25 de março de 2011

Avivamento mexe nas entranhas da realidade

Por Caio Fábio

Profetismo é a ação de denúncia e enfrentamento da realidade. E para isso temos sobejos exemplos. Temos o exemplo dos profetas de Israel, que enfrentaram a injustiça, pregaram contra a opressão, puseram o dedo em riste contra a idolatria e não aceitaram qualquer perspectiva que excluísse o monoteísmo radical de sobre a visão dos homens e da obediência que todos devem ao único Deus.

Temos o exemplo de Jesus na sua desabsolutização do poder romano (Mateus 22.15-22), na sua não-aceitação do decreto de morte feito por Herodes (Lucas 13.31-32), no seu enfrentamento da petrificação religiosa conforme o modelo do Sinédrio (Mateus 23.1-36), no seu "virar a mesa" no templo ante o comércio da fé (Marcos 11.15-18). Temos o exemplo de Tiagoque dá aquele brado, aquele gemido arrancado das entranhas da lama, lamentando a exploração do trabalhador (Tiago 5.1-6).

Temos o exemplo de Calvino, dizendo que o sistema econômico distorcido de Genebra era ignominioso; lutando para acabar com a especulação financeira em Genebra, até que conseguiu, pelo menos em seus dias. Hoje é o maior paraíso fiscal do mundo. Temos o exemplo de Wesley que pregou contra a escravidão que era vista por ele como a pior manifestação do diabo nos seus dias. Temos o exemplo de Finney, que pregava uma mensagem avivalista, mas que em seu conteúdo protestava contra a escravidão. E foi por isso que o avivamento aconteceu. Avivamento sem cura da base, é simplesmente coreografia de alegria de culto. Só isso. É carpideirismo do templo. É aprender só a chorar. É cenografia.

Avivamento que não mexe nas entranhas da realidade não é avivamento. Temos o exemplo de Samuel Rutherford que relativizou o poder do Rei, dizendo que REX não era LEX e sim LEX é que era REX, isto é, o Rei não é a lei, a lei é que é o Rei. Rutherford era um santo homem, de joelhos calejados e oração perseverante, mas que não era um alienado. O que eu acho lindo nesses homens é como eles conseguiram integrar a piedade deles com a totalidade da visão da vida. Pecado para eles, não eram apenas clichês, marcas, coisas, comportamentos, variações, líquidos, comidas, formas. Não, a sua noção de pecado era muito mais profunda e ampla do que essa nossa epidérmica perspectiva do pecado. Temos o exemplo de John Knox que se insurgiu contra a tirania do rei. Vocês já ouviram falar desses homens, mas a questão é que os biógrafos só se preocupam em contar o quanto eles jenjuavam por ano, mas não dizem porque é que eles estavam jejuando e quais eram os temas das suas orações e das suas pregações.

Referência:

FÁBIO, Caio. Mais que um sonho. pág. 56. Niterói-RJ: Abec, 1993.

Nenhum comentário:

Postar um comentário