7 de junho de 2010

Entrevista com Marina Silva

Em entrevista, Marina Silva diz que deseja manter atual política econômica Do Cruzeiro do Sul/APJ

Marina Silva não só prega a sustentabilidade como tenta, ela mesma, ser a expressão da política sustentável - que constrói sem atirar nos adversários, que reconhece de público o mérito de políticas públicas corretas, independente da coloração do partido ou do concorrente. Por isso, ao ser questionada se manterá o tripé da atual política econômica (metas de inflação, superávit primário e câmbio flexível) não deixa dúvidas. "Nós vamos integrar as conquistas dos últimos 16 anos." Ou seja, com única frase reconhece os méritos da gestão do PSDB (Fernando Henrique Cardoso) e do PT (Luiz Inácio Lula da Silva) à testa da Presidência da República. E quanto ao perfil para o próximo presidente do País, é categórica: "A gente não precisa de um gerente para o Brasil. Precisa de uma visão estratégica." De passagem por Sorocaba, na quinta-feira, a figura brasileira mais respeitada no Exterior quando se trata de questões ambientais (é ex-ministra do Meio Ambiente de Lula), concedeu entrevista ao Cruzeiro do Sul - integrado à Rede APJ de Jornais, que aglutina os 14 principais periódicos do Estado de São Paulo. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com a pré-candidata do PV à Presidência da República.

Senadora, a sra. imagina constituir um PAC com características ambientais no País, que preconize avanço e economia sustentáveis?
Eu digo que ele (PAC) não é um programa, ele é uma junção de grandes obras, voltadas para infraestrutura, a maior parte delas legítima, importante para o Brasil. Mas é uma colagem de obras, com o gerenciamento dessas obras. O primeiro passo é transformá-lo em um programa pensando nos próximos quatro, cinco, seis, dez, 20, 30 anos, de acordo com aquilo que são as perspectivas de desenvolvimento e crescimento do País. E obviamente que pensando com critério de sustentabilidade.

A última pesquisa Sensus apontou empate técnico entre Serra (32,7%) e Dilma (32,4%). Ciro Gomes teria 10,1% e a senhora 8,1%. Como a sra. avalia esse quarto lugar?
Vejo ainda como processo inicial. Nós estamos apenas no início dessa jornada e obviamente para nós do PV em cinco meses já estarmos com 8,1% é muito relevante. Eu digo que isso é uma boa plataforma de lançamento, porque as outras candidaturas já estavam postas desde sempre, e a nossa está a cinco meses. Se considerarmos que tivemos Natal, fim de ano e Carnaval, dá no máximo uns quatro meses. Então isso é muito relevante. O eleitor, o cidadão terá ainda um bom tempo para conhecer as propostas, avaliar... interagir com os candidatos. Se eu fosse me acovardar diante dos números eu nunca teria feito nada na vida. Porque a primeira vez que eu saí para o Senado eu tinha 3% e meu concorrente 65%. Quando eu terminei estava com 65% e ele ficou em segundo lugar. Então, você não pode entregar o jogo antes de jogar.

Há quem considere que a eleição deste ano será plebiscitária por conta da comparação entre os governos FHC e Lula. Qual será, na sua avaliação, de fato, a pauta, a agenda deste processo?
A primeira tentativa era essa, que fosse apenas uma eleição plebiscitária e o povo deveria fazer um plebiscito entre o currículo da Dilma e do Serra. Primeiro, na eleição entre Lula e FHC, o que levavam em conta foi o passado político dos dois; agora com Serra e Dilma é currículo. Somos mais que currículos. Discutindo passado, currículo, não vamos a lugar algum. Precisa-se é de visão estratégica. E eu já disse que o movimento do PV tirou essa ideia do plebiscito e estabeleceu a ideia de um processo político. O plebiscito é desrespeitoso com a sociedade; o processo político dá a ela o direito maior de escolha. Um outro movimento que estava na conjuntura é de que seria um embate e eu espero que seja um debate; do que é melhor para o Brasil; do que é melhor para o nosso futuro. E uma outra questão tem a ver com o próprio conteúdo dessa disputa, que eu espero que seja em torno de propostas. Foi feito já um ensaio de ficar reeditando aquela coisa do medo. Toda hora que tem uma eleição, alguns inventam coisas para assustar a sociedade. Esse País não precisa votar por medo; tem que votar por esperança.

O candidato José Serra diz que Dilma não está preparada para governar; já Dilma diz que Serra é o pior que poderia acontecer ao País. A senhora não acha que os dois têm razão?
Olha, eu prefiro achar que para governar o Brasil é preciso muito mais que uma pessoa individualmente. Você tem que saber qual é o rumo que o País tem que tomar; quais pessoas estão ao lado do candidato; tem que ter visão estratégica; e quando isso se expressar, tanto pelas ideias quanto pelo exemplo de vida, pelo compromisso, aí você tem o preparo para ser o presidente da República. A gente não precisa de um gerente para o Brasil. A gente precisa de visão estratégica para o Brasil. Só foi possível o Plano Real porque o presidente Fernando Henrique Cardoso não era um gerentão. Ele era um estrategista, um homem de visão. As políticas sociais do presidente Lula, com a eficiência que tem, só foram possíveis porque ele não foi um gerente. Aliás, ele era acusado de não ser um gerente. Ele teve visão estratégica, que neste País não se poderia permitir que as pessoas não tivessem se quer um prato de comida para comer com sua família.

A sra. diz que sua campanha deverá focar o eleitorado jovem. Que mensagem pretende passar às novas gerações?
Nós vamos focar em todos os públicos, mas eu disse que há uma sensibilidade nos jovens. Porque eles não se envolvem em projetos de poder pelo poder. O jovem se envolve com a visão de políticas públicas para o País. Quando você vê que há uma disputa de poder pelo poder a juventude fica um pouco equidistante. Quando eles percebem que tem cheiro de mudança, de algo que sinaliza para o futuro, ele se envolve pois sabe que são a mola propulsora deste País.

A sra. declarou que ter deixado o PT foi um processo doloroso. Ainda guarda um pouco de mágoa, ainda está atrelada ao ‘petismo''?
Graças a Deus nunca tive mágoa. O que eu tenho é gratidão. Por ter sido ministra do presidente Lula durante cinco anos e meio; pelo aprendizado que tive dentro do partido durante 30 anos; lá tenho meus grandes amigos; meus grandes companheiros. E os erros que foram praticados por alguns, e que estão sendo investigados e devem ser punidos, é injusto imputá-los a todos. A maioria dos petistas são pessoas como eu, que têm sonhos, esperança e são pessoas honestas. Eu saí pelas mesmas razões que fiquei durante 30 anos no PT; eu fiquei acreditando que era possível fazer políticas sociais. E fizemos; fiquei acreditando que era possível fazer políticas ambientais voltadas para o desenvolvimento sustentável. Na primeira parte eu a
cho que o presidente Lula acertou; na segunda parte, infelizmente ele não compreendeu.

Quando foi ministra, a sra. acumulou um desgaste com a Dilma Rousseff. As desavenças foram superadas?
É uma relação de respeito. Nós trabalhamos juntas durante cinco anos e meio e claro que a mídia sempre mostrava os momentos de divergências entre a gente. Mas nós tivemos muitos momentos de convergência. Aumento de impostos para indústrias poluentes.

Como vai funcionar? Quais as alíquotas? Algum paralelo em outro país? Nesse sentido, a senhora não vê a necessidade de uma reforma tributária no Brasil?
Nós estamos ainda discutindo propostas de governo. Nós estamos pensando em instrumentos econômicos que favoreçam o incentivo às políticas corretas com sustentabilidade e hoje se discute no mundo inteiro como onerar a produção insustentável. Esse é um de bate que passa pela questão da precificação do carbono, que é o princípio do poluidor pagador.

A senhora manterá o tripé da atual política econômica: metas de inflação, superávit primário e o câmbio flexível?
Nós vamos integrar as conquistas dos últimos 16 anos. No que concerne o Plano Real, a macroeconomia tem trabalhado com esse tripé: controle de inflação, superávit primário e o câmbio flutuante. Sem precisar institucionalizar a estrutura do Banco Central; acho que nós ja temos um BC que é independente, que esse tripé deve ser mantido. Agora, precisamos olhar atentamente para os juros, porque nós precisamos ter mais recursos para os investimentos no setor produtivo.

Qual a avaliação que a sra. faz de nossa legislação ambiental? Precisa de mudanças?
A legislação brasileira é considerada por especialistas de dentro e fora do Brasil como uma das melhores do mundo. O problema da legislação ambiental brasileira é a baixa implementação, porque infelizmente no Brasil nós temos uma cultura que ao contrário de passar no teste se quer mudar o teste. A legislação diz que é para fazer assim: recuperar a reserva legal, ter cuidado com as nascentes, os mananciais...não contaminar o solo e aí em vez de a gente passar no teste, criando instrumentos econômicos, a tecnologia o conhecimento os incentivos, a gente muda a legislação. Só que a natureza não muda; ou seja, mudou o teste mas não passou o teste. Qual a agenda agora: é parar de errar; corrigir o erro e prevenir contra o erro.

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