24 de dezembro de 2010

Um Presídio. Uma descrição. Um ancião crente.

Por Dostoiévski

Era um homem mirrado, todo grisalho, de cerca de sessenta anos. A primeira vez que o fitei tive forte impressão, já que ele era muito diferente dos demais. Havia tamanha placidez em seu olhar, uma tal serenidade, que eu sentia certo lenitivo em observá-lo; principalmente em reparar naqueles seus olhos dum azul claro, olhos leais, de pálpebras já franzidas. Conversava com ele repetidamente. Raras vezes encontrei na minha vida criatura que transmitisse tanta mansidão e simpatia.

Fora mandado para o presídio por causa dum crime de suma gravidade. É que, entre os fanáticos do Starodubov, irrompera um movimento de retorno à igreja oficial. As autoridades faziam tudo para os atrair e conseguiam muitas conversões, mesmo entre os principais sectários antigos. Junto com outro grupo, os fanáticos renitentes, chefiados pelo velho, resolveram se levantar em prol da “Fé”, sendo que eles, como “Crentes”, trataram de fazer represálias. Incendiaram uma igreja do Estado, recém-construída na região.

Como um dos instigadores da luta religiosa e do sacrilégio foi o velho condenado a trabalhos e remetido cá para Sibéria. Era um pequeno-burguês próspero; deixara em casa mulher e filhos. Veio, porém, de ânimo sobranceiro para o exílio, convencido de estar sofrendo em prol da “Fé”. Bastava a gente ficar um momento perto dele para logo vir esta reflexão: “Como pudera aquele homem se amotinar?” Conversei com ele muitas vezes sobre a “primitiva Fé”. Não cedia um ponto nas suas convicções, mas na sua réplica não punha um vestígio sequer de rancor ou de aversão.

No entanto lançara fogo a um templo e não negava isso. Só se podia deduzir que considerava intimamente aquele ato como uma “glória”, portanto lhe sendo indiferente o sofrimento a que isso o levara. Para ter certeza o sondei, fiz-lhe perguntas em circunlóquio; nunca externou prosápia ou orgulho por sua ação. Havia entre nós, no presídio, outros “Velhos Crentes”, a maior parte siberianos. Tratava-se de gente relativamente culta, de aldeões bastante esclarecidos à sua maneira, opinando por meio de argumentos hábeis: gente, porém, intolerante, reacionária, obstinada e rancorosa, muito diferente daquele velho; talvez mais versado nos textos bíblicos, não querendo, porém, saber de debates e controvérsias.

Ele tinha uma índole muito espontânea, prazenteira; ria sempre, não com aquela gargalhada cínica e borçal do presidiário, mas dum modo compreensivo, simpático, onde sobrenadava muita gordura, condizendo bem com sua cabeça branca. Talvez eu me engane, mas acho o seguinte: pela risada dum homem podemos classificá-lo; se nos for dado simpatizar com um homem desconhecido por causa da sua risada podemos tranqüilamente garantir que se trata dum homem bom.

Esse velho merecia e obtinha de todo o presídio uma consideração geral, sem que por isso se jactasse de nada. Os presos chamavam-no de avô e não o atiçavam. Disso se podia deduzir a espécie de prestígio que desfrutara entre seus correligionários. Ainda assim, toda essa resignação, sua prestimosidade, mesmo nos trabalhos pesados, encobria a nostalgia que ele procurava esconder de todos.

Eu dormia com ele no mesmo alojamento. Certa madrugada, aí por volta das três horas, acordei com o ruído de soluços. O velho estava diante do aquecedor e lia orações em seu livro escrito à mão. Chorava, e ouvi quando a todo instante suplicava: “Senhor, não me abandones! Senhor, fortalece-me! Nunca mais, nunca mais verei os meus pequeruchos!” Não posso exprimir a mágoa que aquilo me causou.

A esse velho foi que os detentos passaram a confiar a guarda dos seus dinheiros. Embora os presidiários fossem todos capazes de furtar, tinham absoluta confiança no velho e sabiam que o dinheiro estava garantido. Ele escondia o dinheiro em um lugar secreto; mas nunca ninguém chegou a descobrir onde...

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Recordações da casa dos mortos. Págs. 50-51. 1862.

2 comentários:

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    Deus o abenço ricamente.
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