24 de agosto de 2011

A divinização ou espiritualização da natureza


Por Carlos Néri

O texto de Leonardo Boff intitulado “o complexo Deus da modernidade” é uma síntese, ainda que muito curta, dos fatos que configuram nossa realidade, ou seja, a exclusão de Deus no mundo, palavras estas proferidas pelo Papa Bento XVI recentemente na Espanha.

Mais, para além da análise da irracionalização humana em relação à natureza e ao outro, o texto de Leonardo Boff, deixa claro que sua construção ideológica, mesmo ao defender uma ramificação teológica católica, no caso, a teologia da libertação que dividem ortodoxos e modernistas, seu pensamento perpassa legitimamente pela doutrina social da igreja, isso significa que Leonardo Boff acredita que a proposta social católica, de fato, é a guia mestra que deve libertar o homem de sua alienação e conduzi-lo novamente a relação racional/espiritual com a natureza e com o outro, fruto de sua reconciliação com o Criador.

Existe, no entanto, um grande paradoxo entre a doutrina social da igreja católica e a doutrina da salvação apregoada pelos protestantes. Embora ambas possuam ideologias que apontam para a remissão dos homens, elas se diferem no conteúdo e no conceito. A doutrina protestante tem por discurso a remissão e salvação dos homens mediante ao evento escatológico da epifânia de nosso Senhor e do reino de Deus que desce aos homens (Ap.21:1,2).

A doutrina social da igreja católica, por sua vez, descreve a salvação do homem não a partir de um evento escatológico, universal e único, mas a partir da abstração consciente do conteúdo de sua ideologia em sua proposta Tomista de uma humanidade que ao compreender sua identidade primeira, compreende a natureza desta e racionalmente se volta a ela, pois esta parte do próprio Deus, causa primeira de toda natureza e de suas leis e que o homem é natureza, porém sua racionalidade o transcende diante das demais.

Logo percebemos que os protestantes se submetem a uma fé que se sobrepõe a suas forças e aguardam a remissão da natureza pela bondade, misericórdia e justiça de Deus. A doutrina social da igreja católica, por outro lado, reconhece em si a tradução da vontade de Deus através do vicário de Cristo e da tradição. Logo, o conteúdo dessa doutrina possui um caráter filosófico e personalista, cujo propósito é a conversão do homem a um cristianismo regido pela igreja.

Para entendermos melhor a conclusão do texto de Leonardo Boff, iremos expor uma frase proferida pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragésimo Ano:

“Deus revestiu a igreja com tal autoridade, diz Pio XI, pois cabe a ela divulgar toda lei moral, interpretá-la e sujeita-la as verdades reveladas por Deus, seja a ordem social ou as questões econômicas, pois estas, são repartidas pela lei moral que subordinada aos fins impostos pela lei natural inflexionam a economia e a ordem social a ordem final dos fins que nos leva ao fim de todos os seres que é Deus, bem supremo e inexaurível para si e para nós”. (QUADRAGÉSIMO ANO, 1931). 

Ao expor a relação entre homem/ natureza e Deus, Leonardo Boff segue a ordem ascendente aristotélico-tomista descrita nessa frase de Pio XI, se revelando, portanto, distante dos pressupostos protestantes que apregoam a ordem inversa e que encerra a humanidade no julgamento de Deus, de fato, o mundo vem excluindo a idéia de Deus de sua racionalidade, mais aos crentes em Cristo, a ciência teológica humana ao traduzir a vontade de Deus em pressupostos filosóficos também exclui a soberania do tribunal de Cristo sobre sua criatura racional.
_________________ 
Ajude a divulgar o blog: se você tem uma conta no gmail clique no +1. Obrigado. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário