25 de setembro de 2013

Exortações de um Zorro Diabo.



Por Caio Fabio

Hoje, dia 26 de agosto de 2004, eu vi o programa Super Pop, de Luciana Gimenez, na Rede TV. Quando cheguei já estava rolando um papo no qual um pastor garantia que podia curar qualquer gay que desejasse deixar de se sentir gay. Ele levou consigo dois ex-gays. Faziam parte do grupo de debatedores pessoas de grupos bem distintos, todos caricatos, incluindo o pobre e patético padre Quevedo. Entre esses, havia uma figura vestida de Zorro, só que de vermelho, e com um chapéu na cabeça. Ele se apresentou como Bispo Toninho do Diabo. Todos falaram, discutiram, tiveram derrames de ignorância, expuseram-se ao ridículo, amaram tal exposição, ofenderam-se, enfrentaram-se, acusaram-se, julgaram-se mutuamente, babaram de raiva e escorreram sebo religioso em nome de Deus. E o diabo calado! De súbito deram a palavra ao diabo. Ele se apresentou e se disse irmão gêmeo de “Deus”.

O irmão que desceu. Citou o “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, e garantiu que fez parte do grupo criador. Foi quando um pastor de pescoço largo entrou na parada. Disse que o diabo era concorrente. Outro pastor se levantou e tentou ridicularizar o Bispo Toninho do Diabo. E o diabo ouvindo. Lá pelas tantas o diabo sai com esta: “Se eu fosse cobrar pelo uso do meu nome, a igreja de vocês tava falida. Vocês não sabem viver sem mim”. Então mostrou um clipe musical no qual ele canta uma música engraçadissima, acerca do Brasil, e não deixa de fora nenhum dos grandes temas sociais e políticos da vida nacional, e, obviamente, também não poupa a igreja Universal. No fim, o diabo acabou merecidamente roubando a cena. E por que? Bem, apesar da heresia do “façamos o homem”, estava claro que o cara estava na maior gozação. De fato ele está é lançando sua carreira artística. Até o Paulo Coelho começou com capa, chapéu e bengala de bruxo. Quem pode recriminar o Toninho do Diabo? O que me chocou é que de fato o diabo do programa deu um banho na moçada toda! Fiquei vendo aquilo ali e pensando em como eu jamais imaginei em minha vida que um dia veria um espetáculo tão patético quanto aquele, no qual alguém, se fazendo passar folcloricamente pelo diabo, pudesse ser o mais sensato entre todos, apesar das heresias. Aliás, todos ali falaram muita heresia.

Teologia à parte, todos os que falaram em nome de Deus falaram mais besteira do que o diabo. “Se eu fosse cobrar pelo uso do meu nome, a igreja de vocês tava falida. Vocês não sabem viver sem mim”—ecoava na minha cabeça. Pensei no que Jesus disse: “Sem mim, nada podeis fazer”. E lembrei do diabo musical que acabara de dizer que sem ele e seu nome a igreja estaria falida. Será que quando Jesus disse “sem mim, nada podeis fazer” Ele queria dizer que sem a confissão acerca da onipresença do diabo a igreja não alcançaria o mundo? De fato, se você ligar a televisão ou o rádio e ouvir o que dizem os pastores e locutores de religião evangélica, pouco se ouvirá de Jesus, mas muito se ouvirá do diabo. Jesus expelia demônios, e não dava papo para eles, e raramente falou do diabo. Também disse que não queria aquele tipo de publicidade, por isto não deixava que nem mesmo os demônios falassem Dele como propaganda. Em Jesus, se vê como o Evangelho não se serve do diabo para nada! Agora pense em como ficaria a igreja se Deus dissesse que não se pode mais usar o nome do diabo numa pregação, num culto ou em qualquer conversa. Pois quem o fizesse iria perder dinheiro.

O que sobraria para se pregar? Quem haveria de ser usado como diabo a fim de que pelo medo as pessoas pagassem o dizimo? O fato é que sem o diabo a igreja não tem mensagem! E tão fato é isto, que uma caricatura engraçada de diabo diz isso na televisão, para um pastor cheio de certezas, até de curar qualquer tipo de problema sexual, incluindo hermafroditismo, e o pastor cheio de certezas se calou. Sim, o pastor calou, pois, mesmo na presença daquela caricatura de diabo, ele não podia dizer que não era verdade. Ironicamente estamos vendo e ouvindo um palhaço, vestido de diabo, pertinentemente dizer: “Sem mim nada podeis fazer”—enquanto a “igreja” não pode negar. Ora, enquanto o diabo for o nome mais falado na igreja, ela não terá autoridade para dizer nada em contrário.

No dia em que para cada vez que se menciona o diabo na igreja se mencionar o nome de Jesus e a graça de nosso Deus, então, nós poderemos enfrentar qualquer diabo, mas não enfrentaremos o pobre candidato a artista, e que hoje faz esse gênero, de modo muito espirituoso, por sinal, e com mais verdades a declarar sobre a condição humana e o Brasil do que os pastores que ali estavam. É pra parar e pensar!