10 de fevereiro de 2012

A razão de Ser do Dízimo


Por Carlos Néri

A herança teológica e eclesiológica que herdamos de nossos irmãos pioneiros do evangelho no Brasil, de certa forma, corroborou para a situação atual da igreja brasileira. Com o crescimento do pentecostalismo e consequentemente do neopentecostalismo, a igreja se embrenhou por um mundo místico irracionalizado sem fundamento e finalidade pratica.
Com toda essa mistificação da fé, textos fundamentais da Sagrada Escritura que legitima o relacionamento experiencial, existencial e racional do crente com Deus mergulhou em um abismo obscuro de interpretações desprovidas de uma sincera e correta exegese. Assim, também se fez com o Dízimo.
Durante todo o século XX e também em nosso século, o Dízimo foi associado a uma vida econômica regalada e os gafanhotos relatados pelo profeta Joel receberam o título de demônios, cuja profissão é eminentemente e especificamente atuar na vida financeira. Claro que o contexto cultural que viveu o profeta Joel, seu relacionamento com Deus e sua missão profética estão muito aquém da interpretação que nossos seletos pastores e profetas deram ao texto.
O profeta Joel denunciou o total abandono das leis morais, sociais e espirituais dado por Deus ao povo como forma legitima de convívio relacional entre os homens e Deus, os gafanhotos, por sua vez, são reais, as plantações são reais e não podem ser alegorizadas e tituladas a demônios ou vida financeira, pois fazem parte literal do castigo de Deus a um povo obstinado.
Então, o que é o Dízimo e qual sua função? Como todos nós sabemos, Dízimo é a décima parte, ou seja, a décima parte do fruto do trabalho realizado pelas mãos dos homens, cuja finalidade primordial é a sua subsistência. A décima parte do fruto do trabalho humano pertence a Deus. Mas existe alguma necessidade em Deus para que lhe ofereçamos dízimos? De forma alguma. Deus é absoluto em si mesmo. O dízimo é uma ação de graças, e aqui está primordialmente a sua função primeira.
A idéia do dízimo e sua função primeira é um ato que deve ser realizado por todos os homens, pois ele, assim como as ofertas, ou as ações que demonstram e denotam a coletividade e o amor ao próximo ligam o homem a Deus no sentido de lembrar e reconhecer que o fruto da terra pertence a Deus e depende dele para gerar alimento a todos os seres vivos. O homem na sua mais moderna engrenagem tecnológica não pode gerar alimentos se a terra assim não o fizer.
Logo, o Dízimo lembra ao homem que “toda a terra está cheia de sua glória”, que os elementos que a constituem não são obras humanas ou de uma natureza subsistente por si só. A função primeira do Dízimo é o reconhecimento e o agradecimento da providência de Deus ao proporcionar em nossa mesa as riquezas da terra que a ele pertence e que nós humanos necessitamos vitalmente. O Dízimo é ação de graças, memorial racional que nos liga ao Criador.
Mas o Dízimo possui uma função segunda, não mais verticalmente, mas horizontalmente. Sendo que Não há contingências no Ser de Deus, é o próprio homem, na ação continua da coletividade e nunca na individualidade que desfruta do Dízimo e mantém aqueles que de direito vivem do evangelho. Ora, a partir do momento que a coletividade desfruta da materialidade do dízimo, estes vivem do evangelho e nada vos falta, nesse sentido Malaquias Afirma que o devorador será repreendido, que o fruto da videira não será estéril.
Ora, o devorador não é uma figura etérea, um perispirito do mal, uma entidade. Para Malaquias o devorador são as pragas vivas que devoram as colheitas por ordem de Deus na reciprocidade da maldade humana em caráter pedagógico. Para nós o devorador não passa da miserabilidade e apego material que impede o homem de reconhecer, nessa ação de graças à potencialidade de Deus ao fazer brotar da terra o fruto necessário ao homem.
Tal miserabilidade egótica, individualista, não pensa o coletivo e por essa razão deixa a mão mirrada, doentia, contraída, como em uma dolorosa câimbra irreversível que impede o progresso da consciência libertadora e edificante do evangelho no homem, atrofia a igreja e a expansão da sua vida que gera vida aos que não possuem.
Por fim, pobre do homem enganado e alienado pelos pastores que não conseguem educar nem a si mesmo, pois talvez viverá toda a sua existência em um misticismo esquizofrênico ou inserido em um reino em que Deus é limitado as peripécias humanas e não poderão conhecer, desfrutar e se entronizar na contemplação magnífica do cosmos criado e da vida Eclesiástica na etimologia e no sentido próprio de uma comunidade que vive as grandezas espirituais reveladas.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário