19 de junho de 2013

Minha opinião sobre os protestos nas palavras de Flavio Morgenstern



"Lembro do Heisenberg contando na biografia dele dos protestos da juventude alemã. Ouviam Bach, emocionados. Anos depois, o resultado: Hitler" (F.B)


"No que vão dar os protestos?" (...) As pessoas clamam por uma injustiça que, até o dia anterior, elas mais praticavam do que eram vítimas. O futuro promissor vira o único juiz dos atos presentes. Sujeito e objeto das violências cometidas são invertidos na retórica. Fato e norma também trocam de lugar em qual dita qual na análise de conjuntura.

A massa, perdida entre duas forças atuais, grita, clama por algo novo, o futuro, mas não diz o que diabos quer. Alguns políticos dizem que ela é do lado A, outros dizem que é do lado B. Espiões, infiltrados e oportunistas são denunciados pela própria população, que aprende do dia para a noite a dor e a delícia de ser agente em um Estado policial.

O sentimento de pertencimento é gigantesco, embora nenhuma, nenhuma proposta prática seja colocada em funcionamento. Tudo o que se diz é no plural majestático: "Nós, o povo", "nós, o gigante", "nós, os bacanas". Os inimigos denunciados tampouco estão no singular: são os políticos, a elite, a polícia. Vez ou outra, sequer precisam ser um substantivo concreto: é o comodismo, o atraso, o que está como está.

A própria turba, para fazer parte do grupo consciente, legal, aquele que clama por mudança, dissolve sua individualidade. "Somos todos iguais", "vamos além de partidos", "Cansamos tanto do lado A quanto do lado B". Uniformizam-se, com roupas iguais, caras iguais, palavras iguais, posturas iguais, penteados iguais e máscaras iguais.

Igual também é o inimigo genérico, abstrato, intangível e malévolo, causa de todo mal, e o único que unifica todos que estão contra alguma coisa que nem conseguem apontar o que é – portanto, a fúria, o ódio, é canalizado por onde tenha alguma coisa quebrável no caminho. 

O discurso é radicalmente contrário às autoridades. Finalmente uma nova aurora parece surgir no horizonte. Nossas reivindicações serão atendidas. Por uma nova autoridade que ainda desconhecemos completamente. Mas só a própria mobilização já é aplaudida.

De repente, sem entender o motivo, sem argumentos, sem justificativa aparente, sem absolutamente nada de relevante ter acontecido, dois grupos se cindem. Nós e eles. O futuro e o lixo da história. Pessoas que ontem almoçavam juntas hoje estão de dois lados distintos numa guerra civil. A discussão se dá apenas na crença de que algo acontecerá ou não. Não há o que discutir, afinal: nada aconteceu, a não ser a massa se agitando.

A energia é absoluta. E nos primeiros dias absolutamente nada acontece. Alguns se cansam. Outros estão doidos pelo sangue do inimigo, mas ainda não puderam pegar em armas e descobrir quem é essa Nêmese que deve ser degolada a dentadas.

É preciso mais do que fúria cega para manter o movimento contrário a tudo isso que está aí. É preciso ordem no caos. É preciso de um líder. Não de uma autoridade atual, mas de um líder de carisma. É preciso de uma voz jovem, bonita e altissonante que diga: "Amigos, nós somos os caras do bem, e todos os nossos problemas foram causados pelos caras do outro lado da rua. Agora o reino de injustiça acabou e não mais andaremos com eles no recreio. Estamos todos juntos? Então, marchem!"

Assim se construiu a Alemanha nazista, a União Soviética, a China de Mao. Foi numa briga entre partidos da República de Weimar, entre Brancos e Vermelhos, entre nacionalistas e socialistas que as pessoas se cindiram. Entre coisas abstratas pelas quais a maioria das pessoas não dariam um bocejo que muitos deram a vida – e tiraram muitas outras. 

Foi com um protesto sem propósito e sem proposta, contrário à toda autoridade, que a autoridade surgiu. Sem derrubar ninguém: foi posta lá nos braços do povo. Nunca deram o poder absoluto a quem não prometia trocar o presente por completo. Nunca houve totalitarismo sem um povo muito revoltado com tudo isso que está aí.

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