23 de abril de 2015

Antigo Testamento: uma mensagem social?

Carlos Néri

         Henrique Cláudio de Lima Vaz procurara na segunda parte de seu livro, interpretar e interpelar para o mundo atual a mensagem social que o Antigo Testamento expressa, reconhecendo, porém, que sua conjuntura sócio-econômica e suas instituições não podem ser ressucitadas, pertencendo somente aos arquivos e a construção analítica do historiador.
         A condição preliminar para extrair a mensagem social do Antigo Testamento que nos interpele hoje é aceitarmos sua integralidade, sua unidade e espiritualidade meta-histórica, mesmo que a construção de seus documentos foram realizadas por diversos autores em tempos diferentes. O antigo Testamento é uma unidade cuja palavra se desdobra sempre fiel a si mesma e que traduz um desígnio de salvação que se apresenta como o sentido mais profundo da história humana: a palavra de Deus. Essa palavra vivente, e não um texto morto, é o que hoje nos interpela, provoca nossa reflexão e, finalmente, nossa decisão.
         Os livros do Antigo Testamento, ao transpor da letra ao espírito, aparecem unificados em torno de certas “categorias fundamentais” ou linhas mestras da revelação, que nos permitem captar seu sentido profundo e sua significação meta-histórica para além do texto material em que se exprimiu e das inconclusões transitórias em que foi escrita.
As categorias que nos permitem unificar o desenho histórico da palavra de Deus, de que a bíblia nos transmite a revelação, transmitem uma realidade essencialmente dinâmica: do gesto à palavra, do costume à instituição, da lei à profecia, da figura que passa à realidade que se anuncia definitiva, todas as grandes linhas de interpretação espiritual da Bíblia marcam as fases e os passos de uma história na qual se pretende decifrar o sentido mais profundo e o destino mesmo da história humana.
Lima Vaz pergunta sobre a possibilidade de elevar o paradigma da história universal ao caminho histórico de Israel, justificando a passagem do particular ao universal sem abandonar o plano do inconclusivo, do temporal e do irremediavelmente passado. A realização dessa visão só é possível através de uma perspectiva que transcende o âmbito estrito da razão histórica, das suas verificações e das suas inferências.
É através da perspectiva da fé, afirma Lima Vaz, que se dispõe audazmente a verter o magma imenso e disforme da humanidade histórica, seus tempos, suas culturas, suas raças, seus eventos significativos, no sulco cavado por uma pertinaz esperança no duro solo de uma história feita de lutas, de sofrimento e de morte, e que se aprofunda na direção daquele estado final já anunciado pelos profetas ao povo de Israel: a plenitude messiânica da reconciliação final, o reino da justiça e da paz.
O que caracteriza e que confere ao povo de Israel exemplaridade privilegiada é a apropriação dessa esperança que se torna progressivamente sua substância mesma e como sua razão de ser. A mensagem social do Antigo Testamento está em ir ao encontro dessa esperança e projetá-la como um desafio diante dos nossos problemas, das nossas perplexidades, do nosso desalento, da nossa desesperança, enfim.
Mesmo do ponto do vista de uma análise dos elementos constitutivos da história espiritual do Ocidente, observa Lima Vaz, a história de Israel aparece de forma exemplar ou arquétipa com relação a essa história e aparece nitidamente, sobretudo após a difusão e o triunfo final da pregação cristã no mundo antigo, somando a sua herança a herança grega da razão e a herança romana do direito o sentido da inteligibilidade da história na sua própria textura empírica aparentemente desordenada, como progresso e marcha em direção a uma plenitude final.   
A idéia de “história da salvação” na sua procedência e na sua característica especificamente bíblicas, passa a constituir-se em elemento integrante da consciência histórica do Ocidente, sem a qual em nossa tradição cultural e nossos problemas presentes seriam incompreensíveis sem a presença dessa intuição revolucionária em face às doutrinas da salvação pela fuga do tempo que seduziam o homem antigo.
A intuição de uma salvação que se opera na história, nela se constrói, e confere a seus eventos uma significação decisivamente antropológica que se constrói em sua trajetória cultural a se tornar revolucionária ao desconstruir o reflexo fugidio de uma eterna ordem cósmica sobranceira e indiferente aos seus dramas, tal como surge na visão austera do estoicismo operando uma capital inversão de perspectivas em relação ao procedimento característico do pensamento grego: não é mais a partir do mundo que o divino se descobre como ordem impessoal e eterna, mas é a partir do drama da liberdade humana nas suas vicissitudes históricas que o Deus pessoal se revela e é a partir desse dialogo com Deus, que para o homem, a visão do universo se desdobra.
Para quem queira buscar caracterizar em alguns dos seus traços fundamentais a cultura ocidental que hoje se mundializa e em cujo seio se elaboraram os problemas decisivos da nossa época, Lima Vaz apresenta uma evidência irresistível: a cultura ocidental evolui sob o signo de uma exploração sempre mais avançada, de um aprofundamento sempre mais radical do universo humano da palavra.
O homem que possui a palavra por excelência, é a melhor definição do homem da cultura ocidental, tal demonstração se evidência através da “integração” sucessiva na sua linguagem e a “eficácia” de uma gravidade incomparável as suas maiores revoluções suportadas pela palavra humana: “a descoberta grega da razão e a descoberta bíblica da história”.
As reflexões que se sucedem no prolongamento dessas duas descobertas capitais dos problemas que se levantam ao longo da evolução da cultura ocidental, sua tomada de consciência e sua expressão na palavra que lhes dá significação humana, deve afrontar permanentemente, como tarefa difícil e decisiva, a síntese entre o “aspecto da palavra” que traduz as exigências da razão, suas técnicas de investigação, suas formas de demonstração, seus critérios de evidência e o “aspecto da palavra” que se encarna na responsabilidade historicamente assumida, na decisão em face de um “universo pessoal” e que é, em suma, a palavra mesma da liberdade. (1)
Razão e liberdade: estes são os pólos de amplitude máxima entre os quais oscila o humanismo do Ocidente, se tornando presentes também, num espaço onde a civilização constrói suas estruturas fundamentais e traça seu destino, quando se trata de pensar e realizar a comunidade político-social nos seus tipos de organização e no seu sistema de relações e, nela, a situação do individuo.
(1) podemos usar como linha de compreensão para a liberdade situada os aspectos da pré-compreensão do homem, onde é evidenciada a imagem de si mesmo nos diversos períodos históricos. (ver Antropologia Filosófica I).

Sobre a trajetória da razão nas grandes palavras históricas que se pronunciaram no Ocidente sobre a melhor forma de sociedade, Lima Vaz destaca a República de Platão, presente na eternidade das idéias e a Cidade futura de Marx antecipada nas leis de uma rigorosa dialética, que tende pelo seu imperativo da racionalidade a “esvaziar” a história concreta das liberdades no transrealismo poético e na utopia de uma “cidade do sol” onde o mistério de cada um é devassado e eliminado pela luz implacável de uma razão superior a todos.
Das filosofias sociais às ideologias e destas aos planejamentos tecnocráticos, a palavra da razão reclama uma validez universal: a ela o individuo deve submeter-se, pois nenhuma instância se apresenta superior à sua própria universalidade. A marcha para o “admirável mundo novo” da superorganização e da perfeita adequação entre o racional e o real seria tranqüila, se outra palavra, “igualmente absoluta” em suas exigências, não se tivesse feito ouvir no espaço da civilização do LOGOS.
Essa palavra descobre no homem o núcleo abissal da sua liberdade, interpretada por um Deus pessoal que gera ao “agora” de sua existência histórica a gravidade infinita de uma opção que pode decidir o seu destino. Essa palavra nos vem da bíblia. Essa palavra é a “descoberta israelita da história” que se torna a outra palavra matriz da cultura ocidental, que suscita, uma vez consumada a fusão do helenismo com o cristianismo, em face de todos os projetos de sociedade perfeita que a razão deposita ao longo da história da civilização ocidental, a reivindicação da originalidade irredutível do homem, imagem de Deus, interlocutor do diálogo com Deus.
Dessa forma, é como afirmação do “universo pessoal”, ou seja, da transcendência do homem na sua dignidade de ser que dialoga livremente com Deus que a descoberta da história realizada pela longa tradição judaica se torna essa outra palavra matriz da cultura ocidental, aparecendo nela consubstanciada à mensagem social do Antigo Testamento. A história nesse sentido não é apenas o teatro ou o espetáculo onde o homem está presente e sim, em definitivo, a obra e o fruto de sua liberdade.
Seguindo uma linha de reflexão que busca os fundamentos da sociabilidade humana segundo a Bíblia, o Padre Vaz encontra uma concepção antropológica profundamente original contida no tema da unidade do homem e que justifica a valorização da história e do tempo presente, acentuando poderosamente o risco existencial de sua liberdade.
A idéia bíblica do homem entra em contraposição aos esquemas dualistas dos mitos religiosos e das grandes filosofias ao afirmar categoricamente a unidade radical do existir do homem. Nela encontramos em forma de empréstimo traços desse dualismo ou pluralismo que faz do homem na sua condição terrena e carnal um ser dilacerado que busca, através da negação dessa condição, o caminho para o encontro de sua verdadeira essência.
O esquema platônico da alma, corpo e espírito exprime o conflito de naturezas que impõe ao homem o estatuto de uma alienação que se pode chamar propriamente de metafísica. Tal estatuto presente também na Bíblia traduz a complexidade de uma situação existencial, de que a fragilidade da carne, a plena força da vida e a abertura do espírito para o diálogo com Deus exprimem as suas estruturas fundamentais.
Dessa forma, todo o peso da concepção bíblica do homem incide sobre a gravidade única e decisiva da sua situação histórica, pois o tempo do seu existir concreto, em que a “carne” fenece e a “vida” declina, é o mesmo em que ele ouve o apelo e a vocação de Deus e constrói, na palavra da sua resposta, seu ser definitivo. Nisso descobrimos porque a descoberta Bíblica da história só se torna compreensível a partir de uma concepção antropológica rigorosamente definida, em que a unidade do homem se estrutura precisamente em função da sua “situação histórica”.
A unidade do homem no aqui e agora, de uma existência chamada a definir-se diante de Deus, nos ajuda a compreender o eixo temático das construções sociais nela presente, desde o clã dos Patriarcas ao Estado organizado dos reis pós-davídicos. No contexto de sua evolução social, Lima Vaz observa que há uma tensão entre individuo e comunidade que impede, em sua integração a absorção total do poder do Estado como “animal político” segundo a definição célebre de Aristóteles.
A experiência grega da pólis foi capital para a formação da idéia ocidental de sociedade política, Lima Vaz pensa, então, que a descoberta Bíblica da responsabilidade pessoal em face de uma instância transcendente à Cidade, ou seja, em face de Deus, agiu decisivamente na formação da idéia moderna da inviolabilidade da consciência pelo poder político.  Lima Vaz então pergunta: “Como não sentir então a urgência de um retorno a essas fontes do nosso conceito de dignidade humana, de uma meditação intensa do seu significado quando, no caminho do homem do nosso tempo, elevam-se os grandes Leviatãs do poder político, do poder econômico, da cultura massificada, da propaganda onipotente?”.
A concepção antropológica do Antigo Testamento nos confere também uma significação na base das relações sociais associada ao trabalho, que confere uma originalidade marcante em comparação com a concepção dominante na Antiguidade clássica. Na perspectiva do dualismo antropológico, seja religioso, seja filosófico, o trabalho está associado à atividade servil à qual o homem está preso mediante sua parte inferior, ou seja, o corpo. Dela o sábio deve manter-se ao menos idealmente distante, pois ele encarna a humanidade perfeita, na contemplação desinteressada do espírito.
Nas páginas do livro de Gênesis, o trabalho aparece, em primeiro plano, como uma vocação laboriosa onde se traduz à verdade profunda da solidariedade do homem e da terra, fundada na sua origem comum, ou seja, na palavra criadora. É verdade que na perspectiva da história da salvação o trabalho aparece como uma pena imposta ao homem devido a sua desobediência, mas a diferença da concepção hebraica da concepção grega está justamente no fato que tal punição surge devido à condição humana apresentar-se dilacerada pelo conflito dos sentidos opostos, um que fecha o homem a si mesmo, e que gera o pecado e outro que se abre para o diálogo com Deus, para a graça.
O trabalho humano, encontra, assim, na Bíblia, todas as suas dimensões: no plano da criação ele associa o homem ao próprio gesto criador; e no plano da salvação ele é o mediador necessário entre o dom de Deus e o sentido transfigurador e redentor que a história humana – entretecida fundamentalmente pela relação do trabalho – recebe desse mesmo dom. Todos os planos da complexa realidade humana são atravessados de parte a parte por essa ambigüidade fundamental do sentido da existência.
O fundamento da unidade do homem e da dignidade do trabalho faz elevar-se a concepção de justiça, a mais significativa lição, para nós, da mensagem social do Antigo Testamento. Não encontraremos na Bíblia uma definição filosófica e nem um traçado, sobre a justiça, semelhantes ao modelo da Cidade ideal, como em a Republica de Platão.
A concepção de justiça, como em todas as categorias fundamentais que dão forma ao pensamento bíblico, refere-se à experiência primeira e decisiva da audição histórica da palavra de Deus. É a própria intervenção de Deus na história que cria uma dimensão nova nas relações humanas, a partir da própria atitude de Deus para com os homens: atitude de justiça, isto é, de fidelidade, de bondade, de misericórdia.
A justiça, como virtude fundamental da vida em comum, passa a significar, assim, a disposição permanente do acolhimento do outro, sobretudo do estrangeiro, do pobre, do oprimido, que permite, por sua vez, a descoberta progressiva do outro, e nele, da imagem de Deus. Sendo assim, o ensinamento bíblico sobre o bem comum e a prosperidade temporal do individuo e do Estado se nos apresenta marcado pelo mais exigente teocentrismo. A felicidade, dignidade, paz e sentido de vida para os homens e para as nações só é possível na aceitação da soberania de Deus.
Lima Vaz afirma que tal concepção desconcerta a mentalidade secularizada do homem de hoje, e que a secularização do universo político-social é um fruto legitimo da conquista, pelo homem, da sua autonomia na ordem do temporal, por essa razão, seria um simplismo ingênuo querer transportar as instituições e os problemas do pequeno Estado teocrático para a nossa gigantesca e complexa sociedade contemporânea, mas reconhece, que a revolução desencadeada no itinerário do homem através do movimento eterno do cosmos para a relação histórica entre Deus e os homens, foi realizada pela cultura bíblica.
Sobre a perspectiva da mensagem social do Antigo Testamento, Lima Vaz conclui esse capitulo demonstrando a contribuição decisiva da experiência de Israel para a solução do problema mais grave que desafia a humanidade: o problema da significação da sua própria história. Modificando a visão grega do fim da história, onde uma catástrofe proporciona o fim e o recomeço, a visão Bíblica do fim da história é linear e parte de uma gênese, um crescimento, uma caminhada, a marcha irreversível para o fim, onde se estabelecerá o advento do reino de justiça e paz. Uma paz que vem de Deus.
A essência mesma da mensagem social do Antigo Testamento está na consciência messiânica, por ela caminha o homem e nela está o finalismo da história, independente de uma leitura filosófica, histórica ou baseada na fé. A história, afirma o padre Vaz, não se pulveriza em fatos desconexos, nem retorna sobre si mesma na desesperança de um círculo fechado, sobre ela, sobre o seu sentindo final, paira o julgamento de Deus.
O homem que dominou a natureza através de grandiosos instrumentos técnicos e se organizou na sociedade mais extremamente complexa, permanece confrontado ao desafio maior que esses mesmos triunfos lhe opõe: dar a história um sentido verdadeiro humano. Lima Vaz está convencido de que tal sentido somente começará a delinear-se quando o homem reconhecer efetivamente que o valor supremo da história, essencialmente superior aos instrumentos, as técnicas, à organização, aos projetos, às idéias, é o homem mesmo, autor da história. Entretanto, conforme nos ensina a Bíblia, a soberania do homem se perderá em novas idolatrias e novas escravidões se nela, e por ela, não se tornar presente e não for livremente proclamada a soberania absoluta de Deus.
A mensagem do Antigo Testamento nos diz que a superfície do imenso e difícil caminho pelo qual a humanidade vem avançando desde a sua origem mais remota, corre um veio profundo, descobre-se um terreno de definitiva solidez, manifesta-se o desígnio de Deus que torna a história a história humana, na sua significação mais profunda e no sentido mais rigorosamente objetivo, uma teodicéia.

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