8 de março de 2013

Escritórios investem em políticas voltadas para a mulher advogada


Recente pesquisa do Data Popular aponta que a renda das mulheres tem crescido: 83% nos últimos dez anos enquanto o crescimento da renda dos homens foi de 45%. No entanto, o que as mulheres ganham hoje é o que os homens recebiam em 1993. Os dados fazem parte do estudo “Tempo de Mulher”, que mostra também a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho.

Os números, embora animadores, não deixam de revelar a realidade díspar vivenciada pelas mulheres no mercado de trabalho. Tanto que diversos escritórios de advocacia têm incentivado e instituído políticas de valorização e desenvolvimento das advogadas. É o caso da banca Pinheiro Neto Advogados, que desde 2009 possui a CMA - Comissão da Mulher Advogada, criada para unir esforços na avaliação das perspectivas da carreira das mulheres advogadas do escritório, bem como para desenvolver e reter os talentos femininos na empresa.

A sócia Cristianne Saccab Zarzur, que integra a comissão juntamente com Esther Donio B. Nunes, Angela Fan Chi Kung e Bianca Pumar, contou como foi o início desta história:

"Em fevereiro de 2006 foi divulgado um relatório chamado 'Best Practices for the Hiring, Training, Retaining and Advancement of Women Attorneys', pelo NY City Bar. Elaborado por um grupo de advogadas de Nova Iorque que sentiram necessidade de criar melhores práticas para permitir o desenvolvimento profissional de advogadas, o relatório foi uma espécie de 'manual de sugestões' que objetivam atrair, desenvolver e reter talentos femininos em escritórios de advocacia. Em função da divulgação do relatório, os principais escritórios dos EUA aproveitaram o momento para criar comissões femininas e grupos femininos de trabalho para adaptar as melhores práticas à realidade de suas respectivas firmas. A criação dessas comissões dedicadas ao desenvolvimento profissional das mulheres advogadas e a adoção de 'Best Practices' nos moldes sugeridos pelo NY City Bar se tornaram, portanto, ferramentas de gestão de pessoas e valorização do desenvolvimento profissional."

É possível acessar a íntegra do relatório com dicas e sugestões de práticas para o desenvolvimento das advogadas válidas até hoje. O comitê organizador do relatório reconhece que a implementação dessas práticas requere investimento de tempo e recursos, mas acredita no retorno por meio da manutenção de talentos, competitividade e incremento da diversidade.

Superando os obstáculos

A implantação de práticas como as elencadas no estudo do NY City Bar se tornam cada vez mais urgentes diante dos desafios a serem enfrentados pelas mulheres da advocacia nos próximos anos. Dentre eles, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é o mais lembrado, como atesta Camila Araújo, integrante da banca Araújo e Policastro Advogados: "Uma das maiores dificuldades é a de conciliar todos os papéis que desempenha, como profissional, no escritório, com a família, como mãe, esposa, dona de casa, na vida acadêmica, etc."

A necessidade de desempenhar diversas funções acaba por se revelar um diferencial: "Vejo que as mulheres nascem com uma qualidade inata - a capacidade de transitar entre todos esses papéis e, em consequência, em vários assuntos ao mesmo tempo, fazendo-o com muita naturalidade e desenvoltura, o que lhe dá, inclusive, uma característica que a diferencia e a valoriza no ambiente profissional", relata Camila.

Outro ponto relevante e de impacto direto nos negócios dos escritórios diz respeito ao networking. “A sociabilidade em práticas que consolidam vínculos de masculinidade, como jogar bola, sair para almoçar ou beber com clientes, entre outras atividades que diferenciam o mundo masculino do feminino gera também desafios às profissionais mulheres no que se refere a técnicas de networking”, diz Christiane. Prática comum entre os homens, agora é a vez das mulheres investirem cada vez mais nos contatos de modo a criar uma rede de relacionamentos consistente.

Na CMA, por exemplo, são organizadas reuniões periódicas com todas as associadas da banca para debater internamente temas de interesse; a comissão subsidia um programa de coaching feminino, e as sócias têm se aparelhado para desenvolver ainda mais as atividades de mentoring, além de levar periodicamente ao escritório convidados externos para expor um pouco da experiência que possuem na arte de equilibrar a vida pessoal e a carreira profissional.

“Outro foco é valorizar as competências femininas no processo de avaliação. A ideia da comissão é abordar estes tópicos de maneira franca e aberta. A criação de uma comunidade para tratar de assuntos estritamente relacionados ao sexo feminino tem se mostrado muito saudável e servido como um foro para dividirmos experiências e anseios nos mais diversos temas que impactam o desenvolvimento profissional da mulher advogada dentro da firma”, conta a sócia do Pinheiro Neto Advogados. O reconhecimento ainda é um grande obstáculo a superar, pontua Camila, asseverando que as mulheres devem buscar uma marca de distinção que as promova em seus ambientes de trabalho, "por meio de sua inteligência, habilidade e desenvoltura", lutando por igualdade de condições.

Perspectivas

Ainda que não sejam criados comissões e grupos específicos voltados ao tema, muitas são as possibilidades de políticas a serem implantadas pelos escritórios e departamentos jurídicos objetivando o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres da empresa, como a adesão ao Programa Empresa Cidadã - que permite a opção pela licença maternidade estendida de 6 meses -, a flexibilização da jornada de trabalho, a possibilidade de trabalho remoto, e o incentivo e financiamento de cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado, práticas adotadas, por exemplo, pelo Pinheiro Neto Advogados.

A tendência é a entrada cada vez maior das mulheres no mercado, seja no Judiciário, nos escritórios de advocacia ou departamentos jurídicos, alcançando cargos de liderança com maior frequência. O próprio escritório Araújo e Policastro Advogados revela-se um exemplo, em que as mulheres já formam maioria, em torno de 60% de causídicas. Complea a advogada Camila: "Cada vez mais tenho visto mulheres estudando e se formando advogadas. E as vejo tendo oportunidades contínuas de crescimento profissional, bem como de um amplo campo de atuação. Não consigo visualizar áreas do Direito que restrinjam a atuação das mulheres".

Fonte: Migalhas.

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