enfermidade psicológica. Quase diria que é pergunta de um louco, de uma pessoa que não pode mais ver as coisas na sua simplicidade, sobriedade e clareza. Mas algo dessa loucura está passando por todo o mundo, e nós todos sentimos suas conseqüências. Pode-se dizer, no entanto, que estamos sofrendo de uma loucura nova. Até à nossa era os homens -- pelo que conhecemos de nossa história -- não perguntaram: "Existe um Deus?" e sim: "Como é Deus?" Pelo que parece, os sucessos da ciência e da técnica nos subiram à cabeça, perturbaram nossos sentidos. Achamos que tudo deve ser explicado pela razão e o que não somos capazes de realizar com nossa razão, seria acaso. 


Consideramo-nos os únicos a fazer ordem e algo de artístico no mundo, não percebendo sequer que, para realizar algo de artístico, precisamos de um cérebro maravilhoso e mãos artísticas que certamente, não criamos nós mesmos. Perguntar "Existe Deus?" é fugir da seriedade. Onde há seriedade, sabe-se: O bem não é igual ao mal, nem o mal igual ao bem. Justiça e injustiça são coisas diversas. Deve-se fazer o que é justo, deve-se evitar o que é injusto. Há uma ordem sagrada, à qual estamos sujeitos, querendo ou não. A seriedade é o respeito à voz da consciência. Se não há Deus, então a consciência é um mero hábito arcaico e primitivo, que para nós nada vale. Se não há Deus, então cesse com o esforço em prol de uma vida justa. Tudo dará no mesmo: canalha ou santo. Mas isso são, apenas, delírios. Não temos com que segurar quem fala assim: que vá o seu caminho.

Mesmo assim, -- se há Deus, por que é preciso perguntar por ele? Nosso coração não se desfaz da questão. Sabe de Deus, mas nada com certeza. Nossa consciência nos fala de Deus, mas sem clareza. Nossa razão atesta Deus, e, mesmo assim, não sabe quem ele é. O mundo aponta para Deus como que com milhões de dedos -- mas não nos pode mostrá-lo. Que é Deus, que pretende conosco, que deseja de nós, qual o seu plano para com o mundo? Só poderíamos conhecer bem a Deus, se ele a nós se revelasse. A razão, a consciência e a natureza com suas maravilhas nos afirmam que há um Deus, mas não nos explicam quem ele é. Ele mesmo no-lo diz em sua revelação.

BRUNNER, Emil. Nossa Fé.  Pág. 9 ss. São Leopoldo/RS: Sinodal, 2007.

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