27 de abril de 2015

O Modernismo na História da Teologia (Comentário de “Teologia da Crise” de Emil Brunner).

Carlos Neri

Moderno, modernizar ou modernismo decididamente é a uma reestruturação de algo que implica a falência daquilo que não pode ser mais considerado útil ou relevante em todos os aspectos da vida humana, isso se aplica ao mundo do trabalho, a sociedade, a religião e a própria teologia.
A teologia cristã ocidental sempre sofreu tensões e conflitos, isso porque as transformações sociais e filosóficas em toda sua história a forçou a se adaptar a novos paradigmas para não perder o seu conteúdo e estatuto epistemológico. Em primeiro lugar, a teologia se viu obrigada, frente ao desafio de eliminar o gnosticismo, de buscar um referencial teórico que a pudesse se expandir pelo império romano, passando a ser classificada como a “verdadeira filosofia” ao cristianizar o eixo filosófico do platonismo e do estoicismo.
O século IV e o concilio de Nicéia ofereceu ao pensamento cristão um lista de receitas dogmáticas, o cânon e a doutrina da trindade conseguindo enfim, estabelecer uma regra de fé e prática que somente foi questionada no século XVI pelo então monge agostiniano Martinho Lutero. Depois da reforma, uma onda de reformulações e modernismo teológico invadiu a igreja dividindo e desfragmentando a fé cristã em grupos com ideologias determinadas, essas por sua vez criaram suas próprias teologias que legitimadas por um sistema doutrinário restringia e modelava o comportamento de seus fiéis e a forma de interpretar a fé cristã.
Emil Brunner enfatiza categoricamente que a “substância da teologia cristã, o conteúdo da fé cristã, está em um estágio de completa decomposição” (BRUNER: 2000, p. 28) e a causa ou ponto disparador para essa crise foi a renascença, movimento revolucionário que abalou as estruturas da autoridade eclesial, demonstrando ao homem que sua confiança deve estar na razão e não em um Deus transcendente.
A renascença, como movimento cultural e filosófico transformou todo pensamento Europeu e revolucionou o mundo ao romper com o mundo medieval e com a metafísica aristotélica cristianizada por Santo Tomás, mas não foi diferente dos séculos passados, lembramos que a filosofia grega foi revolucionaria ao dar um embasamento teórico a teologia, da mesma forma os concílios ecumênicos e a reforma protestante.
A renascença cumpriu seu papel revolucionário, e a teologia por sua vez, aceitou seus pressupostos, pois a necessidade de continuar existindo, o instinto de sobrevivência levou a adaptação, da mesma forma ocorreu no racionalismo onde houve uma nova reformulação teológica e o Deísmo veio para salvá-la.
Concordamos, porém que a teologia cristã perdeu o seu sentido ortodoxo e que as transformações sociais, políticas e filosóficas do Ocidente contribuíram mais para a negação da fé do que para sua veracidade, o Racionalismo, através da figura de Hegel transformou a idéia de Deus em uma concepção meramente psicológica e o século XXI, capitalista e tecnológico inverteu a ordem do evangelho ao ensinar que devemos nos preocupar com nosso conforto e felicidade econômica, sendo que o Reino de Deus, por sua vez, seriam acrescentados.
Dessa forma, podemos concluir que a teologia, ao deixar lacunas na sua interpretação de mundo, proporcionou ao homem pressioná-la em favor do novo e do inovador, até cairmos na profunda alienação do capital, mais uma vez a teologia se molda e se deixa inovar, na verdade, no mundo atual a teologia se decompôs totalmente e trouxe para seu discurso o projeto falido da busca da felicidade através do econômico onde não há mais lugar para uma soteriologia.
      Brunner acusa a ciência moderna de tomar o lugar da revelação no filho de Deus e de criar um conceito imanente de divindade, de fato, esse era o objetivo do racionalismo do século XIX e inicio do século XX, mas no século XXI o projeto pós –moderno é acentuar a figura do Jesus histórico e a desmistificação das Sagradas Escrituras conforme escreveu Bultmann, por outro lado, e especialmente no Brasil, onde existe um grande misticismo e sincretismo religioso, a fé é direcionada para a satisfação social e econômica, se tornando uma forte colaboradora da manutenção do capital, sendo assim, uma época que perdeu sua fé no absoluto, perdeu tudo. Ela deve perecer, ela não tem vitalidade para sair da crise; seu fim pode apenas ser – o fim. (BRUNNER: 2000, p.31).   

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