28 de abril de 2015

Razão, teologia e subjetividade no liberalismo teológico.

Carlos Neri

         O racionalismo, herdeiro e devedor do humanismo renascentista anunciou a humanidade um novo modo de pensar e conceituar  a realidade, através da prolongação da tradição clássica do zoon lógikon, dando –lhe um novo conteúdo, “pois nela o esquema mecanicista (ou a primazia do modelo da máquina) se estenderá a explicação da vida e do homem”.(LIMA VAZ: 2006, p. 71). 
 A compreensão humana baseada na “observação e na medida” proporcionou a constituição de “um grupo epistemológico das ciências humanas, no sentido moderno do termo, e quão profunda influência passariam a exercer sobre a idéia do homem em nossa civilização” (LIMA VAZ, 2006. p.81).
         O projeto do racionalismo, cuja experiência e análise se tornam juízes do conceito de verdade e realidade se unifica quando os seus vários aspectos partem para uma concepção do homem, bem como da história humana que se afastam da concepção dominante dos séculos cristãos. Paulo Sérgio do Carmo afirma que na história do homem “houve três grandes mudanças no modo do ser humano se ver”, conforme ele mesmo escreve:

“Desde os tempos remotos, houve três grandes mudanças no modo de o ser humano se ver. Três grandes golpes foram desferidos em nossa vaidade. Antes de Copérnico, pensávamos ser o centro do universo e que os corpos celestes giravam ao redor da terra. Mas o grande astrônomo desfez essa pretensão. Tivemos que admitir que o nosso planeta é um dos muitos que giram em torno do sol e que há outros sistemas solares além do nosso, em mundos incontáveis. Antes de Darwin, o homem achava ser uma espécie única, separado e isolado do mundo animal. Mas o grande biólogo nos fez ver que o nosso organismo é um produto de um processo evolutivo, cujas leis não são diferentes de outras formas de vida animal. Antes de Freud, o homem achava que o que dizia e fazia era produto de sua vontade consciente, somente. Mas o grande psicanalista revelou outra parte de nossa mente funcionando em segredo, e que pode até mesmo controlar nossas vidas (CARMO APUD FREUD, ALÉM DA ALMA, 2007.p. 11).

         Essas descobertas que proporcionaram grandes mudanças na forma do homem ver a realidade e se ver diante dela, alcançou a teologia cristã e procurou transformá-la, reestruturá-la de forma a assimilar os seus pressupostos teóricos. Brunner, nos inícios do século XX reconhece o poder que a renascença e o racionalismo tiveram sobre o pensamento teológico ao afirmar que as descobertas cientificas, o desenvolvimento das ciências históricas e a ciência natural apregoada pela biologia destruíram a concepção medieval de mundo alterando o posicionamento cristão frente as Sagradas Escrituras e a construção Tomista de Deus. Brunner afirma que a ciência moderna é causa da destruição dos fundamentos da teologia cristã.

“...Este movimento intelectual e ordem de vida geral está estritamente relacionado à ciência moderna, que é em parte – e muito mais assim – seu efeito. À primeira vista, de fato, é como a ciência moderna fosse o principal fator na destruição dos fundamentos da teologia revelada e fazendo necessário um restabelecimento da religião em termos de imanência”. (BRUNNER, 2000. p.229). 

         A concepção sobre o que é o cristianismo, para Brunner, estava fundamentada na fé na revelação de Jesus Cristo como filho de Deus, revelação está que foi possível através de sua encarnação na história humana de forma transcendente e milagrosa, ou seja, Jesus Cristo não é produto da história, mas, passou a fazer parte desta no momento que ele se tornou homem.
         Os postulados do racionalismo, por sua vez, procuraram demonstrar de forma racional que a realidade do transcendente está intimamente ligada a razão, sendo está à criadora de um Ser absoluto diante da incapacidade intelectual do homem de abstrair o universo infinito, a tendência de creditar a existência de Deus aos limites da razão, estão configuradas na seguinte frase de Hegel:

“Deus é Deus só enquanto se conhece a si mesmo. Seu conhecimento de si mesmo é sua consciência de si mesmo no homem; é o conhecimento que o homem tem de Deus, que leva também ao conhecimento de si mesmo que o homem tem em Deus”. (MACKINTOSH APUD HEGEL, 2004. P. 113.).

         Para Hegel o “real é o racional e o racional é o real”, portanto, a mera idéia de Deus para ser realidade objetiva deve partir de uma fonte imanente, a razão julga e decide o que é a verdade, tudo o que estiver fora dela não pode ser considerada real e existente. Portanto, essa inflexão radical dos céus para a terra, do divino para a observação metodológica, consiste para Brunner uma dissolução da teologia e sua transformação em filosofia moderna, perdendo o seu caráter espiritual e redentor.                 Ao descartar a possibilidade de um ser divino e pessoal que governa acima de nós, o racionalismo sendo representado pela rápida expansão das ciências, declara guerra aos postulados cristãos e pressiona a teologia a reestruturar a idéia de Deus, partindo, para uma lógica imanente reduzindo, portanto a existência de Deus ao espírito do mundo.
         A relação do Eu Penso, como consciência –de –si com o mundo exterior, parte da perspectiva do individualismo, onde o homem “agente único da razão” pode submetê-la a critica do pensar e a práxis construindo, por sua vez, instrumentos necessários que mediam sua ação no mundo, dessa forma, o homem em sua especificidade é um ser biológico, resultado de um complexo processo evolutivo e livre, cuja ação da razão o proporciona a construção e a reconstrução de toda sua realidade, devido a sua necessidade de sobrevivência.

Para Marx, a especificidade do homem se destaca sobre o fundo das características que ele tem em comum com os animais, seja o homem, seja o animal se definem pelo tipo de relação que os une a natureza, isto é, pela forma como vivem a vida. Ora enquanto o animal é a sua própria vida, o homem cabe produzir a sua. Essa produção da própria vida ira implicar no homem, os predicados especificamente humanos da consciência – de si, da sua intencionalidade e da linguagem, da fabricação e uso de instrumentos e da cooperação com seus semelhantes. (LIMA VAZ, 2006. P.119).

         Ao entendermos a lógica do projeto desenvolvido pelo racionalismo, entendemos que a teologia clássica ou reformada, cujas bases se sustentavam sobre a fé na revelação do filho de Deus, não teria lugar na modernidade se seus postulados não fossem alterados. Sua elaboração do conceito de mundo e de homem deveria ser aprovada pela razão, culminando em uma rápida inflexão do transcendente para o imanente a partir de um referencial filosófico e metafísico.
As criticas de Brunner acerca dessa dissolução da teologia em uma filosofia teísta, comunga com o fundamentalista Charles Rodge, que em sua teologia sistemática e na sua defesa da ortodoxia, demonstra a originalidade da teologia e a não compatibilidade desta com a filosofia moderna e critica a transformação da teologia em ciências da religião.
A fundamentação da critica ao estado da teologia como ciências da religião possui dois critérios: o primeiro é a “diversidade de conceitos quanto ao que significa religião” tornando-a vaga e insatisfatória, em segundo lugar “essa definição faz a teologia inteiramente independente da bíblia”, assumindo o status de “análise da consciência religiosa”. Para Rodge a teologia deve se “restringir á sua esfera real, como a ciência dos fatos da revelação divina até onde os fatos dizem respeito á natureza de Deus e a nossa relação com ele, como suas criaturas, como pecadores e como sujeitos da redenção”. (RODGE, 2001, p. 16).

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