17 de dezembro de 2010

Amor por Anexins

Por Arthur de Azevedo

- Cena III – Isaías e Inês

Inês (Vem pronta para sair, ao ver Isaías assusta-se e quer fugir.) – Ai!
Isaías (Embargando-lhe a passagem.) – Ninguém deve correr sem ver de quê.
Inês – Que quer o senhor aqui?
Isaías – Vim em pessoa saber da resposta de minha carta: quem quer vai e quem não quer manda; quem nunca arriscou nunca perdeu nem ganhou; cautela e caldo de galinha...
Inês (Interrompendo-o .) – Não tenho resposta alguma que dar! Saia, senhor!
Isaías – Não há carta sem resposta...
Inês (Correndo à talha e trazendo um púcaro cheio d’água) – Saia, quando não...
Isaías (Impassível.) – Se me molhar, mais tempo passarei a seu lado; não hei de sair molhado à rua. Eh! Eh! Foi buscar lã e saiu tosquiada...
Inês – Eu grito!
Isaías – Não faça tal! Não seja tola, que quem o é para sim pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue! Não exponha a sua boa reputação! Veja que sou um rapaz; a um rapaz nada fica mal...
Inês – O senhor, um rapaz?! O senhor é um velho muito idiota e muito impertinente!
Isaías – O diabo não é tão feio como se pinta...
Inês – É feio, é!...
Isaías – Quem o feio ama bonito lhe parece.
Inês – Amá-lo eu?! Nunca...
Isaías – Ninguém diga: desta água não beberei...
Inês – É abominável! Irra!
Isaías – Água mole em pedra dura, tanto dá...
Inês – Repugnante!
Isaías – Quem espera sempre alcança.
Inês – Desengane-se!
Isaías – O futuro a Deus pertence!
Inês – Há alguém que me estima deveras...
Isaías – Esse alguém (Naturalmente.) sou eu.
Inês – Isso era o que faltava! (Suspirando.) Esse alguém...
Isaías – Quem conta um conto, acrescenta um ponto...
Inês – Esse alguém é um moço tão bonito... de tão boas qualidades...
Isaías – Quem elogia a noiva...
Inês – O senhor forma com ele um verdadeiro contraste.
Isaías – Quem desdenha quer comprar...
Inês – Comprar! Um homem tão feio!...
Isaías – Feio no corpo, bonito na alma.
Inês (Sentando-se.) – Deus me livre de semelhante marido!
Isaías – Presunção e água benta cada qual toma a que quer... (Senta-se também.)
Inês (Erguendo-se.) – Ah, o senhor senta-se? Dispõe-se a ficar! Meu Deus, isto foi um mal que me entrou pela porta!
Isaías (Sempre impassível.) – Há males que vêm para bem.
Inês – Temo-la travada.
Isaías – Venha sentar-se a meu lado. (Vendo que Inês senta-se longe dele.) Se não quiser, vou eu... (Dispõe-se a aproximar a cadeira.)
Inês – Pois sim! Não se incomode! (Faz-lhe a vontade.) Não há remédio!
Isaías (Chegando mais a cadeira.) – O que não tem remédio remediado está.
Inês (Afastando a sua. ) – O que mais deseja?
Isaías – Diga-me cá: o seu noivo? ... (Faz-lhe uma cara.)
Inês – Não entendo.
Isaías – Para bom entendedor meia palavra basta...
Inês – Mas o senhor nem meia palavra disse!
Isaías – Pergunto se... fala francês...
Inês – Como?
Isaías – Ora bolas! Quem é surdo não conversa!
Inês – Mas a que vem essa pergunta?
Isaías (Naturalmente.) – Quem pergunta quer saber.
Inês – Ora! Isaías (Sentencioso.) – Dois sacos vazios não se podem Ter de pé.
Inês – Essa teoria parece-se muito com o senhor.
Isaías – Por quê?
Inês – Porque já caducou também.
Isaías (Formalizado.) – Então eu já caduquei, menina? Isso é mentira. Inês – É verdade.
Isaías – Não é.
Inês – É.
Isaías – Pois se é, nem todas as verdades se dizem. (Ergue-se e passeia.)
Inês – Ah! O senhor zanga-se? É porque quer; não me viesse dizer tolices! (Ergue-se.)
Isaías (Interrompendo o seu passeio, solenemente. ) – Na casa em que não há pão, todos ralham, ninguém tem razão.
Inês – Ora! Somos ainda muito moços!
Isaías – Quem? Nós?
Inês (De mau humor.) – Não falo do senhor: falo dele...
Isaías – Ah! Fala dele...
Inês – Havemos de trabalhar um para o outro...
Isaías – É bom, é: Deus ajuda a quem trabalha.

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