26 de setembro de 2013

O pregador.

Por Karl Barth

1) O pregador deve-se sentir interiormente chamado. Ele deve conhecer a necessidade de sua vocação, e aí ceder de todo seu coração. Portanto, o "eu não posso fazer de outra maneira" é envolvido por todos os tipos de questões. Esta, por exemplo: a exigência interior pretendida não seria talvez a satisfação de um desejo próprio? Observemos que o apelo interior que nós cremos reconhecer não é decisivo que venha de nosso saber quer de nosso sentimento mas apenas daquela voz imperativa que é de Deus. 

2) Os textos relativos aos presbíteros e diáconos nas Epístolas pastorais (I Timóteo 3.1-7, 8.13; II Timóteo 4.1; 5.9), contêm catálogos helênicos de virtudes, ordens concernentes àquele que assume a função de pregador. "Homem irrepreensível", ele não deve comprometer essa função por um gênero de vida que vá de encontro à moral e aos costumes vigentes. Por uma participação afastando-se muito do normal e revelando muito contingências humanas, muito humanas deste mundo. Não deve atrair sobre sua pessoa de um modo inútil a atenção, para que, por isso, o interesse não seja afastado do Evangelho. Estas recomendações éticas têm evidentemente por objetivo lembrar que o servo da Palavra assume o seu cargo diante de Deus. Todavia, se se compreender que estas ordens são decorrentes da Lei de Deus, o homem deve reconhecer que está constantemente em falta. Se ele pode manter-se diante de Deus, é unicamente porque é justificado em Cristo, por meio da fé. 

3) Por outro lado, sempre nas Pastorais, requer-se do pregador, que ele tenha competência (I Timóteo 3.2, II Timóteo 2.24). Segundo o costume da Igreja, compreendemos por aí a cultura científica dos teólogos. O pregador não tem o direito de se remeter preguiçosamente ao Espírito Santo as tarefas de seu cargo. Com toda a modéstia e seriedade, ele deve trabalhar, lutar, para apresentar corretamente a Palavra sabendo perfeitamente que o recte docere não pode ser realizado, senão só pelo Espírito Santo. É por isso que a Igreja, se ela tem consciência de suas responsabilidades, não pode tolerar que qualquer pessoa tenha o direito de anunciar a Palavra sem cultura teológica. Entretanto, não nos esqueçamos que a verdadeira pregação nos é ensinada pelo Espírito Santo, sendo a Ele submetida a cultura teológica. 

4) Como já assinalamos, o pregador tem uma posição diferente da dos apóstolos: é pela vontade da comunidade que ele está colocado onde está. A função que ele ocupa, pertence à Ecclesia. Ela vem da comunidade e é exercida na comunidade. Entretanto, o fato de ser chamado por uma comunidade, não impede que ele deva ser chamado por Deus.