25 de novembro de 2011

Trabalho e história - Uma leitura de Lima Vaz


Por Carlos Néri

Admitindo que o trabalho a partir do ponto de vista do fim para aquele que opera ou trabalha (finis operantis) é relação ao outro como sujeito, Lima Vaz é levado a considerá–lo a relação primeira que funda a mediação entre as pessoas, a sociedade, portanto, e a história. O trabalho é a relação primeira, pois, ao homem não é dado atingir por intuição imediata a interioridade do outro, sendo necessário à comunicação que passa necessariamente pela mediação do “sinal”, pelo “mundo humanamente significado”, pelo trabalho que se estende por todo espaço que vai do ato da razão ao gesto das mãos.
O trabalho humano, justamente por força dessa mediação operada pelo resultado do trabalho (finis operis) é uma obra da cultura e não um simples objeto natural, pois este não é meramente uma simples satisfação de necessidades naturais, logo, ele é assumido no plano expressivo da consciência, apresenta a estrutura do “sinal”, é penetrado pela palavra e torna-se interpelação do outro, comunicação com o outro.
A elaboração e a constituição da dialética do trabalho, na relação entre o fim operado (finis operis) e o fim para aquele que opera (finis operantis) na acepção de Lima Vaz parte, do ponto de vista da obra a ser realizada, o fim acabado reivindica a sua primazia na submissão do trabalhador às exigências de perfeição da obra.
Todo trabalho, partindo da idéia ao gesto, é um êxtase do homem em direção ao ser do objeto. Entretanto, do ponto de vista do ato de realização, a primazia retorna, em definitivo, ao fim para aquele que o faz, pois a obra não é o termo último do êxtase e da saída laboriosa do homem; ela é sinal, é palavra e é, como tal, lançada em direção ao outro, tornando–se invocação do seu reconhecimento e da sua resposta.
O trabalho, portanto é a primeira das mediações segundo as quais se realiza a sociabilidade e a historicidade do homem, porém não é a única das mediações. Sobre o trabalho se eleva toda uma hierarquia de mediações que se estabelecem conjuntamente múltiplas relações de intercausalidade, cuja trama constitui precisamente o suporte concreto da sociabilidade e do desenrolar da história.
Na hierarquia das mediações sociais, o trabalho é o substrato ou suporte que oferece seu conteúdo ou matéria da comunicação e, nesse sentido é o primeiro na ordem da causa material. No entanto as mediações que advém do trabalho como: a justa distribuição dos recursos raros (economia), a mediação familiar, a mediação política, a atividade lúdica, a ciência, a moral, a arte, a religião – gozam de primazia na ordem da causa formal.
O erro de Marx foi estabelecer entre as mediações sociais e o trabalho uma relação linear de causa e efeito, de determinante e determinado. A existência histórica do homem em face do trabalho transforma todas as outras manifestações do ser social em superestruturas que opera ideologicamente uma alienação do homem. É o trabalho que deve promover dialeticamente o retorno desalienante do homem à natureza. 
Lima Vaz nos orienta que as relações que estruturam a práxis total do homem pertence à ordem da intercausalidade, existindo uma “influência causal e recíproca” entre o conteúdo que é dado pelo trabalho, e a forma que é a significação humana desse conteúdo segundo uma ordem distinta de causalidade. A intercausalidade se estabelece em definitivo entre “trabalho e palavra”, o trabalho é palavra, como significação e sentido que se dirige ao outro; a palavra é trabalho como conteúdo transformado do mundo, que dá corpo à significação.
Ainda aqui, o erro profundo de Marx consistiu em desconhecer a causalidade especifica da palavra (idéia e sinal) na estrutura da práxis humana, gerando uma “hipertrofia do econômico”, onde se manifesta a primeira obra do trabalho, seu produto por excelência, que conduziu na evolução ulterior do marxismo, a uma trágica perversão do político.
Portanto, Lima Vaz conclui dizendo que o caminho para a superação da alienação do trabalho deve ser traçado a partir da renomeação do conceito de trabalho a partir da atribuição que lhe deve ser dada como “causa formal, ou seja, sua significação puramente humana” que atesta, precisamente, a transcendência do homem sobre a natureza e a sua ordenação aos fins próprios da comunidade das pessoas e, em definitivo, a Deus, assumindo sua esfera intersubjetiva.
No trabalho alienado não existe a “realização do homem”, o gesto é mecânico e sem ressonância humana, o objeto predomina sobre o “ato” de sorte que o próprio ato vem a se tornar objeto, a “coisificar-se”. O trabalho alienado inverte a dialética do fim operado e do fim para aquele que opera, o fim operado torna-se um fim em si mesmo e impõe tiranicamente as suas exigências: a utilidade e o lucro.
A alienação do trabalho oculta sua função mediadora e não fundamenta a verdadeira “relação social” e a inversão de poder por ele realizado que na sua originalidade se dá do homem ao mundo, se volta do mundo ao homem.

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