5 de junho de 2010

O Relógio


Por Charles Baudelaire

O Relógio. Relógio, deus sinistro, alarmante, impassível,
Dedo ameaçador a dizer: “Lembra bem!”
As dores vivas para o teu coração vêm
E logo o acertarão com mira infalível;

“Como ninfa subindo ao fundo do cenário,
Foge para o horizonte o Prazer vaporoso;
Cada instante devora tua parte de gozo
Que cabe a cada um no seu itinerário.

“Três mil seiscentas vezes por hora, o Segundo
Sussura: Lembra bem! – Indo depressa embora,
Voz de inseto. Agora fala: sou Outrora
E suguei tua vida com meu bico imundo!

“Remember! Souviens-toi! Lembra bem, sumidouro!
(Minha garganta de metal é poliglota.)
Os minutos são a ganga, mortal idiota,
Que não deves largar sem extrair ouro!

“O Tempo, lembra bem, joga com teimosia,
Ganha sem trapacear, toda vez! Amém.
O dia cai; a noite aumenta; lembra bem!
O abismo tem sede, a ampulheta esvazia.

“Logo virá a hora em que o Acaso, e mais
A Virtude, esta virgem casada contigo,
O próprio Remorso (ah! O último abrigo!)
Em que tudo dirá: Morre! Tarde demais!

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