8 de dezembro de 2012

O dilema de Niemeyer: a beleza de sua obra ou a falta de funcionalidade dela?


Por Renato Amado
É bastante comum ouvir, entre arquitetos, o comentário de que, no futuro, só um brasileiro fará parte da história: Oscar Niemeyer. O grande nome da nossa arquitetura, hoje com 104 anos, ainda atuante, deixou mesmo marcas indeléveis. Mais de 70 anos construindo edifícios que se incorporaram à paisagem de muitas cidades fizeram com que ele invadisse a tênue fronteira que separa a admiração da mitificação. Seus trabalhos são referência em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Paris, Roma e, claro, Brasília. Mas por mais que seu traço elegante e inconfundível possa arrancar suspiros de prazer estético, não se obtém o mesmo resultado quando essas obras são utilizadas para o fim a que se destinam.
“Arquitetura é arquitetura, não é arte”, diz Hugo Segawa, professor do departamento de história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, considerado um dos principais críticos da arquitetura brasileira. De acordo com Segawa, Niemeyer “errou a mão” em algumas criações, como o Memorial da América Latina, em São Paulo, e a Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, em Belo Horizonte. “Os políticos pedem projetos a ele porque querem a grife. Mas não sabem o que vão fazer com as obras. E Oscar Niemeyer faz o que pedem”, diz Segawa.
“Ele fez o projeto do Memorial inspirado nas praças de armas da Espanha, para receber multidões. Depois de algum tempo, concordou que fossem plantadas algumas palmeiras no espaço livre”, afirma o arquiteto Miguel Pereira, autor de O Discurso de Oscar Niemeyer, sua tese de doutorado na Inglaterra. Pereira, apesar das críticas, admite que o concreto armado avançou muito por causa dele.
O Palácio da Alvorada; o Pavilhão da Oca e o Edifício Copan: bons desenhos, vida difícil no interior
O Palácio da Alvorada; o Pavilhão da Oca e o Edifício Copan: bons desenhos, vida difícil no interior
“Os modernistas sempre esperaram multidões que nunca apareceram”, afirma Rodrigo Queirós, professor da FAU e autor de uma extensa obra sobre o grande mestre. O embate entre forma e funcionalidade na arquitetura é antigo e rende polêmicas entre profissionais da área, mas com Niemeyer a questão ganha contornos mais vívidos. Ele não é apenas um gênio do desenho, mas também um dos brasileiros mais conhecidos do planeta. Foi premiado, em 1988, muito depois de seu auge profissional, com o Pritzker, o Nobel da área. Projetou mais de 500 edifícios no país e pelo menos 180 no exterior. Brasília tem a sua assinatura. “Ele é um artista”, define Rodrigo Queirós, justificando seu desprendimento da funcionalidade.
O título de “arquiteto oficial do Brasil” foi um dos motivos que mais estimularam as críticas de Joaquim Guedes, morto em 2008 e um dos seis brasileiros a constar no Dicionário Oxford de Arquitetura. Para ele, Niemeyer desprezava a vizinhança, o público e a vida da cidade. “Arquitetura não pode ser exibicionismo estrutural”, dizia ele, que considerava a Esplanada dos Ministérios de Brasília um punhado de “colunas de prédios marchando num desfile militar”. Outros listam obras como o Grande Hotel de Ouro Preto, um caixão retangular sem nenhuma relação com o estilo colonial local, e até o impressionante Museu de Niterói, praticamente às moscas – ainda que seja, pela beleza e originalidade, um importante ponto turístico. Essa, aliás, é outra característica de sua obra: a tendência inequívoca de se incorporar aos roteiros de atrações. Mérito de uma arquitetura inovadora e ousada, com momentos de indiscutível genialidade, mas distante da vida real, por muitas vezes.
“A realidade é um problema para os projetos modernistas”, explica Rodrigo Queirós. “O Copan, no centro de São Paulo, chama a atenção pelo desenho em S. Dentro do prédio, no entanto, reina uma bagunça babélica. Não serve para morar nem para trabalhar”, dizia Joaquim Guedes. A revista Newsweek publicou, há alguns anos, extensa reportagem sobre Niemeyer na qual afirma que seu trabalho é “mais exaltado do que estudado”. Trabalhar ou morar em seus edifícios é um desafio, e fazer a manutenção deles, um pesadelo. O concreto produz, com o tempo, rachaduras que provocam custos altíssimos, e limpar as paredes de vidro é um trabalho para acrobatas. Niemeyer mesmo já declarou: “Se você fica muito preocupado com a função, fica uma merda”. Brasília, que o consagrou internacionalmente, é um triunfo da inventividade, mas nem tanto do urbanismo.
Curvas que se repetem: a igreja na Lagoa da Pampulha, de 1940, já tinha os elementos que utilizaria em obras futuras, como o Memorial da América Latina e o Congresso Nacional
Curvas que se repetem: a igreja na Lagoa da Pampulha, de 1940, já tinha os elementos que utilizaria em obras futuras, como o Memorial da América Latina e o Congresso Nacional
O histórico de Niemeyer mostra que a ousadia o acompanha desde os primeiros tempos. Formado tardiamente, era um aluno medíocre da Escola de Belas Artes do Rio e chegou a oferecer pagamento para trabalhar no escritório de Lucio Costa – pai do modernismo nacional e seu mestre. Não precisou. Seu primeiro grande feito foi a participação na equipe que Le Corbusier, arquiteto suíço, formou para erguer o Ministério de Educação e Saúde do Rio – no qual já é possível identificar seu traço na graça e na leveza dos pilotis de até 10 metros situados na base. Foi então que começou a ficar famosa sua crença de que a curva é o melhor caminho entre dois pontos – e também sua dependência de recursos governamentais. Juscelino Kubitschek o adotou a partir de 1940, permitindo que projetasse o conjunto arquitetônico da Pampulha, um clássico. Para Rodrigo Queirós, essa é a obra-prima de Niemeyer. “É quando ele explode a arquitetura moderna preconizada por Lucio Costa e Le Corbusier”, diz. Está tudo lá: o telhado em borboleta, a marquise curva, o pilar em V, a abóbada e as lâminas curvas. Esses cinco elementos lhe garantiram uma forma única de se expressar, repetida incansavelmente. “Mas quem é capaz de reinventar-se o tempo todo?”, argumenta Queirós.
Por mais que tenha se repetido, a demanda não diminuiu – ao contrário, internacionalizou-se, sempre com patrocínio governamental. Filiado ao Partido Comunista desde 1940, ao mesmo tempo que projetava monumentos espetaculares, questionava-se por nunca ter se dedicado à causa. “Ele sempre foi bafejado pelo poder”, diz Miguel Pereira. Sua única experiência em moradia popular, por exemplo, foi abandonada em Brasília. “Moradia não se faz com arquitetura, mas com revolução”, disse. Com o golpe militar de 1964, sua fidelidade aos ideais comunistas custou-lhe o exílio, em 1966. Foi morar em Paris. Com suas ligações ideológicas, encontrou patrocinadores consistentes. Na França, construiu uma dúzia de prédios, inclusive a sede do Partido Comunista local. Na Itália, assinou a sede da editora Mondadori. Fez projetos em Gana, Israel, Venezuela, Turquia e EUA, para o qual teve o visto negado duas vezes.
Consagrado, voltou ao Brasil no começo de 1980 e foi incumbido de projetar o Sambódromo carioca pelo amigo Darcy Ribeiro, durante o governo Brizola. Reassumindo a condição de arquiteto oficial, inúmeras encomendas apareceram, e em todas faz prevalecer a beleza de seu traço sobre a adequação funcional. Sim, Niemeyer emociona. Mas também cansa. “Não podemos ser escravos da funcionalidade”, costuma dizer. Ok, mas obras arquitetônicas devem servir como moradia, ambiente de trabalho, espaço de convivência social. São feitas para que pessoas as ocupem, para que nelas vivam. A escritora sul-africana Doris Lessing escreveu, certa vez, que a arquitetura é um dos grandes males da civilização – capaz, inclusive, de provocar distúrbios sociais. Exagero? Provável. Mas pense nisso quando estiver caminhando no pátio do Memorial da América Latina, sob um sol de 35 graus.

Fonte: Revista Alfa

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