9 de abril de 2014

Uma análise dos últimos 20 anos de evangelicalismo no Brasil.

Você é um filho da "geração que dançou"? - uma análise.
Livan Chiroma
Prometiam uma “Nova Unção”. Há cerca de 20 anos o campo religioso evangélico brasileiro estava praticamente estático. O costumeiro declínio numérico das igrejas históricas e o crescimento quantitativo das igrejas neopentecostais, ambos inevitavelmente demonstrado nas estatísticas.
Era inicio dos anos 2000 e os movimentos do tabuleiro evangélico dos próximos anos já pareciam definidos: Caio Fabio, fundador da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) havia se retirado do Brasil. Durante muito tempo ele foi o opositor ideológico da IURD (1977). A Associação foi soerguida para criar polaridade às organizações neopentecostais, que ganhavam poder político e econômico e inseriam a Teologia da Prosperidade nas igrejas brasileiras. No entanto, Caio foi acusado de envolvimento com o “Dossiê Cayman”, além de cometer o “pecado abominável número 1″ dos evangélicos, o pecado moral de um relacionamento extra conjugal. Foi execrado pela opinião pública evangélista. A AEVB se fragmentou. Isto aconteceu em 1998.
No início dos anos 2000, na mesma Igreja Batista que catapultou o cisma na Convenção Batista Brasileira (CBB) (nascendo a Convenção Batista Nacional – 1965), emergiu uma “nova unção” para o Brasil. Márcio Valadão, pastor da Igreja Batista Lagoinha, havia enviado seus filhos para uma temporada no instituto Christ For The Nation, Ana e André foram treinados teologicamente como avivalistas e no movimento da “Chuva Serodia”. O movimento carismático Later Rain afirmava que a geração contemporânea seria uma “geração escolhida”, portanto receberia uma “chuva fora do tempo”. Chuva de bençãos, de prosperidade e do avivamento.
Aos que viveram o protestantismo nos anos de 1990, só o advento do grupo Vencedores Por Cristo havia provocado tamanha onda transformadora cultural, sobretudo na área musical. O VPC rompeu barreiras musicais, inserindo o rock e ritmos brasileiros no protestantismo evangélico e apresentou às igrejas brasileiras um louvor congregacional destoante dos hinos do séc XVI-XIX até então padrão na maioria dos cultos evangélicos. Mas isso foi nos anos 70. Como o retorno de Ana Paula Valadão ao Brasil, a cantora e filha do pastor principal da Igreja da Lagoinha passa a liderar os momentos musicais junto à uma das bandas que conduziam adoração nos cultos da Igreja Batista da Lagoinha. Conforme seu relato, tem uma visão: durante um banho, envolta à água e as espumas do chuveiro, antevê, em sua profecia particular, que  o Brasil seria banhado por uma onda de despertamento espiritual. Este evento fundante alavanca a gravação do primeiro CD da banda, que até então era simplesmente um grupo que entre outros que ministravam os momentos litúrgicos nos cultos da IBL.  Produzido e masterizado no exterior por Randy Adams, o CD explodiu em vendas. A escolha de Adams foi certeira e trouxe um padrão sonoro e de masterização de alta qualidade dificilmente encontrada nas produções evangélicas nacionais. A compra dos direitos da canção “Shout to the Lord“, composta por Darlene Zschech, líder do ministério cristão australiano“HillSong” impulsionou a fama do grupo. “Shout to the Lord” era um sucesso garantido e o grupo “Diante do Trono”, já em seu primeira investida fonográfica, alcança destaque nacional.
Liderado por Ana, o grupo “Diante do Trono”, vendeu mais de 10 milhões de CDs e, concomitante à atuação fonográfica, impulsionou diversas novas linhas teológicas e eclesiologias pelo Brasil. Este ministério evangélico não só foi o maior catalisador musical do movimento gospel durante os anos 2000 como protagonizou uma segunda onda cultural na música cristã evangélica brasileira. Os protestantes históricos, urbanos e pós modernos, não vivenciavam outros horizontes litúrgicos por décadas. Agora seria diferente. As igrejas pentecostais e históricas estavam culturalmente estáticas, sem grandes alterações morfológicas e gramaticais e, apesar de certas tentativas para alterar o desenho das igrejas protestantes como a “Igreja com propósito”, “Rede Ministerial”, estes sistemas eclesiásticos soavam, para a maioria do grande público, gerenciais e americanizadas demais – tais fiéis históricos tinham um novo paradigma – a “nova unção”, operando principalmente através da música gospel e o sistema de igreja em células, que disciplinava os membro das igrejas à “ganhar, consolidar, treinar e enviar”.
Na carona do DT veio o G12 – sistema de células – criado 10 anos antes, em Bogotá. No inicio da década passada foi uma enxurrada de pastores históricos e pentecostais aderindo ao sistema, nem sempre com respeito à suas denominações e membresias. Os crentes tradicionais ficaram confusos. O que estaria acontecendo quase que “do dia pra noite”?
Em dez anos o deslocamento cultural foi efetivado – os antigos grupos musical das igrejas locais protestantes realizaram uma repaginação estética e estrutural/teológica. Igrejas perdiam membros e o solo se moveu de maneira sem precedentes, uma verdadeira hemorragia e circulação dos membros, em direção às igrejas “avivadas”. Ouvi-se sobre “a igreja onde as pessoas caem no chão, em êxtase” (fenômeno “reciclado” dos anos de 1960. Porém o fenômeno, que em um período anterior, era experimentado em esfera privada, discretamente, a partir de sua versão contemporânea, era exposto midiaticamente pelos famosos artistas gospeis durante suas apresentações, virou “hit”). Em um Brasil pós ditadura militar e com o amadurecimento do neoliberalismo, cuja transversalidade influenciava outros setores estruturantes para além da economia, os sujeitos agora podiam operar suas próprias escolhas. A liberdade religiosa possibilitou o intenso trânsito das saberes do sagrado – sair de suas denominações familiares para outras (ou até, migrar para outras religiões não herdadas), mais modernas e conveniente, não era mais considerado como tabu ou afronta à religião dos pais.
Nesta onda surgiram novos grupos, novas teologias, novas “moveres”. Toneladas de novas bandas e pastores midiáticos. Também neste movimento o líder de adoração foi elevado ao status de um pastor. Considerados “levitas” que podiam “ministrar” ou seja, antecediam casa canção com uma pequena pregação. Antes o estreitamento com as escrituras era condicionado ao Pastor protestante (Para o pós moderno a experiência proporcionado pela arte e pelos sons pode ser mais interessante que ouvir um sermão explicativo da bíblia ou frequentar um classe de catequização – a catarse emocional como elemento de transcendência, que era comum ao pentecostal desde o início do século XX, penetrava o culto do protestante histórico, em uma espécie de “pentecostalização tardia”, o êxtase tornava-se também régua na mensuração da espiritualidade do protestante comum/histórico). A experiência emocional cúltica definitivamente tornou-se sobrepujante à reflexão racional.  O que os crentes assistiam no DVD ou no show gospel precisava ser repetido em suas igrejas locais e nem sempre a cultura eclesiástica  local suportava tamanha e rápidas mudanças de paradigmas. Hoje praticamente todas as denominações não católicas, tem em seus repertórios, ao menos rabiscos desta Cultura Gospel, tornando-se quase dominante à todos os viéses evangélicos.
Dificilmente alguém, sendo evangélico nos anos 2000, não ter ouvido sobre os grupos musicais Filhos do Homem, Casa de Davi, Santa Geração, Vineyard, David Quilan, Ludmila Ferber e muitos outros. Nesta mesma época muitos acessaram novos arsenais espirituais para eu cardápio: Vigílias no Monte, “mantras gospel”, unção com óleo, cânticos espontâneos, shofares (uma espécie de “berrante”), batalha espiritual, demônios territoriais, etc; anteriormente esses elementos eram observadas em redutos específicos, a partir desta virada, popularizaram-se e, em muitos casos, tornaram-se fundamentais na experiência comunitária do culto cristão. Falava-se em uma “judaização do cristianismo brasileiro”.
Costumes como “cair na unção”, atos proféticos, ser “pai de multidões”, surgiram no léxico do campo religioso protestante. Uma interpolação do antigo e novo testamento. Era um movimento tectônico poderoso de carga simbólica intensa. Para se entregar ao “novo mover”, os crentes precisavam transformar suas próprias biografias religiosas. A entrega ao “irracional”, ao “sobrenatural” era necessária e muitos “históricos” (batistas, presbiterianos, metodistas, …) “desde o berço”, através da inserção de suas comunidade aos novos vetores, realizavam estas metamorfoses ou, pelo menos, simulavam.  Era preciso para “estar na visão”, embora muitos “lá no fundo” relutavam em entrar na onda,  no entanto, com a adesão de suas igrejas e pastores ao neo carismatismo protestante, abdicaram da teologia conservadora, do estudo da bíblia como padrão de fé e confiaram suas pertenças religiosas à estas “novas visões”, principalmente adquiridas em congresso, CDs e literaturas que se espalhavam pelo Brasil.
Muitos se decepcionaram com estas promessas. Milhares, talvez milhões. Nesta movimentação, diversas comunidade resistiram à tentação do crescimento rápido, da evangelização fast food, propostas pelas novas técnicas. Muita gente bem intencionada, pastores e lideres mais conservadores, equilibrados, souberam realizar esta transição cultural com respeito. Outros não. Muitos dos quais decidiram fechar os olhos e lançarem-se aos novos movimentos, forçados pela pressão de grupos à “falarem em línguas”, ser “líder de multidões”, etc; hoje, após o desgaste dentro destes movimentos, optaram pelo desligamento, junto a muitos de seus membros. Recentemente ouvimos falar sobre os desigrejados, evangélico sem igreja, aumento do número daqueles desafeitos às lógicas evangélicas. Também, pessoas com sérios problemas psicológicos propiciados por abusos de pastores e lideres gananciosos. A lista é grande…
Há de se discernir o “joio e o trigo”. Algumas comunidades “decantaram” todo o movimento, assimilaram coisas e descartaram excessos. Além disso a onda diminuiu e formarem-se algumas ilhas, regiões do “avivamento”, como Belo Horizonte (sede do ministério Diante do Trono) e Manaus (“capital” do G12, sede do ministério de Renê “TerraNova”). Também as igrejas afins formaram redes e alianças, mais fios e traços dentro do complexo mapa religioso brasileiro. Concluo sugerindo que a geração que dança está passando, os jovens e adolescentes à época, tornaram-se adultos, com maior senso crítico e de avaliação de significados. Ainda não há sinais de uma nova onda tão significativa, ou então, tornou-se a grande onda fracionada em diversas outras vagas?
E 10 anos depois? Como estão os filhos da “Geração que dança”?