18 de junho de 2011

A ordem do discurso: uma anedota

Por Michel Foucault

Gostaria de lembrar uma anedota, tão bela que receamos que ela seja verdadeira. Ela congrega numa única figura todos os constrangimentos do discurso: os constrangimentos que limitam os seus poderes, os que refreiam os seus aparecimentos aleatórios, os que selecionam os sujeitos falantes. No início do século XVII, o Shogun tinha ouvido dizer que a superioridade dos europeus - na navegação, no comércio, na política, na arte militar - era devida ao conhecimento das matemáticas. Quis apoderar-se desse saber tão precioso. Como lhe tinham falado de um marinheiro inglês que possuía o segredo desses discursos maravilhoso, fê-lo vir ao seu palácio e aì o reteve.

A sós com ele, recebeu lições. Aprendeu as matemáticas. Guardou para si próprio o poder destas e viveu até muito velho. Só houve matemáticos japoneses noséculo XIX. Mas a anedota não fica por aqui: tem a sua vertente européia. Com efeito, a história pretende que o marinheiro inglês Will Adams, era um autodidata: um carpinteiro que, por ter trabalhado num estaleiro naval, tinha aprendido geometria. Será necessário ver nesta narrativa a expressão de um dos grandes mitos da cultura européia? Ao saber monopolizado e secreto da tirania oriental, a Europa oporia a comunicação universal do conhecimento, o intercâmbio indeterminado e livre dos discursos.

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